“Mea Culpa”

Arte: Arthur Braginsky

“Mea culpa”

Por Luiz Leite

Refletindo sobre uma leitura de certa passagem bíblica dia desses, fui visitado por uma enorme crise de consciência quando parei para pensar na condição da mulher e sua trajetória através dos tempos. Séculos de abuso, opressão, agressão, estupro, exploração, e toda uma gama extensa de substantivos odiáveis me fazem sentir mal pelo simples fato de ser homem. A crise me atingiu certeira como um dardo das hordes mongóis de Gengis Khan.

Talvez voce pergunte: “Mas porque um dardo mongol? não poderia ser Assírio, Macedônio, ou de qualquer outra procedência bárbara?” Não. Teria que ser mesmo Mongol. Os Mongóis, apesar da selvageria que ainda hoje causa calafrios, como em casos como o cerco de Pequim quando Gengis Khan, por não ter o que dar de comer aos seus soldados, ordenou que um em cada dez homens fosse sacrificado para alimentar os demais, pelo menos tinham certo respeito pela mulher.

Os costumes civis daqueles selvagens incluiam pena de morte a homens que deflorassem uma moça antes de se casar com ela. No caso de adultério, não apenas a mulher era penalizada, o homem também caia em desgraça, pois a morte era certa. Hoje, ainda que pós-modernos, somos altamente preconceituosos em contraste com aqueles terríveis bárbaros. O homem que adultera é visto como garanhão, e a mulher, por sua vez é vista como sirigaita, sem-vergonha… O peso da acusação sobre uma mulher que cai nesse pecado, é no mínimo tres vezes maior do que aquele que incide sobre o homem. A mancha do adultério cometido pelo homem é removida facilmente, a nódoa do mesmo ato cometido pela mulher perdura indefinidamente.

Aviltada desde sempre, a mulher vem sofrendo maus tratos desde há muito. O estupro das mulheres dos inimigos vencidos está presente nos registros de todos os conflitos. Desde tempos imemoriais essa prática horrenda está presente como jargão indesejado no roteiro dos historiadores. Na ocupação da Alemanha pelas forças soviéticas, essa prática – agora se sabe – atingiu dimensões de pura selvageria. “Nossos soldados violaram todas as alemãs que acharam em seu caminho, dos 8 aos 80 anos”, relatou a jornalista russa aposentada Natalya Gesse, que acompanhou a ofensiva como correspondente de guerra. “Eram um exército de estupradores.”

A tomada de Berlim pelos Russos em 1945 nos apresenta um quadro que parece ter saído da imaginação mais doentia da ficção do terror. O livro do Ingles Antony Beevor retrata esse quadro. De acordo com as estimativas de dois hospitais da cidade, citadas por Beevor, entre 95 mil e 130 mil mulheres foram estupradas pelos russos em Berlim – muitas delas várias vezes seguidas, por grupos que chegavam a mais de dez soldados. Cerca de 10 mil dessas morreram em consequência da brutalidade. As mulheres, em todas as guerras, sempre foram as vítimas mais humilhadas após a tomada de qualquer cidade. Os homens eram simplesmente executados. As mulheres, entretanto, tinha uma morte mais agonizante, sempre.

Quero fazer um “mea culpa” antes que chegue o dia internacional da mulher e tenhamos que aturar todas aquelas declarações pré-fabricadas, rosas compradas às pressas e poeminhas rotos recheados de clichés… Ainda que desfrute da paz pela consciência cristalina de jamais haver cometido um gesto sequer de agressão física ou psicológica a uma mulher (afinal nasci no dia 8 de março!), ainda assim carrego profundo e inominável desconforto quando considero todos esses fatos. Perdoem-nos meninas!

Que os homens que chegarem a ler esse artigo sintam-se de igual forma incomodados e escolham a sua maneira especial de apresentar o seu “mea culpa” às mulheres que fazem parte de sua vida, não apenas por meio uma declaração isolada, como aquela que se faz no tal “Dia internacional da mulher”, mas por um conjunto de atitudes transformadas (sem preconceito) em relação à mesma!

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19 comentários sobre ““Mea Culpa”

  1. ei pr. luiz leite… meu nome é flávia (sou esposa do leonardo (da comunidade aliança cristã – pr. vagner)… muito bom o texto.. gostaria de complementar que a mulher é a figura da igreja… e qdo a mulher é oprimida a igreja é oprimida! temos o reflexo natural simplesmente do que acontece no contexto espiritual… uma imagem de opressão da mulher e da noiva de Cristo… mas chegará o dia em que toda lágrima será enxugada… e haverá festas… e danças, uuhhuu

    com a força do leão,
    flávia (me senti muito honrada com o texto, como mulher…

  2. etiel disse:

    Ola Flavia. Obrigado pelo belíssimo comentário!
    Pertinente mesmo…Com a força do Leão!

  3. DORA disse:

    Graça e Paz

    Pr. Luiz

    Se todos os Homens tivessem,acesso á esse artigo, e tivessem a sensibilidade e
    profundidade do assunto, todas nòs mulheres seriammos abençoadas. Amém

    Louvo a Deus pela tua vida, mais uma vez, te amo em Cristo Jesus.

  4. etiel disse:

    Amem Dora. É verdade! Peça aos seus amigos homens que passe aqui e dêem uma olhada. Graça e paz.

  5. Anirsis F. Brito disse:

    Pr Luiz,parabéns pelo texto,muito louvável de sua parte.
    Talvez tivesse sido imposto aos homens,através da cultura que eles não poderiam ser sensíveis,homem tem que ser forte,homem que é homem não chora,entre outras.Daí a sensibilidade foi condenada,ficou enrustida.É necessário ao homem que ele resgate essa sensibilidade para que ele viva melhor e faça as pessoas ao seu redor viverem melhor.Eles não tem usado de sensibilidade no trato com as mulheres.
    Abraços.
    Anirsis.

  6. Crystiano disse:

    Bom pastor, concordo plenamente com seu texto, achei muito real e escrito com tamanha angustia que quase nos sentimos na pela das mesmas…Mas, como nao podemos deixar que a mea culpa nos constranja, o ideal seria cada um escolher uma unica mulher e faze-la se sentir muito melhor, do contrario, as barbaries recaidas sobre elas, seriam apenas floreadas com boas palavras. Infelizmente muitos vem as mulheres como um objeto de desejo. sabemos que ainda hoje, existe acontecimentos como esses com nossas mulheres, porem, sofrimento maior e o da traicao, mentira e indiferenca com que muitos homens tratam muitas mulheres, tratando-as apenas como mulheres, e nao como vaso singelo de amor e ternura. Mulheres, peco perdao em nome dos homens, em especial a minha esposa. Tenho vivido a cada dia tentando ama-la como Cristo amou a igreja, ou seja, protegendo e dando a vida por ela.

  7. Douglas Normandia disse:

    Boa noite Pr. Luiz
    Sou da IVC Pr. Donizete, do Sol Nascente, publiquei os dois artigos do Sr. no primeiro momento em que li a primeira estrofe do texto, e obviamente não me arrependi. E não é nem necessário comentários sobre sua pessoa e digníssimo trabalho.
    Não tinha o menor conhecimentos deste fatos históricos, e me senti extremante envergonhado, mais também imaginei que poderia ter vivido nesta época, e mesmo não sendo, ainda assim me sinto envergonhado, pois nos dias de hoje somos testemunhas dos mesmos atos e nos colocamos com passividade diante disso.
    Escrevi algo em meu facebook em homenagem ao dia em questão:
    PARABÉNS A TODAS AS MULHERES, A PROPÓSITO TODO DIA É O DIA DA MULHER, TODO DIA VOCÊS DEVEM SER LEMBRADAS, PAPARICADAS, HONRADAS E BEM TRATADAS COMO FLORES NO JARDIM ASSIM DEVERIAM SER TODAS MULHERES PARA MIM.
    MOSTRAM INDEPENDÊNCIA, VIGOR E DESTREZA, A QUEM NEGUE, MAIS DAMOS SEMPRE O BRAÇO A TORCER QUANDO O QUESITO É SIMPLICIDADE E HUMANIDADE
    E recebi alguns comentários e replica:
    Márcia Lopes bom seria se todos os homens tivesse dessa sensibilidade que vc tem amore, vc é muito fofo, bjao
    Douglas Normandia Bom todos todos seria dificil…mais um boa parte, e até não seria dificil, é uma filosofia, um modo de pensar, que tem seus valores e princípios, quem os adota deve saber o porque de pensar assim
    Val C V Moraes vlw Doug,realmente são poucos os que reconhecem e menos ainda os que ultrapassam as palavras,tendo atitudes!!!!Deus o abençoe..
    Douglas Normandia Meninas não falei nada que seja surpresa para vocês…rs somente para aqueles que se acham os machões e dizem serem homens mesmo… bla bla bla. Homem que é homem vive como o tal, e quem é homem mesmo não precisa provar e falar que é, pelos… seus atos se reconhece. assim como se reconhece a arvore pelos seus frutos.
    Boa noite a todos.
    Fernanda Sousa Hahhh, Douglinha, que lindo… só podia vir de vc
    Mais Pr Luiz lento tudo que li do Sr. ainda creio estar longe de achar que fiz ou que escrevi algo importante, ainda necessito dos chamados “conjunto de atitudes transformadas (sem preconceito) em relação à mesma!”
    Todavia mantenho o pensamentos e princípios, publicando abertamente e sem preconceitos o que é digno e verdadeiro.
    Graça e Paz
    Douglas Normandia.

  8. Amado Luiz Leite, só hoje, dia 13 de março vim aqui no email. E seu email foi um presente legal. Valeu. O Senhor Jesus o abençoe muito. Quer dizer, o continue abençoando.

  9. Nilton Valverde disse:

    Os paises devem estar preparados para dar ao povo o melhor resultado de sua terra, porém isso só acontece guando seus governantes são sérios.
    Gosto do exemplo de Israel, onde o serviço militar obrigatório se estende às mulheres, é o único pais do mundo onde a mulher tem verdadeiras chances de se defender.

  10. Nilton Valverde disse:

    A propósito: O exercito israelense outorgou pela 1ª vez em sua história à categoria de General uma mulher, Oma Barbivay 49 anos que assumirá o cargo nas próximas semanas.

  11. Nilton Valverde disse:

    Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o Sol, terrível como um exército com bandeiras?
    O nosso amor as vezes parece grandioso : O amor é sofredor, é benigno, o amor não é invejoso, o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não se regozija com a injustiça, más se regozija com a verdade, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
    Sempre que não praticamos o amor, nos distanciamos de Deus e crucificamos, mais uma vez, a Cristo Jesus.

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