Poeira das estrelas?

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Poeira das estrelas?

Por Luiz Leite

Gosto da teoria do Design Inteligente. Não posso dizer que sou um defensor capaz – faltam-me os prazos para a obtenção dos conhecimentos necessários – mas acredito plenamente na ideia central por trás da teoria do Design, de que, não uma força, mas uma mente soberana, pessoal, inteligente, cria e coordena a exuberância estonteante que se observa por todos os lados.  Sim, sou criacionista convicto. Os defensores do Design Inteligente, negando que o universo e seus atores sejam produto do acaso evolucionário, sustentam que toda a natureza, incluindo a criatura humana, é óbvio, foi “desenhada” de modo deliberado, propositado. Nada que é produto de planejamento inteligente pode ter sido concebido senão para funcionar, e ainda, para dar certo. Só podemos ter sido desenhados e criados a partir desta perspectiva! Toda e qualquer hipótese que fuja desse desfecho é, por definição, incoerente.

Tem grande ênfase no discurso dos defensores do Design a complexidade da estrutura física da criação. Os detalhes intrincados que se encontram abundantemente em todos os seres, desde micro-organismos às estruturas mais complexas, revelam uma engenharia tão sofisticada que não faria sentido sem que houvesse alguém por trás de sua concepção! Deixando por um pouco a diversidade indescritível dos detalhes de seres e sistemas, o assombro aumenta quando nos voltamos para o topo da escada onde se encontra o homem, a mais fantástica de todas as criaturas. Para além do assombro da constituição física, vamos encontrar a não menos admirável constituição psicológica deste ser incrível. O aspecto psicológico/espiritual da criatura magnífica a distancia sobremaneira de tudo o que se conhece. É o diferencial da mente inteligente, esse “detalhe” que separa, como abismo intransponível, o homem das demais criaturas.

Nesse oceano da mente inteligente, entretanto, as certezas são poucas, os questionamentos superabundam e as repostas são raramente conclusivas. O homem vê-se inseguro e limitado nessas águas. Sua ciência dá passos de bebê… Ainda assim é nessa incrível oficina que desenvolve sua criatividade e inventa coisas incríveis. Inquieto, está sempre em movimento, inventando respostas para os problemas que afligem sua alma e seu mundo. Trabalhando para melhorar suas condições, às vezes, entretanto, bota fogo na própria casa e vê alguns de seus experimentos explodirem, Literalmente. Sustenta, todavia, que a intenção era das melhores. Ainda que sua estruturação psíquica, moldada de maneira desastrada pela cultura, mostre-se defeituosa, impondo limitações de todas as ordens em várias áreas, pode-se, mesmo sob os escombros da decadência, verificar beleza e grandeza incomparáveis nesta criatura que tanto assusta quanto fascina.

Não, a criatura magnífica não é apenas poeira das estrelas. Os misóginos a desprezam e querem-na extinta. Eu a amo, e a quero redimida. Assim quis o Filho de Deus ao oferecer-se como sacrifício na cruz do calvário, aquele paradoxo de difícil assimilação para tantos. Segundo o próprio Filho: “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”  (Jo 3.16)

Eles Profanaram o Sagrado

Trecho de ELES PROFANARAM O SAGRADO, lançamento Editora Petrus

As duas grandes guerras e demais conflitos que redesenharam as feições geopolíticas do planeta, as grandes ideologias que dividiram o mundo em blocos, bem como as conquistas da ciência que alteraram para sempre o nosso modo de viver são alguns dos motivos que justificam que se classifique o século XX como único. Neste período cheio de peculiaridades, assistimos perplexos ao advento de novidades que nos deixariam sem as balizas firmes dos valores que orientaram a humanidade por eras.

Mudanças em todos os setores têm conduzido a humanidade a uma versão de sociedade que, em alguns aspectos, faz lembrar o clássico Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. No futuro antevisto por Huxley, valores como família e ética religiosa são resquícios de um passado de ignorância. Os indivíduos são condicionados biológica e psicologicamente, obedecendo a um programa de controle estabelecido pelo governo. O uso de uma droga mágica regulamentada pelo próprio governo oferece, sem efeitos colaterais, uma resposta mágica para todos os males. Com liberdade irrestrita para o sexo e droga à vontade para lidar com a ansiedade e demais transtornos psicológicos, o mundo profetizado por Huxley descarta Deus e toda forma de religião.

Tantas décadas após a obra de ficção ter sido publicada, assusta o fato de que a configuração que nossa sociedade vai tomando assemelha-se, em muito, ao mundo estranho e à época, improvável, que Aldous Huxley apresentou quando publicou seu livro, em 1932.

Comparação Impossível

Trecho de A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO, da editora Petrus

Muitas batalhas foram travadas para que a fé cristã chegasse até aqui. O Cristianismo, entretanto, não sobreviveu aos inúmeros ataques que sofreu graças aos esforços da igreja, mas deve sua continuidade ao próprio Cristo. O magnetismo imenso que emana da pessoa de Jesus, bem como o apelo irresistível que exerce sobre aqueles que Dele se aproximam, são alguns dos fatores que explicam como sua mensagem rompeu os séculos e chegou até a nós.

Testemunhos podem ser colhidos em todas as eras, até mesmo de pessoas que jamais se fizeram seus discípulos, atestando este imenso fascínio. Disse Albert Einstein:

“Quando criança recebi instrução tanto na Bíblia como no Talmud. Eu sou judeu, mas fico encantado com a figura luminosa do Nazareno …. Ninguém pode ler os Evangelhos sem sentir a presença real de Jesus. Sua personalidade pulsa em cada palavra. Nenhum mito poderia ser preenchido com tanta vida.”

Alguém disse que Sócrates ensinou por 40 anos, Platão por 50, Aristóteles por 40, e Jesus por apenas 3. No entanto, a influência dos 3 anos do ministério de Cristo transcende infinitamente o impacto deixado pelos 130 anos de ensino destes homens que figuram entre os maiores filósofos de toda a antiguidade.

Ao contrário dos demais mestres, Jesus não apenas descreve o drama do ser humano como também apresenta-se como a solução! Agostinho de Hipona disse: “Eu tenho lido em Platão e Cícero dizeres que são muito sábios e muito bonitos, mas eu nunca li em nenhum deles algo como: “Vinde a mim todos os que estais cansados ​​e oprimidos (e eu vos aliviarei).”

A superioridade esmagadora da mensagem de Jesus não deixa sequer margem para comparação com qualquer outra proposta. Alguém em algum lugar já disse que
Buda nunca afirmou ser Deus. Moisés nunca disse ser Jeová. Maomé nunca afirmou ser Deus. No entanto, Jesus Cristo afirmou ser o Deus vivo e verdadeiro.

Buda disse simplesmente: “Eu sou um professor em busca da verdade.”

Jesus disse: “Eu sou a Verdade”.

Confúcio disse: “Eu nunca disse ser santo.”

Jesus disse: “Quem me convence de pecado?”

Mohammed disse: “A menos que Deus lançe o manto da misericórdia de mim, eu não tenho esperança.”

Jesus disse: “A menos que você acredite em mim, você vai morrer nos seus pecados.”

A Inteligência do Evangelho não é propriamente uma apologia do Cristianismo, mas uma verificação inteligente dos fatos. O testemunho de historiadores famosos não deixa dúvida acerca da dimensão e importância de Jesus e sua influência sobre a humanidade. H.G. Wells testifica: “Eu sou um historiador, eu não sou um crente. mas devo confessar como hsitoriador que este pobre pregador de Nazaré é irrevogavelmente o centro da história. Jesus Cristo é a figura mais facilmente dominante em toda a história.”

Um Eterno Vir a Ser

Um eterno vir a ser

Por Luiz Leite

As experiências se acumulam com o passar dos anos, empilhadas em prateleiras virtuais nos imensos arquivos arranjados nos minúsculos domínios de células neuronais. Dia após dia, milhares de sinapses se encarregam de criar espaço para o armazenamento de novas informações, memórias, prazeres e dores. Ora eufóricos, velejamos nas águas da fantasia,  ora transtornados, naufragamos nos pântanos do medo… Quanto aprendizado temos tirado dos erros, desacertos, desvarios, percalços e glórias? Avançamos no esforço de decifrar o enigma ou simplesmente prosseguimos, sem dar relevância aos fatos?

Debruçar-se sobre os fatos da vida, com suas alegrias e tristezas, sempre nos levará ao outro. Como seres relacionais, a alegria ou tristeza de nossa experiência cotidiana está intimamente ligada às pessoas que fiam a trama da teia que nos tem. As pessoas nos influenciam e afetam de um modo definitivamente marcante. Por essa razão, creio, Sartre disse que “o inferno são os outros.”

Antes de nos ocuparmos tanto com o outro e, com o dedo em riste, apontarmos suas contradições, deveríamos nos dedicar um pouco mais ao trabalho árduo e solitário do autoexame pois, para todos os efeitos, somos eternos estranhos! “Estranho a mim mesmo, devo reconhecer que não há um conhecimento de mim mesmo claro, exaustivo. Ficaremos para sempre um mistério para nós mesmos.”  É certo que essa afirmação espanta, mas só há de espantar aquele que ainda sonha.

Essa estranheza absoluta que envolve o ser numa bruma de admiração e espanto esgota toda e qualquer pretensão de descrição completa da criatura. Somos um eterno “vir a ser”; em outras palavras, não somos, estamos. Em processo, sempre, procissão sem fim… O  imperativo socrático de conhecer-se a si mesmo torna-se assim tarefa impossível, inglória, pois, como disse Pessoa:

“Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela,

E a vida passa entre viver e ser.”

Inglória é a vida” – disse o poeta –  e inglório conhecê-la. Com a perspicácia que todo poeta deve ter, capturou algo da complexidade do ato de existir. É inglório o esforço de conhecer aquilo  que não se esgota. A vida é assim complexa, como o é seu protagonista.

Quanto mais reflito, tanto mais me encanto com a doutrina do Cristo, o fascinante e único Jesus de Nazaré, quando instrui seus discípulos a que tenham misericórdia, perdoem e prossigam. No momento mais dramático de sua curta existência no tempo, esbanjando coerência entre discurso e prática, fez valer seu próprio ensino rogando ao Pai que perdoasse seus algozes. Não só pediu perdão pela selvageria dos seus agressores, como ainda os justificou com a habilidade imbatível do bom advogado que é, dizendo: “Eles não sabem o que fazem.”

Este foi  o atestado mais grave e definitivo da nossa profunda ignorância. O Pe. Antonio Vieira em seu belo sermão do mandato demonstra que Cristo nos nos amou sabendo, ao passo em que fomos amados ignorando! “Quod ego facio, tu nescis“, disse Jesus a Pedro. Como somos ignorantes! A tragicidade desse fato é que insistimos em posar de sábios!

Esforça-te para conhecer-te, mas não se iluda, é esforço inglório! A melhor maneira de lidar com esta realidade é cultivar para sempre um coração de aprendiz.

A Pedagogia do Deserto

 

Caro leitor, o texto que segue é continuação do primeiro capítulo do livro que está sendo postado em trechos aqui neste site. A viagem  que começa aqui vai nos levar a descobertas riquíssimas.- Boa viagem! Boa leitura!

 

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (b)

                        

A VIDA NO MUNDO

 

“Três paixões simples, mas devastadoramente poderosas, governam minha vida: um ardente desejo de amor, a busca do saber e uma insuportável piedade diante do sofrimento dos homens.                               

(Bertrand Russell – autobiografia)

 

Vida, substantivo abstrato

Se o mundo enquanto matéria é substantivo concreto, a vida por sua vez é substantivo abstrato. Descreve-se o mundo e seu arranjo de modo objetivo. Quer algo mais elegante e preciso do que uma molécula de água? A vida, entretanto, não se submete a uma descrição simples. Ou podemos por acaso explicar o mistério da vida, mesmo que seja na escala microscópica de uma ameba? Revestida de mistérios, a vida confunde nossos sentidos, deixando nossas faculdades intelectivas sem recursos para avançar, sem respostas óbvias.

Onde, exatamente, se esconde o princípio motor que anima os seres vivos? Dissecamos o sapo e compreendemos como ele se move ao estudar sua estrutura; desvendamos sua anatomia e a maravilhosa e complexa rede muscular que o capacita a dar pulos, mas foge-nos completamente à compreensão, o quê ou quem faz o sapo pular! Aristóteles quis saber sobre o princípio motor que coloca o mundo em movimento. Teorizou. Chegou a dar número aos motores que movem a magnífica engrenagem. Esses motores, imaginou, seriam deus, ou deuses. A obsessão de Aristóteles em desvendar o mundo não foi suficiente para facilitar o acesso ao mistério da vida.

Podemos saber do mundo e somos livres para esmiuçá-lo, mas a vida, ainda que se manifeste de forma grandiloquente por todos os lados, nos deixa perplexos. Simplesmente não se comporta segundo a elegância dos números, da lógica, antes, arisca, escapa-nos ao controle, fugidia, misteriosa, sempre. Podemos pegar, apalpar e definir objetivamente o substantivo concreto. Sabemos bem o que é um livro, uma cadeira; podemos descrevê-los com segurança e afirmar categoricamente o que são. Embaraçamo-nos, todavia, diante dos substantivos abstratos. Esta classe de substantivos nos deixa suficientemente inseguros em nosso esforço de explicar algo que não podemos tocar, manipular, quantificar.

 

De tartarugas à lebres

As verdades apreendidas pela inteligência consciente são rasas. A certeza dos números, das formulações da ciência, das argumentações lógicas, dos silogismos, perfazem apenas o beabá do grande mistério. A grande teoria da relatividade de Einstein, ainda hoje assombrosa, nos ajudou a formar as primeiras sílabas em nosso processo de alfabetização. Já conseguimos balbuciar, orgulhosos, os sons mais elementares das palavrinhas dissílabas do compõem o soberbo livro do universo. Arranhamos com essa e outras “grandes” conquistas da ciência, a superfície do grande mistério que concerne ao mundo. É tão assustador quanto estimulante saber que aquilo que logramos conhecer até hoje é tão minúsculo e o que ainda está por descobrir é tão largo e profundo!

Até a revolução industrial a humanidade caminhou a passo de tartaruga; as mudanças aconteciam de forma lenta. Após a referida revolução, um crescimento tecnológico estupendo vem se avolumando de maneira surpreendente. De tartaruga para lebre, sofremos um impulso incrível. Simplesmente não mais conseguimos acompanhar a velocidade com que as coisas estão mudando. Beiramos àquilo que alguns gostam de chamar de crescimento exponencial, mas, mais surpresas nos aguardam, dizem os cientistas, vem aí o famoso salto quântico, que vai nos levar ainda mais além em termos tecnológicos.

O mundo vai sendo sistematicamente esmiuçado, mas o código que dá acesso ao conhecimento dos mistérios da vida permanece, todavia, inviolado. A inteligência racional consegue compreender o mundo em muitos aspectos, reordenar a matéria e manipulá-la, todavia, o que se percebe por meio dessa inteligência é apenas fenômeno, rascunhos pálidos de uma realidade que parece estar além daquilo que nossos sentidos limitados possam captar…

Até o próximo trecho!

Ps.: Se voce leu e deseja continuar a leitura deste livro aqui publicado em pequenos trechos por favor deixe um comentário simples tipo: gostei… será suficiente para o meu experimento.

 

 

Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente – A PEDAGOGIA DO DESERTO –  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.

A Razão Bifurcada

A Razão Bifurcada

Por Luiz Leite

A razão, dádiva que segundo Agostinho de Hipona nos faz superiores, não deveria nos atrapalhar a vida. Fato é, entretanto, que muito conflito nasce por conta dos princípios equivocados utilizados nos processos mentais responsáveis pela formação de argumentos considerados “razoáveis” pelo indivíduo. Como a verdade é a verdade do sujeito, o que significa que cada um tem a sua, a desavença e o conflito são inevitáveis. Os homens se atritam diariamente na disputa para estabelecer por força do argumento ou pela violência das armas, quem está certo.

Esta boa razão supostamente deveria mitigar a tensão nos impasses e trazer harmonia ao caos. Seria bom se fosse assim tão simples. Complicamos tudo quando assumimos a mediação da razão como suficiente para nos assessorar. Erramos trágica e pateticamente ao nos apoiarmos unicamente sobre ela pois comumente é essa mesma razão que freqüentemente acaba emprestando a fagulha que precipitará a combustão

Esmeramo-nos na estruturação dos nossos argumentos para enfrentar nossos problemas e negligenciamos o mais sutil e fundamental elemento: a sabedoria. Entre uma e outra há um abismo imenso. A razão é bastante pragmática, linear, exata. Esse é o seu grande benefício mas também o seu grande problema. Sem o conselho da sabedoria a razão comete loucuras pois segue uma lógica implacável que esmaga impiedosamente a todos os que se lhe opõem.

A lógica adotada pela sabedoria a princípio é estranha à razão. Por essa causa nem sempre se harmonizam.  A sabedoria tem algo de místico e utiliza-se da fé como recurso para se orientar. Fato é que tanto uma como outra dependem de uma teoria da verdade para se sustentar. Como a verdade do homem fragmentou-se em mil cacos e cada um tomou para si um desses fragmentos julgando ter posse da melhor e mais completa porção é evidente que jamais chegarão a um consenso.

Estabelecer o que é a verdade é o ponto de partida para a solução dos problemas. Jesus, quando interrogado por Pilatos disse para aquele que viera ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos perguntou-lhe:  O que é a verdade? Se o tom foi solene, sincero ou jocoso jamais saberemos. Fato é que o questionamento de Pilatos revela uma dúvida milenar. Foi exatamente em razão dessa dúvida atemporal que muitas teorias da verdade foram desenvolvidas. Quando Jesus veio ao mundo basicamente as maiores e mais importantes teorias já haviam sido concebidas.

Para os empíricos a verdade é apreendida através da experiência prática sendo percebida objetivamente por meio dos sentidos. Os racionalistas por sua vez sustentam que a verdade é alcançada por meio da razão, uma espécie de órgão inato onde estão armazenados todos os conhecimentos necessários para explicar o mundo. Os místicos, entretanto, contrariando os primeiros, apontam para outras fontes que estão além da empeiria (experiência) ou racionalidade humana. A verdade, dizem, só pode ser acessada através da revelação, trazida por uma entidade espiritual procedente daquela dimensão onde reside a realidade e explicação última das coisas.

Ainda que empíricos e racionalistas façam concessão uns aos outros nesse ou naquele aspecto acerca do acesso à verdade, ambos torcem o nariz às razões dos místicos, deixando assim a razão bifurcada. Partindo de pressupostos tão diferentes acerca do mesmo objeto é natural que tenha conclusões também distintas. A religião sempre suspeitando da razão e com um forte discurso sobre a sabedoria está sempre a acenar para a criatura humana convidando-a a abraçar a fé e partir para uma aventura para além dos domínios da razão e da experiência sensual. Uma vive a desdenhar da outra.  A fé ri-se da razão e a razão e esta por sua vez não é menos cruel com aquela.

Assim, a crendice, discursando sabedoria preciosa e oculta arrasta o homem para os domínios da mística; a incredulidade dos ímpios, apoiada sobre a razão, esforça-se para tirá-lo de lá, num movimento constante como se numa disputa de “cabo de guerra”, com a diferença de que neste caso não se trata apenas de um recurso lúdico para passar tempo. Esse é jogo é, literalmente, um jogo de guerra.

Se perguntarmos por que não existe a possibilidade de harmonizar esse binômio conflituoso, encontraremos respostas na velha e boa bíblia. É lógico que esse parágrafo vai fazer o incréu protestar. Existe uma lógica divina e outra satânica. A lógica divina assenta-se sobre princípios que não se adequam aos padrões da razão natural. Desferindo golpe letal a toda forma de materialismo, a lógica divina deposita uma ênfase especial sobre o outro. A lógica diabólica por sua vez busca os seus próprios interesses, princípio sobre o qual se fundamenta todas as versões de violência que aprisionam o homem em cadeias de eterno conflito.

Qualquer observador da trama social pode identificar essa dualidade sem muito esforço. A doutrina do ego (egoísmo) baseada sobre aquela velha e inexorável razão linear, e a doutrina do outro (altruísmo), estabelecida sobre os pilares de uma lógica que não produz as vantagens esperadas numa disputa. Ficam  estabelecidas aí de modo perfeitamente claro o lugar exato onde a razão cindiu-se em dois ramos conflitantes. A razão divina obedece a uma lógica diferente daquela que encontramos regendo as relações humanas de modo geral.

Todos seguem um padrão de comportamento que revelam o fundamento ético que dirige suas ações. No fim das contas, o que vale mesmo não é o discurso, a menos que esse seja revestido de carne e sangue na arena prática da vida diária. Para assegurar consonância entre o discurso e a praxis Jesus orientou: Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt 7.12) Eis a sabedoria da lógica divina.