Maquiavel, Militância e Ética

Maquiavel, Militancia e Ética

Por Luiz Leite

“Aquele que quer ser tirano e não mata a Bruto e o que quer estabelecer um Estado livre e não mata os filhos de Bruto, só por breve tempo conservará sua obra.” (Nicolau Maquiavel)

Ao contrário do que se pode pensar, Maquiavel não foi um cara “maquiavélico”, no sentido mais demonizado que o termo assumiu. A adjetivação oriunda de seu nome não deveria se aplicar a ele. O que fez esse formidável pensador político foi identificar as regras desse jogo intrincado e revelá-las àqueles que porventura imaginam ser essa arena lugar para ingênuos.

Ao tratar de política, Maquiavel fez o que ninguém antes havia feito. Abordou a questão de forma realista, como ela é, e não como idealmente deveria ser. Não há considerações delongadas acerca da honra e da ética. Aquele discurso que recorre à religião e moralidade soa por demais hipócrita aos seus ouvidos. De algum modo Maquiavel está dizendo: “Vamos ser francos aqui. Essa arena não é lugar para santos… O uso da devoção é desejável, mas o emprego da força é necessário, seja ela de que modo for.”  A frase pela qual é mais lembrado: “Os fins justificam os meios”, ainda que erroneamente compreendida – segundo os especialistas quis dizer que os fins determinam os meios – expressa bem que o labor político nem sempre se sujeita às regras éticas, como um beato se esmerando para obedecer os preceitos de seu credo. Os fins determinam os meios a serem utilizados para que os mesmos sejam alcançados; As manobras, os segredos e denúncias, os subornos, o tráfico de influência, são algumas das contas desse enorme rosário, geralmente recitado em todas as refregas dessa natureza.

É impossível precisar quando exatamente a humanidade testemunhou suas primeiras escaramuças políticas. Em tempos remotos nalgum lugar nos enclaves férteis do Crescente, nas úmidas florestas tropicais das américas, nas savanas africanas ou nas pradarias intermináveis do coração da Ásia, homens mediram forças e armas para assegurar o controle sobre o seu grupo. Primeiro foi a força bruta. Não apenas os feios e fedorentos Neandertais se utilizaram desse expediente macabro para se impor. O presunçoso Homo Sapiens, desde que teoricamente emergiu das cavernas lúgubres para inventar a civilização, também tem feito o mesmo.

Ainda que continuemos nos matando – os métodos, hoje refinados, garantem suavizar o impacto da barbárie – já não se faz uso da borduna e do tacape. Inventamos a militância política, um jeito manhoso de se passar a perna nos opositores, sem ter que necessariamente atravessar-lhes com uma lança. Uma das acepções do termo “campanha” é guerra; Um político em campanha não é apenas um bom cidadão querendo cuidar dos interesses da Polis, mas um dos reclamantes à coroa. Ao entrar numa batalha para tentar assegurar seu naco na partilha dos despojos, não é raro que esses contendores usem todos os recursos disponíveis.

Política sempre envolveu violência. Os primeiros governadores dos povos foram guerreiros que não hesitavam em cortar as cabeças de seus desafetos. Assim, os meios militares presentes na disputa pelo poder desde há muito revelam o caráter belicista desse mister; Numa guerra muitas vezes a primeira coisa que se anula são as regras da ética, e isto pode ser verificado em todo tipo de campanha, desde uma disputa de grande proporção até, pasme o leitor e admita constrangido, uma eleição de condomínio! (no meu prédio de apenas 6 andares já presenciei isto!)

No que respeita a esse condomínio continental da terra brasilis, vemos nesses dias, como em toda campanha, as denúncias, os dossiês, calúnias, farpas, revelações, golpes baixos, visando destruir o adversário. Eu, como certamente voce também, recebi um a enxurrada de emails retratando uma das candidatas à presidência como a um demônio, vestido de Prada, é claro. Não daria o meu voto à tal candidata de modo algum pois, ainda que tenha apoiado o partido até o último pleito, perdi completamente a confiança em seu discurso (haja lama). Daí, entretanto, a demonizar a candidata da forma como tenho observado, acho “maquiavélico” demais. Seria como partilhar dos mesmos valores que contornam e adornam a mentalidade daqueles que se lançaram na disputa sem se importarem com os meios, desde que atinjam os fins desejados.

Curiosamente, uma segunda candidata (fato inédito pois na nunca na história desse país tivemos duas mulheres na corrida pelo direito de morar no palácio do planalto) garante numa de suas entrevistas que sua postura para com os adversários, como parece ser próprio do seu perfil, será justa. Neste ponto torcerei por ela e contra Maquiavel que generalizou: “Todos os profetas armados venceram, e os desarmados foram destruídos.” Seria um sonho ver o velho Nicolau queimar a língua e assistir aquela moça magricela, de origem humilde e saúde frágil subindo a rampa do palácio!

Emoções Empanadas

Emoções Empanadas

Por Luiz Leite

Tive dois encontros fortuitos com a emoção na semana que passou; em ambos as lágrimas brotaram insistentes, irreprimíveis quase, se a reação automática da tropa de choque que patrulha essas manifestações não fosse eficaz no uso da truculência e repressão. Afinal, não podemos simplesmente derramar lágrimas, sejam de emoção ou dor, em qualquer lugar… Existem códigos de conduta que regulam as lágrimas. Ainda que essa censura absurda seja mais complacente com as mulheres, todos estão sob sua vigilância sisuda.

Numa dessas ocasiões estava em uma livraria folheando um livro de Eduardo Giannetti quando o som de música me chamou a atenção. Levantei os olhos das páginas do livro que naquela mesma noite leria quase que compulsivamente e observei um desses monitores enormes de TV que estamos já acostumados a ver em bares e restaurantes… Pensei comigo: a mania americana se impôs mais uma vez! Como nunca havia visto TVs em livrarias exclamei escandalizado: “Onde já se viu isto?”

A música, apesar do protesto, entretanto, atraiu-me, como sempre fez, bastando para tanto apresentar alguma qualidade estética. Começei a ver o clip e de repente lá estava eu, com o livro na mão e os olhos no video; Fiquei ali por alguns momentos completamente absorto pela melodia. A moça que cantava, linda, dividia o palco com um moço de voz grave e bonita. “Eu não vou parar de te olhar…” dizia a letra. Percebi minhas emoções flutuando ligeiramente ao sabor dos acordes da canção…  Aos poucos meus olhos foram sendo invadidos por aquela versão líquida e morna da emoção.

Com os olhos molhados, como se estivesse fazendo alguma coisa errada, ocorreu-me olhar para os lados para ver se alguém estava observando aquele ato de transgressão… Para meu constrangimento, um vendedor olhava para mim naquele exato momento. Dissimulei, olhei para o lado, procurando ocultar o produto do flagrante e voltei os olhos para o livro do Giannetti. Mais uma vez tive minhas emoções empanadas, afinal, homem que é homem não chora, conforme reza o catecismo burro do machismo.

Nunca na história desse país…

Nunca na história desse país…

Por Luiz Leite

Lula lá” – cantávamos nos dias da inocência – “brilha uma estrela…”  – e sonhávamos com o presidente operário. Que o moço tem estrela, já não se questiona. Sua trajetória fala por si. Alcançou, por força de um carisma notável e uma sagacidade política rara, o lugar mais alto, a posição mais ambicionada. 

O cognome “Sapo barbudo”, a ele dado pelo lendário Leonel Brizola, era profético e nem sequer desconfiamos à época. Não imaginávamos que o Sapo viria a ser transformado em príncipe através dos beijos que lhe demos: nossos votos. O príncipe, que a princípio encantava com sua simplicidade plebéia, começou a inchar, revelando a natureza do verdadeiro sapo-boi que sempre carregou em si. A prepotência foi se tornando sua marca registrada. Foi-se o tempo em que cuidava para reprimir seus arroubos de grandeza.

Hoje começa a amedrontar o discurso desse senhor que goza de um nível de aprovação popular nunca antes visto na estória desse país. Calma, não quis dizer História não, quis dizer mesmo estória, pois parece-me que estamos vivendo um conto, ou caímos num conto? É como se estivéssemos presos na trama de uma crônica sobre a corrupção crônica da desavergonhada alma latina.

É verdade que encontramos corrupção em todos os governos, mas nunca, repito, como ele tanto gosta de falar, na história desse país, se viu algo igual. O Mensalão, de longe o maior escândalo político da república, esquema montado pelo governo para comprar os votos da base aliada para tocar seus projetos, nos deixou ultrajados. Desnudou-se as vísceras do Congresso nos deixando ver a feiúra de sua nudez. Quando todos esperavam (ou pelo menos torciam) que houvesse uma devassa, desratizando o Congresso nacional, a blindagem da malandragem provou-se mais eficaz do que se imaginava. Tivemos apenas três deputados cassados. Dezenas conseguiram, e isto o diabo sabe como, escapar ilesos.

No escândalo dos “sanguessugas” (não poderia haver denominação mais apropriada), mais de 80 senadores e deputados foram investigados, mas ninguem até hoje foi punido; e mais uma vez o desfecho revestiu-se de impunidade, e tudo terminou numa pizza colossal.  Se me desse ao trabalho de mencionar aqui todos os atos da bandidagem com imunidade parlamentar, a prosa seria longa. A corrupção dos chamados governos burgueses que antecederam o PT é arremedada de forma grosseira e o partido que se fez eleger sob o discurso da ética hoje escontra-se desgraçadamente enxovalhado pela mesma lama que tantas vezes denunciou.

Além da corrupção generalizada, corremos também o risco de ter a iniquidade institucionalizada pela lulocracia que aí está; A punição dos dois deputados católicos Luiz Bassuma e Henrique Afonso,  por se posicionarem contra o aborto (fato que levou a CNBB a conclamar cristãos de todas as cores a não votarem em Dilma), revela que o partido além de ferir valores cristãos fundamentais, não tolera aqueles que os cultivam. Estamos diante de um momento político mais crítico do que a maioria imagina.

Um Dos Filhos de Francisco

Um Dos Filhos de Francisco

Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia (Coluna Pastoral) Edição Set/10

Tenho grande respeito por alguns seguidores de Francisco de Assis (1182/1226). Um deles em particular me chama a atenção. Falo de Guilherme de Ockham (1285/1347), conhecido entre os seus pares como o venerável  “Inceptor” (principiante). Nunca lhe concederam a honraria de mestre, mas com título ou sem título estava destinado a fazer barulho. Guilherme era um franciscano “roxo”. Quando paixão e erudição se encontram o resultado é sempre surpreendente. Afinal, por que razão estaria escrevendo sobre ele, passados mais de seiscentos anos desde sua morte?

As diversas ordens religiosas que encontramos abrigadas sob as asas da igreja romana e que em muitos aspectos divergem entre si podem, grosso modo, ser comparadas com as muitas denominações protestantes, pentecostais ou históricas que hoje pretendem representar o legado dos apóstolos. Lá e cá, encontramos liberais, moderados e extremados, todos reivindicando apresentar a versão mais fidedigna da fé cristã. Os Franciscanos não fugiam à regra. A Ordem dos Frades Menores foi fundada exatamente, ainda que de forma velada, com a nobre pretensão de todos os reformadores.

Francisco, segundo reza a tradição, ao ouvir certa voz que dizia “vai e reconstrói a  minha igreja”,  julgou fundamental adotar uma posição absolutamente radical. Enojado com o que via na igreja de seus dias, Francisco repudiou a relação perigosa e espúria do sacerdócio com as riquezas e estabeleceu para a sua ordem uma regra básica que exigia dos seus frades o desapego completo à posses de bens materiais. De algum modo sabia que o único modo de vencer Mamom era através do desprezo.

Ao observarmos a atitude desapegada de Jesus para com as riquezas descobrimos que é Nele que Francisco se inspira diretamente.  O próprio Jesus, segundo a narrativa de Mateus, foi tentado pelo Diabo com uma oferta de grande monta. Jesus desprezou a oferta do Maligno e não titubeou em seu compromisso para com a missão que lhe fora confiada.  Na verdade, muitos hoje cedem à propostas muitíssimo menores do que aquela com que o Tinhoso tentou comprar o nosso Senhor.

Francisco abriu mão de prerrogativas que lhe garantiriam uma vida confortável, como membro de uma família de posses que era e, como Jesus, disse não à proposta sedutora de uma vida de luxo e dissolução. Seus discípulos mais apaixonados vão seguir tal regra à risca. Guilherme de Ockham era um dos chamados radicais, adepto de um movimento espiritualista surgido no século XIV. Faziam uma leitura estreita dos ensinos de Francisco, o que levou a ordem a uma grande controvérsia e posterior divisão.

Colocados em campos opostos, moderados e espirituais tinha por motivo de diferença a discussão acerca das riquezas materiais. Tanto ontem como hoje a relação do cristão com este tema é polêmica. Alguns, como os Franciscanos radicais, sinalizam que tal relação é perigosa e deve ser evitada; outros, como os muitos pregadores contemporâneos, não só a incentivam, como sustentam ser plano de Deus que seus filhos desfrutem das mesmas.

Diante do exposto há quem ache que a teologia da prosperidade é cria do capitalismo, e a expressão exata da mentalidade materialista  americana. Quem pensa assim precisa fazer uma visita à Santa Sé e observar mais demoradamente a vida nababesca que levavam (e ainda hoje levam) os “príncipes” da igreja. Justiça seja feita, aos americanos deve se creditar a democratização dos ideais de uma vida farta. O que na velha igreja só era possível aos círculos mais elevados do clero, na versão americana, em sua obsessão pela democracia, torna-se acessível a todos. É a popularização do privilégio.

Guilherme de Ockham e seus amigos contestavam a ostentação da igreja e enfrentavam os papas com seus mantos e pretensões imperiais. Denunciavam a pompa e circunstância do sucessor de Pedro e clamavam por mudanças;  Reivindicavam o título de legítimos herdeiros e continuadores dos ideiais de Francisco. Amparados por um poderoso testemunho de integridade, desfrutavam de um respeito que poucos na igreja  conheciam.  As pessoas que lhes eram simpatizantes eram movidas mais pela confiança que suas vidas inspiravam do que por qualquer outra razão.

O argumento Franciscano era simples. A ordem que parecia haver sido criada para tirar o sono do Vaticano questionava: “Por que a Igreja haveria de acumular tanto tesouro na terra se o seu fundador advertiu a seus seguidore que não o fizessem?”   Assim, trombeteando um despojamento completo de todo e qualquer apego às coisas próprias do mundo dos homens carnais, Guilherme, juntamente com seus amigos de hábito, condenavam o poder eclesiástico e, para o horror de papas, cardeiais e bispos, pregavam que a igreja de Roma, da forma como estava formatada, era a nova Babilônia e seu líder maior, o Anticristo!

Era um crente indignado com as loucuras da igreja do seu tempo, razão porque acabou sendo excomungado pelo papa João XXII em 1328. Como a igreja estava profundamente mancomunada com o Estado naqueles dias, Guilherme acabou por escrever muitas obras sobre política. Nestas obras vai combater o poder dos papas em sua expressão política. Questiona a fórmula que confere ao papa a plenitude do poder, negando que o mesmo  tenha poder sobre as coisas temporais por direito divino. Entre outras idéias absolutamente revolucionárias para seu tempo, Guilherme e os demais companheiros chamados espiritualistas, profetizavam o surgimento de uma Igreja do Espírito Santo, que deveria ser governada por homens espirituais.

Dia desses encontrei-me com Guilherme em uma de suas obras. Apesar do abismo de eras entre nós, descobri-me mais alinhado com Guilherme do que com muitos dos meus contemporâneos que como eu abraçaram o sacerdócio. Os séculos passaram, a roda girou, a polêmica permanece. O Diabo continua jogando o laço das riquezas no caminho de muitíssimos sacerdotes e, para nossa tristeza, não poucos sucumbem à sedução. Nem é necessário jogar tudo como fez com Jesus ao oferecer ao Nazareno os reinos do mundo; basta apenas propor um pouco de prestígio e muitos, de pronto, sentam-se à mesa das negociações, ávidos para assinarem logo o contrato.