Refutando Bultmann

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Refutando Bultmann
Por Luiz Leite

É muito comum que refutemos a alguém quando não entendemos direito o seu ponto de vista. Dia desses uma pessoa me contestou energicamente por eu ter afirmado que a causa da rejeição da oferta de Caim não foi exatamente porque a referida oferta não foi uma oferta de sangue, e sim por uma questão de ordem mais profunda envolvendo a motivação do ofertante… A falta de conhecimento mais apropriado acerca de um assunto faz com que as pessoas se precipitem apaixonadamente, porém sem fundamento, em debates para os quais não estão preparadas.

Atrever-me a refutar Bultmann é quase que um ato de atrevida ousadia, mas caramba, pensei, Bultmann não é nenhum Paulo e seus escritos não são Escritura Sagrada… Melhor, é possível que alguém que saiba mais responda a esse post e lance luz sobre minha ignorância, se esse for o caso.

Vamos à refutação. Bultmann, em artigo sobre o conceito Carne (Σαρξ) afirma em sua Teologia do Novo Testamento que a expressão “espinho na carne” (σκολοψ τη σαρκι) é figura que se refere a sofrimento físico.

Pois, onde está o problema? O problema está no contexto. Paulo nos informa que foi lhe dado “(…) um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás…” (αγγελος Σατανα) O termo “mensageiro” traduzido do grego αγγελος (de onde procede a nossa palavra anjo), não é aplicado em nenhuma parte do NT senão a homens, anjos e demônios.

A carta onde se encontra o texto é possível ou certamente a carta mais autobiográfica escrita por Paulo. Aí manifesta larga defesa do seu apostolado, apresentando suas credenciais, como não faz em nenhuma outra epístola, como se estivesse correndo o risco de perder sua autoridade junto aos Coríntios, igreja complicada, mas muito amada pelo Apóstolo. É nessa carta que ele faz referência a “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo.” Segundo o contexto esses tais apóstolos, qual joio no trigal, estariam prejudicando a Igreja bem como todo o trabalho por ele desenvolvido ali.

É bastante razoável que o espinho na carne, o mensageiro de Satanás (αγγελος Σατανα) , fosse um destes, que vinham fazendo oposição a seu ministério e espalhando fofocas acerca de suas supostas deficiências para tentar desacreditá-lo junto à comunidade de Corinto. Uma vez que o termo só se aplica a homens, anjos e demônios, provavelmente é a estes que faz referência. Se ele tivesse mencionado apenas o espinho na carne (σκολοψ τη σαρκι), poderíamos inferir daí uma enfermidade de qualquer ordem, ou até mesmo fraqueza sexual como imaginam alguns especuladores mal intencionados, mas a cláusula que segue usando a palavra αγγελος (anjo, mensageiro) é de nos deixar intrigados… o termo, indubitavelmente, adjetivaria melhor a um homem (ou demônio). Será que Bultmann estava errado?

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Deixe que falem…

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Deixe que falem

Por Luiz Leite

O autor desse blog – UM DEDO DE PROSA – tem encontrado nos comentários dos leitores, quase sempre encorajadores, um motivo forte para continuar no ar… São as palavras de afirmação que nos empurram vida afora nos animando a prosseguir. Ainda que nem todos manifestem sua opinião, aqueles que tem tirado um tempinho para deixar um comentário, possivelmente não fazem idéia da importância de uma ou duas linhas de apreço.

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Comentando post “Nietzsche, esse louco”

“É extremamente agradável esse dedo de prosa, parabéns. Poucas páginas promovem tão boa leitura na “NET”. Abraços.”

José Carlos

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Comentando post “Olhando para dentro”

“Muito bom! aliás foi ótimo. Como sempre. É muito bom poder ler textos dessa qualidade, coisas que nos fazem pensar e reagir as intempéries da vida…”

Vander Guerhardt

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Comentando post “Quando a gente ama é claro…”

“Classifico essa postagem como uma pérola…”

Marcelo

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Comentando post “Quem tem medo do pós moderno”

Boa análise. Não sei por que ainda não se percebe geralmente o caráter cíclico da história. É comum que certos padrões se repitam.”

Teo

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Comentando post “O Poder do Foco”

“Fico encantada cada vez que entro no seu blog, seus textos são: atuais, inteligentes, informativos e muito bem escritos. Parabéns.”

Mary Garcia

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Comentando post “Psicanalisando I”

“Realmente você desnuda a alma humana de uma maneira profunda, mas suave. Sem chocar e nem deixar condições para contestações. O que você escreve tem me edificado muito. Continue assim e não se deixe intimidar.”

Reni Ramos

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Comentando post “Deixe que falem…”

“Ler o que vc escreve não é leitura, é na verdade uma viagem entre as linhas, e que doce viagem!

Donizeti

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Comentando post “abcego, absurdo, abmudo”

“é muito bom !!!! me fez pensar …gosto quando isso acontece
rsrs”

Marcelo

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Comentando post “Absurdo, abcego e abmudo”

“haha.. mto bom o post!! achei seu blog por engano e toh gostando do q toh lendo.. hehe sucesso com o blog!”

Jon

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Comentando post “Schopenhauer é um chato”

“Adorei !!! merecia um premio”.

Rafaela Matos

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Comentando post “Sobre mim”

“Eu sempre me inquieto…O que seria de mim sem os poetas? Nunca achei as palavras certas. Ei,olha!tem um ali.UfA!já me sinto um pouca mais calma.”

Telma

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Comentando post “O canto da lavadeira”

“Que linda essa sua história…. Obrigada por compartilhar!!!!Abraço com carinho…”

Climene

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Comentando post “Amsterdam”

“Amei Amsterdam. Leve.”

Ricardo Abreu

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Comentando post “Por fora bela viola”

“Esse escritor tem futuro! Tocou em um tema que eu gosto!
Que possamos ser como as crianças que eu convivo: humildes, simples,alegres e confiantes! Abraçao,”

Alexa

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Comentando post “Narcisismo e disciplina”

“O senhor está -ABSOLUTAMENTE – certo! o homem é uma criança grande”.

Gladson

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Comentando post “Convite à revolução”

“Edito o blog Poesia Evangélica, dedicado a resgatar e divulgar a nossa poesia. Tomei a liberdade de publicar dois poemas teus no blog, bem como o link para sua página.”

Sammy Reachers

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Comentando post “Psicanalizando II”

Seus comentários são simplesmente fantásticos. Sou estudante de psicologia e nunca ouvi comentários tão sábios a respeito da alma humana. Parabéns e obrigada por esclarecer-nos.”

Luciene

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Comentado post “Mea Culpa”

“Se todos os homens tivessem acesso a esse artigo e tivessem a sensibilidade e profundidade do assunto, todas nòs mulheres seriammos abençoadas. Amém”

Dora

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Comentado post

“Aí está novamente! voce está nos descrevendo nos seus textos, nos desnudando a todos! É isso.”

Sarah


Eu e São João de Deus

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Eu e São João de Deus

Por Luiz Leite

Nossas semelhanças começam pelo aniversário. Nascemos no mesmo dia. O santo e eu somos especialmente lembrados no dia oito de março; ele pelos seus fiéis devotos e eu pelos meus devotos amigos. Mas nossas parecenças não terminam por aí. Com oito anos João fugiu de casa, eu com onze. João, entretanto, não mais voltou. Como ninguém conhecia o menino que como cãozinho sem dono aparecera em Oropeza, simplesmente começaram a chamar-lhe de João; Mas, João de quê? João de quem? Afortunadamente, ao invés de batizarem-no de João Ninguém, resolveram chamar-lhe de João de Deus, que muito mais vistoso, pegou, e caiu-lhe muito bem. Os aldeões de Oropeza não imaginavam que estavam diante de um “santo” e que aquele puto (designação portuguesa para menino) abandonado viria mais tarde entrar na hagiografia da Igreja.

O fujão do João não retornou ao lar. Talvez não o fez por não ter um lar para onde voltar.Talvez tenha fugido para não voltar mesmo, movido por razões que seu juízo de oito anos julgou como suficientemente graves. Eu e João fugimos de casa. É fácil fugir de casa, difícil é fugir do lar. Aqueles que têm um lar sempre acabam voltando. Eu, afortunadamente, tinha. A minha fuga não poderia se sustentar. O meu projeto de revolução contra o governo da D. Carmelita estava seriamente comprometido. Dona Carmelita corrigia energicamente, mas ao mesmo tempo amava intensamente suas crias. Havia me aplicado um daqueles corretivos que mais tarde viria salvar o meu caráter e por extensão a minha vida inteira. Aprendi com ela uma lição: Corrija-se o caráter de uma criança e salve-se a vida de um homem. A psicopedagogia moderna com suas teorias experimentais tem estragado toda uma geração por abandonar completamente essa velha escola.

Fugir de D. Carmelita provou-se uma empresa falida no primeiro dia! A noite, como pesado pano de fundo para o meu pequeno drama, trazia consigo algum medo e insegurança; a fome, que aos poucos aumentava, combinada com as imagens mentais dos quitutes e do amor da mãe que eu tinha (e que possivelmente faltou a João) insistia para que eu abortasse o plano. O meu surto de revolta contra a autoridade aos poucos foi sendo dissipado na medida em que o estômago aumentava o tom de sua inconfundível lamúria. Exausto e faminto tomei o rumo de casa ao entardecer, quando o lusco-fusco já ia produzindo sombras como prenúncio das trevas que em pouco tempo envolveriam a tudo com o seu manto. João, possivelmente, não teve uma mãe como a minha, que o prendesse definitivamente em laços de amor. Se teve mãe, talvez não tenha tido como eu, a felicidade de ter um pai como Seu Vicente, chamado pelos filhos de “o Tronco”, onde nós, vasta prole de raminhos, estávamos ligados e seguros. Por essas coisas sinto por meu amigo.

Eu e João temos muito em comum. Afinidades nos fazem aproximar de pessoas. Nossas idiossincrasias, aquele comportamento peculiar de cada indivíduo, quando se identificam, fazem com que nossas almas se fundam no cadinho de misteriosa empatia. Há, entretanto, os casos dos “santos que não se cruzam”, uma malquerença gratuita que domina o coração fazendo-nos desconfiados de pessoas que nem mesmo conhecemos, mas não quero falar disso, quero falar da minha simpatia por João. Eu e João nos ajustamos harmonicamente, como uma primeira e segunda voz afinadas na execução de um hino de louvor a Deus.

João tinha uma natureza aguerrida, talvez alimentada pela dor de perguntas sem resposta. Enquanto em uns a dor produz uma sensação de desmaio, desarmando e subjugando completamente o espírito, em outros surte efeito contrário. Com João o desfecho da dor foi o fio condutor que o levou a tornar-se um guerreiro. Curiosamente não tornou-se um ser amargo apesar da dieta de fel que certamente teve que sorver em sua existência como menino sem lar, sem calor e possivelmente sem teto. João, depois de labutar pelo sustento de diversas maneiras dispôs-se como mercenário e vendeu suas armas aos exércitos de Carlos V. Tomou gosto pela coisa e depois de sair vitorioso na batalha de Pávia, em 1525, empolgou-se, e foi parar também em Viena (1529) onde participou da defesa da mesma contra o turco Solimão.

Ambos fomos rebeldes. Ele, com causa pessoal, eu, sem… As minhas razões eram ideológicas. Eu queria botar fogo no mundo, contaminado que estava pelas idéias do meu tempo. Por felicidade o meu sonho de tornar-me um soldado da fortuna não se cumpriu. Fui cegado pelo clarão no meu caminho pra Nicarágua. Eu e João de back pack perambulamos pelo mundo. Com algum dinheiro João aventurou-se pela Europa e África. Fui um pouco mais longe que João apenas por causa das facilidades do meu tempo. Se João tivesse as mesmas condições, teria, como eu, visitado os pontos dos quatro ventos desse mundo de meu Deus. Também como eu, João tinha uma paixão. Gostava dos livros. De pastor de cabras, camponês, guerreiro, mascate, João acabou estabelecendo-se em Granada, onde abriu uma livraria. Sim, uma livraria, e isto no século XVI!

A cabeça e o coração de João, entretanto, haveria de sofrer um golpe de proporções dramáticas que mudariam para sempre o curso de sua história. Quando as circunstancias apontavam, depois de tantas aventuras e desventuras, para um final pacato e suave, João viu a Luz, aquela Luz que alumia as trevas dos homens mudando-lhes dramaticamente os rumos. Como Saulo, João teria passaria por uma transformação radical. Vendeu tudo o que tinha, distribuiu aos pobres e foi viver de esmolas. Era assim que a teologia do seu tempo ensinava. Bastante diferente, diga-se, de uma teologia bem torta proposta por aí pelos modernos vendilhões dos templos. Extremos, quão perigosos! João era verdadeiro, ainda que equivocado.

Devido aos exageros de sua fé afogueada, porém mal conduzida, João foi recolhido das ruas como louco e enviado direto ao hospício. Incrível que pareça, o “louco” do João saiu do hospício e acabou fundando um hospital! Que reviravolta! A experiência no hospício revelou uma realidade que João desconhecia: A falta de humanidade com que as pessoas eram tratadas nessas instituições. Sem qualquer preparo formal em medicina, João começou a aplicar amor e respeito nas veias de seus pacientes e seu hospital começou a obter resultados em índices de recuperação maiores que os estabelecimentos profissionais!

Como eu, João tinha um interesse especial pela alma dos homens. Acreditava, o que também compartilhamos, que o “buraco é mais embaixo”, que o problema é mais complexo, que a causa é mais profunda do que querem sugerir as aparências com que se revestem o sintoma. Com quatro séculos de antecedência já observava a dor da alma humana de prismas que ficariam famosos por meio de um celebrado psiquiatra austríaco no século XX. Curas d’alma, João e eu cremos firmemente que a saúde do espírito resolve muitos dos flagelos que acometem o corpo. Conosco fazem coro número grande de apaixonados pela humanidade avariada.

Nossas afinidades devem parar por aqui. João morreu em 1550 com apenas 55 anos, exatamente no dia de seu aniversário. Pulemos essa parte.

Moinhos de Vento

Poema Existencialista

Por Luiz Leite

Fiz 45 anos ontem. Caramba! Alguns colegas impiedosos dizem que já vou descendo a ladeira… Fato é que já não sou nem jovem (no sentido cronólogico) nem velho. Estou no meio do caminho. Não estou, entretanto, sentado à beira do caminho… estou ativo, andando NELE!

Estou mudado. Diferente. O corpo e a mente mudaram. Tenho rugas ao redor dos olhos, os cabelos estão grisalhos… a barba, outrora farta e negra como as penas da graúna, hoje resume-se a uma barbicha comportada, tomada de fios de prata ( pra não dizer brancos… é mais bonito dizer: fios de prata) Uma barriguinha que já vai exibindo um relevo saliente tomou o lugar do antigo tanquinho…

Minha mente, por sua vez, vai descrevendo um trajeto quase oposto; ao passo que o corpo vai perdendo a graciosidade da juventude, a mente vai tornando-se mais bonita, mais potente, mais interessante em todos os aspectos… Isso me alegra bastante! A mente não tem que envelhecer, a menos que o indivíduo permita; o espírito não tem que se submeter à marcha inexorável do tempo nem ao peso insuportável (para o corpo) dos anos! Essas descobertas são preciosas.

O tempo passa e os homens mudam… Ou, o tempo passa e muda os homens? Talvez ambos, ainda que alguns homens teimem em permanecer aferrados ao sistema neurótico que levantaram ao redor de si como artifícios de proteção. Os obsessivos fazem assim. Sistemáticos, eles não mudam facilmente. Eu, apesar de algo obsessivo, vou mudando… Venho mudando, à medida que prossigo, num processo ininterrupto de construção e descontrução de ideias. Aprendendo sempre, como um menino, curioso, perguntando sempre…

Minha filosofia incorporou muitas coisas “novas” através dos anos, mas de alguma forma, preservo as bases que esposei já há muito. Se voce tem alguma curiosidade acerca do lugar onde me situo hoje em meio a esse confuso universo de escolas filosóficas e, se não estiver suficientemente bem familiarizado com a sopa de letrinhas das muitas escolas de pensamento, saiba, sou um existencialista teísta da velha e boa escola Kierkegaardiana.

O poema que segue foi escrito há mais de vinte anos, quando o absurdo da existência humana em um mundo entregue ao caos começava a me chocar… O meu existencialismo angustiado revela-se na letra… Naqueles dias não tinha respostas para essa dor.

Tem certos momentos na vida

Em que fico a olhar ao redor

E vejo o homem sem saída

Vejo sua face caída

Olhar embaçado, sem brilho e sem cor

No peito calado um grito

Da mente apagada a lembrança

De quem por cuja semelhança

Do barro e de um sopro veio a existir

Vêem-se nos rostos opacos, nas rugas

Em alto relevo a expressão do medo

Foge-se de monstros, moinhos de vento

Produtos mentais de falsos pensamentos

Almas doentias, existências vazias

Áridos desertos de dor e aflição

(…)

Encontrar Jesus foi fundamental para dar “sentido” ao absurdo e decifrar o caos. É uma afronta grave para alguns essa volumosa pretensão de se conferir sentido ao absurdo da existência humana. Eu sei que isso irrita profundamente os existencialistas sartreanos em seu ateísmo mórbido; honestamente, gostaria que todos eles fossem inundados pela alegria indizível que hoje tenho.

Envelhecer filosoficamente sem amadurecer espiritualmente é trágico. Vou ficando velho, esperando, como diz Quintana, pelo momento de finalmente poder deitar de sapatos, mas sem qualquer receio… Sou um existencialista sem crise, se é que tal coisa é possível!

Essa paz de espírito e essa confiança no desfecho do drama só podem ser encontradas em Jesus. Nele, por ele e para ele existo. Glória pois a Ele! E quanto às rugas… na verdade são apenas marcas de expressão!

Troque seu cachorro por uma criança pobre.

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Vida de Cão

Por Luiz Leite

Quando, nos idos dos anos 80, Eduardo Dusek cantava “Troque seu cachorro por uma criança pobre”, o público ria do besteirol do roqueiro sem se dar conta de que por trás da música aparentemente engraçada havia um protesto que de engraçado nada tinha.

Quando li na revista Ultimato dia desses acerca dos bilhões de dólares gastos anualmente (pasme! bilhões!!) com animais de estimação, sendo que de longe a maior vedete desse cenário é o canis lupus familiaris, acordei para um dos maiores contrassenso da sociedade ocidental. Não que eu seja contra os queridos vira-latas… (em viagem pelo Oriente até pensei em experimentar o guizado canino, mas desisti.)

Sem dúvida, a super bem-sucedida parceria de 12 mil anos entre o homem e o cão (suspeita-se que aprendemos a nos organizar socialmente observando os ancestrais deles) é um forte argumento para justificar a conta. Quando, entretanto, voltamos os olhos para os meninos e meninas de rua, cujas vidas pequenas estão definhando nas esquinas e descobrimos que esses bilhões poderiam resgatar milhões desses pequeninos seres humanos da fome e desamparo agudos, urge que se faça considerações a respeito.

Segundo a Ultimato US$ 3.300.000.000 de dólares foi quanto o Brasil movimentou no ano de 2009 com o “pet business”. Incluídos aí todos os gastos com animais de estimação, tais como alimentação requintada, cuidados médicos, embelezamento, diversão, roupas, jóias etc.

Se dispensássemos dessa cifra bilionária 3 dólares por dia para cada um desses pequeninos desafortunados, recuperaríamos com essa montanha de dólares milhões deles que, por falta de uma dieta básica que se poderia obter com essa quantia, está fadada a uma existência lesada, uma vez que já na sua primeira infância lhes falta o suprimento nutricional necessário para um desenvolvimento adequado.

Alguém já disse que a elite desse país é burra. Se considerarmos que o menino abandonado de hoje poderá vir a ser o marginal de amanhã, tão somente porque tivemos a capacidade de gastar bilhões com cachorros e desprezamos nossas crianças, então teremos que engolir a seco o constrangimento de ter que conviver com a cena deprimente de uma desigualdade social absurda cobrando o pedágio em nossos semáforos e sob as marquises dos prédios de nossas avenidas mais arrogantes.

Problemas são solucionados com políticas próprias e dinheiro. Faça a sua parte.

Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro por uma criança pobre

(…)

Seja mais humano, seja menos canino
Dê guarita pro cachorro, mas também dê pro menino
Se não um dia desse você vai amanhecer latindo, uau, uau, uau

Troque seu cachorro por uma criança pobre (Baptuba, uap baptuba)
Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre (Baptuba, uap baptuba)
Deixe na história de sua vida uma notícia nobre