Sublimação – Uma palavra

 

Sublimação – Uma palavra

Por Luiz Leite

A sublimação é um termo comum às belas artes, à química e à psicologia. Na psicanálise este é o nome de um dos mais eficazes mecanismos de defesa. Através da criação literária, artística, intelectual, conteúdos psíquicos sólidos e inquietantes são dissolvidos e sublimados, transformados em literatura, escultura, música, arte enfim; Por meio desse formidável expediente transforma-se limão em limonada por assim dizer.

Em termos físicos a sublimação diz respeito à passagem de uma determinada substância do estado sólido para o gasoso; em termos psicanalíticos, algo semelhante ocorre, quando emoções represadas de revolta, desejo ou qualquer outra sorte são reelaboradas e canalizadas para o papel, o barro, a pedra, a canvas… Freud declarou que após o nascimento do seu quinto filho, a partir dos 40 anos de idade, suspendeu praticamente toda espécie de relação carnal, canalizando suas energias pulsionais para o seu trabalho literário. Escreveu uma obra soberba.

Como válvulas de escape, os modos de sublimação permitem que o indivíduo se livre de resíduos psiquícos altamente tóxicos, além de prover saídas não apenas inteligentes mas também esteticamente interessantes. É uma verdadeira usina de reciclagem que, utilizando-se do lixo emocional, produz impressionantes obras de arte. A título de exemplo, da dor insuportável da perda de um grande amor, eis que surge… Travessia! “Quando voce foi embora fez-se noite o meu viver…”  Isto é sublime! E assim da dor se faz arte.

Pena que com tão grande estoque de matéria prima não tenhamos mais sublimadores para dar outra feição à esse mundo cada dia mais acabrunhado! Infelizmente tantos adoecem retendo mágoas antigas, sentindo e re-sentindo sem a habilidade de resignificar suas dores… Alguns, como craques do futebol, para aproveitar o momento, aplicam em seus dissabores verdadeiros “dribles da vaca” e prosseguem, pois afinal, pra frente é que se anda. Outros, entretanto..  Seria muito bom se aprendêssemos a transformar esses conteúdos, resignificando-os de modo a amenizar a frustração sempre presente desses seres faltantes que somos.

Diários – Paquistão

 

Diários – Paquistão (Nov 2009)

Por Luiz Leite

Cheguei, finalmente, ao Paquistão, a “terra dos homens santos”. Como não encontrei vôo direto da Índia, resolvi viajar até a cidade mais próxima da fronteira e fazer a travessia a pé. Tomei um trem em Nova Delhi com destino a Amritzar e parti. Ao entrar no meu vagão, olhei para os lados e me senti absolutamente estranho no meio daqueles rostos morenos e cabeleiras negras. Era o único cara pálida naqueles cantos, pensei. Qual não foi minha surpresa ao avistar um europeu vindo em direção ao lugar onde eu estava. Checando a passagem e o número da poltrona, dirigiu-se a mim em inglês, pedindo licença para assentar-se.

A viagem, que tinha tudo para ser longa e cansativa, acabou resultando agradável e rápida. O companheiro de viagem era um jornalista espanhol, de Barcelona, a caminho do Paquistão, com a finalidade de cobrir os conflitos na região. Viajava sob o “disfarce” de professor, uma vez que jornalistas não são bem vindos nesses dias por lá. Conversamos longamente por horas a fio enquanto o trem percorria as intermináveis planícies daquela parte da Índia. Percorremos os domínios da história, filosofia, religião, economia e política…

O espanhol, ateu, teve dificuldade de entender minhas razões para visitar o Paquistão. Não cabia em seu entendimento o que um missionário cristão tinha a acrescentar numa situação como aquela! Nossas posições experimentaram momentos de impasse e turbulência até que apresentei-lhe alguns textos bíblicos. Teve a humildade de confessar-se impressionado com alguns dos textos apresentados e reconhecer que desconhecia aquelas palavras… Forçou-me a dar garantias que tais e tais coisas estavam mesmo escritas na Bíblia. Como a Palavra não volta vazia…

Chegamos, depois de horas de burburinho e desconforto, à Amritzar. A cena era idêntica a tantas outras em qualquer grande centro urbano na Índia. Gente, muita gente, para todos os lados, e um assédio infernal ao turista por parte dos taxistas e ambulantes. Depois de muito cansaço e stress conseguimos finalmente chegar a um acordo com um dos taxistas e tomamos a estrada em direção à borda. Inimigos jurados, Índia e Paquistão vivem em estado de alerta e a tensão se faz sentir de modo especial na região fronteiriça.  A tarde caía quando finalmente deixei a terra exótica e descontraída dos muitos deuses para adentrar o recinto grave da  república islâmica.

A passagem de um lado para outro foi algo tensa, mas por fim, vencidas todas as etapas, lá estava eu, em território paquistanês, sentado numa cadeira empoeirada em uma barraquinha nas proximidades do posto da fronteira, compartilhando com um enxame inacreditável de moscas um chá com leite;  Senti uma melancolia milenar enquanto, sentado naquele fim de mundo, observava um pôr de sol marcado pela cantiga chorosa de um mulá que do alto de minarete qualquer fazia sua prece. O fato de estar em um dos países mais explosivos da terra não me preocupou. Estava absolutamente tranquilo. O espanhol, preocupado com a noite que caía, disse que não correria qualquer risco esperando naquele ermo. Convenci-o a esperar pelo contato que viria me buscar pois íamos para a mesma cidade. Ficou, e ali à mesa de uma barraca de beira de estrada, nos confins de um país estranho, esperamos, sob os olhares curiosos dos locais que certamente se perguntavam o que estávamos fazendo ali.

Qualquer estrangeiro que chegar ao distante e desconhecido Paquistão nestes dias possivelmente levará na bagagem certa desconfiança nutrida pela imagem mal construída de um país encoberto pelas nuvens sombrias do terrorismo. Essa noção desencontrada, todavia, estará prestes a ser desmantelada. Será surpreendido em, basicamente, todos os aspectos. É verdade que o Paquistão é um país pobre. O turista que chega por lá (muitíssimo escassos atualmente, em razão da turbulência política pela qual estão passando) não vai encontrar as amenidades comumente encontradas no Ocidente bacana. Ainda que não seja um país completamente atrasado, o Paquistão carece de muito daquilo que no ocidente é sinônimo de ordem. Ainda que não se identifique imediatamente um padrão de organização que atenda às exigências ocidentais, o observador mais atento, não o turista casual, encontrará e respeitará logo o modo paquistanês de ordenar sua sociedade.

Como qualquer viajante pode facilmente verificar, a influência poderosa da globalização se faz perceber em qualquer esquina dos grandes centros urbanos do país, exatamente como acontece com quaisquer outras cidades ao redor do mundo. Entretanto, apesar da ocidentalização crescente do mundo, aprende-se de saída que o Paquistão é um país suficientemente exótico. Tudo é muito diferente, e é exatamente nesta diferença que se pode encontrar a beleza paquistanesa. Quem desejar a previsibilidade deve buscar destinações mais pasteurizadas e seguras como a Disneylândia ou Paris.

A “terra dos homens puros” (significado do nome do país) que até a bem pouco era desconhecida para a maioria, tornou-se uma espécie de vedete na mídia internacional; Exibida, exaustivamente, em ângulos desconcertantes, a república islâmica do Paquistão tem sido desenhada no imaginário popular como um lugar sem lei onde loucos correm soltos a explodir carros e homens bombas nos mercados de suas cidades. O conflito paquistanês, entretanto, tem proporções mais profundas e dramáticas do que aquilo que os folhetins eletrônicos revelam. É verdade que a situação política do país é absolutamente complexa, que os radicais fundamentalistas são movidos por uma lógica que não se explica, que o comportamento de partes de sua população chega às raias da selvageria, mas essa é só uma parte da verdade. Nem todos por lá são loucos, fanáticos e extremados.

Há no Paquistão o homem de bem, de família, pacífico, cordato, hospitaleiro… Estive no meio deles e pude conhecer um Paquistão que a mídia não nos deixa conhecer. Incrível que pareça, pelo simples fato de ter feito contato com o aspecto saudável do Paquistão, aprendi a ter misericórdia da sua banda apodrecida pela loucura e pelo pecado. Nem tudo está por lá! Tenha um olhar mais complacente para com eles da próxima vez que vê-los na TV pois certamente a pose não será das melhores.

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