Voce é ateu?

Por Luiz Leite

Trecho livro ELES PROFANARAM O SAGRADO, lançamento (Setembro 2012) da Editora Petrus.


Uma pesquisa sobre a crença na existência de Deus, realizada em 16 países da Europa revela um fato inusitado. A Rússia, após 15 anos da derrocada comunista, figurava, surpreendentemente, em terceiro lugar com 87% no quesito “você crê em Deus?”, ficando muito acima da média europeia de 71% dos que professam crença em um governo espiritual sobre o mundo dos homens.

O esforço dos líderes comunistas em erradicar o sagrado da alma dos povos da grande União Soviética provou-se malsucedido. Profundamente arraigado na alma humana, o sagrado, coibido em sua manifestação por uma via, buscou substitutivos para aflorar de outras maneiras. E encontrou. Os próprios líderes comunistas ilustraram essa verdade, fazendo afirmações que, inconscientemente, contradiziam os seus próprios postulados.

Nikita Kruschev (1894-1971), dirigente da extinta URSS, disse: “Advirto-os com toda seriedade. Digo-lhes que o comunismo é sagrado”.

O que, exatamente, o camarada ateu Kruschev estaria querendo sugerir com estas palavras? O que ele estava intentando insuflar nas massas? Não é evidente que, consciente ou inconscientemente, o velho ateu estava promovendo uma divindade substituta? E o que dizer das palavras de Leonid Brejnev (1906-1982), outro líder soviético que decretou: “Tudo que diz respeito à vida, às atividades e ao nome de Lênin é sagrado”. Podemos observar nas palavras desses velhos e empedernidos ateus que, mesmo apesar de negarem o sagrado, este ainda lhes escapava aqui e ali, de maneira não percebida objetivamente.

Não é por posicionar-se como ateu, como cético, que uma pessoa deixará de ter valores que norteiem sua vida. Esse código moral está posicionado acima das teorias do conhecimento e da verdade elaboradas pela razão. Todos os ateus, moderados ou radicais, no fundo, ainda que não publiquem, sentem como José Saramago que disse: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.” É uma agonia diária.

Pode-se não crer na configuração que as religiões ao redor inventaram para explicar o mistério da vida, pode-se não gostar da moldura, não acreditar na escritura que reivindica ser sagrada, mas nem por isso o altar ficará desprovido de deuses. Por mais incrédulo que seja o indivíduo, sempre terá um corpo de verdades pessoais, ideias e ideais, um código de regras que regule a vida, providenciando assim os pontos cardeais pelos quais se orientar. Eis o sagrado.

O assento de Deus nunca ficará vazio. Se o Deus verdadeiro não estiver ali, outro, sem dúvida, vai ocupar-lhe o lugar, quer sejam os ídolos, os ancestrais, o sexo, o poder, a ciência, as riquezas, a fama… Enfim, aquilo ou aquele por quem o homem vive e morre ser-lhe-á por deus. Como disse Phillip E. Johnson: “Aquele que afirma ser cético em relação a um conjunto de crenças é, na verdade, um verdadeiro crente em outro conjunto de crenças.” Voce tem certeza que é mesmo ateu? 

Telhado de Vidro

Telhado de Vidro

Por Luiz Leite

Durante os dias, semanas e meses em que o escândalo político chamado “Mensalão” roubou a cena e monopolizou as mídias, o Senador da República Demóstenes Torres representou um dos principais papéis de bom moço, figurando como verdadeiro paladino da Ética, bastião da moral, guardião da justiça. Sentíamo-nos seguros ao ouvir seu discurso. Passava-nos a impressão de que nem tudo estava perdido, de que restava em Brasília alguma probidade. A prevaricação se instalara acintosamente pelos palácios do planato afora, o diagnóstico era câncer sim, maligno, mas para nosso alívio não era caso de metástase. Tínhamos Demóstenes. Cobrando intervenção cirúrgica e punição exemplar para todos os envolvidos nas tramóias sórdidas da politicagem execrável que se fazia no Planalto Central do Brasil, o senador não deu trégua aos meliantes de colarinho branco.

Passados alguns poucos anos, para nossa mais profunda decepção, encontramos atolado em lamaçal de catinga não menos fedentina que aquele em que se emporcalharam José Dirceu, Marcos Valério e demais asseclas, o herói que, com discurso enérgico bradou em defesa da democracia e do Estado de direito. Alinhado a um mestre da traficagem, Demóstenes vendeu-se pois, afinal, como sustenta o adágio, todo homem tem seu preço. Exposto, verificou-se que o senador tinha também telhado de vidro. A lama está nos sapatos de fino cromo alemão; O terno fino de grife caríssima também encontra-se manchado… Ainda que afirme com serenidade questionável que provará sua inocência, já se ouve dos seus próprios pares que sua defesa é insustentável.

A prova mais contundente e constrangedora foi apresentada em rede nacional. Ouvir um parlamentar da mais alta categoria dirigir-se a um contraventor como o senhor Carlinhos Cachoeira, como “professor”, é realmente preocupante. Precisei ver o vídeo mais uma vez para checar se de fato tinha ouvido aquilo que julgava inacreditável. Se um senador da república dirige-se a um contraventor como “professor”, então temos as respostas para todas as perguntas; Explica-se como se processa a corrupção neste país. Há uma escola! Vê-se quem são os seus mestres! Se o Sen. Demóstenes, que com sua cara de bom moço convencia a opinião pública, aprende com o “professor” Carlinhos Cachoeira, com quem aprendem os parlamentares barra pesada, quadrilheiros comprovados?

Em meio à esse absurdo e revoltante rosário de casos intermináveis de corrupção, onde senadores receberem favores de bicheiros, deputados abusam de suas prerrogativas e conferem a si mesmos salários além da conta, uma afronta ao contribuinte, surge o Deputado Tiririca lamentando que o partido não tenha aprovado seu nome para candidatura à prefeitura da cidade de São Paulo… Pode parecer engraçado. Alguém pode dizer que é mesmo coisa de palhaço mas, parece que Tiririca tem planos para ir mais longe.  Em mais de um ano de mandato não faltou a uma sessão sequer!!! Como é? Pois é. Atento à cada moção, o palhaço tem se mostrado mais sério do que se esperava. Tomara que tenha se matriculado na escola da boa política e eleja como mentores homens e mulheres de boa fé que lhe ensinem a “graça da garça”. Qual é a graça da garça? A graça da garça é “a arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.”

Um Eterno Vir a Ser

Um eterno vir a ser

Por Luiz Leite

As experiências se acumulam com o passar dos anos, empilhadas em prateleiras virtuais nos imensos arquivos arranjados nos minúsculos domínios de células neuronais. Dia após dia, milhares de sinapses se encarregam de criar espaço para o armazenamento de novas informações, memórias, prazeres e dores. Ora eufóricos, velejamos nas águas da fantasia,  ora transtornados, naufragamos nos pântanos do medo… Quanto aprendizado temos tirado dos erros, desacertos, desvarios, percalços e glórias? Avançamos no esforço de decifrar o enigma ou simplesmente prosseguimos, sem dar relevância aos fatos?

Debruçar-se sobre os fatos da vida, com suas alegrias e tristezas, sempre nos levará ao outro. Como seres relacionais, a alegria ou tristeza de nossa experiência cotidiana está intimamente ligada às pessoas que fiam a trama da teia que nos tem. As pessoas nos influenciam e afetam de um modo definitivamente marcante. Por essa razão, creio, Sartre disse que “o inferno são os outros.”

Antes de nos ocuparmos tanto com o outro e, com o dedo em riste, apontarmos suas contradições, deveríamos nos dedicar um pouco mais ao trabalho árduo e solitário do autoexame pois, para todos os efeitos, somos eternos estranhos! “Estranho a mim mesmo, devo reconhecer que não há um conhecimento de mim mesmo claro, exaustivo. Ficaremos para sempre um mistério para nós mesmos.”  É certo que essa afirmação espanta, mas só há de espantar aquele que ainda sonha.

Essa estranheza absoluta que envolve o ser numa bruma de admiração e espanto esgota toda e qualquer pretensão de descrição completa da criatura. Somos um eterno “vir a ser”; em outras palavras, não somos, estamos. Em processo, sempre, procissão sem fim… O  imperativo socrático de conhecer-se a si mesmo torna-se assim tarefa impossível, inglória, pois, como disse Pessoa:

“Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela,

E a vida passa entre viver e ser.”

Inglória é a vida” – disse o poeta –  e inglório conhecê-la. Com a perspicácia que todo poeta deve ter, capturou algo da complexidade do ato de existir. É inglório o esforço de conhecer aquilo  que não se esgota. A vida é assim complexa, como o é seu protagonista.

Quanto mais reflito, tanto mais me encanto com a doutrina do Cristo, o fascinante e único Jesus de Nazaré, quando instrui seus discípulos a que tenham misericórdia, perdoem e prossigam. No momento mais dramático de sua curta existência no tempo, esbanjando coerência entre discurso e prática, fez valer seu próprio ensino rogando ao Pai que perdoasse seus algozes. Não só pediu perdão pela selvageria dos seus agressores, como ainda os justificou com a habilidade imbatível do bom advogado que é, dizendo: “Eles não sabem o que fazem.”

Este foi  o atestado mais grave e definitivo da nossa profunda ignorância. O Pe. Antonio Vieira em seu belo sermão do mandato demonstra que Cristo nos nos amou sabendo, ao passo em que fomos amados ignorando! “Quod ego facio, tu nescis“, disse Jesus a Pedro. Como somos ignorantes! A tragicidade desse fato é que insistimos em posar de sábios!

Esforça-te para conhecer-te, mas não se iluda, é esforço inglório! A melhor maneira de lidar com esta realidade é cultivar para sempre um coração de aprendiz.