Sandy e o Psicopata

Sandy e o Psicopata

Por Luiz Leite

São 19 horas apenas mas as ruas de Nova Iorque já se encontram desertas. A cidade que, segundo clássico de Frank Sinatra, nunca dorme, parece que hoje vai para a cama mais cedo. Ninguém sairá para jantar fora, ir ao cinema, ou simplesmente bater perna na Times Square ou qualquer outro lugar. Há uma certa apreensão no ar. Do meu quarto, no bairro do Queens, posso ouvir o ruido monótono do último trem que passa. Serviços de trem, metrô e demais serão encerrados a partir das 19 horas. A chuva, o vento frio, os céus sombrios, anunciam a chegada de Sandy que, a despeito do nome inocente e até suave, vem chegando com uma fúria devastadora.

Os americanos do norte, precavidos, se preparam para o pior. Espero que o temido furacão não cause maiores transtornos. A cidade já está transtornada pela morte bárbara de duas crianças vitimidas por uma babá enlouquecida na semana que passou. Preparar-se para um furacão como o Sandy, com um poder de destruição incalculável, é, ironicamente, mais fácil do que preparar-se para lidar com os milhares de psicopatas incubados que perambulam pela cidade, esperando apenas o momento imprevisível do surto, para cometerem seus atos insanos.

Os EUA tem produzido, talvez mais do que qualquer outra sociedade, um número cada vez maior de psicopatas. A terra dos temidos “serial killers” parece produzi-los em série. Mas não estão apenas por aqui. Estão por todo lado, em todos os países, escolas, empresas, famílias, ao nosso redor, enfim. Muito embora nem todo psicopata seja um assassino em série (na verdade a maioria nao matará), o fato é que são potenciais matadores, e precisam ser identificados e observados.

Um problema de ordem ética de proporções gigantescas se levanta aí. Nao poderíamos simplesmente classificar as pessoas e bani-las do convívio social, como se fazia  na antiguidade com os leprosos. Estamos diante de um problema imenso e de solução complexa. É definitivamente mais fácil lidar com o poder devastador de um furacão como o Sandy, do que controlar a sanha assassina dos psicopatas que neste momento estão ansiosos para que a tormenta se abata sobre a cidade trazendo a máxima destruição. Os perversos são assim. Enquanto nao se lhes destrava o pino da própria bomba relógio que são, contentam-se em assistir a notícia do sinistro.

Eles Profanaram o Sagrado

Trecho de ELES PROFANARAM O SAGRADO, lançamento Editora Petrus

As duas grandes guerras e demais conflitos que redesenharam as feições geopolíticas do planeta, as grandes ideologias que dividiram o mundo em blocos, bem como as conquistas da ciência que alteraram para sempre o nosso modo de viver são alguns dos motivos que justificam que se classifique o século XX como único. Neste período cheio de peculiaridades, assistimos perplexos ao advento de novidades que nos deixariam sem as balizas firmes dos valores que orientaram a humanidade por eras.

Mudanças em todos os setores têm conduzido a humanidade a uma versão de sociedade que, em alguns aspectos, faz lembrar o clássico Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. No futuro antevisto por Huxley, valores como família e ética religiosa são resquícios de um passado de ignorância. Os indivíduos são condicionados biológica e psicologicamente, obedecendo a um programa de controle estabelecido pelo governo. O uso de uma droga mágica regulamentada pelo próprio governo oferece, sem efeitos colaterais, uma resposta mágica para todos os males. Com liberdade irrestrita para o sexo e droga à vontade para lidar com a ansiedade e demais transtornos psicológicos, o mundo profetizado por Huxley descarta Deus e toda forma de religião.

Tantas décadas após a obra de ficção ter sido publicada, assusta o fato de que a configuração que nossa sociedade vai tomando assemelha-se, em muito, ao mundo estranho e à época, improvável, que Aldous Huxley apresentou quando publicou seu livro, em 1932.