O Vôo Impossível

O Vôo Impossível

Por Luiz Leite

O grande escritor russo Anton Chekhov disse que o homem é aquilo que acredita. Com todo respeito a Chekhov, o que  o que ele fez foi apenas dar eco  a algo que já vinha sendo dito de outras maneiras por outros através dos séculos.

Somos o que acreditamos, guardadas as proporções de sanidade, é claro. Homem algum pode ir além da linha que sua própria capacidade de crer estabelece. De certo modo o edifício do nosso destino é construído por nossas próprias mãos, sendo que a matéria prima utilizada constitui-se em grande parte das crenças que carregamos.

Uma frase de Mary Ash Kay famosa empresária da indústria de cosméticos chama-nos a atenção para uma impossibilidade aparente. Diz ela: “segundo a aerodinâmica o abelhão não poderia voar; sucede que ele não sabe e por isso voa de qualquer modo.”

O  abelhão “acredita” que pode voar. Ainda que as leis da aerodinâmica digam que não pode, o abelhão esforça-se, bate as asas inadequadas e ganha os céus num exercício formidável de superação de limites deixando atônitos e maravilhados os que sustentavam que seu vôo seria impossível.

De algum modo este exemplo da natureza alinha-se ao ensino de Jesus acerca da fé. Jesus disse que tudo é possível ao que crê. Há algo de profundo demais nessa pequena e tão conhecida afirmação. Poucos humanos acessaram esse mistério de modo completo. Se voce crer…

Tudo depende do ponto de partida. A pequena partícula condicional “se” interpõe na cena como um grande divisor de águas. Se acreditamos em Deus, em quem depositamos nossa fé, Ele chamará a responsabilidade para si. Ele cuidará do resto. Se, entretanto, não crermos em Deus, não haverá absolutamente nada mais senão vazio e trevas…

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre disse de certa feita:“Os cristãos partem do princípio ‘Deus existe’; eu parto do postulado: ‘Deus não existe’. ” Este ponto de partida é o fundamento sobre o qual cada um constrói seu destino. Quando ateus como Sartre dizem que deus não existe e que a fé religiosa não faz sentido, o crente não deveria se sentir ofendido. Considerando o ponto do qual partem, a fé em Deus não pode mesmo fazer sentido para eles.

Que o ateu pense que ele não passa de uma cadeia de carbono ambulante errante, vivendo uma existência absurda e sem sentido. Que o crente, por sua vez, prossiga crendo que é ser espiritual criado segundo um propósito divino. Se tão somente conseguirmos respeitar uns aos outros sem nos matarmos já teremos feito um grande avanço.

No fim do ato cada um acabará tendo como resultado aquilo em que acreditou. Se creu numa mentira ou fantasia, restará a frustração e o desencanto. Se creu na verdade conforme as Escrituras, será surpreendido por alegria indizível e se verá perplexo diante do inefável. Quem crê em Jesus (como diz a Escritura) e no céu, vai encontrar-se com Jesus em seu céu; quem crê na dissolução da alma no nada, vai ser lançado no exílio escuro e insondável do nada.

Ainda que ateus e críticos da fé digam que Deus não existe, que o céu é uma fábula esse abelhão aqui continuará batendo suas asas nesse vôo que dizem impossível.

Teologia de Palha

Teologia de Palha

Por Luiz Leite

Num vôo doméstico há alguns dias,  li numa dessas revistas insossas de uma linha aérea qualquer, uma entrevista com a senhora Lily Marinho, esposa do falecido “mogul” Roberto Marinho, fundador das organizações Globo.

Pergunta:  ” –  A senhora é religiosa?”

Resposta:  ” – Sou católica mas às vezes fico zangada com Deus. Uma vez perguntei a um padre: Se Deus é tão bondoso porque deixa acontecer incêndios, essas coisas…? Ele disse que Cristo morreu com 33 anos e não teve tempo de pagar em vida o mal da humanidade, então as pessoas tem que pagar o que Cristo não teve tempo de fazer…”

Eita teologiazinha vagabunda! Isso lá é resposta que um sacerdote da suposta fé apostólica dá a um fiel em conflito?” Onde o tal sacerdote aprendeu sua teologia? Estava bêbado ou dormia nas aulas em seus dias de seminário? Que soteriologia enviesada é essa que ele inventou? Foi insuficiente o sacrifício de Jesus? Resta realmente algo que o homem possa fazer para aprimorar sua salvação?

Lutero certamente errou feio ao julgar a teologia de Tiago e despachar sua epístola como uma epístola de palha (a ser queimada); em sua obsessão com a teologia da graça, falhou em identificar coerência e consonância entre seu pensamento e aquele apresentado por Tiago. O irmão do Senhor alfineta em sua carta os religiosos de plantão, alertando que “a fé sem obras é morta.” Não basta apresentar uma fé de discurso, recheada de rezas e ritos.

E aí? se a fé sem obras é mortas, estaria Tiago afirmando que a graça não é suficiente? está contradizendo o ensino Paulino que afirma que a salvação é pela graça, mediante a fé…? Temos que fazer obras para alcançarmos a salvação? Não, Tiago não está afirmando isto. O que o saudoso “joelho de camelo” está dizendo é basicamente a mesma coisa dita por Paulo. Fomos criados para as boas obras… A fé viva é dinâmica, e por essa razão, produz obras espontaneamente. As obras não levam à salvação, mas a salvação leva às obras! A fé que não gera obras está assim, virtualmente, morta!

O padre católico, de quem a socialite ouviu que as “pessoas tem que pagar o que Cristo não teve tempo de fazer”, estava sem dúvida sob o efeito de algum “spirit” (em ingles, qualquer bebida destilada, como vodca, run, tequila…) ou mesmo de outro espírito qualquer que não o Santo, enviado para nos guiar em toda verdade. Quando neste estado, perde-se como faz-se perder, quer leigo, quer sacerdote!