Por fora bela viola…

Arte: Steve Hanks

Por fora bela viola…

Por Luiz C Leite

Se não vos tornardes como crianças, de maneira alguma entrareis no Reino dos Céus!”

Jesus estabeleceu uma condição absolutamente estranha aos religiosos do seu tempo que esperavam alcançar o visto para o céu por meio da cerimoniosa e enfadonha prática de uma religiosidade desprovida de conteúdos. Tão oca era a pretensa espiritualidade dos seus contemporâneos que chegou a lançar mão de uma figura de linguagem radical ao classificá-los como “sepulcros caiados...”

Por fora – reza o adágio – bela viola, por dentro, pão bolorento! Jesus foi radical. Não alisava! Nunca usou de amenidades para endereçar a louca presunção humana. Deixa-me dizer algumas obviedades. Garanto, entretanto, que valerá a pena essa breve reflexão sobre o flagrante absurdo que marca praticamente todas as biografias de todos os humanos… O homem é uma criatura dada ao desatino, e disto sabemos bem.

Realmente foi difícil para os contemporâneos de Jesus, e continua sendo difícil para nós hoje, entender como é esse negócio de “tornarmo-nos como crianças…” Jesus deu um na cabeça de Nicodemos quando disse que importava que o mesmo nascesse de novo se quisesse ver o Reino de Deus.

Ao dizer que precisamos “nascer de novo”, Jesus lança uma pá de cal sobre toda e qualquer possibilidade de virmos a nos apoiar sobre os nossos atos de justiça, nossa bondade ou sobre a prática da nossa religião, não importa quão piedosa se pareça. Em outras palavras, não há meios de reformar o homem avariado… O sinistro deu perda total!

Por essa razão não se apresse a apresentar qualquer defesa para advogar sua pretensa sanidade. Montaigne dizia que: “A presunção é nossa doença natural e original. O homem é a mais calamitosa e frágil dentre todas as criaturas, e a mais orgulhosa.”

MIchel Foucault em sua História da Loucura diz que a pior loucura do homem é não reconhecer a miséria em que está encerrado, a fraqueza que o impede de aproximar-se do verdadeiro e do bom. Tanto Foucault quanto Montaigne, fazem observações precisas da condição humana. Muito embora não confessassem a fé cristã à moda dos discípulos de Jesus, admitiram aquilo que as Escrituras já há muito afirmavam.

Só mesmo nascendo de novo podemos nos tornar como crianças; só cultivando um coração puro poderemos ver a Deus… Cuidemos que a religião não nos cegue, como fez com os fariseus! Que Deus nos acuda!