Cronicas III

Enquanto fazia a barba…

Por Luiz C Leite

 

Por um momento, olhando-se no espelho, aquele terrível detrator, observou alarmado como iam se multiplicando os fios prateados em sua cabeleira, outrora negra como a plumagem das gralhas; as linhas que sulcavam o rosto, deixavam evidente, como os nós nos troncos das árvores centenárias, a acomodação das décadas que, lenta, mas, implacavelmente, iam se superpondo. Onde fora parar a infância, a adolescência, a juventude?? E todos aqueles sonhos, fantasias?? Para onde foram os amores, os amigos, os ideais?

Ali, diante daquele frio delator, observava calado, em silêncio, o reflexo de um homem já curtido por anos de uma incansável busca. Quanto havia ainda daquele estranho a conhecer? Era óbvio que não sabia tudo. Lembrou-se de uma frase de Charles Dickens que o impressionara, em seu clássico “Um conto de duas cidades”: “Um fato extraordinário a merecer reflexão é o de que cada ser humano se constitui num profundo e indecifrável enigma para todos os demais”. Dickens teria sido mais preciso, pensou, se tivesse acrescentado que não somos enigmas profundos e indecifráveis apenas para os outros; o somos também para nós mesmos.

Enquanto preparava o rosto para barbear, lentamente foi se entregando a pensamentos cada vez mais intrigantes. Todos, pensava ele, têm uma quantidade enorme de coisas que estão cuidadosamente escondidas sob o verniz enganoso dos condicionamentos sociais. Nem todos compreendem os mecanismos que regem essa grande e complexa teia de relacionamentos, emoções, medos, compulsões…por não compreendê-la, vão se emaranhando nela, e acabam, por vezes, tornando-se prisioneiros dentro de seus próprios castelos. É curioso e também dramático o fato de que vamos pela vida afora construindo muralhas ao nosso redor para nos proteger, sem jamais imaginarmos que essas mesmas muralhas que levantamos para nos guardar vão se tornar mais tarde nossas próprias prisões. E como é difícil escapar delas!

Resolveu que não ficaria enlaçado nessa teia medonha. Resolveu sair, dizendo para o seu frio e impassível confidente: “Vou escarafunchar os aposentos escuros da minha alma; quero banir todo medo, preconceito…vou dissolver os recalques e extraditar para o mais distante exílio as concepções fantasiosas, as compreensões míticas, mãe de ilusões tolas e de estúpidas pretensões…”

Lembrou-se de uma velha canção que cantava em sua adolescência, e disse: “É isso! Vou descobrir o que me faz sentir, eu, caçador de mim…”, e decretou: “Está aberta a temporada de caça”. Se isto vai me tornar um ser humano melhor, mais tolerante, mais complacente, menos arrogante, menos severo, sem que essa tolerância venha se transformar em lassidão, em permissivismo irresponsável, em desordem anárquica, então vamos à caça!

Curioso é que essa caçada requer aquilo que de mais absurdo se pode exigir de um caçador, que deponha as suas armas! Todos os mecanismos de auto-preservação precisam ser desativados para que o caçador possa por fim encontrar o ambicionado prêmio: “conhecer-se a si mesmo”. Resolveu que valia a pena descobrir o que era o homem, qual a medida do homem.

Foi. Não gostou de nada do que viu em alguns compartimentos, ao passo que amou o que viu em outros. Sem dúvida alguma amou encontrar-se com o santo no templo da adoração; sublimou-se com o sábio que contemplava, em êxtase, a graciosidade de uma pequenina borboleta; o que dizer então do herói, aquela figura mítica inquebrantável, que vira em ação? Assustou-se por outro lado, teve medo, teve náusea, quis fugir, quis fechar imediatamente a porta do compartimento onde habitavam seres de feições aterradoras, de aspectos encarquilhados, que em tudo negavam a beleza e virtude dos primeiros…

Ficou parado, absorto, com os olhos fitos no oceano desconhecido dos outros olhos que também fitavam-no como que a perguntar: Conhece-te a ti mesmo? Um filete de sangue que escorria do queixo, provocado pela desatenção de golpes dados a esmo, trouxe-o de volta. Parecia que uma eternidade havia se passado enquanto fazia a barba…

 

 

 

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