Mitologia e Preconceito

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A Caixa de Pandora

Por Luiz Leite

Ando mergulhado na mitologia nestes dias pelo fato de me encontrar às voltas com uma viagem para a terra de um dos povos mais místicos do mundo, a Índia; Mas não é da complexa mitologia Hindu que trataremos. Ainda não estou preparado. É confusa demais!

A mitologia nasceu quando os primeiros homens assentaram-se ao redor de uma fogueira e puseram-se filosofar. Embevecidos diante do fascínio arrebatador das estrelas, partiram para os primeiros rascunhos de uma cosmogonia que, para dar sentido à tamanha grandeza, exigia poderes sobre-humanos.  Eis aí pois, o berço dos mitos.

Voce certamente já ouviu falar sobre a caixa de Pandora. Pois bem, para começo de conversa, a caixa não era de Pandora. Pertencia a Epimeteu. O que Pandora tem com Epimeteu? Vamos lá então dar um passeio pelo fantástico mundo da mitologia dos gregos.

Segundo a mais afamada de todas as mitologias (uma das versões),  Pandora foi o nome da primeira mulher.  Foi feita no céu e recebeu dos deuses os seus vários atributos.  De Vênus recebeu a beleza, de Mercúrio a persuasão, de Apolo a música e etc.  Foi, portanto, um verdadeiro presente, todavia, ainda que revestido de tantos encantos, ocultava um intento maldoso. Presente de grego. Segundo o relato, teria sido criada e enviada a Prometeu e Epimeteu com o propósito de puní-los por terem roubado dos deuses o fogo.

Os deuses incumbiram aos citados titãs, da criação dos animais e da raça humana.  Foram incumbidos de equipar o homem e os animais com todas as faculdades necessárias à sua preservação. Epimeteu ficou com a responsabilidade de conceder aos animais capacidades especiais e assim fez. Distribuiu aos animais qualidades como rapidez, sagacidade, força…  Ao chegar ao homem, que deveria ser superior aos demais animais, descobriu que havia esgotado todos os recursos. Nada de especial sobrara para dar-lhe a distinção devida.

Ao contar a Prometeu, seu irmão, este subiu ao céu e, com a ajuda de Minerva, roubou dos deuses o fogo, entregando aos homens seu segredo. Com a capacidade de controlar o fogo o homem tornou-se  superior aos animais. A atitude de Prometeu precipitou entre os deuses mais uma das suas infindáveis refregas. Zeus, irado com Prometeu, para enfraquecer os homens, enviou a Epimeteu, irmão daquele, uma mulher como presente. 

Muito embora Prometeu houvesse advertido seu irmão que não aceitasse nenhum presente dos deuses, Epimeteu, encantado, aceitou Pandora. Epimeteu guardava numa caixa vários objetos malignos.  Pandora, tomada de grande curiosidade , sem poder se conter, abriu a dita caixa. Assim, saiu da caixa e  se espalhou por toda parte uma multidão de pragas que atingiram o homem, fazendo-o adoecer de um grande número de males no corpo e na alma.

Pandora apressou-se em colocar a tampa na caixa mas, infelizmente, escapara todo o conteúdo havia já escapado, com exceção de uma única coisa que ficara no fundo, a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameacem, a esperança não nos deixa inteiramente; e, enquanto a tivermos, nenhum mal nos torna inteiramente desgraçados.

Confesso que não me sinto à vontade diante da sugestão que confere à mulher a culpa pelos males da humanidade.  Se Epimeteu (cujo nome significa: Aquele que age antes de pensar) tivesse sido mais diligente em seu trabalho, não teria cometido o erro que cometeu; Se Prometeu, (aquele que pensa antes de agir)  não tivesse feito nenhuma conspirata com Minerva para roubar o fogo dos deuses, estes não teriam ficado irados à ponto de fazer entornar a bile “divina”.

Pandora poderia ser indiciada apenas por sua irresistível curiosidade, e isto com atenuantes; agora, penalizar a moça pelos males todos que sobrevieram à intriga de deuses e semideuses, aí já é exagero, mais que isso, preconceito em sua forma mais clara e repugnante. Agora, pensando bem, qual seria a graça do mundo se não fossem as Pandoras?? A princípio não haveria mundo! Nesta versão aparece como punição, mas outras versões dizem que foi dada ao homem como verdadeiro presente. Sem dúvida o mais sublime de todos!

Richard Dawkins e a Última Fronteira

Ser Humano

Richard Dawkins e a Última Fronteira

Por Luiz Leite

O mais ilustre e badalado dos ateus na atualidade, Richard Dawkins, professor da Universidade de Oxford, afirma que ainda pretende resolver o enigma da consciência. A consciência, para ele,  apresenta-se como a  última das fronteiras onde, supostamente, residem os “mistérios” que intrigam e impressionam os místicos de todas as ordens.

Dawkins diz esperar que durante o sec. XXI os vestígios da superstição religiosa sejam definitivamente sepultados. Já está convencido que a “vida é feita de moléculas” como qualquer outra coisa. Reduzindo o milagre da vida a um fato corriqueiro, diz que a mesma “não é mais misteriosa”, e afirma ter esperança “que a consciência siga pelo mesmo caminho.”

Não há lugar para o mistério na”religião” de Dawkins. Tudo se explica, e a deusa Ciência, numa espécie de revelação gradativa, a seu tempo vai lançar luz sobre a ignorância humana e esclarecer, cientificamente, como funciona a consciência.

Dawkins, que se diz ateu, não é ateu coisa nenhuma. Elegeu para si como divindade, a Ciência, a qual cultua e defende com tanto ardor, como eu cultuo e “defendo” a Jesus Cristo. Realiza uma “cruzada” já há muitos anos para provar os postulados da Evolucionismo Darwinista e, segundo sua religião, desmascarar o absurdo da reivindicação do Criacionismo.

Desde que lançou o livro “O Gene Egoísta”, em 1976, onde leva o processo evolucionário para o nível genético, vem causando polêmica com suas posições. Se vai desbravar a última fronteira e desvendar o mistério da consciência, duvido; é certo, entretanto,  que prosseguirá, obstinado, em sua cruzada contra a fé, a menos que dia desses seja derrubado da sua incrivelmente alta torre de ceticismo.

Não será vencido pelo argumento dos teólogos. Não se deixará intimidar pelas ameaças dos fanáticos. Não será impressionado pela complexa e altamente sofisticada estrutura orgânica da vida. Somente um encontro com o Nazareno na estrada para Damasco lhe será fatal. Se me é lícito desejar mal a alguém, desejo que ele, como Saulo de Tarso, caia do cavalo da arrogância científica e, cegado pelo claro, desde o chão, ouça a voz lhe chamar pelo nome dizendo: “Richard, Richard, por que me persegues? Dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões…” Este, sem dúvida, será o mais feliz dos seus dias!

Abre aspas…

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A dialética da ética (Lição I)

Pergunta ao deputado federal Paulo Maluf: “O senhor já roubou alguma coisa?”

Resposta: “Não necessariamente.”

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A dialética da ética (Lição II)

No auge da campanha [política], a tentação do poder é demasiadamente forte para a fragilidade humana. O fato é que a classe política, com exceções, segue a máxima epicurista, [segundo a qual] quando a tentação chegar, ceda logo antes que ela vá embora.
(Carlos Ayres de Britto, ministro do Tribunal Superior Eleitoral.)

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Hedonismo radical I

Em termos morais, os norte-americanos substituíram o cristianismo por uma nova religião de sucesso. Essa religião não tem vida após a morte nem consideração pelas gerações futuras, pois, sem credo, consiste em consumir o máximo possível aqui e agora.  (Kenneth Serbin, professor de história na Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, e autor de “Padres, Celibato e Conflito Social”)

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Hedonismo radical II

Nunca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado como nos dias atuais. (Robert Swarav, psicólogo)

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Das über mensch

O indivíduo do século 21 tem declarado sua independência de modo a ser alguém além do bem e do mal, em que a autonegação, a solidariedade e o partilhar têm sido suplantados pela exaltação de si mesmo, bem ao sabor nietzschiano. (Lourenço Stelio Rega, diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo)

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Noção torta

A noção de velhice associada à ideia de decadência e feiura dificulta a cada um o seu próprio envelhecimento. (Jacob Pinheiro Goldberg, psicanalista)

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Poeta da pesada

Punição não é crueldade nem vingança, mas o recurso que resta para deter quem não aceita submeter-se às normas do convívio social. (Ferreira Gullar, poeta)

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Este é um país que vai pra frente…

Não é exagero dizer que o Brasil está à beira do status de superpotência+
(“Financial Times”, jornal inglês)

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Sem medo do medo

Entre os 30 e 40 anos de idade, minha atitude em relação à morte ficou calma e equilibrada. Sinto que ela é um marco de nossa existência, mas de modo nenhum o último.
(Alexander Soljenitsin, escritor e dissidente russo, Nobel de Literatura em 1970)

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Valha-nos Deus!

Observando a realidade do cristianismo no Brasil, posso chegar também a uma honesta e sincera conclusão: estou horrorizado com grande parte desse mundo evangélico.
(Maurício Price, médico e pastor)

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Valha-nos Deus! II

“Comigo ninguém pode – A maior corrente do Brasil” (campanha numa igreja da Grande São Paulo).

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Valha-nos Deus! III

“Peguei a igreja com US$ 25 mil e deixei com quase US$ 40 mil de doações mensais. Aprendi a extorquir o povo, tenho até vergonha de falar” (depoimento de um ex-pastor da Universal em reportagem na revista Época).

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Civilização suspeita

O ser humano é controlado por uma civilização e pelas leis. Ele não mata, não porque não tenha vontade, mas porque sabe que será castigado. Somos todos potencialmente assassinos.
(Caterina Koltai, psicanalista e socióloga, professora na PUC–SP)

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Maranata

“Talvez, quando Jesus voltar, ele me faça entender o que aconteceu” (Farah Jorge Farah, médico que matou e esquartejou a ex-amante. A Justiça lhe concedeu o direito de recorrer da condenação em liberdade).

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Isca da natureza

O sexo tem um propósito e uma intenção procriadora. O prazer sexual é uma isca da natureza que leva ao ato procriador. O prazer, o companheirismo duradouro e todo o bem-estar dele decorrentes são altamente significativos, todavia não o esgotam, nem justificam o hedonismo excessivo de ontem, de hoje e de sempre. (Guilhermino Cunha, pastor da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro)

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Poodle de divã

Dê à sua filha uma chance de casar com um rapaz decente (e não estou falando dessas malditas classes sociais) em vez de casar com um “pit bull” de boate ou “poodle” de divã.
(Fausto Wolf, colunista do “Jornal do Brasil”)

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Santa salada

Antigamente você se dizia católico. Hoje você é batizado na Igreja Católica, joga flores a Iemanjá, tem a casa decorada pelos princípios do Feng Shui e segue o budismo.
(Luli Radfahrer, professor na USP)

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Teologia em casa

“A própria Bíblia diz que Deus escreve certo por linhas tortas” (diálogo na novela Alma Gêmea).

Duas Palavras e um Abismo

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Duas Palavras e Um Abismo

Por Luiz Leite

Ao ouvir uma entrevista do jovem Piquet dando esclarecimentos acerca do seu desempenho no grande picadeiro do circo da Fómula Um, uma palavrinha me chamou a atenção. Perguntado pelo entrevistador sobre o que gostaria de dizer para o público brasileiro, ele respondeu: “Gostaria de pedir desculpas…”

É curioso como é fácil pedir desculpas… difícil mesmo é pedir perdão! São duas palavrinhas que se parecem tão próximas, mas ao mesmo tempo podem distar anos luz uma da outra. Um pedido formal de desculpa, como o do jovem piloto, é tão vazio e questionável quanto o choro sem lágrimas, uma vez que são estas que caracterizam aquele, ainda que nem sempre brotem sentidas na proporção exata do dano ou da fraude cometida.

Para pedir desculpas não é necessário rasgar o coração; admite-se um erro, mas não se chora por ele… Um pedido de perdão, entretanto, não sai espontânea e suavemente dos lábios de ninguém; vem sempre através de um trabalho de parto difícil que envolve contrações e muita dor.

Um pedido de desculpa é comum no mundo dos homens civilizados; faz parte do protocolo das boas maneiras, mas não carrega em si dor alguma, lamento algum, e por essa mesma razão, ainda que sob o verniz da etiqueta social, não produz homens melhores.

Há um verdadeiro abismo entre os dois vocábulos. Se ao pedir desculpas eu reconheço um erro, ao pedir perdão eu reconheço um pecado. Um erro ocorre como resultado de imperícia, imprudência, desatenção… Pecados, por sua vez, são maquinados na mente, gestados no coração e por fim executados a partir de uma malignidade, negada, mas intrínseca a todos os  homens.

Numa prece antiga da igreja romana conhecida como Confiteor (Eu confesso) os fiéis rezavam dizendo: “Confiteor Deo omnipotenti (…) quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa…” “Eu confesso Deus onipotente que tenho pecado em palavras e atos… Minha culpa, minha máxima culpa.”

É relativamente fácil pedir perdão a Deus. Difícil é pedir perdão ao próximo. Coisa mole é se humilhar diante de Deus numa prece chorosa; Dureza, entretanto, é humilhar-se diante do outro e conceder que ele está certo. Justificamos enquanto podemos, mesmo quando sabemos que delinquimos. Assim muitos vão vida a fora, qual delinquentes existenciais, reincidindo, incorrigíveis…

Reconhecer que erramos não exige esforço demasiado; falseamos bem estas coisas. além do mais, como já ventilado, um erro pode ser atribuido a um acidente qualquer, de cálculo, seja aritmético, geométrico ou trigonométrico… Assim conclui-se o por que da ponte que caiu, do prédio que caiu, do avião que caiu…

Admitir o pecado, todavia, é levantar o hábito da suposta santidade e expor-lhe as vergonhas. Por que o casamento caiu? por que a parceria ruiu? por que…? bem, nestes casos, não foi por conta de uma conta mal feita; Não cabe aí pedidos de desculpa. O elemento que faz ruir relacionamentos, que rompe alianças, que violenta a sociedade e defenestra as almas se chama pecado!

Não há pedido de desculpas que possa expiar a culpa pelo pecado. Enquanto o jovem piloto, e todos nós com ele, não aprendermos esta lição, continuaremos sendo um fracasso, ainda que cobertos pelo falso brilho que inebria a tantos no grande picadeiro deste circo imenso.

Qual seria o resultado se, ao invés de tentarmos esconder nossas vergonhas com as folhas de parreira da desculpa, viéssemos à público e confessássemos: “Tem misericórdia de mim porque pequei contra ti!”