Descartes e a Ciência Admirável

Descartes e a Ciência Admirável

Por Luiz Leite

Uma pergunta fica no ar com respeito à relação de Descartes com o sagrado, quando o encontramos envolvido com uma obscura fraternidade chamada Rosa Cruz, seita dedicada à busca da sabedoria esotérica. Esta tal seita, combinando elementos do ocultismo egípcio com a cabala judaica, pretendia (e ainda pretende) ser detentora de conhecimentos secretos reservados àqueles que nela fossem iniciados.

O jovem e ambicioso pensador, obcecado, buscava descobrir os fundamentos de uma “ciência admirável”, razão porque foi sem dúvida atraído pela propaganda que prometia conhecimentos ocultos. Esse fato torna o racionalismo cartesiano bastante questionável uma vez que busca conhecimento além daquilo que a razão pura e simples possa oferecer.

Como tantos outros grandes filósofos do seu tempo, Descartes crê em um Deus, e a não crença num Deus criador é por ele considerada um erro. Entretanto, crê em Deus à sua maneira. Em seu Discurso do Método, dedica um capítulo inteiro para provar a existência de Deus e a imortalidade da alma, mas em nenhum momento encontramos em suas idéias vestígios de um Deus pessoal, que interage, solidário. O seu Deus é apenas o produto de uma fria e escura abstração.

Se era um agnóstico ou ateu travestido de religioso, porque busca contato e envolve-se com a referida seita? Pouco se sabe das possíveis experiências vividas pelo filósofo durante esse período; a própria configuração da sociedade dos Rosa-cruzes, de natureza hermética, não ventila os conteúdos dos seus ensinos, nem tampouco publica onde e a que tais ensinos conduzem os iniciados. Pois talvez seja exatamente aí que Descartes cruze o limiar entre o sagrado e o profano. Engodado pela promessa de acesso à uma modalidade superior de conhecimento, reservada a poucos escolhidos, o ambicioso pensador não titubeia, “vende sua alma”.

Segundo suas próprias palavras, a tão celebrada obra “Discurso do Método” parece ter sido produzida por meios nada convencionais como aqueles comumente utilizados pelos filósofos em geral; não foi exatamente o exercício da razão que lhe logrou conceber o método que colocou o homem em dúvida para sempre. Corria o ano de 1619 quando, durante o seu envolvimento com a seita citada, o filósofo experimentou um mergulho no oculto. Este período marcaria a sua história e a história da filosofia ocidental de uma maneira profunda e definitiva.

Segundo ele, através de sonhos tidos por ele na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, as respostas para o seu ambicioso desejo de construir os fundamentos de uma “ciência admirável”, vieram como que enviadas do além.

De 10 para 11 de novembro, René Descartes, jovem francês engajado nas tropas do Duque Maximiliano da Baviera, vive uma noite extraordinária. Depois de um período de febril atividade intelectual, o dia transcorrera em meio a grande exaltação e entusiasmo: afinal, parecia ter descoberto os fundamentos de uma ciência admirável. O arrebatamento prossegue durante o sono, atravessado por três sonhos consecutivos cujas imagens o próprio Descartes interpretará como símbolos de iluminação que recebera e, ao mesmo tempo, como indicação da missão a que deveria consagrar a sua vida. Essa missão era a de unificar todos os conhecimentos humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício plenamente iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas racionais”.

É curioso que as bases seguras para um  edifício feito só de verdades racionais tem procedência completamente mística! Não é nada convencional a experiência que levou Descartes a esculpir a grande obra que desencadeou uma verdadeira revolução no pensamento filosófico ocidental, e que viria mais tarde repercutir em todas os círculos de pensamento do mundo.

A sua obra pavimenta o caminho para séculos de incredulidade que irão desdenhar o sagrado e colocar a razão no lugar da divindade, produzindo um fenômeno nunca antes registrado da história da raça. O próprio Descartes se refere a sua cruzada como uma “missão”, como nos melhores moldes das religiões em geral. Não seria de se admirar que o pensador ambicioso tenha sido visitado por forças do além na tal experiência mística onde, através de sonhos recebeu a revelação que resultou na obra famosa de sua vida.

Racionalistas do mundo todo, coloquem barbas e madeixas de molho! É muito provável que os postulados de vossa seita não sejam afinal produto da razão coisa nenhuma; É possível que um anjo torto,apesar do desprezo que nutris pela mística, lhes tenha sussurrado tais grandes idéias.

Extraido do livro ELES PROFANARAM O SAGRADO de Luiz Leite (lançamento 2010)

Homem Fragmentado

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O Homem Fragmentado

Por Luiz C Leite

Para mim, é quase impossível ler as notícias veiculadas pela mídia (que desinforma e aleija) sem colocar o homem na perspectiva histórica, sem considerar o seu longo e sinuoso itinerário até aqui. Observar o homem em seu manquejar claudicante através das páginas da história é um exercício que produz estados de perplexidade variados, proporcionando sentimentos dúbios, desde celebrações exaltadas à impressões confusas e abatimento profundo…

Entender a criatura humana é absolutamente difícil, explicá-la, impossível! Mesmo que a desmontemos, como sugeria Descartes, reduzindo-a a nacos menores, para melhor entendê-la, ainda assim nos veremos surpreendidos; Mesmo que a dissequemos, num detalhado estudo de anatomia, como Da Vinci faz com o seu homem vitruviano, ainda assim nos encontraremos com poucas respostas e perguntas de sobra.

A mim muito incomoda ver o homem frustrado, acabrunhado num ensimesmamento negativo e adoecido. Sinto assim de forma doída o fracasso dos homens. Sempre que encontro essa criatura fantástica que é o homem, acuado em um canto qualquer, como animalzinho assustado, sou tomado por indizível tristeza. Ainda que encontre essa realidade impressa na vida do outro, ainda assim dói… Dói porque o outro sou eu!!

O homem não foi projetado para a pobreza (seja ela qual for). A experiência da escassêz é uma agressão aviltante. Talhada para a grandeza, encontramos a criatura humana diminuída em todos os cantos; A nobreza deu lugar a uma mesquinhêz que não encontra paralelo em nenhum outro ser (deste mundo). Em flagelos, fragmentado, perdido, esse é o quadro. Irremediavelmente perdido. Por essa e por outras é que a raça necessita de um salvador, de alguém que, vindo de fora, lhe sirva de ponte para uma realidade outra que não aquela em que encontra-se chafurdada.

Jesus veio e disse: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”. Com essa e muitas outras afirmações, se apresenta como referência única de homem inteiro, através do qual podemos ser curados, libertos, salvos… Ousado, reivindica “Ego sum via, veritas et vita” (Eu sou o caminho, a verdade e a vida).

Enquanto não se prostrar diante do Cristo de Deus, o homem permanecerá fragmentado, perambulando em andrajos pelos séculos afora, pois, como disse o Apóstolo Pedro: “não há outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos”. Felizmente a fragmentação do homem é uma tragédia que pode ser revertida. O desfecho desta estória não precisa terminar em cacos…Basta render-se ao Senhorio do Salvador, o restaurador de homens!