Patrimônio Existencial

Patrimônio Existencial

Por Luiz Leite

Fim de ano é tempo de balanço. Ocasião comumente usada para fazer contas. Geralmente fazemos essas contas considerando quanto perdemos e quanto ganhamos em termos materiais. Sabemos, entretanto, que há outros valores envolvidos. Raramente contabilizamos as derrotas de modo correto. Há perdas que trazem ganhos. Posso ter perdido dinheiro e adquirido experiência. Posso ter perdido um emprego e adquirido maturidade… Perdemos determinados valores, às vezes, por falta de cuidado, zelo, investimento. Ganhamos com essas perdas a experiência que não se conquistaria de outro modo.

Não se consegue experiência enquanto se teoriza sobre os processos. Experiência só pode ser alcançada mediante a prática. Só se aprende fazendo, afinal. É tempo de rever seu patrimônio, de contabilizá-lo de modo mais completo. Se voce errou, só errou porque tentou… Se errou fazendo, considere os desacertos como escola. Para alguns esse ano foi um curso intensivo de perda e dor. Incrível que pareça, se visto pela ótica correta, a preciosidade do ensino no curso da perda é superior ao valor em si pelo qual tantos, nesse momento, estão chorando. Pois bem, chorar, como diz o ditado, faz parte. Há tempo de chorar, diz a Bíblia, de se recolher no canto e lamber as feridas, mas só o tempo suficiente para se recompor. Nada mais que isso!

Se você observar bem, é possível que o aparente ano difícil esteja fechando e o deixando com um patrimônio existencial mais robusto do que voce imagina. Considere. As perdas nos deixam humildes em áreas onde possivelmente éramos prepotentes. Deixam-nos atentos onde éramos displicentes. Os fracassos são reveladores. São essas pancadas que nos despertam da ingenuidade, da tolice, da arrogância, da autossuficiência… Geralmente esses prejuízos, em termos de ativos materiais, são transformados em ativos de outra ordem. Se aprendemos com a derrota e a dor, resta-nos o consolo de que podemos ter nosso patrimônio existencial acrescido de humildade, prudência, respeito, honra, amor…

Portanto, as perdas, como instrumentos pedagógicos altamente eficazes, trazem escondidas sob os seus escombros lições inestimáveis. Não se abata. Infelizmente, raríssimos são aqueles que aprendem sem ter que errar. Ainda que exortados a seguir o conselho, preferimos sempre fazer as coisas à nossa maneira. Se por acaso resolver buscar o conselho dos sábios, no ano que entra, você certamente vai errar menos, mas receio que a natureza impetuosa do velho homem ainda vai continuar querendo fazer seus experimentos. Pois bem, a escolha é de cada um. Que você tenha um ano de muitos acertos. Se porventura cometer alguns erros, pelo menos tente incorporar o aprendizado do tropeço em seu patrimônio existencial.

Anúncios

Reféns das horas

Reféns das horas

Por Luiz Leite

O ano passou muito rápido! Meu Deus, já é dezembro! Este é um comentário comum no dia a dia nesta época do ano. Há muito tornou-se uma espécie de pretexto para entabular conversa quando se padece de falta de assunto.

É fato que viajamos muito, muito rápido… O ano, entretanto, não passou rápido como se supõe. A astrofísica não publicou qualquer documento sugerindo que nossa revolução em torno do sol tenha acelerado. Permanecemos viajando a exatos 107.000 km por hora!  Os dias, por sua vez, também não estão mais corridos, como julgamos. O movimento de rotação da Terra em torno do seu eixo permanece inalterado. Continuamos girando a 1674 km por hora! Donde, pois a idéia de o tempo está passando mais rápido?

A princípio esse conceito de tempo é muito relativo. Os animais não sabem dele. Tampouco os anjos. Nós o inventamos. Juntamente com ele criamos o calendário, uma baita de uma invenção! Servem-nos bem o calendário e o relógio. Do mesmo modo que nos ajudam, incomodam, oprimem, estressam…

Tive uma experiência interessante na África há alguns anos atrás. Pregava numa aldeia no coração de Uganda. Os encontros que duraram toda a semana eram longos e tranquilos. As pessoas chegavam cedo para o culto e não se inquietavam com o passar do tempo. Notei, curioso, como ocidental, que ninguém se ocupava em checar as horas, uma vez que os cultos eram muito demorados. Percebi depois que ninguém procurava saber as horas porque ninguém tinha relógio!

Assim, não é o tempo que voa, nós é que perdemos o equilíbrio. É lastimável observar a agitação do ser humano urbano em sua rotina atropelada; Como um cavalo sob o estalo do açoite do tempo, o homem segue, resfolegando, atarantado, o que resulta em adoecimento do corpo e da alma. Um preço alto demais para uma vida, em muitos sentidos, sórdida demais!

O velho Moisés já há muito, tendo escapado do cativeiro do calendário e de seu turbilhão desestabilizador, ora com muita propriedade e pede ao Eterno: “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal modo que alcancemos um coração sábio.” (Sl 90.12)  É bom que oremos assim também para que não iniciemos o próximo giro em torno do sol apressados demais e sem tempo para desfrutar da paisagem.

 

A Vida Em Três Tempos

Caros Leitores, minha editora achou por bem que eu parasse com a publicação no blog do meu livro A PEDAGOGIA DO DESERTO – Um Convite ao Desconforto.  Segue o último trecho compartilhado aqui. Em breve o livro estará disponível. Boa Leitura! 

 

A vida em três tempos

Por Luiz Leite

 “Que és la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mejor bien és pequeño: que toda la vida es sueño y los sueños… sueños son.”

                                                               Calderón de La Barca

 

Como no ocidente racionalizamos mais do que intuímos, temos a tendência de perceber o mundo de forma mais encorpada, por ser este material, e dispensar à vida e à espiritualidade uma consideração diminuta. Concluímos que o mundo é grande e que a vida é curta, pequena. Polarizados nestes extremos, desenvolvemos concepções errôneas. Seria a vida assim tão pequena. Segundo o poeta Gonzaguinha,“há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo, é uma gota, é um tempo que não dá um segundo…”

“Um nada no mundo?” Seria o mundo maior do que a vida? Depende. Como sempre, tudo depende do ângulo de onde se observa uma coisa e outra. Se considerada segundo a ótica de Epicuro (314-271 a.C.), filósofo grego antigo que não cria que a alma pudesse resistir o golpe desintegrador da morte, a vida encontraria o seu “fim” com o colapso do corpo. Não haveria nada mais com que se ocupar.

Se por outro lado a vida prossegue, como sustenta o pensamento cristão e o de outras religiões que crêem na imortalidade da alma, então a vida é maior. Todavia, como não temos instrumentos para fazer tal verificação, ficamos diante de uma situação de difícil solução. O mundo é conceito concreto, passível de ser capturado, a vida, por sua vez, escapa-nos para os domínios do subjetivo.

Fato é que, num primeiro instante, a vida como a conhecemos, se dá no mundo, no âmbito concreto do tangível e pode até mesmo parecer insignificante diante da imponência avassaladora da matéria. Engano. Equivoco conceitual. Ainda que a ótica seja estreita e a compreensão obtusa, a vida é maior. O subjetivo sempre entornará para além dos limites da objetividade.

Não deveríamos insistir em fazer contas e submeter tudo à exatidão fria e inflexível de uma operação aritmética. O código da vida jamais será desvendado pelos expedientes da lógica. Poderemos avançar dissecando os componentes da matéria e descrevendo sua dinâmica, mas não passaremos da fronteira onde a bruma misteriosa e permanente paira sobre a bifurcação que separa mundo e vida. O autor do livro de Eclesiastes, o mais filosófico da bíblia hebraica, diz que o espírito (vida) retornará para Deus que o deu, quando o “cântaro (corpo) se quebrar junto à fonte.” A vida não está circunscrita ao corpo. Transcende.

Duas Leituras

Caros Leitores, segue mais um trecho do livro. Os textos aqui publicados são escolhidos do livro A PEDAGOGIA DO DESERTO – Um convite ao desconforto. Boa Leitura! 

 

Duas Leituras

O nosso mundo, no que respeita ao planeta, está dividido em duas grandes porções geográficas distintas que chamamos de Oriente e Ocidente. Os termos que se referiam a regiões geográficas acabaram se tornando sinônimo de mentalidades. O Oriente é místico e por essa razão mais espiritualista; o Ocidente, por sua vez, é lógico e materialista. O materialismo ocidental apresenta-nos o homem que supervaloriza o mundo, em sua acepção material, e entrega-se ao hedonismo nas suas mais variadas versões. O misticismo oriental apresenta-nos um homem mais despojado, espiritualizado, com certo desprezo em relação às coisas materiais, espiritualizando a vida em todas as suas formas.

Encontramos, todavia, no oriente, a influência materialista do ocidente, e no ocidente a influência mística do oriente. O ocidente produz ciência, e o oriente produz religião. É praticamente impossível para o homem do ocidente compreender a “lógica” do homem oriental quando, por exemplo, um monge budista ateia fogo ao seu próprio corpo, ou um guerreiro muçulmano entrega a sua vida num ataque suicida, convicto de que a recompensa que o aguarda vale o sacrifício. Esse desprezo e desapego para com a vida no mundo aponta para a importância sobremodo enfática que o homem oriental deposita no além.

De igual modo, quando os orientais observam a leviandade dos modos do ocidente, escandalizam-se em face à maneira tão materialista com que os ocidentais vivem no mundo. Estamos situados em dois extremos. As leituras que fazemos do mundo e da vida são tão diferentes que não parece haver possibilidade de conciliá-las.

Há muitos séculos Aristóteles já divergia profundamente de seu pupilo Alexandre na arena da política externa. Achava o “Intelecto”, alcunha pelo qual Platão o chamava, que não era possível helenizar o mundo oriental como sonhava Alexandre. Era inútil tentar impor a cultura grega sobre o oriente. A distância entre um e outro é intransponível. Alexandre, que mais tarde se tornaria, o Grande, não acatou o ensino do ilustre mentor e, em seu apetite desenfreado por poder investiu contra as terras do oriente, conquistou-as, e até tentou ocidentalizá-las, mas não teve êxito. Ainda que o mundo conhecido de então estivesse sob o controle de Alexandre, a vida não estava. Morreu o homem e com ele sepultou-se também o sonho.

Temos visto em nossos tempos a mesma tendência. O ocidente, capitaneado pelos EUA, tentando impor a democracia e os valores ocidentais no Oriente Médio, pelos meios da força bélica. Certamente Aristóteles ainda deveria ser ouvido neste quesito. Aquilo que o Intelecto percebeu há mais de dois milênios atrás permanece oculto aos poderes ocidentais que insistem em uniformizar as mentes de mundos em conflito.

Esses dois blocos que formam o nosso mundo funcionam quase que exatamente como os dois hemisférios do cérebro humano. Segundo o que hoje é fato, resultado dos avanços da neurologia moderna, o hemisfério esquerdo do cérebro seria o responsável por gerenciar os fatos a partir de uma lógica racional, linear, enquanto o direito administra vida com os recursos da intuição, produzindo compreensões desvinculadas da lógica. São as duas faces, por assim dizer, de uma mesma moeda, dois aspectos fundamentais na composição da mente, os quais fazem da mesma, uma unidade completa e complexa.

Supervalorizar a lógica racional desprezando o valor e lugar da intuição, e vice versa, é um erro grosseiro de juízo. Ambos são importantes para nos providenciar uma conceituação completa do mundo e da vida. Quando desprezamos um e supervalorizamos outro, empobrecemos nossa cosmovisão e nos tornamos reféns do preconceito. E este tem nos matado.

Embora o Ocidente seja jovem em termos de civilização, em termos comparativos, uma vez que o Oriente já apresentava civilização avançada enquanto o Ocidente vivia submerso na barbárie, os bárbaros caucasianos ultrapassaram o Oriente no campo das ciências. Hoje, a tecnologia que floresce no oriente, foi transferida para lá pelo ocidente; por outro lado, tudo o que sabemos de religião no ocidente, foi trazido de lá para cá.

A mente ocidental é materialista e linear, e no seu reducionismo cartesiano venera o racionalismo, ao passo que a mente oriental, espiritualizada e holística, preza a intuição e a mística. Por essa razão, o oriente vem ao ocidente buscar tecnologia e este vai ao oriente buscar religião. Não é, portanto, de admirar que todas as grandes religiões tenham o seu berço na porção oriental do mundo e que a maior parte das conquistas tecnológicas aconteçam no Ocidente! É também notável que o Ocidente seja uma usina geradora de prêmios Nobel, ao passo que o Oriente seja uma imensa incubadora de “santos”.

Não deveria existir tal coisa como razão versus intuição. Poderíamos extrair o melhor desses milênios de reflexão e incansável inquirição, e fazer uso mais inteligente de tão grande acervo de conhecimento acumulado. Possivelmente, construiríamos um mundo melhor e desfrutaríamos de uma vida mais equilibrada, mas, infelizmente, parece que temos seguidamente feito a opção pelas águas perigosas do extremo.

Ps.: Deixe o seu comentário expressando o interesse pela continuação.