Uma vela pra Deus e outra pro diabo

 

 

 

 

 

 

 

Uma vela pra Deus e outra pro Diabo

Por Luiz Leite

Ainda que de certo modo desconsiderada pelos grandes atores da política nacional, a religião deixa de ser simples peão no tabuleiro da disputa eleitoral e assume status de peça importante em tempos de campanha. Um deslize por parte de um candidato descuidado na abordagem de temas sensíveis pode colocar uma eleição a perder. É famosa a campanha perdida por Fernando Henrique Cardoso pela prefeitura da cidade de São Paulo quando, em debate, vacilou em responder à pergunta se cria em Deus. Dizem os especialistas que foi nesse ponto exato que o placar virou em favor do falecido Jânio Quadros.

Políticos, salvo raríssimas excessões, têm a capacidade de se transformarem, como camaleões, ajustando-se manhosamente aos ambientes de diversidade complexa. Em época de campanha é comum ver certos candidatos acenderem, literalmente, “uma vela pra deus e outra pro diabo” ao participarem de cerimônias religiosas cujas doutrinas divergem inteiramente umas das outras. Ora estão entre os representantes de uma comunidade judaica, ora num culto evangélico pentecostal, ora no santuário católico de Aparecida, ora lavando juntos com  sacerdotes do candomblé as escadarias da igreja do Bonfim…

Sua aparição em um culto religioso, todavia, não é suficiente para convencer os religiosos de que este ou aquele candidato é simpático à sua causa. Os fiéis encontram-se cada dia mais envolvidos no processo democrático e fazem questão de saber onde realmente se posicionam os postulantes. No caso do universo cristão, seja católico ou protestante, o sinal já foi enviado: cuidado! temos o poder de mudar o rumo das coisas. Ainda que destoem num ou noutro ponto de doutrina, católicos e protestantes aglutinam-se e defendem em uníssono opinião semelhante em torno de temas como aborto, pena de morte, homossexualismo entre outros. Devido ao poder de influência e mobilização de milhões de fiéis, a grande mídia nessas ocasiões se vê obrigada a ouvir as lideranças cristãs e dedicar espaço especial à opinião das mesmas em suas publicações.

As revistas Carta Capital, Época e Veja trouxeram, simultaneamente, como matéria de capa em uma  edição de outubro, o tema sempre polêmico do aborto. Praticado clandestinamente em clínicas dirigidas por profissionais de probidade duvidosa, o aborto ganha relevância no debate democrático com poder de influenciar os resultados das urnas. Os candidatos esforçam-se para não desagradar o eleitorado, elaborando discursos de interpretação dúbia, na tentativa de hipnotizar e confundir os reais, mas lamentavelmente desinformados detentores do poder de decisão do pleito.

Sinceramente fico curioso ao ver ícones da cena evangélica emprestando sua voz e poder de influência a candidatos que nada tem a ver com sua confissão de fé. Por que setores do pentecostalismo como a ala da Assembléia de Deus, dirigida pelo Bispo Manoel Ferreira faz campanha para a candidata do PT? Por que o jovem cantor de grande sucesso no meio gospel, fez campanha e emprestou sua bela e ungida voz ao candidato (ativista gay) ao governo de Minas? Por que o grande e influente telepregador retira seu apoio a uma candidata respeitada e reconhecida como cristã e migra para o ninho do tucanato? Será que é apenas a expressão sincera de suas convicções políticas? Bom seria que fosse. Gostaria que fosse. Será que também não estamos acendendo duas velas??  Os três citados, todavia, não estão desacompanhados. O vídeo a seguir revela alguns outros.

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Maquiavel, Militância e Ética

Maquiavel, Militancia e Ética

Por Luiz Leite

“Aquele que quer ser tirano e não mata a Bruto e o que quer estabelecer um Estado livre e não mata os filhos de Bruto, só por breve tempo conservará sua obra.” (Nicolau Maquiavel)

Ao contrário do que se pode pensar, Maquiavel não foi um cara “maquiavélico”, no sentido mais demonizado que o termo assumiu. A adjetivação oriunda de seu nome não deveria se aplicar a ele. O que fez esse formidável pensador político foi identificar as regras desse jogo intrincado e revelá-las àqueles que porventura imaginam ser essa arena lugar para ingênuos.

Ao tratar de política, Maquiavel fez o que ninguém antes havia feito. Abordou a questão de forma realista, como ela é, e não como idealmente deveria ser. Não há considerações delongadas acerca da honra e da ética. Aquele discurso que recorre à religião e moralidade soa por demais hipócrita aos seus ouvidos. De algum modo Maquiavel está dizendo: “Vamos ser francos aqui. Essa arena não é lugar para santos… O uso da devoção é desejável, mas o emprego da força é necessário, seja ela de que modo for.”  A frase pela qual é mais lembrado: “Os fins justificam os meios”, ainda que erroneamente compreendida – segundo os especialistas quis dizer que os fins determinam os meios – expressa bem que o labor político nem sempre se sujeita às regras éticas, como um beato se esmerando para obedecer os preceitos de seu credo. Os fins determinam os meios a serem utilizados para que os mesmos sejam alcançados; As manobras, os segredos e denúncias, os subornos, o tráfico de influência, são algumas das contas desse enorme rosário, geralmente recitado em todas as refregas dessa natureza.

É impossível precisar quando exatamente a humanidade testemunhou suas primeiras escaramuças políticas. Em tempos remotos nalgum lugar nos enclaves férteis do Crescente, nas úmidas florestas tropicais das américas, nas savanas africanas ou nas pradarias intermináveis do coração da Ásia, homens mediram forças e armas para assegurar o controle sobre o seu grupo. Primeiro foi a força bruta. Não apenas os feios e fedorentos Neandertais se utilizaram desse expediente macabro para se impor. O presunçoso Homo Sapiens, desde que teoricamente emergiu das cavernas lúgubres para inventar a civilização, também tem feito o mesmo.

Ainda que continuemos nos matando – os métodos, hoje refinados, garantem suavizar o impacto da barbárie – já não se faz uso da borduna e do tacape. Inventamos a militância política, um jeito manhoso de se passar a perna nos opositores, sem ter que necessariamente atravessar-lhes com uma lança. Uma das acepções do termo “campanha” é guerra; Um político em campanha não é apenas um bom cidadão querendo cuidar dos interesses da Polis, mas um dos reclamantes à coroa. Ao entrar numa batalha para tentar assegurar seu naco na partilha dos despojos, não é raro que esses contendores usem todos os recursos disponíveis.

Política sempre envolveu violência. Os primeiros governadores dos povos foram guerreiros que não hesitavam em cortar as cabeças de seus desafetos. Assim, os meios militares presentes na disputa pelo poder desde há muito revelam o caráter belicista desse mister; Numa guerra muitas vezes a primeira coisa que se anula são as regras da ética, e isto pode ser verificado em todo tipo de campanha, desde uma disputa de grande proporção até, pasme o leitor e admita constrangido, uma eleição de condomínio! (no meu prédio de apenas 6 andares já presenciei isto!)

No que respeita a esse condomínio continental da terra brasilis, vemos nesses dias, como em toda campanha, as denúncias, os dossiês, calúnias, farpas, revelações, golpes baixos, visando destruir o adversário. Eu, como certamente voce também, recebi um a enxurrada de emails retratando uma das candidatas à presidência como a um demônio, vestido de Prada, é claro. Não daria o meu voto à tal candidata de modo algum pois, ainda que tenha apoiado o partido até o último pleito, perdi completamente a confiança em seu discurso (haja lama). Daí, entretanto, a demonizar a candidata da forma como tenho observado, acho “maquiavélico” demais. Seria como partilhar dos mesmos valores que contornam e adornam a mentalidade daqueles que se lançaram na disputa sem se importarem com os meios, desde que atinjam os fins desejados.

Curiosamente, uma segunda candidata (fato inédito pois na nunca na história desse país tivemos duas mulheres na corrida pelo direito de morar no palácio do planalto) garante numa de suas entrevistas que sua postura para com os adversários, como parece ser próprio do seu perfil, será justa. Neste ponto torcerei por ela e contra Maquiavel que generalizou: “Todos os profetas armados venceram, e os desarmados foram destruídos.” Seria um sonho ver o velho Nicolau queimar a língua e assistir aquela moça magricela, de origem humilde e saúde frágil subindo a rampa do palácio!