Jorge de Capadócia, o Santo Guerreiro

Jorge de Capadócia

Por Luiz Leite

A história (ou estória) de Jorge (celebrado no dia 23 de abril) é envolta em mistério. Na verdade, não há registro que possa conferir o mínimo de historicidade à sua vida ou morte. O pouco que se tem, o relato sobre sua Paixão, segundo consta, foi considerado apócrifo já no século VI pelo decreto Gelasiano. Sabe-se, entretanto, que era da Capadócia, região da atual Turquia.

Jorge foi um soldado romano e mártir cristão (A salada sincrética da umbanda o identifica como ogun, no Rio de Janeiro  e oxóssi, na Bahia). Ainda que não se tenha prova histórica de sua existência, é de admirar que até hoje encontrem-se, em tantas partes do mundo, pessoas que, movidas por uma fé equivocada, dirijam-lhe preces e afirmem ter nele um protetor fiel.

Por que razão o túmulo de Jorge passou a ser alvo de peregrinações por volta do sec IV? O que tanto incomodou Saladino, o comandante otomano, que o levou a destruir o tal sepúlcro e a igreja que fora construída em sua honra? Que há com esse Jorge? O que ele fez que deixou essa marca tão impressionante?

A lenda conta que Jorge teria libertado uma cidade  que vivia sob o terror de certo dragão que habitava as profundezas de um lago e que de quando em vez vinha à superfície trazendo morte aos seus habitantes apenas com seu hálito… Os moradores daquele lugar, para aplacar a sanha da fera  resolveram oferecer-lhe, ocasionalmente, uma virgem em sacrifício.  As moças que eram escolhidas por sorte não tinham como escapar.

Foi numa dessas ocasiões que Jorge teria aparecido. Estava sendo oferecida ao monstro uma princesa. Jorge desembainhou sua espada e enfrentou o bicho, que logo foi domado e tornou-se manso como um cordeiro.  A moça, salva, e agora protegida por Jorge, entra na cidade puxando o horrível dragão por uma coleira. Jorge anuncia aos apavorados moradores do lugar que não precisavam mais temer a besta.

O que eu gosto em Jorge? Ele declarou em alta voz que havia vindo em nome de Cristo, para por fim àquela situação, e acrescentou que  tudo o que a população da cidade tinha que fazer era converter-se a Cristo e ser batizada! Esse Jorge era sem dúvida um crente daqueles! É uma pena ver o que os idólatras fizeram com essa figura incrível que foi o irmão Jorge!

Sua morte fechou com chave de ouro o testemunho de fé que Jorge deu durante sua vida abreviada. Por recusar-se a cultuar os deuses do império Jorge foi submetido a suplícios atrozes; Não recuou em sua fé, antes, sustentou sua fidelidade a Cristo até o fim, quando lhe decapitaram. Sua firmeza  inspirou milhares de outros cristãos à darem testemunho de sua fé mesmo em face ao holocausto.

É lamentável que as pessoas, ao invés de se inspirarem em Jorge para desenvolverem uma fé cristã genuína, permaneçam na prática absurda da idolatria, que sem dúvida o próprio Jorge jamais aprovaria, uma vez que ele mesmo morreu por recusar-se a dar culto a outro, senão à Deus! Provavelmente, se pudesse, Jorge desabonaria completamente qualquer culto a si mesmo e bradaria em alta voz pela cidade, como fez na estória referida: Convertam-se a Cristo e sejam batizados!!!

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Ordem no Caos

Ordem no Caos
Por Luiz Leite

Texto publicado na revista Eclésia, edição de Fev/10

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Fiquei um pouco atordoado ao chegar à Índia. Voce possivelmente jamais viu tanta gente, a menos que tenha estado na China. Nova Delhi, é surreal. Inacreditável. Desorienta. A sujeira, a desorganização, a ausência de um padrão lógico que faça sentido para a mente ocidental, nos deixa algo zonzos… É como um formigueiro. A única diferença é que o formigueiro tem certa organização… Depois de algum tempo observando intrigado a incrível confusão, percebi que a polêmica teoria do caos aos poucos se ia confirmando. Existe mesmo alguma ordem no caos? Parece que sim. Não dá para entender, por exemplo, como o trânsito na Índia funciona sem que haja uma trajédia de grande monta diariamente. Todavia, funciona. Existe, portanto, ordem no Caos. O meu silogismo talvez não esteja bem alinhavado, mas é mais ou menos por aí.

Os motoristas dirigem loucamente, businando desesperadamente, numa verdadeira balbúrdia que mais parece a Corrida Maluca dos mestres do cartoon, Hanna e Barbera. Voce  vai se sentir numa aventura inacreditável ao tomar um taxi em Nova Delhi. As emoções da corrida vão trazer o seu coração da sua segura zona de conforto para as raias do desespero… Impossível não se “emocionar”, dar alguns gritos,  risadas nervosas, e também dar glória a Deus depois de pagar a corrida, pelo simples fato de estar descendo do taxi inteiro. Quem conhece a Índia sabe que não estou exagerando.

Numa dessas corridas conheci Vidji, um dos muitos milhões de simpáticos indianos. Ao começarmos a conversa percebi logo de cara que estava diante de uma daquelas pessoas simples e absolutamente agradáveis com quem bater um papo. Depois de algum tempo de papo o assunto acabou caindo na arena das religiões. Perguntei a Vidji quem era o seu Deus para então ouvir a resposta mais inusitada a uma pergunta que já tive na vida. O indiano respondeu: “O meu deus é voce!” Meio atônito perguntei: “Como assim?” Ele respondeu:”Meu deus é quem me sustenta, e quem me sustenta são os clientes…”

Ao perceber como eu fiquei surpreso diante da resposta, e também para não ofender seus outros deuses, apontou logo para as fotos de várias divindades hindus que carregava no painel e disse, procurando apresentar aos seus outros deuses uma reverência nada convincente: “É claro que também adoro ao senhor Ganesh, ao senhor Shiva…” Diante do rosário de deuses que ele ia apresentando perguntei a queima roupa: “Afinal, qual dentre todos esses é o verdadeiro deus? Confesso que não estava preparado para a resposta. Mais uma vez seria surpreendido pela resposta do meu já quase amigo indiano. Ele simplesmente respondeu: “Não sei!” e acrescentou: “Para dizer a verdade, me sinto confuso com respeito a isso…”
Abriu-se a porta para a evangelização. Lá estava ela, escancarada, e melhor, pedindo que eu entrasse e me fizesse em casa. “Vidji – disse com intimidade chamando o meu amigo pelo nome  – a Bíblia diz que…” É, entretanto, muito complicado dizer para alguém que não tem qualquer noção da importância da Bíblia, que a Bíblia diz isto e aquilo… Ele poderia muito bem dizer: “E daí?”  Mas a empatia já criada não permitiria movimentos bruscos. Apresentei Jesus a ele como o único e verdadeiro Deus, tomando o cuidado de não ofender sua crença. O cristianismo, entretanto, é absolutamente exclusivista… se Jesus é o único digno de culto, de adoração, se é o verdadeiro Deus, então quem são os outros?

Partindo da base que ele mesmo me dera, ao dizer que se sentia confuso com respeito ao verdadeiro Deus, perguntei: “Vidji, voce sinceramente gostaria de conhecer o verdadeiro Deus?” Ele respondeu que sim. Desafiei-o a fazer um teste e dei as orientações. Disse-lhe: “Voce vai chegar em casa e fazer suas orações a Jesus, pedindo a ele para te mostrar quem é o verdadeiro Deus.” A acrescentei: “Ore com honestidade e prepare-se! voce vai ter a experiência mais incrível de sua vida!”

Parecendo ter ficado curioso, logo perguntou, como se já contabilizando o peso das decisões que teriam que ser tomadas: “Isto quer dizer que eu vou ter que ir para igreja dos cristãos e me tornar cristão também?” Ao que respondi: “Não, não estou dizendo nada disso. Quem vai dizer o que voce terá que fazer é o Senhor Jesus… Ele vai te mostrar quem é o verdadeiro Deus, e ele mesmo vai te dizer o que voce terá que fazer.”

Em meio ao caos das religiões e ao engano dos deuses falsos, é possível encontrar ordem; Jesus continua dando sentido ao mundo caótico dos homens,ainda que tudo pareça tão confuso e absurdo. É bastante improvável que eu venha me encontrar com Vidji novamente em meio a mais de um bilhão de indianos, mas levei a impressão de que algo acontecera no coração daquele homem. Paguei a conta e desci do carro feliz por estar saindo com minha vida, e mais ainda por ter levado Vida à vida do meu amigo.