A Lógica dos Loucos

loucura

A Lógica dos Loucos

Por Luiz Leite

O mundo está, novamente, por um triz! Mais uma vez rumores de que o fim está às portas impressiona e amedronta milhares de pessoas ao redor do globo. Há tanto tempo os homens vem marcando data para o fim do mundo, que causa admiracão como até hoje, após tantos anos de profecias fraudulentas, tais profetas ainda encontram adeptos que se assentem atentos e atônitos aos seus pés, dando-lhes total credibilidade.  A constagem regressiva dos fatalistas repete o coro de uma velha e desgastada nota que, como mantra sombrio, se esforça para precipitar o fim. Esses fatalistas, muitos dos quais frustrados, portadores de uma espécie de misantropia mórbida, parecem ansiar por um evento que destrua a civilização e o mundo tal qual o conhecemos.

O dia 21 de Dezembro de 2012 será o início do fim. Por todo o mundo preparativos estão sendo feitos para enfrentar essa grande transição que ninguém sabe ao certo do que se trata. As “autoridades” sobre o assunto, gurus da “Nova Era”, afirmam que a humanidade passará por uma transformação profunda; outros afirmam que o caso é mesmo de aniquilação não só da humanidade como do próprio planeta, em razão da colisão “certa” com um planeta de nome engraçado; há ainda a turma da ufologia que sustenta que acontecerá uma intervenção por parte de uma civilização extraterrestre que blá, blá, blá…

Boatos que correm por aí dizem que o astro de cinema Tom Cruise gastou 10 milhões na construção de um abrigo subterrâneo debaixo de sua mansão na California para se prevenir da fúria apocalíptica. Loucura! voce diria, e eu retrucaria: Põe loucura nisso! A loucura de cada um segue uma lógica aparentemente louca para os outros. Para aquele “louco” específico, entretanto, faz todo o sentido do mundo! O cidadão deste lado de cá do planeta, representante orgulhoso da civilização ocidental, julga como loucos os homens bomba que vez por outra incendeiam os céus das cidades do Médio Oriente. Como será que eles, do lado de lá, nos julgam quando disparamos contra nossas crianças em uma escola?

Mês passado quando estava em NY oramos e choramos pelos pais de duas crianças mortas por uma psicopata… Na semana que passou, mais uma vez um golpe brutal manchou de pavor e sangue a alma americana. Dor e desesperança atingiram em cheio o coração dos EUA… 21 crianças entre 6 e 7 anos assassinadas friamente por um louco… Qual era a sua lógica? Incrível que pareça, para ele havia uma lógica. Se pudéssemos ter uma conversa franca com o matador insuspeito alguns dias antes, certamente teríamos  tido a oportunidade de conhecer suas “razões”.  Na base de seus argumentos desconexos encontraríamos o vazio, a escuridão, a dor, a rejeição, lacunas não percebidas e não preenchidas, materiais estes essenciais na construção da lógica dos loucos.

O fim do mundo já chegou antecipado para os pais, mães, avós e demais parentes daqueles meninos e meninas… Muitos deles, possivelmente, jamais se recuperarão deste trauma. Hoje enquanto almocava com amigos, um deles me  perguntou acerca dos EUA e porque tais coisas acontecem por lá com tanta frequencia. Certamente, argumentamos, uma das razões é o afastamento do sagrado. Profanando o sagrado como se tem feito ostensivamente, o homem se torna cada vez mais vazio, cada dias mais doente. O distanciamento de Deus, não apenas nos EUA, está adoecendo a sociedade moderna num ritmo mais acelerado do que podemos imaginar. Temo, pensei mas não verbalizei, que ficaremos muito mais chocados ainda com o que está porvir! Um colapso coletivo do psiquismo está gerando um número por demais grande de desajustados que roubarão o sono do mundo. Julguem como quiserem os céticos, mas o homem desvinculado da transcendência é um homem morto!

Anúncios

Membros do Clã

Comofazerumcachorroparardebrigar

Membros do Clã

Por Luiz Leite

Fui para o parque na tarde de segunda para praticar a contemplação, essa disciplina antiga, minha velha companheira. Estava tudo muito calmo. O parque quase deserto. Deitei-me na grama e me pus a contemplar, esse exercício que resume-se a descansar à sombra de uma árvore, observar a natureza ao redor, flores, folhas, pássaros, ouvir seu canto… Meu Deus, há música em tudo!  No meu caso não havia pássaros cantando mas havia árvores, grama e vento… Quando não se tem pássaros mas se tem árvores e vento, então seguramente se ouve música.  Deitado sob a árvore frondosa, absorto pela beleza dos acordes que o vento produzia ao “tocar” a cabeleira farta das árvores, lentamente me ia transportando  para a minha Shangri-lá imaginária.

Quando me aproximava já da ponte que na contemplação separa os homens do burburinho externo e interno, fui bruscamente trazido de volta à realidade crua dos conflituosos companheiros de peregrinação… Gritos! Gritos desesperados feriam o silêncio até então paradisíaco. Levantei-me sobressaltado e ao longe avistei uma jovem senhora que gritava ao ver seu pequeno Poodle atacado por outro cão de porte imenso… A senhora, com custo, ralhando e chutando desesperadamente, tirou seu cãozinho das presas daquele perverso parente… Nisto aparece o dono do agressor e outra batalha tem início… Preparei-me para intervir ao perceber que os ânimos se avolumavam e os elogios se encrespavam… “Seu maldito!”, “Sua louca!” Terminava ali o precioso momento de ambos no parque. Interrompia-se também o meu.

O cão grande de volta na coleira, parecia sorrir de satisfação como quem diz: “Sentiu quem manda aqui, ô Mauricinho?” O pequeno no “colo” de sua dona, ainda “chorava” com ganidos comoventes devido ao susto. A dona, resfolegando com a ira de uma mãe cuja cria acabara de ser agredida, afagava-lhe os pelos impecavelmente brancos e macios, obra de salão e, sussurrando palavras próprias do misterioso coração materno, foi-se, esbaforida, acalantando o seu rebento. Lá fiquei eu, algo estatelado com a cena forte de agressividade envolvendo cães e homens! Depois de 12 mil anos de uma parceria muito bem sucedida, pensei lá com os meus botões: “A cachorrada, definitivamente, já faz parte da família. Qualquer ato de agressão contra um cão vai ser interpretado como uma agressão a um membro do clã!”