Eu, você, Demóstenes e Cachoeira…

Eu, voce, Demóstenes e Cachoeira…

Por Luiz Leite

Eu, você, Demóstenes e Cachoeira… Talvez você proteste veementemente e brade: “Não me conte entre os tais!” Mas, o que eu, você, Demóstenes e Cachoeira temos em comum? Muitas coisas, é claro, mas o vínculo mais fundamental que nos associa aos dois é o fato de pertencermos à grande família adâmica. Temos uma herança comum.

Desde o Éden temos tido muita dificuldade em admitir nossas faltas, de assumir a nossa parcela de responsabilidade quando as coisas saem errado por escolha, descuido ou dolo. Sempre tentaremos nos justificar, e neste processo, para a nossa mais profunda vergonha, recorreremos aos recursos mais desprezíveis que se possa imaginar.

É compreensível que façamos nossa defesa negando, dissimulando, comprando testemunhas, forjando provas… afinal a alma é mesmo corrupta e enganoso o coração. A defesa, o argumento questionável da justificativa, todas estas coisas fazem parte do repertório de mecanismos que utilizamos para preservar nosso couro.

Foi-me bastante difícil e também lamentoso ouvir do Senador Demóstenes Torres que não sabia das articulações criminosas de seu associado, talvez a essas alturas já não tão amigo, Cachoeira! Parece que esta é a moda em Brasília: Negue de pé junto até o fim que a gente vai tentar tirar você desta!

O Lula não sabia de nada do que acontecia bem debaixo de suas barbas. Maluf nega até hoje serem suas as assinaturas que comprovam seus crimes por lavagem de dinheiro. O único caso conhecido de um mea culpa em rede nacional ocorrido algum tempo atrás nos levou a acreditar que estávamos fazemos progresso. Para nossa tristeza, o moço que foi à tribuna reconhecer seu erro em lágrimas, pouco tempo depois voltaria a protagonizar outro capítulo desse faroeste caboclo atuando na contramão da lei.

Cachoeira por sua vez está tranquilo. Ladeado pelo advogado mais badalado da república, teve o atrevimento de sorrir diante de uma CPI que, queira Deus, não termine em pizza como tantas outras. O cinismo, esse mecanismo odiável, é também uma forma de escamotear a culpa e tentar dar sustentação ao status quo.

Apesar de tudo isto, não devemos demonizar Demóstenes nem Cachoeira. Ainda que alguns possam se considerar referência para o norteamento da ética, como eles, somos todos filhos de Adão. O apóstolo Paulo disse, que a única esperança de escape dessa realidade pantanosa em que existimos é Cristo em nós. De outro modo estaríamos tão perdidos quanto eles. É bom lembrar, portanto, que ainda que estejam assim “tão” perdidos, podem ser “achados” a qualquer momento, bastando que um raio de luz daqueles que atingiu a Saulo De Tarso os atinja também. Pronto. Nos chamarão de irmãos!

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Telhado de Vidro

Telhado de Vidro

Por Luiz Leite

Durante os dias, semanas e meses em que o escândalo político chamado “Mensalão” roubou a cena e monopolizou as mídias, o Senador da República Demóstenes Torres representou um dos principais papéis de bom moço, figurando como verdadeiro paladino da Ética, bastião da moral, guardião da justiça. Sentíamo-nos seguros ao ouvir seu discurso. Passava-nos a impressão de que nem tudo estava perdido, de que restava em Brasília alguma probidade. A prevaricação se instalara acintosamente pelos palácios do planato afora, o diagnóstico era câncer sim, maligno, mas para nosso alívio não era caso de metástase. Tínhamos Demóstenes. Cobrando intervenção cirúrgica e punição exemplar para todos os envolvidos nas tramóias sórdidas da politicagem execrável que se fazia no Planalto Central do Brasil, o senador não deu trégua aos meliantes de colarinho branco.

Passados alguns poucos anos, para nossa mais profunda decepção, encontramos atolado em lamaçal de catinga não menos fedentina que aquele em que se emporcalharam José Dirceu, Marcos Valério e demais asseclas, o herói que, com discurso enérgico bradou em defesa da democracia e do Estado de direito. Alinhado a um mestre da traficagem, Demóstenes vendeu-se pois, afinal, como sustenta o adágio, todo homem tem seu preço. Exposto, verificou-se que o senador tinha também telhado de vidro. A lama está nos sapatos de fino cromo alemão; O terno fino de grife caríssima também encontra-se manchado… Ainda que afirme com serenidade questionável que provará sua inocência, já se ouve dos seus próprios pares que sua defesa é insustentável.

A prova mais contundente e constrangedora foi apresentada em rede nacional. Ouvir um parlamentar da mais alta categoria dirigir-se a um contraventor como o senhor Carlinhos Cachoeira, como “professor”, é realmente preocupante. Precisei ver o vídeo mais uma vez para checar se de fato tinha ouvido aquilo que julgava inacreditável. Se um senador da república dirige-se a um contraventor como “professor”, então temos as respostas para todas as perguntas; Explica-se como se processa a corrupção neste país. Há uma escola! Vê-se quem são os seus mestres! Se o Sen. Demóstenes, que com sua cara de bom moço convencia a opinião pública, aprende com o “professor” Carlinhos Cachoeira, com quem aprendem os parlamentares barra pesada, quadrilheiros comprovados?

Em meio à esse absurdo e revoltante rosário de casos intermináveis de corrupção, onde senadores receberem favores de bicheiros, deputados abusam de suas prerrogativas e conferem a si mesmos salários além da conta, uma afronta ao contribuinte, surge o Deputado Tiririca lamentando que o partido não tenha aprovado seu nome para candidatura à prefeitura da cidade de São Paulo… Pode parecer engraçado. Alguém pode dizer que é mesmo coisa de palhaço mas, parece que Tiririca tem planos para ir mais longe.  Em mais de um ano de mandato não faltou a uma sessão sequer!!! Como é? Pois é. Atento à cada moção, o palhaço tem se mostrado mais sério do que se esperava. Tomara que tenha se matriculado na escola da boa política e eleja como mentores homens e mulheres de boa fé que lhe ensinem a “graça da garça”. Qual é a graça da garça? A graça da garça é “a arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.”