Teologia a La Carte

Teologia a La Carte

Por Luiz Leite

***Artigo publicado na revista Eclésia (Coluna Pastoral) edição Julho/10
Baruch de Espinosa (1632-1677) foi, sem dúvida, um dos maiores racionalistas de que se tem notícia. Refugiado nos recessos da razão, ousou, com frieza inexprimível, confrontar a cosmogonia milenar e intocada do judaísmo bem como sua concepção monoteísta de Deus. Obstinado, não temeu ferir a memória de seus ancestrais nem ultrajar a opinião de seus contemporâneos. Escandalizou o mundo ao desvincular-se violentamente do legado judaico-cristão e esculpir um monumento a uma divindade estranha.

Espinosa até hoje assusta. Sua capacidade de raciocínio era tão potente que acabou se convencendo de que tudo poderia ser compreendido e explicado. Até mesmo Deus. Para ele Deus é absolutamente simples! É lógico que o deus de Espinosa não é o Deus transcendente da fé pregada pelos profetas de seu povo. Seu deus é de artesania própria. Sim, ele o gerou nas oficinas do próprio pensamento e o confinou nas cadeias de uma lógica esmagadora. Não pode escapar de lá.

O termo “deus” figura na obra de Espinosa de uma maneira quase que onipresente. Chegou-se a dizer que era um homem “intoxicado por deus” (Novallis) de tanta referência que faz em seus escritos à grande raiz metafísica necessária para dar sentido ao todo. Espinosa, entretanto, ainda que excomungado pela comunidade judaica de Amsterdam quando da difusão de suas idéias, não era tecnicamente ateu. Cria em um deus, mas um deus diferente daquele ensinado nas sinagogas. Tentaram negociar com ele, oferecendo saídas para o constrangimento. Não aceitou, não se retratou, não voltou atrás. Sustentou suas convicções até o fim e não recuou diante do “tribunal da inquisição judaica” de Amsterdam, que só não o mandou para a fogueira por não ter poderes para tanto. Contentaram-se, por fim, em sepultá-lo em vida como revela a seguir o documento de sua excomunhão:

“Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch deEspinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados… Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento”.

À comunidade judaica foi recomendado:

“Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão”.

Estava amaldiçoado para sempre o apóstata que ousou afirmar que Deus era uma substância ilimitada e que expressava-se através de uma infinidade de formas. Em outras palavras, Deus está na natureza e a natureza em Deus, donde se conclui que Deus é a natureza e a natureza é Deus. Não existe diferenciação possível entre uma coisa e outra. Esta é a síntese do famoso panteísmo espinosano. O que chama atenção no deus espinosano é que o mesmo não sente alegrias, nem tristezas, muito menos presta-se aos jogos próprios das paixões humanas. Impassível, é também incontrolável. Não se pode manipular um deus que não sente! O deus de Espinosa, diferentemente das divindades gregas, de caráter mundano e perverso, simplesmente não oferece margem para qualquer possibilidade de relacionamento pessoal com o ser humano. Ora, passionais como são os humanos, ninguém se interessaria por um deus  insensível. Aos humanos só interesas um deus apaixonado. Tudo nos humanos grita. Essa sensualidade exige resposta, reação, gratificação, e quando não encontra eco naquele sobre quem lança o seu apelo, frustra-se e busca recurso em outra fonte de onde tirar socorro, ainda que apenas na fantasia.

Nestes tempos de teologia confusa e hedonismo acentuado onde a religião mostra-se cada vez mais antropocêntrica, e o deus que apregoa tão antropomorfizado, é de se perguntar se não estamos chegando exatamente ao extremo oposto do pensamento do “herege” de quem tratamos aqui. Em Espinosa Deus não sente nada… na teologia estranha dos nossos dias deus sente demais! A “teologia” espinosana desconhece um deus que negocia com o homem; a teologia utilitária por sua vez ensina que deus está pronto a responder com “chuvas de bênção” aqueles que lançarem suas “sementes” nos campos dos “evangelistas”, sempre ávidos por mais e mais dinheiro… Engodados pela ilusão vendida pelos encantadores midiáticos, milhões de pessoas se dispõem a contribuir; para a alegria dos vendilhões, para cada manipulador compulsivo existem 10 manipulados passivos.

Espinosa incorreu em heresia ao esculpir seu conceito de “Deus sive Natura”; Não utilizou-se, entretanto, de Deus, para promover seu projeto pessoal de poder como fazem tantos nesses dias. O apóstata de Amsterdam talvez tenha causado menos dano do que os sacerdotes desse evangelicalismo sem centro na cruz. Se aquele ousou introduzir um deus diferente daquele que seus contemporâneos conheciam, esses ousam descaracterizar o Eterno, vestindo-o segundo a imagem e semelhança do homem, com todas as antropopatias que cabem. O cultivo das virtudes, a piedade, a resignação ante as provocações que agridem, a negação das demandas do ego desequilibrado, são coisas para os monges do deserto e não para os crentes dessa era. Confundidos em sua conceituação equivocada de Deus, lançam mão dessa espécie de teologia “a la carte” sempre que enfrentam o desafio de enfrentar as exigências de suas almas enfermas.  Assim vão construindo as torres de uma catedral erigida para o culto de si mesmos. O Soli Deo Gloria é coisa dos antigos.

De volta a Nietzsche, aquele louco…

De volta a Nietzsche, aquele louco…

Por Luiz Leite

Nietzsche afirma que a humildade cristã é produto da mentalidade escrava e, portanto, fraca e ridicularizável. Quando se trata de humildade, conceito ausente em seu vocabulário (seguramente um dos egos mais inflados de que se tem notícia), é verdade que algumas pessoas, após serem submetidas a longos períodos de servidão, acabam tornando-se subservientes e pateticamente dóceis, mas é óbvio que não é esse tipo de “virtude” condicionada pelo “tronco e chicote” que o Cristianismo exalta  e exorta seus seguidores a cultivar.

A exegese que Nietzsche faz do Evangelho é equivocada. Interpretou a mensagem de Jesus pela ótica da amargura e não teve o cuidado de limpar as lentes de seu telescópio filosófico antes de lançar o olhar sobre aquele que poderia livrá-lo do fim trágico. Chegou ao resultado antes cogitado por Francis Bacon que disse: “Um pouco de filosofia inclina a mente do homem para o ateísmo, mas profundidade em filosofia traz de volta as mentes das pessoas para a religião.”

A filosofia de Nietzsche não é construtiva. Apoliom e Abadom parecem inspirar sua pena e fazê-la deslizar loucamente em sua sanha anticristã. Isto ele não esconde ao dizer: “Desgarrar muitos do rebanho – foi para isso que eu vim.” Não se pode, todavia, desprezar e despachar a filosofia de Nietzsche como sem graça;  Convenhamos que isto ele faz com uma veia poética que atrai, tornando palatável o que em Espinoza seria intragável.

Determinados desvarios de Nietzsche me fazem rir… Fecho os olhos e vejo um adolescente espumando rebeldia, preconizando a derrubada de governos e hierarquias num idealismo afogueado e desorientado. Concordo com o que foi dito acerca dele por George Santayana, “Blasfêmias pueris… genialidade imbecil.”

Nietzsche é preciso quando denuncia a fraqueza humana; ora, é absolutamente fácil apontar o dedo para uma nódoa no linho branco e disparar: “Eis que passo a vos mostrar uma nódoa!” Onde está a geniosidade de tal afirmação? Um profeta inclemente do óbvio. Despejou sua fúria contra a cana quebrada e o pavio que fumega…

Tribudiou sobre a miséria dos humanos, sem mesmo considerar-se como um dos tais; em um dos seus muitos espasmos de insanidade teria dito: “Eu não sou homem, sou dinamite.” Não há aí qualquer vestígio de grandeza, nem de força… Destruir é fácil. Os psicopatas o fazem sem qualquer crise de consciência; Difícil é ligar a cana esmagada e reacender o pavio que fumega!