Para Além da Ilusão

Picasso

Para além da ilusão

Por Luiz Leite

Somos por natureza criaturas curiosas. Essa curiosidade imensa é resultado da incrível inteligência com que fomos dotados. Enquanto nesta Terra, nunca cessaremos de fazer perguntas, não importa quão longe cheguemos em nosso avanço científico e tecnológico. Não importa a era em que vivermos, sempre haverá público para aquele que se levantar e anunciar ter um segredo que deseja compartilhar, pois jamais nos fartaremos de conhecimento!

Nunca teremos domínio completo das coisas. Sempre haverá algo a aprender, sempre haverá um segredo que nos abra portas para determinados recintos antes vedados. Estes segredos são conjuntos de princípios, que como uma série de números combinados, compõem a senha que abre as portas dos cofres onde estão depositados todos os tipos de tesouros! Isto tudo faz da vida uma experiência eletrizante! Sempre haverá algo novo a aprender, sempre haverá alguém que conhece uma passagem secreta, um jeito mais eficaz de resolver certas situações.

Aqueles que descobriram tais passagens podem nos ajudar a viver de forma mais satisfatória a vida que temos; eles podem tornar a existência um pouco mais suave e aprazível; eles podem nos ajudar a dar sentido a um mundo de coisas que aparentemente não fazem sentido. Podemos nos ver livres de medos infundados, de conceitos falsos e limitadores, de cosmovisões primitivas e teologias escravizantes; podemos nos ver livres de flagelos terríveis, privações desnecessárias e terrores sem sentido.

Se quisermos alcançar o sucesso, teremos que esquecer as fórmulas mágicas que se vende por aí e começar a traçar um plano. Encontramos muitas pessoas vivendo sem um projeto. Em um número considerável de casos, elas se conduzem dessa maneira porque não foram ensinadas a planificar suas vidas de modo a organizar os seus recursos para realizarem alguma coisa. Esses vão compor aquele grupo de pessoas que jamais aprenderam a respeito de suas potencialidades, ou como articulá-las.

Pois, não há caminho fácil. Não há nada tipo, “mentalize, peça e receba”… como pregam alguns por aí. Acorde! O universo NÃO conspira a seu favor! Conversa fiada! O Universo só irá começar CONSPIRAR a seu favor quando voce começar a TRANSPIRAR… É tempo de dar passos, é tempo de caminhar para além da ilusão!

Extraído do Livro O Poder do Foco de Luiz Leite

Amsterdam

Amsterdam

Por Luiz Leite

Cheguei em Amsterdam cansado e com fome. O inverno, apesar de já estar de malas prontas, ainda fazia sentir o seu hálito frio naquele começo de primavera. Havia saído de Bruxelas com fome pois o dinheiro já andava escasso há algum tempo. Um casal de amigos israelenses que conheci na viagem de Chipre pra Grécia, se dispôs a pagar a minha passagem, quando souberam que eu estava fazendo planos de ir para Holanda mas estava sem dinheiro.

Pois bem, lá estava eu em Amsterdam, sem um tostão e sem um amigo a quem recorrer… Como fazia frio, entrei numa estação de metrô e coloquei minha backpack no chão. Ajeitei o violão cudadosamente sobre a mochila e, sentando-me no chão, encostado numa pilastra, começei a tomar minhas primeiras aulas de holandês, observando as placas, letreiros, bem como as pessoas que passavam conversando em sua língua estranhíssima…

Não tinha a menor idéia do que fazer quando o metrô encerrasse suas operações à meia noite; Teria que sair da estação, disto sabia, mas ir pra onde? Entre um pensamento e outro, enviava ao céu uma pequena oração de vez em quando, dizendo “Senhor, a noite tá ficando fria”.

Já estava quase dando meia noite quando o último trem estacionou na plataforma. Estava tão cansado que nem sequer ligava pras belíssimas holandesas que passavam dando “bola pra mim”. Talvez voce diga, “tadinho, tava sonhando”… Pra dizer a verdade, eu não tava sonhando não, tava delirando mesmo…delirando de cansaço e fome. E a oração subia, fraquinha, tipo, “Senhor…”

Um dos últimos passageiros a descer do metrô se dirigiu a mim em holandês e falou algumas palavras ininteligíveis, pra logo perceber que eu não estava entendendo uma vírgula; de imediato acionou uma tecla minúscula nos circuitos misteriosos do cérebro e passou a falar em inglês como se aquela operação fosse a coisa mais corriqueira do mundo.

Posso ver seu violão? Perguntou-me.

Fique à vontade… respondi

Tirou o violão da capa e começou a cantar um dos meus blues prediletos…

– “summertime when the living is easy… fishes are jumping and the cotton is high…”

Cantou como se diante de uma grande audiência. Éramos eu e ele, sem contar o pessoal da faxina que chegava para a limpeza… Depois de cantar o seu blues e uma outra canção que, como o blues, seria pelo menos trinta anos mais velha que ele, perguntou-me:

Pra onde voce está indo?

Pra lugar nenhum – respondi

Como assim? – perguntou curioso.

É que não tenho pra onde ir – respondi

Não se preocupe não – disse – pegue suas coisas e vem comigo.

Nunca havia obedecido tão prontamente a uma ordem como naquele dia. Levantei-me de um salto e, mochila nas costas, lá fui seguindo o holandês. Preocupado com o que poderia acontecer? Não, nem um pouco. Eu sabia de onde vinha aquele “socorro”

Chegando no endereço olhei para cima e apreciei a fachada antiga do edifício, dando graças a Deus em silêncio pela provisão. Ao entrar no apartamento do holandês, percebi que não havia ninguém no lugar. Como um bom anfitrião, o jovem mostrou um sofá antigo ao canto de uma sala bagunçada o suficiente pra deixar apavorada qualquer mãe… certamente a mãe dele não morava ali. Pediu pra que eu me sentasse e dirigiu-se para o quarto. Sentei-me no sofá e passei a observar, curioso, os detalhes do ambiente.

Logo o rapaz saiu do quarto carregando uma mochila. Disse-me que ficasse à vontade, que iria a certo lugar e que dali a pouco estaria de volta. Despediu-se de mim com um see you later e foi-se… Recostei-me no sofá e esperei o quanto pude…vencido pelo cansaço e pelo sono desmaiei para acordar somente por volta das dez horas do dia seguinte.

O holandês deveria aparecer a qualquer momento, pensei. Esperei, esperei e nada. Passou o dia, a noite chegou, esperei um pouco mais e nada…dormi. E assim sucedeu pelos próximos seis dias.

Depois de uma semana, o moço apareceu; entrou no apartamento sem bater. Será que ele se lembrava de mim? Quando me viu, cumprimentou-me com gentileza, sem nada perguntar… parecia agitado, o que me deixou um pouco sem saber o que dizer ou fazer. Pegou algumas coisas e saiu de novo…desapareceu! mais alguns dias se passaram.

Assim foi que me receberam e me acolheram em Amsterdam. Tive tempo suficiente para encontrar emprego e fazer amigos. Depois de Instalado e já me sentindo à vontade na cidade, o holandês, com muita educação me disse que a namorada estava vindo para passar uns dias com ele… Naturalmente, não precisou dizer mais nada.

E olha que eu que estava numa cidade onde não conhecia ninguém e não tinha um amigo a quem recorrer… Costumam chamar a esse Deus de Jeová Jiré, o Deus da provisão…

Estados de alma

Não quero nada

Por Luiz C Leite

Estou de frente pra o mar, curtindo uma brisa que vai se tornando vento, pois que não acaricia, mas alvoroça os meus cabelos, bem como a cabeleira verde e farta dos coqueiros que perfilam graciosos ao longo da orla. A sensação causada pelo vento, antes brisa, quase frio, entretanto, é agradabilíssima; vai amenizando o desconforto do mormaço e causando um prazeroso bem estar.

Sinto-me muito bem nessa manhã de setembro, nesse ocaso de inverno…Apesar de estar assim, de bem comigo e sem assombrações a me apurrinhar (tranquei-as todas do lado de fora – tranqueiras todas, do lado de fora!) quero mais a reclusão, o silêncio, do que o atropelo das relações superficiais caracterizadas pelo vazio de palavras desconexas alinhavadas numa colcha de retalhos que não reproduzem sentido algum.

É bem verdade que as vezes é até de alguma importância aquela conversa sem compromisso com o compromisso da reflexão sisuda… É mesmo necessário de quando em vez descontrair e, simplesmente, “jogar conversa fora”, brincar, espairecer, praticar um “non sense” saudável, caso contrário a gente acaba esmagado sob o peso das grandes questões, dos grandes temas.

Tenho passado parte razoável dos meus dias debruçado sobre os grandes temas, tentando quebrar o código desse enigma que chamamos vida, mas agora não… Desejo a solidão nesse hoje ainda, nesse momento efêmero; Não quero nenhum exercício de reflexão, eu que aprecio tanto o pensamento, agora quero o vácuo, o silêncio…quero apenas relaxar e sorver o azul intenso desse céu e contemplar a graça abundante ao meu derredor…

Vejo coisas, muitas coisas, e pergunto-me se os outros vêem o mesmo. Imagino que não. As vezes sinto-me como o personagem da canção dos Beatles retratado como “The fool in the hill”, mas a comparação é apenas no que concerne ao fato de que, como aquele, meus olhos também vêem o que passa despercebido para um grande número de pessoas…“the eyes in his head see the world spinning round”.

Um poeta, num estado de exaustão existencial, dizia que “há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, um outro, em alegria saltitante, dizia que queria “ensinar o vizinho a cantar nas manhãs de setembro” , outro ainda, querendo desaparecer e refugiar-se na ilha da fantasia, diz que quer ir “embora pra Passárgada”… Estados de alma, estações do coração. Eu não quero nada, não quero ir pra lugar algum, quero apenas estar sozinho e viver esse momento, minha versão de“carpe diem” .

Diários, Setembro de 2005

Quando voce vai virar homem, hein rapaz?!

Regressão

Por Luiz C Leite

Dezembro é para mim um tempo especial. Não apenas por causa do Natal e de sua gostosa significação, mas também por causa da mangueira. Dezembro é a estação das mangas, ou o começo dessa estação gostosa… é tempo de lambuzar-se com o caldo amarelado dessa minha fruta predileta.

A minha alegria é abrir a janela do quarto e observar o sol da manhã realçando com seu brilho gentil aquelas formidáveis “pepitas” de ouro ovaladas que pendem de seus raminhos pelas galhas das mangueiras…

A imagem apela para memórias que conduzem aos recônditos mais bucólicos da alma. Evoca paragens edênicas e provoca certa nostalgia, coisa essa experimentada pela maioria das pessoas, ainda que raramente descrita. A relação nostálgica de cores, sons e cheiros com a infância remota, a saudade da inocência e o desejo impossível de retornar e revisitar os tempos em que “éramos felizes e não sabíamos” é comum a todos.

Psicanaliticamente podemos compreender essa saudade da infância como a tendência geral à regressão. Porque “adolescer” é “crescer com dor”, e a posterior idade adulta é um exercício de desmantelamento gradativo e implacável das projeções fantasiosas concebidas nos anos da inocência, não raro encontramos pessoas adultas comportando-se, sem se dar conta, como se fossem crianças. Todos nós regredimos de quando em vez.

Alguns percebem de maneira suficientemente madura que estão se comportando como meninos(as) e logo retornam da sua regressão, tomam medidas adultas e prosseguem suas atividades, desempenhando os seus papéis sociais como pessoas maduras. Outros, entretanto, regridem aos anos dourados da infãncia e de lá não retornam, muito embora as décadas de acúmulo cronólogico já os tenha distanciado em muito daquele tempo mágico.

É inútil a reprimenda comum tipo “cresça”!, “Quando voce vai virar homem”! Tais pessoas por alguma razão não desenvolveram os mecanismos necessários para lidar com a crueza dos fatos no mundo real… regridem, refugiam-se na infância e recusam-se a assumir a dura tarefa de capitanear suas próprias existências. É comum nesses casos o processo de auto-vitimização. O mundo está contra elas. Todos as perseguem. Elas tem uma imensa dificuldade de arcar com o ônus de suas escolhas erradas, de seus atos mal planejados. Tornaram-se adultos cronologicamente sim, mas só cronologicamente. Psiquicamente permanecem crianças. Creio que todos nós conhecemos alguém assim.

Esses amados amigos e parentes nossos demandarão trabalho árduo para conduzi-los a um reajuste até que o o descompasso entre a fantasia e a realidade seja minimizado. Tais pessoas não tem culpa de serem assim. Elas precisam de ajuda. A dissolução de certos conflitos intra-psíquicos, que de certa forma significa a minimização desse descompasso, trará jeitosa e gradativamente o indivíduo da sua “residência” antes fixada na infância, para a realidade atual, o que o capacitará a começar a dar passos mais firmes no mundo concreto do qual até então ele vinha fugindo.

É injusto da nossa parte querer que essa criança corra uma maratona sem que antes tenha aprendido a andar… Mas também é extremamente difícil aturar o comportamento reincidente desses. O que fazer? Tratá-los como crianças ou exigir dos tais uma postura adulta? Te deixo com o dilema… deixe a sua opinião no comentário.

O Eu Subversivo

O Eu Subversivo

Por Luiz C Leite

A primeira vez que me chamaram de subversivo foi quando servia compulsoriamente o Exército Brasileiro. A “nobre infantantaria, arma de respeito”, como cantávamos enquanto marchávamos a cada dia daquele ano infernal, havia colocado suas garras sobre mim e agora tentava da maneira mais desastrada possível fazer de mim um patriota. Pois o efeito foi diametralmente oposto! Conseguiram, isto sim, fazer de mim um rebelde! Assumir que todos aqueles garotos eram uma massa informe que se podia modelar a bel prazer era mesmo um grande engano, ainda que alguns chorassem como crianças naquelas noites intermináveis de confinamento inútil.

Mas fazer o quê? Aquela baboseira toda era produto do seu tempo. Patética e inevitavelmente nos envolvia a todos… Um homem não pode escapar aos ditames da sua geração. Se o fizer será tido como louco, sem dúvida! (Ou não é mesmo assim que tratamos aqueles “desajustados” que não se comportam segundo as regras da sociedade burguesa?) Os dias eram assim. Era o último ano da ditadura militar que vinha governando o país já há duas décadas. O mundo ainda agonizava sob a pressão sempre presente da mais longa de todas as guerras, como alguém já definiu a Guerra Fria. As duas forças ideológicas que digladiavam entre si pelo domínio do planeta e das almas disputavam o controle das mentes dos homens através da propaganda e estes tinham que se situar e aquiescer docemente à ideologia do bloco.

Pois o Comunismo me convenceu muito mais profundamente com sua propaganda eficaz. Muito embora O Manifesto Comunista de Max e Engels tenha sido decisivo na minha tomada de posição ideológica, foi uma outra leitura que me despertou a paixão pela subversão. O meu encontro com Jean Jacques Rousseau se deu um ano antes de travar contato com Marx. Em seu “Discurso sobre a Origem da Desigualdade” Rousseau providenciou-me uma perspectiva nova sobre a vexaminosa situação da opressão imposta pelo sistema capitalista não somente na Terra Brasilis mas em todas as outras terras… Tinha 16 anos então, e depois dessa leitura nunca mais fui o mesmo.

Pouco depois, me veio às mãos, de forma secreta, o famoso Manifesto. Como era literatura proibida, censurada, ninguém sabia onde encontrar. Comercializar tal literatura dava cadeia! Até hoje não tenho idéia de como o catecismo comunista chegou até a mim. Só sei que fui orientado a ler escondido, em lugar reservado… Foi assim que começei me preparar para a primeira comunhão comunista. Logo em seguida “conheci” Che e Fidel e decidido estava, seria um comunista.

Na verdade ser um comunista pra mim, significava mais fazer coro com a turma da contra-cultura do que necessariamente ser um defensor dos ideais políticos comunistas. Isto hoje me traz certo alívio, depois de verificar o fiasco que o comunismo se provou enquanto modelo. Hoje também sou grato por ter começado o meu processo de engajamento nos últimos momentos daquela loucura… Certamente teria, intenso como era, desaparecido como muitos, nos porões da truculência militar, vitimado pela paixão cega da juventude.

Lembro-me bem como no Quartel do 4º BIB (Batalhão de Infantaria Blindada) em Quitaúna, SP, fui chamado pela primeira vez de subversivo por um sargento. Aquilo me assustou por um momento. Eles haviam descoberto acerca das minhas convicções ideológicas! E agora? Um pouco de medo logo se misturou com uma sensação de satisfação por ser destacado, visto, percebido de maneira diferente, mesmo naquela arriscada posição de contestação. Alcançara por fim um status perigoso, mas que me definia, e de certa forma me orgulhava aquilo, coisa própria dos rebeldes.

De certa feita o comandante da Companhia me procurou e me deu uma reprimenda bastante grave. Disse ele de forma enfurecida que se me ouvisse cantando músicas como “No woman no cry”, “Pra não dizer que não falei das flores”, entre outras, eu iria me ver com ele. Isto porque, sempre levava o violão comigo para o quartel e nos horários de folga reunia a soldadesca e me punha a cantar as famosas pérolas! Com certeza hoje sorrio ao constatar que não tinha mesmo a menor noção…

Logo mais vim descobrir de maneira inusitada que não era eu o único e exclusivo representante ilustre do comunismo na caserna. Estava de serviço na guarda quando fui acordado no meio da madrugada para um interrogatório com o oficial do dia. Haviam descoberto que alguns soldados estavam fumando maconha no meio da noite e para descobrir quem era levaram a todos para a sala do Tenente que, colocando os infantes em forma, começou a questionar um por um. Procedimento de rotina, várias perguntas eram feitas e em seguida repetidas para com isso testar a capacidade de clareza e raciocínio, se coerente ou não. Chegada a minha vez, começa o interrogatório,

– Apresente-se!

– Soldado 602 Leite, 2º pelotão, 2ª Cia, senhor!

– O que voce estava fazendo depois que deixou seu posto, Leite?

– Lendo Tenente!

– Lendo às 3 da manhã soldado?

– Sim, senhor!

– O que voce estava lendo Leite?

– Um livro, senhor!

– Que livro, Bizonho?

– “Cem anos de solidão”, tenente! ( O livro me atraiu em primeiro lugar porque ninguém deveria morrer sem ler Gabriel garcia Marques, e segundo, porque o título falava de solidão, aquele fantasma medonho que me deixava insone e com o qual não conseguia me acostumar…)

– Soldado eu li esse livro a pouco tempo; se voce estiver mentindo pra mim voce vai se dar muito mal…

E as perguntas sobre o livro foram se sucedendo. Respondi calmamente a cada pergunta e o tenente então concluiu que de fato estava lendo o livro e me liberou; a “esquadrilha da fumaça” seria descoberta depois. Eu já havia desistido da maconha antes de ser recrutado e não mais fazia parte da turma do baseado. Meu negócio agora era outro. Meu caminho era o livro. Essa era a minha viagem. Depois do interrogatório no meio da madrugada fria, qual não foi minha surpresa, quando o tenente me chamou e pediu para dar um pulo no alojamento dos oficiais na semana seguinte quando estavámos novamente de serviço. Pediu-me pra levar o violão também, pois havia ouvido dizer que eu tocava.

Fiquei apreensivo, é óbvio, me perguntando o que será que ele desejava com aquilo, afinal, os oficiais não se misturam com os praças. Pois bem, chegou finalmente o dia em que estávamos ambos de serviço, eu sentinela e ele oficial do dia. Eu com 18 anos e ele no máximo 24. Depois do expediente, quando todos iam embora, só ficando o corpo da guarda, o quartel curiosamente se tornava um lugar agradável. Apesar de abominar estar escalado para a guarda, sempre apreciava a atmosfera silenciosa e calma do lugar após o corre-corre das atividades diárias do quartel, dos cuturnos, fuzis, ordem unida, berros de superiores… Todo aquele burburinho dava lugar a um clima especial. Pois, logo após a janta, o tenente mandou me chamar e lá fui, curioso, pra o alojamento dos oficiais com o violão na mão.

– E então Leite, o quê que voce toca? perguntou o tenente.

– Gosto de MPB em geral, e o senhor?

– Eu também…Voce sabe alguma coisa de Vandré?

Fiquei desconcertado por um momento. Onde será que ele queria chegar? Pensei, e após uma pausa calculada, respondi, um pouco amedrontado:

Sei sim senhor.

Ao que ele disse,- então toca pra mim “Pra não dizer que não falei das flores”?

Olhei pra ele com desconfiança… É um pretexto pra te prender, pensei. Ele percebeu o meu desconforto e logo procurou me deixar à vontade dizendo:

Leite, não se preocupe não. Eu também gosto de Geraldo Vandré.

Ainda desconfiado, tomei o violão e armei o acorde de sol, feri levemente as cordas da minha arma predileta e arrisquei…

caminhando e cantando e seguindo a canção…

E o tenente acompanhou…

_ Somos todos iguais braços dados ou não…

E a cantoria se prolongou noite a dentro, entrecortada por conversas, ora animadas, ora tensas, entre dois jovens rapazes subversivos. Poderia mencionar o nome do jovem tenente sem quaisquer riscos para ele agora que, passados os anos, os generais já não incomodam o sono de ninguém. Meu colega comunista faleceu naquele mesmo ano sem testemunhar o fim da ditadura militar contra a qual conspirávamos, e nem a derrocada vergonhosa do “sonho” que embalávamos em nossos corações “rebeldes”.

Muitos anos mais tarde eu viria conhecer melhor e mais profundamente o Eu Subversivo e a sua contra-parte, o Eu reflexivo, mas esta é uma história muito mais complexa e demandaria mais alguns milhares de letrinhas… A propósito se voce chegou até aqui voce leu exatamente 1423 palavrinhas. Parabéns e obrigado.

Homens e Cidades

Homens e Cidades

Por Luiz C Leite

Como você está crescendo? Você tem crescido nos aspectos desejáveis, dentro daquilo que poderia ser traduzido pelo sonho de uma vida? Fala-se muito em “crescimento sustentável” nesses tempos de consciência ecológica e visão holística da vida. O conceito de “crescimento sustentável” é marcado por uma série de cuidados para garantir que se cresça com graça e beleza, de forma contínua e responsável, produzindo resultados duráveis tendo em vista o bem comum, sem depredar o meio ambiente.

O discurso é bonito e muito coerente. Faz sentido quando pensamos em termos de planejamento, em gestão inteligente de recursos, quaisquer que sejam. Da mesma maneira como o conceito é aplicado na administração do patrimônio natural, o conceito deveria ser utilizado na gestão do patrimônio existencial do indivíduo. Crescer sem planejamento pode tornar-se um problema, se esse crescimento não obedecer a um plano inteligente.

Em visita a certa cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, parei para apreciar a vista. Enquanto olhava para os morros que compõem a cena geograficamente acidentada da cidade e observava o casario de aspecto desordenado e sem graça, descobri que estava diante de uma metáfora perfeita para ilustrar aquilo que muitos fazem da suas vidas.

As cidades brasileiras são feias, mal cuidadas, um verdadeiro caos urbanístico em muitos casos. Isto é assim porque, sem qualquer planejamento para orientar sua urbanização, vão crescendo desordenadamente, revelando nessa própria paisagem a balbúrdia ocasionada por administradores públicos incompetentes. O processo de favelização dos grandes centros nos causa desconforto e vergonha. A ausência de áreas verdes e parques bem cuidados nos deixa encurralados e irritadiços nos espaços mínimos de casas e apartamentos diminutos. Como a urbanização dessas cidades, que vão se tornando cada vez mais caóticas por falta de planejamento, assim também é a vida de muitas pessoas.

Vão “crescendo” à exemplo dessas cidades. Crescem, é verdade, mas quando se considera o todo, a impressão que se tem é de desolamento, de caos. É tão comum encontrar pessoas “ricas”, mas com a vida pessoal, profissional ou familiar completamente complicadas! Vitimados pelo engodo do crescimento rápido, fácil, muitos vão aumentando o seu “patrimônio” de maneira desarticulada e sem os cuidados devidos. Crescem, mas não o fazem de maneira sustentável. Favelizam suas vidas, enchendo-a de áreas complicadas e de difícil administração. Acabam se tornando bem sucedidos, mas se tornam infelizes porque ser bem sucedido não significa nada se não somos bem aventurados!

Extraído de O Segredo do Foco de Luiz C Leite

A minha praia

Por Luiz C Leite

Reserva Quitanduva, SP, Junho 2007

Finalmente cheguei à praia, depois de longa caminhada por uma trilha sinuosa através da mata. A subida íngreme através do imenso paredão verde se impõe como desafio aos aventureiros que buscam o refúgio dessas águas escondidas. A descida acidentada descortina aos poucos o cenário paradisíaco que parece intocado desde que o mundo foi criado. O encontro das águas do oceano com os paredões de rocha costeira reproduz os acordes da canção milenar que compõe a trilha sonora desse belíssimo espetáculo.

A natureza sempre me fascinou e atraiu muito mais que a beleza artificial dos shopping malls; não que seja assim tão avesso a tais ambientes, como se padecesse de alguma fobia, o fato é que estar em contato com a natureza sempre exerceu grande poder sobre mim devida às minhas origens. Por essa razão é que sempre que posso me recolho aqui nesse completo abandono; o que para alguns poderia ser insuportável para mim é motivo de muito prazer.

Já molhado pelas águas bravias da maré cheia, que bate com sua proverbial insistência contra os rochedos que entrecortam a paisagem, eu digo para mim mesmo, “encha os olhos deste azul e saboreie o momento”. Olhei para os céus azuis daquela manhã única, respirei fundo tomado por um sentimento de reverência e arrebatamento diante da beleza do lugar e me preparei para a etapa mais perigosa da minha jornada.

Depois da exaustiva caminhada pela selva até chegar à praia, faltava agora vencer um trajeto longo e perigoso sobre as rochas, até chegar ao lugar onde eu planejava mergulhar. Desde há algum tempo o mergulho livre havia se tornado pra mim a mais aprazível e estimulante combinação de esporte e lazer que existia.

Com o equipamento de mergulho nas costas, dei os primeiros passos em direção ao lugar onde desejava mergulhar naquela manhã. Não havia caminho pela mata para alcançar o tal lugar desejado e o acesso só era possível pela água ou pelas pedras. Até pensava em abrir uma picada através da selva para evitar o perigo de caminhar sobre as pedras, mas isto envolveria outros riscos adicionais que preferira evitar.

O meu corpo começou a mover-se sobre as pedras com a leveza e segurança de um cabrito montês. Enquanto dava saltos de um rochedo para outro, me maravilhava com a precisão com que os passos eram dados entre uma pedra e outra; dados eram colhidos, cálculos eram feitos, tudo de forma completamente maravilhosa, sem que para isto o eu consciente precisasse recorrer a qualquer fórmula matemática. Coisa do hipotálamo pensei comigo, aquele pequeníssimo dispositivo responsável por tudo isto.

Talvez outra pessoa que não gostasse tanto de mar e mergulho não empreendesse aquela marcha arriscada apenas para estar sozinha no meio do nada. Aos 44, jovem e ágil, o que para alguns poderia ser apenas uma atividade perigosa e extenuante, para mim era um prazer, e chegaria aos 100 anos fazendo esse tipo de coisa. O fato, entretanto, é que as coisas que nos dão prazer e que nos motivam através da vida muitas vezes mudam de endereço pelos anos afora.

Enquanto me movia cuidadosamente, ora pulando de pedra pra pedra, ora galgando rocha maior, vencendo lenta e persistentemente os obstáculos que se apresentavam, ia meditando na semelhança que deveria haver entre aquela situação e a vida de uma forma geral. Eu havia me programado para passar aquele dia naquela determinada praia onde praticaria o meu mergulho. O alvo diante de mim, o ponto onde eu queria chegar, era desejável e prazeroso. Os obstáculos existiam sim, mas a alegria de realizar o sonhado mergulho era suficientemente grande para me colocar em movimento.

Uma pergunta que todos deveriam fazer a si mesmos de vez em quando é se aquilo que estão fazendo é desejável o suficiente para compensar os esforços que serão despendidos. Deve haver algo na vida que te mova de uma maneira incomum, que te estimule a enfrentar desafios e obstáculos com alegria; deve haver em algum lugar uma praia paradisíaca, onde você gostaria de estar. Este é o seu sonho, esta é a sua razão de viver. Organize-se em torno da sua paixão, programe-se e coloque-se a caminho. Certamente o bônus compensará o ônus!

Na medida em que os desafios do trajeto iam surgindo, eu escolhia cuidadosamente as opções diante de mim. Sempre havia mais de uma. Assim é a vida. O que estou fazendo nesse momento? Imagino que você esteja caminhando para sua praia secreta, aquele lugar onde você deseja estar. Pois bem, não desista, continue. Escolha cuidadosamente cada opção e prossiga. Mesmo que seja cansativo, mesmo que o trajeto seja extenuante, não pare. Vá rompendo os obstáculos, superando as dificuldades. Siga o seu plano. Concentre-se no seu alvo. Se você está certo que a direção é esta, então o resultado compensará cada gota de suor derramada no percurso!

Extraído do Livro O Segredo do Foco de Luiz C Leite