Crônicas II

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O dia da minha morte

Por Luiz C Leite

Ele era, no fundo, no fundo, um sujeito simples, de hábitos frugais, muito embora às vezes aparentasse ser uma pessoa refinada. Talvez porque gostasse muito de ler. Vivia rodeado pelos livros. Acabou, sem perceber, incorporando uma linguagem toda especial que o fazia se expressar como alguém sofisticado. Não era nada daquilo. Era, como já disse, um sujeito simples.

De temperamento dócil, caráter vistoso, sabia se comportar, tanto entre nobres, quanto entre aqueles de posição social menos eminente. Se tinha algum élan, alguma “finesse”, novamente digo, graças aos livros. Os livros, meu amigo, é que emprestaram àquele moço humilde certa desenvoltura no trato com essa complicada lida e os seus tão diversos personagens.

Por grande ventura, nasceu em humilde condição; certamente a situação que o acolheu quando de sua chegada estava mais para “manjedoura” do que pra bercinho de cetim. Mas isto não significa que não tenha tido boa formação; pelo contrário, a base moral sobre a qual o seu caráter foi esculpido foi daquelas da mais fina cepa. Gente de muito valor moral, mas de pouquíssimo refinamento cultural.

Era bom de prosa. Na verdade encontrava motivo em qualquer situação, para entabular uma boa conversa. Conseguia, em sua simplicidade, a atenção e o coração dos menos instruídos e, com igual desembaraço se fazia escutar quando a discussão se dava entre os pretensiosos sábios desse século. Isto, repito, se devia ao fato de que era um amante inveterado das letrinhas – versava sobre um número grande de assuntos sem se embaraçar.

Em resumo, esse era eu, até o dia em que morri. Não se escandalize se fui tendenciosamente complacente com a memória do falecido. É natural que tenha reunido aqui, mesmo que brevemente, alguns dos predicados mais interessantes do morto, e feito esse floreio todo, porque afinal, ninguém em sã consciência desmerece o pobre defunto no momento das últimas palavras.

O defunto encontra sempre a complacência de alguns, que, generosos, antes de lhe jogarem terra sobre o corpo frio, lançam-lhe confetti, num rasgo às vezes até desmesurado de elogiosa verborréia. Credo! Permitam-me, portanto, amigos, que eu “rasgue a seda”, e não se apoquentem com o provável exagero de palavras de bondade dirigidas ao pobre, ontem moribundo, hoje defunto, defuntíssimo!

A minha morte se deu no dia 7 de Outubro de 2003. Foi uma boa morte, apesar da inenarrável sensação que se tem (Quando chegar a sua vez você saberá). Foi praticamente indolor, mas me estrebuchei por alguns momentos que pareceram intermináveis até suspirar pela última e definitiva vez. Faleci no meio de uma multidão de mais de 2000 pessoas, e o mais incrível de tudo foi que ninguém notou. Como alguém pode expirar em meio a tão grande multidão, sem que ninguém perceba? Pensava eu entre os meus últimos lampejos de razão.

Na verdade eu já vinha agonizando fazia tempo. Naquele dia sofri o golpe de misericórdia que deu cabo do serviço. Por quanto tempo dessa vez, pensei, ficaria morto, voluntariamente morto? Já havia morrido umas quantas vezes antes, mas sempre que encontrava ocasião “ressuscitava”, voltava à ativa…descobriu que não tinha vocação para ficar morto por muito tempo! Vivia espremido pela tensão gerada pelo conflito travado entre sua natureza antiga, aquela velha senhora, companheira das noitadas dissolutas, e um novo e estranho novo homem que viera habitar-lhe.

Os últimos anos tinham sido marcados por esse atrito incômodo originado nesta disputa surda que se travava dentro dele; não poderia haver acordo; não havia a menor chance para um armistício que proporcionasse termos para uma convivência pacífica. Eram elementos antagônicos e auto-excludentes. Um pendia para as paixões, buscando extravasar toda sorte de concupiscências, o outro promulgava santidade e pureza, num padrão tão alto que, por muitas vezes, desistira ante os tão freqüentes fracassos.

Naquele dia havia acordado, como de costume, com muita animação, verdadeiramente alegre. Não que fosse assim tão virtuoso, mas, dentre os muitos defeitos do defunto, certamente o mau humor jamais foi listado. Era por volta das 11 horas de um dia agradável até. È verdade, parece ter sido um dia agradável pra se morrer. E o falecido já vinha entretendo aquela idéia, e a tempos, pensando seriamente no assunto. Não andava muito bem nem muito satisfeito com aquela existência dúbia: ora vivo, obedecia aos impulsos de Eros (pulsão da vida), para em seguida se ver esmagado sob o peso de uma culpa avassaladora; ora morto, seguia as ordens de Tanatos(Pulsão da morte), mas simplesmente não conseguia permanecer inerte e resistir indefinidamente os impulsivos estímulos das paixões.

Era tempo de dar um basta àquele jogo. Já havia ido para o cadafalso outras vezes, dessa vez não seria diferente; enfrentaria o seu algoz altaneiramente; entregar-se-ia voluntariamente. Entrou na sala de conferências naquela manhã e observou os homens que ali se encontravam; viu a ostentação, a empáfia, viu tudo…nada lhe era oculto. Desiludiu-se. Resolveu então que morreria mesmo! Olhou mais uma vez ao redor e, resoluto gritou chega! Basta! Cansei! Ninguém se importou com os cacoetes estranhos que produziu nos seus últimos instantes. Morreu… morreu para as suas pretensões, para as inumeráveis demandas de uma alma egotista…entregou os “pontos”, rendeu-se finalmente. Decidiu que seria mais humilde, mais tratável, mais condescendente, mais… Uma única questão ficaria sem resposta: Por quanto tempo dessa vez? Por quanto tempo dessa vez resistiria aos apelos do velho Adão e permaneceria voluntariamente morto?

 

Extraído de “Crônicas Diversas” de Luiz C Leite – Direitos reservados

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