Religião sem revelação – Uma usina de loucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Religião sem revelação – Uma usina de loucos

Por Luiz Leite

Caim cabe o título altivo de primeiro apóstata da história da humanidade. Abel, seu irmão, entretanto, parece ter aprendido desde cedo algo que faltava a Caim: a piedade com contentamento. 

Só a revelação pode emprestar à religião o sentido de sacralidade da vida; Sem a revelação a prática religiosa torna-se uma experiência enfadonha, decepcionante, e por isso também  perigosa. Sem a revelação jamais será capaz de providenciar o estofo que o homem precisa para preencher os buracos existenciais de sua alma aflita.

Caim era um homem angustiado. Carregava consigo rancores que lhe amargavam as entranhas e, por mais que praticasse a religião dos seus pais, não conseguia se desvencilhar das garras de um coração sombrio; respirava um ressentimento imenso em relação ao irmão.

Alguns dizem que Caim invejava a graça e prosperidade de Abel. A etimologia da palavra “inveja”, do latim “invidere”, significa basicamente “olhar para” , no sentido de querer “o brilho” do outro; A inveja visa não necessariamente os bens do outro, mas a graça do outro. É sem dúvida uma das enfermidades mais daninhas da alma humana.

Pelo que o texto bíblico indica, Abel atraiu a inveja e o ódio de seu irmão porque “o Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta.” (Gn 4:4-5) por isto, continua o texto, “Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou”.

Note-se que o texto trás implícita a idéia de que o Senhor antes de “aceitar” a oferta, precisa aceitar o ofertante. A oferta em si pouco importa. O coração do ofertante, isto sim é tudo. A prática da religião, no que respeita à observação litúrgica dos seus cerimoniais pouco importa se aquele que traz a sua oferta ao altar não tiver o coração aprovado.

Abel tem a sua oferta aceita porque já antes tivera o coração aprovado. Vivia uma espiritualidade refletida, ao passo que Caim transitava na esfera de uma espécie de religiosidade feita de protocolos apenas. Caim tinham a informação, mas não tinha a revelação. Uma vivência religiosa nesses moldes produz um ritualismo marcado por uma  mecanicidade estéril e sem vida.

O coração árido de Caim certamente não entendia de onde procedia a graça, o contentamento, a prosperidade que seu irmão Abel desfrutava. Aquilo provavelmente o incomodava muitíssimo. Por ser o irmão mais velho, ele e o não o caçula deveria desfrutar de tais bênçãos, conjecturava. Deus estava sendo injusto para com ele!

A autocomiseração e desejo por reparação começaram a fermentar em sua alma. Sua religião com todas as práticas cerimoniais afinal não estavam ajudando-o em nada.  Faltava-lhe algo e ele não entendia. Provavelmente faltou-lhe também humildade para perguntar ao irmão qual era o segredo. Em sua frustração e revolta, resolveu seguir a inclinação de seu coração corrompido. Deus, em seu irmão, incomodava muito. Decidiu resolver o problema de Deus. Matou-o.

Esaú, como Caim, também  foi um homem que desprezou a Deus de uma maneira soberba. A sua auto-suficiência foi tão grande a ponto de conduzi-lo a desprezar a bênção de Deus completamente. Como Caim, tem uma diferença com o irmão mais novo. Só não perpetrou o intento de assassinar a Jacó porque publicou o plano.  Ensinados pelo mesmo professor, Esaú e Jacó tomam rumos opostos; A religião de ambos vai resultar nula para um e cheia de significados para outro.

A revelação novamente faz toda  diferença. Esaú desviou-se para sempre. Jamais voltou atrás em suas obstinação; Ainda que depois de velho tenha se reconciliado com o irmão mais novo, jamais conheceu a sublimidade do quebrantamento. Empestiou com sua peçonha  toda a sua descendência. Mesmo depois de morto continuou a perseguir o irmão Jacó, através de seus desdendentes. Desde Amaleque, passando por Hamã, até Herodes, Esaú, o pai dos Edomitas intentou contra Jacó, o pai dos Israelitas.

A religião sem a revelação é uma experiência de finalidade incerta. Ensinar ao homem as verdades de uma moral elevada sem capacitá-lo a vivê-las de modo prático é um experimento perigoso. Colocado numa situação profundamente incômoda, o homem experimentará de contínuo a frustração e a culpa, por não se ver capaz de obedecer às imposições exigidas.

É grande a lista de filhos de crentes que na bíblia se extraviaram e cometeram loucura. Ainda que ensinados na religião de seus pais, perderam-se nas engrenagens frias do cerimonialismo religioso e, levantando-se contra todos os princípios recebidos cometeram torpezas sem que o legado religioso lhes pudesse deter.

Caim fez escola. Sua religião sem revelação fez dele o primeiro dos loucos. Antes de “enfiarmos goela abaixo” dos nossos filhos as nossas convicções espirituais, deveríamos orar muito para que eles sejam contemplados com o clarão que um dia dissipou nossas trevas. Assim, e só assim, poderemos descansar sobre o fato de que não correrão o risco de pirar como muitos nessa imensa e absurda usina de loucos que é a religião sem revelação!

Teologia Conflitante

Os Cinco Pontos Do Calvinismo

Por Luiz Leite

Os chamados Cinco Pontos do Calvinismo, contrariamente ao que sugere a fórmula, nada tem a ver, em termos, com João Calvino (1509-1564). O documento foi publicado cerca de 50 anos após a morte de Calvino. Não foi elaborado, tampouco, como julgam alguns, com o intuito de sintetizar a fé reformada, mas para providenciar resposta aos discípulos de Jacob Hermann (Arminius) que haviam lançado um documento denominado os Cinco Pontos do Arminianismo e intentavam com isso influenciar a orientação da igreja reformada na Holanda que esposava fortemente a doutrina da predestinação.

Armínio (1560-1600) contestava a predestinação e a vontade soberana de Deus da forma como se ensinava nos púlpitos e seminários de seus dias; cria no livre arbítrio e na responsabilidade humana de escolher entre obedecer ou não ao chamado de Deus e responder positivamente ao apelo de sua própria consciência. Suas idéias chocavam-se frontalmente com os postulados calvinistas, o que custaria mais tarde aos seus discípulos perseguição e exílio. Hoje, não mais classificada como herege, a teologia arminiana encontrou o seu lugar de expressão em muitíssimas igrejas, mas o debate permanece longe de um possível acordo. Segue os Cinco Pontos Arminianos e Calvinistas:

 Ponto 1. Vontade Livre – O arminianismo afirma que o homem é “livre” para escolher. Esse “livre arbítrio” o coloca como responsável pela sua salvação, ou seja, aquele que está na condição de responder ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, é operação conjunta. Não é um ato unilateral da parte de Deus. O homem tem o papel da escolha.

Ponto 1. Depravação Total – O calvinismo por sua vez sustenta que o homem não regenerado encontra-se completamente incapaz de tomar qualquer decisão uma vez que é escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente inapto para exercer sua vontade livremente; O estado de depravação total deixa, portanto, inteiramente dependente da obra de Deus, que deve vivificá-lo de modo que ele possa por fim crer na obra de Jesus na cruz.

Ponto 2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

Ponto 2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que  a eleição  é um ato que resulta da vontade e soberana e isolada de Deus, segundo seus próprios planos; dessa maneira o homem, espiritualmente morto, nada tem a fazer senão submeter-se àquilo que Deus em seu pré-conhecimento já determinou.

Ponto 3. Expiação Universal – O arminianismo afirma que Cristo morreu para salvar a tantos quantos exercerem sua livre vontade e responderem positivamente ao apelo à salvação feito por Deus através de Seu Filho em sua morte expiatória na cruz. Irão para o inferno apenas aqueles que não querem aceitar a oferta de Deus.

Ponto 3. Expiação Limitada – O calvinismo por sua vez sustenta que Jesus se deu em sacrifício para salvar pessoas determinadas, já eleitas pelo Pai desde a eternidade. Sua morte, portanto, culminou com o êxito completo de sua missão: Todos aqueles pelos quais ele se sacrificou, em seu  número exato, serão salvos. Os outros por sua vez por quem ele não  morreu receberão a “justiça” de Deus, sendo lançados no inferno.

Ponto 4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que seja a vontade de Deus que todos os homens sejam salvos, o homem pode resistir ao Espírito Santo,  e por consequencia rejeitar a graça divina. Deus, por sua vez “permite” que o homem obstrua Sua vontade. A graça divina se propõe, não se impõe.

Ponto 4. Graça Irresistível – O calvinismo ensina que a graça de Deus é irresistível, ou seja, uma vez que o espírito humano é regenerado este homem será inevitavelmente conduzido a Deus; aqueles que foram predestinados para a salvação serão alcançados de qualquer modo uma vez que assim que forem alcançados pela graça não poderão fazer qualquer coisa senão se render.

Ponto 5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo argumenta que o homem, da mesma forma que é salvo por um ato de sua própria escolha e vontade, aceitando a Cristo, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver recuar, apostatando-se. Na verdade o próprio conceito da apostasia contempla a idéia de que o que se fez apóstata, participou em algum momento prévio a comunhão dos santos! A possibilidade de perder-se, é denominada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius.

Ponto 5. Perseverança dos Santos – O calvinismo alterca afirmando que a salvação, uma vez que é operada inteiramente por Deus, e uma vez que o homem não precisa fazer nada “para ser salvo” , também não precisa se esforçar para  “permanecer salvo”, porque isto também é Deus. Os eleitos hão de perseverar porque Deus fez a promessa de terminar  a obra que ele mesmo iniciou na vida do crente.

A teologia cristã, como as demais teologias, quer sejam judaicas, muçulmanas, hinduístas ou budistas, conflitam em muitos aspectos. Esses conflitos são inevitáveis. Cristianismo, Judaismo, Islamismo, para citar apenas os três grandes blocos da fé monoteista, partidos em inúmeras denominações, debatem-se em meio a muitas diferenças de interpretação dos seus livros sagrados. Se tão somente respeitarmos aqueles que pensam diferente, sem condená-los às chamas por heresia, já teremos feitos grande progresso. O problema, entretanto, é insolúvel. Sempre haverá aquele que não lê na cartilha da “nossa” ortodoxia. Parodiando frase famosa de Jesus: Os hereges sempre os tereis convosco!

Escatologia Errante

Escatologia Errante

Por Luiz Leite

Geralmente relacionamos ano novo com sonhos, planos, projetos… Planeja-se viagens, filhos, aquisição de bens, e com isto contempla-se a continuidade da vida e a expectativa de dias melhores. Como alguns efusivamente afirmam, o melhor de Deus ainda está por vir!

Como desejar um Feliz Ano Novo se ele não vai durar nem 6 meses? É isto, o ano de 2011 vai durar apenas 4 meses e 21 dias, nada mais, nada menos. Segundo tem divulgado um grupo religioso dos EUA, o arrebatamento da igreja acontecerá exatamente no dia 21 de maio… O fim do mundo propriamente dito acontecerá 6 meses depois, no dia 21 de outubro!

Cumpre antes de mais nada admitir que escatologia é terreno complexo e de conclusão fugidia. Entretanto, ainda que se admita as dificuldades às vezes até mesmo obscuras da disciplina, uma exegese mais amadurecida e acurada não permite os disparates como aqueles que os mestres da escatologia errante vez por outra alardeiam por aí, afirmando que o fim está às portas com dia e hora marcados.

Em 2009 foram distribuidos em São Paulo panfletos que anunciavam o fim dos tempos com data precisa, exatamente como já aconteceu em outros  momentos da história quando seitas cristãs ousaram publicar o resultado de suas especulações escatológicas marcando data para o retorno de Jesus e eventual fim do mundo.  O panfleto citado acima declara:

“No ano de 2011 d.C. serão exatamente 7000 depois do dilúvio de Noé. Será o fim do período de tempo dado ao homem para encontrar a graça de Deus. Isto significa que o tempo para encontrar refúgio em Cristo tem se tornado muito curto. Não nos resta muito tempo até o ano de 2011… sabemos que o ano de 2011 é o ano em que se completará 7000 anos depois do dilúvio. E tambem sabemos que Deus vai destruir o mundo nesse ano. Mas quando vai ocorrer em 2011; Dizemos anteriormente que a era da igreja chegou ao fim em 1988 d.C…”

Ainda que os nossos tempos sejam tempos de grande apostasia e os sinais nos deixem em estado de alerta, temos visto através da história vários grupos religiosos “agendando” o fim do mundo para essa ou aquela data, causando transtorno e decepção a muitos.

Grupos como os Adventistas, Testemunhas de Jeová, para citar os mais conhecidos, nasceram de interpretações escatológicas errôneas que anunciavam o fim dos tempos; como o Jesus não voltou nas datas por eles estabelecidas e o mundo não acabou, tiveram que se utilizar de um verdadeiro contorcionismo de explicações mirabolantes para sustentar o fiasco.

Infelizmente nem sempre é longo o caminho do embuste à tragédia.  Um desses grupos, os chamados Davidianos, protagonizou uma cena que ainda hoje nos deixa perplexos. Dissidentes da igreja Adventista do Sétimo Dia, os Davidianos apresentaram-se à grande mídia em 1993, num confronto mal explicado com o FBI no seu complexo em Waco, no Texas, EUA, que resultou na morte de quase 80 pessoas. O evento marcou o final trágico de mais um grupo de fanáticos que  criaram a partir de suas próprias interpretações equivocadas um apocalipse particular.

Jesus vai voltar sim. Devemos estar preparados para o seu retorno, mas não precisamos nos deixar impressionar ou amedrontar pelas predições desses que insistem em contrariar as palavras do próprio Senhor Jesus que, quando questionado acerca de sua volta e consequente restauração de Israel, disse: “NÃO VOS COMPETE CONHECER TEMPOS OU ÉPOCAS QUE O PAI RESERVOU PELA SUA EXCLUSIVA AUTORIDADE.” (atos 1.7)

Espetáculo Mambembe

 

 

 

 

 

Espetáculo Mambembe

Por Luiz Leite

Este artigo trata do pastor que ataca o bispo que ataca o pastor… É absolutamente lamentável que façam da cena evangélica o circo que aí está, promovendo esse espetáculo mambembe, onde o nome de Jesus acaba virando mote na boca dos incrédulos. Qual não deve ser a alegria do Diabo ao assistir supostos representantes de Cristo se digladiando, acusando-se mutuamente, representando um papel que sempre foi dele! Creio que esse é um dos raros momentos onde a velha e vaidosa serpente não se ofende quando lhe roubam a cena.

Já não bastava a horrível controvérsia envolvendo Silas e Caio… quem ganhou? quem perdeu? certamente o Reino não foi edificado nem as vidas dos cidadãos do Reino. Na verdade todos perderam, todos sairam derrotados, tristes e envergonhados dessa rinha  insana onde pastores, como galos de briga, afiam seus esporões e se põem a desferir golpes  em seus pares… Estou enojado com tudo isto.

Não, eu não desconheço a história. Sempre houve disputas acaloradas entre líderanças eclesiásticas. As grandes refregas doutrinárias do passado cristão revelam grandes campeões da fé envolvidos em batalhas filosófico teológicas que definiriam mais tarde o perfil doutrinário da igreja cristã. Assim foi que Atanásio defendendo a divindade de Cristo, combateu Ário que em sua heresia afirmava ser Jesus apenas um ser criado. Tertuliano atacou a Marcião, o herege a quem Policarpo de Esmirna chamou de “primogênito de Satanás”.  Agostinho de Hipona combateu Donato de Casa Nigra, ajudando a extinguir a heresia donatista do norte da África…

Enfim, esses homens e muitos outros que se desgastaram no labor de defender a integridade da fé cristã, enfrentaram os heresiárcas como Ário, Marcião, Donato, Sabélio, Montano, entre outros, para garantir o corpo de doutrinas que hoje definem o que é o cristianismo; somos gratos aos saudosos apologetas, guerreiros que batalharam pela fé que foi confiada aos santos.

Diferentemente do teor das pelejas travadas pelos defensores da fé do passado, o que vemos, entretanto, envolvendo os líderes contemporâneos citados, é uma briga de supostos representantes do Reino, refletindo o duelo político entre Dilma e Serra, o que torna a coisa por demais triste…  é deprimente ver pastores se engalfinharem em conflitos desse nível… Até compreendo a atitude de Silas Malafaia que se sente  ultrajado com as insinuações do Bispo Macedo, como se vê no vídeo a seguir, mas é uma lástima que a discussão envolvendo líderes de grande projeção não passe de um bate boca patético que não edifica a ninguém! A briga pessoal que se torna pública, com sua troca de farpas, não serve em definitivo à causa do Reino, pela qual ambos dizem lutar.

Uma vela pra Deus e outra pro diabo

 

 

 

 

 

 

 

Uma vela pra Deus e outra pro Diabo

Por Luiz Leite

Ainda que de certo modo desconsiderada pelos grandes atores da política nacional, a religião deixa de ser simples peão no tabuleiro da disputa eleitoral e assume status de peça importante em tempos de campanha. Um deslize por parte de um candidato descuidado na abordagem de temas sensíveis pode colocar uma eleição a perder. É famosa a campanha perdida por Fernando Henrique Cardoso pela prefeitura da cidade de São Paulo quando, em debate, vacilou em responder à pergunta se cria em Deus. Dizem os especialistas que foi nesse ponto exato que o placar virou em favor do falecido Jânio Quadros.

Políticos, salvo raríssimas excessões, têm a capacidade de se transformarem, como camaleões, ajustando-se manhosamente aos ambientes de diversidade complexa. Em época de campanha é comum ver certos candidatos acenderem, literalmente, “uma vela pra deus e outra pro diabo” ao participarem de cerimônias religiosas cujas doutrinas divergem inteiramente umas das outras. Ora estão entre os representantes de uma comunidade judaica, ora num culto evangélico pentecostal, ora no santuário católico de Aparecida, ora lavando juntos com  sacerdotes do candomblé as escadarias da igreja do Bonfim…

Sua aparição em um culto religioso, todavia, não é suficiente para convencer os religiosos de que este ou aquele candidato é simpático à sua causa. Os fiéis encontram-se cada dia mais envolvidos no processo democrático e fazem questão de saber onde realmente se posicionam os postulantes. No caso do universo cristão, seja católico ou protestante, o sinal já foi enviado: cuidado! temos o poder de mudar o rumo das coisas. Ainda que destoem num ou noutro ponto de doutrina, católicos e protestantes aglutinam-se e defendem em uníssono opinião semelhante em torno de temas como aborto, pena de morte, homossexualismo entre outros. Devido ao poder de influência e mobilização de milhões de fiéis, a grande mídia nessas ocasiões se vê obrigada a ouvir as lideranças cristãs e dedicar espaço especial à opinião das mesmas em suas publicações.

As revistas Carta Capital, Época e Veja trouxeram, simultaneamente, como matéria de capa em uma  edição de outubro, o tema sempre polêmico do aborto. Praticado clandestinamente em clínicas dirigidas por profissionais de probidade duvidosa, o aborto ganha relevância no debate democrático com poder de influenciar os resultados das urnas. Os candidatos esforçam-se para não desagradar o eleitorado, elaborando discursos de interpretação dúbia, na tentativa de hipnotizar e confundir os reais, mas lamentavelmente desinformados detentores do poder de decisão do pleito.

Sinceramente fico curioso ao ver ícones da cena evangélica emprestando sua voz e poder de influência a candidatos que nada tem a ver com sua confissão de fé. Por que setores do pentecostalismo como a ala da Assembléia de Deus, dirigida pelo Bispo Manoel Ferreira faz campanha para a candidata do PT? Por que o jovem cantor de grande sucesso no meio gospel, fez campanha e emprestou sua bela e ungida voz ao candidato (ativista gay) ao governo de Minas? Por que o grande e influente telepregador retira seu apoio a uma candidata respeitada e reconhecida como cristã e migra para o ninho do tucanato? Será que é apenas a expressão sincera de suas convicções políticas? Bom seria que fosse. Gostaria que fosse. Será que também não estamos acendendo duas velas??  Os três citados, todavia, não estão desacompanhados. O vídeo a seguir revela alguns outros.

Na contramão da Lógica


Na contramão da lógica
Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia, Mar/2010 (Coluna Pastoral)

Quando acuados, ameaçados, assustados, um incrível fenômeno se processa em nosso corpo; somos invadidos por fortes descargas de adrenalina, famoso neurotransmissor responsável por preparar a criatura para dois cursos de ação especifícos: ataque ou fuga. Sob o efeito da adrenalina, as pupilas dilatam, os coração acelera os batimentos, os músculos se tensionam, antevendo a necessidade da ação… A invasão da chamada molécula da ação torna o homem capaz de feitos fora do comum. Pode expor-se a situações de grande risco e ser consagrado herói, caso tenha um golpe de sorte. Dependendo da situação, poderá matar e também morrer. Pode xingar, agredir, perder o tino… Essa é nossa porção animal regida pelo sistema límbico, o mesmo sistema que gerencia a ação de presas e predadores no reino das feras.

Os homens, ainda que mais sofisticados, são mui comumente movidos pelo instinto. Se ameaçados em qualquer situação, o sistema límbico apresenta logo, antes de qualquer consideração da razão, um programa de ação para controlar a crise. Em se tratando de gestão de crises somos grandes estrategistas. Ser um estrategista não significa, todavia, ter respostas inteligentes para a resolução do conflito. Fato é que sempre temos uma planozinho. Parecem lógicos esses rascunhos mal rabiscados de resposta às polêmicas, entretanto, nem sempre trazem o resultado desejado.

E
m momentos cruciais de sua carreira, quando a vida se achava por um triz, sob ameaça, quando a honra estava sendo aviltada, a reputação enxovalhada, Jesus tomava atitudes de todo estranhas… Transitando na contramão da lógica, Ele reagia, em várias ocasiões, de maneira completamente contrária àquela esperada de homens sob pressão. Não perdeu jamais a clareza nem o equilíbrio, não se deixou desorientar pela sanha da ira que pode conduzir a desatinos de consequências trágicas. Tinha sob controle as comportas da emoção e sabia fechar o torniquete quando a porção animal desarvorada desejava tomar o controle de suas ações.

Era natural que os discípulos se vissem perplexos diante de suas reações e esperassem uma resposta mais vigorosa às provocações gratuitas e maldosas dos seus opositores. Por que Ele não revidava? Por que não dava mostras de seu poder, exercendo um justo juízo sobre os seus perseguidores, simplesmente incinerando-os? Quando, de certa feita, João e Tiago sugeriram que recorresse ao seu poder, autorizando-os a fazer descer fogo do céu e consumir aqueles que o desprezaram, ele respondeu de forma desconcertante ao dizer: “Vós não sabeis de que espírito sois.” Pedro nos informa que, “Quando foi injuriado, não injuriava, e quando padecia não ameaçava. Antes, entregava-se àquele que julga justamente.” (I Pe 2.23)

Em nosso humanismo solidário, chegamos até a justificar os acessos de fúria que acometem a alguns e os levam a medidas extremadas; a própria justiça, em casos, atenua o delito justificando-o como a mais legítima defesa. Geralmente homens ordinários respondem de forma equivocada e desproporcional aos ataques, estímulos e provocações do mundo externo. Isto se dá assim porque existe um descompasso interno que dita suas reações. Somos reféns da lógica das emoções; pagamos quase sempre, com a “mesma moeda”; só não ferimos ou matamos, literalmente, nossos desafetos, porque calculamos as consequências e recuamos diante dos custos. Seríamos, segundo alguns pensadores, assassinos potenciais.

Não adianta nos besuntarmos com os cremes da cosmética mágica da mística espiritualista que a religião vende em seu vasto mercado. Pura fachada. Vende-se por aí, há muitos séculos, métodos e fórmulas que prometem controlar o bicho louco que carregamos escondido debaixo do verniz frágil de uma sociabilidade forçada pelas regras de um jogo que nunca parece suficientemente justo. Esta panacéia de rezas e mantras, de gurus e sadus, sejam eles de que linha for, promete muito mas cumpre pouco. É virtualmente impossível conseguir fazer com que o homem abra mão de sua lógica, quanto mais caminhar contra ela!

Jesus transitou na contramão. Quando diante de ameaças que o colocavam em risco, não lançou mão das prerrogativas que poderiam sustentar seu direito de defesa. Abriu mão da réplica, da tréplica… sofreu o agravo, e isto calado. Sustentou até o fim, com atitudes, a mensagem que pregou; não amarelou na hora da verdade, não destoou, não recorreu a qualquer espécie de subterfúgio que pudesse vir a desabonar seu ensino. Viveu o que pregou. Cabalmente.

Nossas atitudes, em última instância, vão determinar se somos o que pregamos, se introjetamos a mensagem que às vezes queremos empurrar goela abaixo de outros. Temo que meu cristianismo seja mais fajuto do que queira admitir. Ponho-me diante do espelho e me pergunto se poderia negar esta afirmação. Mordo os lábios, suo frio, me contorço diante desta verificação; Encaro os fatos e prossigo. As contrações anunciam um parto difícil. Por vezes faço média. Considero os homens, posições, influências… Ainda me debato, justifico, enceno, manipulo, dissimulo (eufemismo para “minto”)… Esse texto nasce doído, como confissão arrancada à força numa sessão de tortura. Confesso que falta a coragem necessária para caminhar na contramão.

Temos nos ludibriado pelos séculos afora, anunciando-nos como discípulos de um Mestre em cujas pegadas não ousamos caminhar… É lógico que o Diabo falta morrer de rir diante daquilo que classificamos como cristianismo. Triste, todavia, é saber que mesmo depois de refletirmos acerca desse arremedo de cristianismo que temos vivido, muitos permanecerão vivendo exatamente do mesmo modo! O desafio, entretanto, segue inalterado, ou tomamos a cruz, negamos as nossas loucas pretensões e o seguimos, ou não temos parte com Ele.

O discurso da renúncia é talvez hoje um dos mais rejeitados. É ilógico. É um atentado aos anseios mais naturais da criatura humana. Antinatural, versa sobre aquilo que não diz respeito aos interesses de homem algum. A teologia da cruz é absurda aos olhos da lógica. Por não conseguirmos assimilá-la de forma integral, criamos uma espécie de simulacro e parece que temos nos contentado com isto. A julgar por tudo que temos visto, se ousarmos nos perguntar onde é que tudo isso vai dar, eu não  teria tanta certeza em afirmar que seria no céu. Estou mais inclinado a pensar que seja no outro condomínio.

A Uniformidade é Burra

Por Luiz Leite

A uniformidade é burra. O mundo seria muitíssimo monótono se conseguíssemos colocar um cabresto nas pessoas e forçá-las a se comportarem à nossa maneira, conformando-se aos nossos gostos. Pode parecer um clichê apenas, mas é necessário que se repita, a unidade na diversidade permanece sendo um enorme desafio.

Conviver num ambiente de teologias múltiplas, de filosofias múltiplas, sempre foi desafiador. A intolerância, a incapacidade de suportar o diferente, sempre foi o motivo precipitador de muitas tragédias na história da humanidade. Homens e nações inteiras se engalfinharam em conflitos mortais simplesmente por labutarem em campos diferentes de idéias e crenças. As páginas da história estão repletas de testemunhos a esse respeito; campos ficaram encharcados de sangue em razão das disputas alimentadas pelo afã ensandecido de impor sobre o outro os seus próprios termos.

Para não citar os horrores do nazismo, tão abundantemente divulgados, passam despercebidos e muitas vezes caem no esquecimento, casos como a chamada noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), noite em que, por ordem de Catarina de Médici, rainha católica da França, as ruas de Paris ficaram ensopadas com o sangue de protestantes franceses, assassinados em massa. Cerca de 30 mil pessoas perderam suas vidas por causa da implacável intolerância católica aos huguenotes, designação comum aos protestantes Franceses.

É fácil concluir, quando refletimos sobre tais coisas, que o homem é um ser em conflito. Sua relação é, consigo, com o próximo, com o Criador, uma relação, sobretudo, conflituosa. Esse desalinho observado em sua essência é a fonte de onde se originam todas as suas neuroses, esquizofrenias, psicoses e demais patologias determinantes dos comportamentos ora confusos, ora bizarros que conduzem o ser humano em sua marcha pelo tempo.

Não temos o direito de obrigar os outros a se conformarem à nossa maneira de ser; mesmo que não concordemos com o diferente, temos que tolerá-lo, ainda que chegue às raias daquilo que consideramos como ultraje. Podemos sem dúvida pregar a nossa mensagem, mesmo porque esse é um direito conquistado, mas impô-la jamais. Toda e qualquer movimentação nessa direção poderá ser tida como doentia.

É certo, entretanto, que todo grupo étnico, social ou religioso tem as suas próprias regras e a vida em sociedade nesse grupo só se faz possível mediante a observação dessas regras. Assim, a não submissão às regras vão conduzir à ejeção do individuo do mesmo. A sinagoga amaldiçoa e expulsa da comunidade o herege; a Igreja o excomunga, persegue e manda para o calabouço ou para as chamas; a família o deserda; a sociedade o execra, e por aí vai. A regra é inflexível. Exige que sejamos iguais, que leiamos todos na mesma cartilha, que nos deixemos amoldar aos códigos sociais. Na verdade essa regra é a garantia de manutenção do sistema, qualquer que seja ele.

Pergunta Erasmo de Roterdam (c. 1466-1536) em sua obra Elogio à Loucura:

“Que força pode obrigar os homens, naturalmente duros, selvagens e rústicos, a se agruparem em cidades, para viver em sociedade? A adulação.”