Esquerdismo — a infância da política

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Esquerdismo — a infância da política

Por Luiz Leite

A infância é geralmente caracterizada por um conjunto de comportamentos marcados por pequenas inconsistências, até certo ponto toleráveis, próprias de um indivíduo que ainda não atingiu a idade madura. Dirigida por sentimentos e uma série de pulsões primitivas, a criança é regida pelo princípio do prazer, conceito freudiano bastante comum no estudo e descrição do psiquismo infantil. Por óbvia inferência, nesta fase a razão e o bom senso ainda não orientam o pensamento e nem regulam a ação. Desse modo, não se pode esperar de uma criança grande elaboração nas ideias e tampouco um comportamento que leve em consideração as regras e demandas do universo adulto. Embalada por fantasias e medos, a criança não tem condições psicológicas nem cognitivas para fazer leituras e interpretações balanceadas da realidade complexa que a envolve.

A termo “infância” geralmente remete-nos à cronologia da vida biológica, e quando nos referimos à essa infância estamos falando de uma fase, um estágio no desenvolvimento de um ser humano quando corpo e mente ainda não atingiram sua maturidade. A medida de anos que estabelece quando se atinge a maturidade biológica é fixada por uma régua relativamente bem definida. Existem, porém, outras infâncias e adolescências. Podemos considerar uma infância ou adolescência espiritual, uma emocional/psicológica, bem como uma infância ou adolescência intelectual, política, ou até mesmo financeira… Não existe, para esses casos, um período que defina o fechamento dos ciclos. Um indivíduo pode chegar aos 40 anos de idade cronológica e, apesar de ter alcançado a maturidade biológica plena, apresentar um comportamento de um garoto de 15!

Quando eu era menino, – diz o apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios, – falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. (1 Co 13:11) No contexto da cultura de Paulo, e por extensão, em todo o mundo antigo, não havia o conceito da adolescência. Dava-se um pulo, direto da infância, para a vida adulta. Talvez o caso mais extremado seja o caso de Esparta, onde os meninos, “depois de passarem os primeiros 7 anos de vida com a família, eram enviados para centros de treinamento para serem educados e transformados em guerreiros. Até os 11 anos, o jovem espartano passava pelo primeiro ciclo, a meninice, em que recebia o treinamento militar básico.” Assim, a chamada meninice dos 7 aos 11 anos, era dedicada a treinamento militar básico. Não havia refresco!

A sociedade ocidental moderna mudou muito. Em alguns aspectos, para melhor, em outros, não tanto. Os rituais de passagem nas sociedades antigas, marcavam a transição de fases e, de certo modo, ajudavam o indivíduo a se posicionar e assumir responsabilidades acerca de seu novo papel. Nesses nossos dias, amadurecer e assumir responsabilidades não é algo tão comum como se deveria esperar. Muitos amadurecem fisicamente mas psicologicamente permanecem meninos, manhosos e chorões. Poucas coisas são tão constrangedoras como uma pessoa adulta (faça-se aqui as devidas concessões) vivendo uma relação permanentemente parasitária, às custas de outrem. É absolutamente embaraçoso ver um indivíduo adulto querendo ter suas necessidades supridas por outros meios que não seus próprios méritos.

Os movimentos sociais de esquerda funcionam mais ou menos assim. É a política da primeira infância. A política do “Eu quero porque quero!” é muito perigosa. A criança, segundo a psicanálise, é um perverso polimorfo. Não importa se é do outro… Se não me der eu grito, esperneio, mordo, bato, puxo os cabelos, sem dó…O esquerdismo é infantil em muitos aspectos, por essa razão barulhento, e por definição, baderneiro, desordeiro… Consegue, em casos, até chegar à idade juvenil, mas raramente amadurece. Os arroubos de idealismo incendiados por muita paixão e pouca reflexão, exercem forte apelo ao psiquismo infantil. Não é por outra razão que seduzem as massas que, sem consciência crítica, como crianças, são facilmente encantadas e mobilizadas.

Identifica-se no discurso da ideologia política de esquerda um conteúdo alienante e em nada libertário como querem fazer crer seus ícones. Estados de orientação comunista leninista/maoista, ou de qualquer outra ordem, já provaram-se, historicamente, um erro. Suas populações são infantilizadas e impedidas de amadurecerem. Como poderia amadurecer intelectualmente um povo que tem seu acesso à informação e sua liberdade de expressão cerceada pelo Estado? Até hoje na Rússia existem pessoas que não sabem quem foi Nicolau II, seu último imperador! Mesmerizados pela máquina da propaganda estatal que projetam o ego grandioso de seus líderes, como crianças, olham para as estátuas majestosas como se fossem verdadeiros deuses. O Estado e seus governantes são divindades substitutas e o culto a eles toma lugar das religiões comumente banidas ou reprimidas. Governantes corruptos, desonestos, frequentemente perversos, assassinos cruéis, são venerados como salvadores. É a figura do pai totêmico. Ainda que estejam completamente errados e em débito para com a justiça, faz-se sacrílego aquele que ousar apontar seus crimes. Vê-se claramente nesses grandes experimentos sociais a infantilização de populações inteiras.

Quando eu era menino pensava como menino e como menino abracei a ideologia de esquerda. Justiça social era um tema que me incendiava. A perversa distribuição de renda no Brasil, país injusto e desigual, era a prova que eu precisava para adotar a ideia de que os fins (a promoção da justiça) justificavam os meios (O achaque dos mais ricos). Deveríamos tirar dos mais ricos e dar para os mais pobres. Isto soa muito bonito aos ouvidos de uma criança mas não pode fazer sentido algum aos ouvidos de uma pessoa madura. O discurso esquerdista é infantil, bestializante e mal intencionado. Só se rende aos seus apelos aqueles que são muito românticos (ingênuos) e pouco maduros, psicológica ou intelectualmente. À propósito, veja-se o que um certo Sr. Maduro está fazendo com um lindo país, logo ali do outro lado da fronteira! Qualquer pessoa amadurecida espiritual, psicológica e intelectualmente há de chegar à conclusão que o princípio do prazer – que rege o universo infantil do “eu quero e eu quero agora!” – é a marca inequívoca dos movimentos e regimes de esquerda.

A julgar pelos regimes comunistas ou, se não tanto, simpáticos ao comunismo e de orientação esquerdista, o que se pode observar é estarrecedor. A truculência e a opressão do mais forte governam com mão de ferro, do mesmo modo que acontece com as crianças nas brincadeiras na rua ou no pátio da escola. Como delinquentes juvenis, não querem estudar, não querem trabalhar, e sempre encontram alguém a quem culpar por aquilo que lhes falta. Verifica-se o caos, a baderna administrativa, a sangria dos recursos, a corrupção endêmica, em todos eles, desde a China ao Equador, da Rússia à Venezuela, da Coréia do Norte à Cuba. É óbvio, que nesses “paraísos” onde os pobres são tratados de modo tão “paternal”, a imprensa não pode noticiar, a polícia não pode investigar e o judiciário não pode emitir sentenças… Estão amordaçados!

Em nosso país, o desastre em que nos envolvemos nos expôs ao ridículo diante dos olhos do mundo. Estamos constrangidos e embaraçados… Temos vergonha de um país do qual devíamos nos orgulhar… Se por um lado o vexame nos fez enrubescer, por outro lado podemos ter algum alento e até mesmo dizer graças a Deus, por termos tido nossas vergonhas expostas. É a oportunidade de reconstruir um novo país. Um fato recente, o rompimento da barragem de rejeitos em Mariana, Minas Gerais, é uma parábola triste e que aplica muito bem ao mar de lama em que se encontra nossa administração pública. O dano causado vai levar anos para recuperar, como serão necessários muitos anos para recuperar o nosso, um dia belo e hoje triste Rio Doce. Mas, a lição não pode se perder. O Governo de uma nação como essa não pode ser confiado à crianças, a delinquência juvenil, à irresponsabilidade de baderneiros esquerdistas. Se, entretanto, aqueles que se julgam maduros não tomarem a frente, em uma verdadeira cruzada, os tais baderneiros, para o nosso pesadelo, podem voltar, porque eles falam a linguagem dos infantes, e para o nosso espanto, a maior parte daqueles que tem o poder de voto, não amadureceram ainda (intelectualmente) e são, como já fartamente verificado, massa de manobra fácil. Como já disse Dostoievski, “Pode-se dizer tudo a uma criança – Tudo!” 

 

 

O Canto da Lavadeira

renoir1A Lavadeira/Renoir

O Canto da Lavadeira

Por Luiz Leite

O meu nascimento, essa feliz ocorrência que trouxe motivo de alegria para o mundo, se deu na internacional megalópole de Santo Antonio de Barcelona (nos cafundós da Bahia), que ainda não tive a honra de conhecer e que, para o meu constrangimento, nem mesmo figura no mapa do Brasil… Pois a família mudou-se da ilustre Catalunha baiana para um temido lugarejo chamado “Jaquetô” quando eu contava apenas uns poucos meses.

Jaquetô seria a forma popular de dizer: “Já aquietou-se”. O nome aludia à violência da poeirenta cidadezinha que mais parecia ter saído de um daqueles deliciosos western de Sergio Leone. Segundo se contava, em Jaquetô matava-se sempre alguém de manhã e amarrava-se outro para matar à tarde… Pois eu sobrevivi a essa sanguinolência.

O lugarejo ainda hoje exerce profundo encanto sobre mim. É de lá que guardo as memórias de um tempo mágico e repleto de imagens da infância ideal, ainda que vivida na mais profunda simplicidade. Farta de aventuras e de tudo aquilo que o imaginário infantil possa desejar, havia rios, selvas, bruxos, cavalos, gado, caçadas, fantasmas e tudo o mais…

Em Jaquetô não havia rádio, TV, cinema, nem livros em casa, mas havia D. Carmelita, um acervo inesgotável de casos, estórias fantásticas que dispensavam as outras mídias, que na verdade nem conhecíamos. Quem precisa de televisão ou rádio quando se pode sentar à roda da fogueira, comer “batata doce assada” e ouvir, completamente arrebatado, as estórias de D. Carmelita?

Quando a vida melhorou um pouco, papai, Seu Vicente, comprou um rádio que nos deixou fascinados. Só ele, entretanto, podia mexer naquele estranho e curioso “caixote”. A noite, quando chegava do trabalho, podíamos ouvir com ele, completamente impressionados pelos efeitos especiais, a famosa rádio novela “Jerônimo, o herói do sertão”. Era o único entretenimento virtual que conhecíamos. Todo o resto era real, muito real…

Ouvir a D. Carmelita cantando por toda a infância despertou meu gosto pela música e passei a apreciar as notas ainda antes de conhecê-las. Com um timbre agradabilíssimo e voz afinada como de alguém que recebeu educação musical, D. Carmelita enchia a casa da melhor música que existia. Aprendi a gostar de todos os gêneros porque D. Carmelita é o ecletismo em pessoa. Marcha, Maxixe, Bolero, Samba, Bossa, Baião… Com ela é que aprendi a amar a vida e expressar isso através da música.

O primeiro registro da mensagem do Evangelho ficou gravado em minha memória através da música. Sem ter tido qualquer contato com o Evangelho até a idade de 20 anos, eu carregava uma sementinha que havia sido plantada em meu coração pela voz de alguma lavadeira que de costume lavava roupas no rio onde eu também de costume ia me refrescar nas tardes incrivelmente quentes daquele lugar que para muitos era perigoso mas que para mim mais parecia um lugar de delícias.

A maravilhosamente bela canção que a lavadeira cantava com sentimento tão intenso e que apelava para algo dentro em mim que eu não sabia explicar dizia:
“Da minha pátria estou bem longe, cansado estou estou; Eu tenho de Jesus saudade, quando será que eu vou…”
A minha memória musical gravou para sempre aqueles belos versos e nunca mais me esqueci. De vez em quando sentia aquela estranha saudade de que falava a letra da música. Cantava de forma pungente, mesmo sem saber a que exatamente se referiam aquelas estrofes…

A lavadeira estava em missão… Possivelmente nem mesmo sabia. Simplesmente adorava ao Criador fazendo do seu ofício humilde um sacro ofício. Deus trabalha de forma curiosa. Eu fui atingido pela adoração dela e meu destino foi dramaticamente alterado…

Somente muitos anos mais tarde ao me converter a Jesus é que fui ouvir novamente aquela bela canção e relacionar o sentimento antigo com a minha nova identidade. Eu era cidadão daquela mesma pátria de que a canção falava mas não sabia… Sei agora. Hoje ainda, com D. Carmelita e Seu Vicente, também convertidos ao Evangelho, de hinário na mão em nossos cultos domésticos sempre que vou visitá-los, cantamos a Linda Pátria e inevitavelmente retorno ao Jaquetô que ainda vive em minhas memórias, não como um lugar de morte, mas como um dos lugares mais encantadores da terra.

Quando voce vai virar homem, hein rapaz?!

Regressão

Por Luiz C Leite

Dezembro é para mim um tempo especial. Não apenas por causa do Natal e de sua gostosa significação, mas também por causa da mangueira. Dezembro é a estação das mangas, ou o começo dessa estação gostosa… é tempo de lambuzar-se com o caldo amarelado dessa minha fruta predileta.

A minha alegria é abrir a janela do quarto e observar o sol da manhã realçando com seu brilho gentil aquelas formidáveis “pepitas” de ouro ovaladas que pendem de seus raminhos pelas galhas das mangueiras…

A imagem apela para memórias que conduzem aos recônditos mais bucólicos da alma. Evoca paragens edênicas e provoca certa nostalgia, coisa essa experimentada pela maioria das pessoas, ainda que raramente descrita. A relação nostálgica de cores, sons e cheiros com a infância remota, a saudade da inocência e o desejo impossível de retornar e revisitar os tempos em que “éramos felizes e não sabíamos” é comum a todos.

Psicanaliticamente podemos compreender essa saudade da infância como a tendência geral à regressão. Porque “adolescer” é “crescer com dor”, e a posterior idade adulta é um exercício de desmantelamento gradativo e implacável das projeções fantasiosas concebidas nos anos da inocência, não raro encontramos pessoas adultas comportando-se, sem se dar conta, como se fossem crianças. Todos nós regredimos de quando em vez.

Alguns percebem de maneira suficientemente madura que estão se comportando como meninos(as) e logo retornam da sua regressão, tomam medidas adultas e prosseguem suas atividades, desempenhando os seus papéis sociais como pessoas maduras. Outros, entretanto, regridem aos anos dourados da infãncia e de lá não retornam, muito embora as décadas de acúmulo cronólogico já os tenha distanciado em muito daquele tempo mágico.

É inútil a reprimenda comum tipo “cresça”!, “Quando voce vai virar homem”! Tais pessoas por alguma razão não desenvolveram os mecanismos necessários para lidar com a crueza dos fatos no mundo real… regridem, refugiam-se na infância e recusam-se a assumir a dura tarefa de capitanear suas próprias existências. É comum nesses casos o processo de auto-vitimização. O mundo está contra elas. Todos as perseguem. Elas tem uma imensa dificuldade de arcar com o ônus de suas escolhas erradas, de seus atos mal planejados. Tornaram-se adultos cronologicamente sim, mas só cronologicamente. Psiquicamente permanecem crianças. Creio que todos nós conhecemos alguém assim.

Esses amados amigos e parentes nossos demandarão trabalho árduo para conduzi-los a um reajuste até que o o descompasso entre a fantasia e a realidade seja minimizado. Tais pessoas não tem culpa de serem assim. Elas precisam de ajuda. A dissolução de certos conflitos intra-psíquicos, que de certa forma significa a minimização desse descompasso, trará jeitosa e gradativamente o indivíduo da sua “residência” antes fixada na infância, para a realidade atual, o que o capacitará a começar a dar passos mais firmes no mundo concreto do qual até então ele vinha fugindo.

É injusto da nossa parte querer que essa criança corra uma maratona sem que antes tenha aprendido a andar… Mas também é extremamente difícil aturar o comportamento reincidente desses. O que fazer? Tratá-los como crianças ou exigir dos tais uma postura adulta? Te deixo com o dilema… deixe a sua opinião no comentário.