O Canto da Lavadeira

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O Canto da Lavadeira

Por Luiz Leite

O meu nascimento, essa feliz ocorrência que trouxe motivo de alegria para o mundo, se deu na internacional megalópole de Santo Antonio de Barcelona (nos cafundós da Bahia), que ainda não tive a honra de conhecer e que, para o meu constrangimento, nem mesmo figura no mapa do Brasil… Pois a família mudou-se da ilustre Catalunha baiana para um temido lugarejo chamado “Jaquetô” quando eu contava apenas uns poucos meses.

Jaquetô seria a forma popular de dizer: “Já aquietou-se”. O nome aludia à violência da poeirenta cidadezinha que mais parecia ter saído de um daqueles deliciosos western de Sergio Leone. Segundo se contava, em Jaquetô matava-se sempre alguém de manhã e amarrava-se outro para matar à tarde… Pois eu sobrevivi a essa sanguinolência.

O lugarejo ainda hoje exerce profundo encanto sobre mim. É de lá que guardo as memórias de um tempo mágico e repleto de imagens da infância ideal, ainda que vivida na mais profunda simplicidade. Farta de aventuras e de tudo aquilo que o imaginário infantil possa desejar, havia rios, selvas, bruxos, cavalos, gado, caçadas, fantasmas e tudo o mais…

Em Jaquetô não havia rádio, TV, cinema, nem livros em casa, mas havia D. Carmelita, um acervo inesgotável de casos, estórias fantásticas que dispensavam as outras mídias, que na verdade nem conhecíamos. Quem precisa de televisão ou rádio quando se pode sentar à roda da fogueira, comer “batata doce assada” e ouvir, completamente arrebatado, as estórias de D. Carmelita?

Quando a vida melhorou um pouco, papai, Seu Vicente, comprou um rádio que nos deixou fascinados. Só ele, entretanto, podia mexer naquele estranho e curioso “caixote”. A noite, quando chegava do trabalho, podíamos ouvir com ele, completamente impressionados pelos efeitos especiais, a famosa rádio novela “Jerônimo, o herói do sertão”. Era o único entretenimento virtual que conhecíamos. Todo o resto era real, muito real…

Ouvir a D. Carmelita cantando por toda a infância despertou meu gosto pela música e passei a apreciar as notas ainda antes de conhecê-las. Com um timbre agradabilíssimo e voz afinada como de alguém que recebeu educação musical, D. Carmelita enchia a casa da melhor música que existia. Aprendi a gostar de todos os gêneros porque D. Carmelita é o ecletismo em pessoa. Marcha, Maxixe, Bolero, Samba, Bossa, Baião… Com ela é que aprendi a amar a vida e expressar isso através da música.

O primeiro registro da mensagem do Evangelho ficou gravado em minha memória através da música. Sem ter tido qualquer contato com o Evangelho até a idade de 20 anos, eu carregava uma sementinha que havia sido plantada em meu coração pela voz de alguma lavadeira que de costume lavava roupas no rio onde eu também de costume ia me refrescar nas tardes incrivelmente quentes daquele lugar que para muitos era perigoso mas que para mim mais parecia um lugar de delícias.

A maravilhosamente bela canção que a lavadeira cantava com sentimento tão intenso e que apelava para algo dentro em mim que eu não sabia explicar dizia:
“Da minha pátria estou bem longe, cansado estou estou; Eu tenho de Jesus saudade, quando será que eu vou…”
A minha memória musical gravou para sempre aqueles belos versos e nunca mais me esqueci. De vez em quando sentia aquela estranha saudade de que falava a letra da música. Cantava de forma pungente, mesmo sem saber a que exatamente se referiam aquelas estrofes…

A lavadeira estava em missão… Possivelmente nem mesmo sabia. Simplesmente adorava ao Criador fazendo do seu ofício humilde um sacro ofício. Deus trabalha de forma curiosa. Eu fui atingido pela adoração dela e meu destino foi dramaticamente alterado…

Somente muitos anos mais tarde ao me converter a Jesus é que fui ouvir novamente aquela bela canção e relacionar o sentimento antigo com a minha nova identidade. Eu era cidadão daquela mesma pátria de que a canção falava mas não sabia… Sei agora. Hoje ainda, com D. Carmelita e Seu Vicente, também convertidos ao Evangelho, de hinário na mão em nossos cultos domésticos sempre que vou visitá-los, cantamos a Linda Pátria e inevitavelmente retorno ao Jaquetô que ainda vive em minhas memórias, não como um lugar de morte, mas como um dos lugares mais encantadores da terra.

Quando voce vai virar homem, hein rapaz?!

Regressão

Por Luiz C Leite

Dezembro é para mim um tempo especial. Não apenas por causa do Natal e de sua gostosa significação, mas também por causa da mangueira. Dezembro é a estação das mangas, ou o começo dessa estação gostosa… é tempo de lambuzar-se com o caldo amarelado dessa minha fruta predileta.

A minha alegria é abrir a janela do quarto e observar o sol da manhã realçando com seu brilho gentil aquelas formidáveis “pepitas” de ouro ovaladas que pendem de seus raminhos pelas galhas das mangueiras…

A imagem apela para memórias que conduzem aos recônditos mais bucólicos da alma. Evoca paragens edênicas e provoca certa nostalgia, coisa essa experimentada pela maioria das pessoas, ainda que raramente descrita. A relação nostálgica de cores, sons e cheiros com a infância remota, a saudade da inocência e o desejo impossível de retornar e revisitar os tempos em que “éramos felizes e não sabíamos” é comum a todos.

Psicanaliticamente podemos compreender essa saudade da infância como a tendência geral à regressão. Porque “adolescer” é “crescer com dor”, e a posterior idade adulta é um exercício de desmantelamento gradativo e implacável das projeções fantasiosas concebidas nos anos da inocência, não raro encontramos pessoas adultas comportando-se, sem se dar conta, como se fossem crianças. Todos nós regredimos de quando em vez.

Alguns percebem de maneira suficientemente madura que estão se comportando como meninos(as) e logo retornam da sua regressão, tomam medidas adultas e prosseguem suas atividades, desempenhando os seus papéis sociais como pessoas maduras. Outros, entretanto, regridem aos anos dourados da infãncia e de lá não retornam, muito embora as décadas de acúmulo cronólogico já os tenha distanciado em muito daquele tempo mágico.

É inútil a reprimenda comum tipo “cresça”!, “Quando voce vai virar homem”! Tais pessoas por alguma razão não desenvolveram os mecanismos necessários para lidar com a crueza dos fatos no mundo real… regridem, refugiam-se na infância e recusam-se a assumir a dura tarefa de capitanear suas próprias existências. É comum nesses casos o processo de auto-vitimização. O mundo está contra elas. Todos as perseguem. Elas tem uma imensa dificuldade de arcar com o ônus de suas escolhas erradas, de seus atos mal planejados. Tornaram-se adultos cronologicamente sim, mas só cronologicamente. Psiquicamente permanecem crianças. Creio que todos nós conhecemos alguém assim.

Esses amados amigos e parentes nossos demandarão trabalho árduo para conduzi-los a um reajuste até que o o descompasso entre a fantasia e a realidade seja minimizado. Tais pessoas não tem culpa de serem assim. Elas precisam de ajuda. A dissolução de certos conflitos intra-psíquicos, que de certa forma significa a minimização desse descompasso, trará jeitosa e gradativamente o indivíduo da sua “residência” antes fixada na infância, para a realidade atual, o que o capacitará a começar a dar passos mais firmes no mundo concreto do qual até então ele vinha fugindo.

É injusto da nossa parte querer que essa criança corra uma maratona sem que antes tenha aprendido a andar… Mas também é extremamente difícil aturar o comportamento reincidente desses. O que fazer? Tratá-los como crianças ou exigir dos tais uma postura adulta? Te deixo com o dilema… deixe a sua opinião no comentário.