Sartre e Livre Arbítrio

 

 

 

 

 

 

 

Sartre e Livre Arbítrio

Por Luiz Leite

Trecho do livro “ELES PROFANARAM O SAGRADO” de Luiz Leite (lançamento previsto para julho)

“Esta velha angústia, esta angústia que há séculos trago em mim, transbordou da vasilha… (…) se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!” (Fernando Pessoa)

O determinismo é uma doutrina segundo a qual o homem pouco ou nada pode fazer, uma vez que, praticamente, tudo nele é resultado de forças que estão além de sua capacidade de manipulação. Segundo este ponto de vista o famoso livre arbítrio seria uma completa ilusão.

Está a criatura humana aprisionada numa inescapável camisa de força sociocultural como querem os deterministas? Se assim for resta apenas uma lacrimosa resignação. Se a prisão de segurança máxima do determinismo é inexpugnável, o desespero deixará apenas o suicídio como rota de fuga!  Esse exercício dialético de perguntas e respostas lança numa prisão os que ousam vadiar em seu carrossel; aos cativos dessa gaiola soberba assegura-se o direito fundamental de darem voltas no pátio interno; ali, ao sol da manhã, revolvem, indefinidamente, presos, carregando suas cadeias filosóficas, num movimento cíclico interminável de tese, antítese e síntese.

Se para o determinismo o mundo segue, previsível como um jogo de cartas marcadas, para o existencialismo sartreano o arranjo é completamente outro; na verdade não há arranjo algum! O mundo é um absurdo desprovido de propósitos quaisquer que sejam. Ao removerem a coluna teleológica, pretendem desmantelar o edifício do teísmo que insiste num Deus que dá sentido ao todo. Não há, bradam os ateus sartreanos, sentido em nada. O que importa é o que existe, ou seja, o que se vê, se toca, se controla. A existência, assim, precede a essência.  Este é o pressuposto fundamental do existencialismo ateu de Sartre.

Segundo essa linha de raciocínio, o homem está entregue à própria sorte. Ninguém virá salvá-lo. É livre e ao mesmo tempo escravo dessa liberdade. A questão filosófica em torno dessa suposta liberdade que coloca o homem como capitão do seu próprio destino tem sido motivo de muita controvérsia através da sucessão ininterrupta de escolas que pretendem dar as diretrizes para cada era.

O pensamento de Sartre, como o de qualquer pensador, está profundamente arraigado na sua própria experiência de vida. As influências sofridas por cada um determinam, em muito, o seu modo de pensar. É impossível desvencilhar-se completamente da própria bagagem que a vida nos impôs. Daí se dizer que cada homem é produto do seu tempo. Sartre teve material farto para compor sua ode à desesperança. Tendo presenciado as duas grandes guerras, bebeu a contragosto largos sorvos de amargura e dor, suficientes para enlouquecer e precipitar a alma nos braços do desespero.

Vivi em Israel por cerca de um ano e meio e lá encontrei alguns sobreviventes da longa noite de horror que a Alemanha nazista impôs sobre o mundo de maneira geral, e sobre os judeus de forma perversamente específica; Ainda que o nazismo tenha perseguido e martirizado poloneses, ciganos, homossexuais e prostitutas de modo igualmente odiável, a história publica com mais ênfase a tragédia judaica. Depois do inominável genocídio a que foram submetidos, muitos judeus tiveram uma dificuldade imensa de continuar crendo na existência de uma divindade bondosa a governar o mundo. O antiqüíssimo problema do mal emergiu monstruoso das águas escuras dos séculos e desferiu um golpe desorientador. Os filhos daquela geração por sua vez tiveram e ainda tem uma grande dificuldade de assimilar o conceito de um Deus justo e compassivo.

Diante de certas vicissitudes alguns perdem a fé; apaga-se o lume da esperança, esmagada pelo evento sinistro e sem explicação. Resta nestes casos a perplexidade, a expressão de pasmo perante o que só poderia ser classificado como absurdo! A geração de Sartre passou por duas catástrofes causadas, na leitura do existencialismo, pela loucura da livre escolha dos homens. Nem deuses nem demônios tomaram parte na empreitada sinistra. Em verdade, não há deuses ou demônios. O homem é livre e sua vontade é a responsável por moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de indivíduos e nações em sua marcha pela história.

Em termos de filosofia é quase sempre um gesto deselegante dizer que o outro está errado. Resta o respeito ao pensamento e escolha de cada um. Se porventura a teologia for convidada para entrar na discussão, estará sempre ali, disposta a dar razão da esperança que pode dar sentido e propósito ao mundo. Vamos refletir teologicamente? No princípio…DEUS…

5 comentários sobre “Sartre e Livre Arbítrio

  1. O determinismo não será apenas uma camisa de forças sociocultural, mas Natural, Existencial, Genético, Universal… Nele está tudo englobado, desde a forma como olhamos uns para os outros como para o Universo, para conceitos divinos, para as entranhas da Realidade em si mesma. Tema interessantíssimo.

  2. Interessante mesmo! Bom comentario Tiago!

  3. Eu tenho uma dificuldade com o existencialismo de Sartre. Não pela simpatia ao determinismo reducionista, mas muito mais pelo modo sobre como se configura o pensamento. Crer que a existência precede a essência partindo de uma cosmovisão cristã, torna-se uma ação bastante contraditória. Pelo menos no meu modo de ver. Isso porque se partirmos do ponto de vista criacionista, em que por trás da criação está um Criador inteligente, devemos também esperar que o sentido da criação precede sua existência.
    Diferentemente do pensamento aristotélico que dizia que a essência do objeto repousa em sua função, devemos entender que a essência do objeto não é inerente à natureza do objeto, mas lhe é imputada, conferida pelo seu Criador. Com efeito, como criaturas, nossa essência não está em nossa natureza, mas naquEle que nos criou. Doutra forma, não podemos nem pensar que haja um Plano do Criador, um propósito específico para Sua criação.
    Essa forma de pensar, nem de longe exclui que o futuro será o resultado de nossas decisões, mas sim que o sentido da existência não repousa em nós mesmos, ele nos transcende. Já dizia Agostinho em Liberum Arbitrium que nosso insucesso repousava justamente em nossa liberdade, pois essa nos conferia poder para nos afastarmos da vontade do Criador.
    Se somos livres como dizia Sartre, sim, nós somos, mas essa liberdade não nos é a única opção. Há a possibilidade de usarmos a nossa liberdade para sermos livres de ser livres, conferindo ao Criador o poder de dar sentido à nossa existência.

  4. Deve ser reconfortante poder renunciar à responsabilidade da liberdade, para poder então submeter-se a um dos (vários, possíveis) Criadores, que tal como o Existencialismo de Sartre, eles próprios são criação do Homem. Simpatizo bastante com a inocência e vontade de Santo Agostinho, mas a discussão sobre o livre-arbítrio deixou de estar sob a alçada exclusiva da teologia há muito tempo. Tem vindo a ser bastante complementada com a filosofia e a ciência, e olhar para ela apenas por esse prisma isso sim, é reducionista.

    Palavras de Sartre:

    “O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiro existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeira não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz.”

    “O homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projectar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projecto; nada há no céu inteligível, o homem será antes mais o que tiver projectado ser. Não o que ele quiser. Porque o que entendemos vulgarmente por querer é uma decisão consciente, e que, para a maior parte de nós, é posterior àquilo que ele próprio se fez. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea do que o que se chama vontade. Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência.”

  5. Não consegui visualizar o papel do livre arbítrio, com o determinismo e a causa e efeito. Mas, somente agora que comecei a ver o assunto, portanto acredito de algum terei uma contribuição a altura dos demais, as quais gostei muito,

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