Feliz dia da Independência

israel_flag1

Yom Ha atzmaut

Por Luiz Leite

Hoje, Israel celebra seu 61º aniversário. Todos os anos em que celebramos o renascimento do Estado Judaico, após longos anos de exílio, é motivo de grande celebração. Após séculos sem nada poder fazer, o povo judeu retornou ao seu lugar na história e de direito entre as nações. Com o renascimento de Israel, mais uma vez fomos capazes de mapear nosso próprio destino e determinar nosso próprio futuro. Os últimos 61 anos mostram o quanto uma nação livre e independente pode realizar. Com parcos recursos, nós fizemos uma terra estéril retornar à vida, e absorvemos milhões de imigrantes. Através da inovação e determinação, a genialidade de nosso povo nos tornou líder na agricultura, medicina e ciência, enquanto nossa criatividade gerou uma indústria de alta tecnologia que continuou a assombrar o mundo. Conseguimos paz com o Egito e a Jordânia, e continuaremos a buscar a paz com nossos vizinhos. Tudo isto foi conseguido mesmo com Israel ter vivido sob constante ameaça nos últimos 61 anos. Infelizmente, Israel continua sob ameaça. Um regime iraniano que está perseguindo ardorosamente o objetivo de obter armas nucleares, audaciosamente pede nossa destruição.
Organizações terroristas em nossas fronteiras sul e norte se fortalecem a cada dia. E uma onda crescente de antissemitismo está varrendo o mundo civilizado. Para encarar estes desafios nos anos vindouros, a unidade entre nosso povo, tanto dentro como fora de Israel será mais importante do que nunca. Este é o motivo pelo qual é vital continuar a fortalecer os laços entre Israel e os judeus da Diáspora. Estes laços são fonte de força mútua e uma lembrança poderosa do papel único que Israel desempenha no mundo e na história de nosso povo. Neste “Dia da Independência”, vamos nos orgulhar de tudo o que conseguimos e vamos olhar adiante para um tempo de segurança, prosperidade e paz. Se ficarmos unidos como irmãos e irmãs, se tivermos coragem e determinação, este tempo com certeza chegará”.

Os cristãos normalmente se alegram com a independência de Israel (eu particularmente festejei com eles, dancei nas ruas o “Hava Naguila” , soltei foguetes, durante o tempo em que vivi na terra chamada santa…). Se por um lado os seguidores de Jesus Cristo se alegram com a recriação do Estado de Israel, por outro lado se ressentem com o descaso dos judeus para com o seu Messias. Se não valorizam o seu mais famoso compatriota, deveriam pelo menos honrar aquele que é o Ártifice da nação. Qual nada!

Veja-se o pronunciamento do primeiro ministro por ocasião dos festejos pela independência do jovem país. Não se encontra aí nem mesmo a mais ínfima menção de consideração ao Deus dos profetas. A marca do discurso é a arrogância humana, atitude de um coração desviado; é a radiografia da incrível prepotência de um povo que insiste em seus próprios caminhos e não se converte…

O descaso para com Ha Shem é flagrante! A falta de honra ao unico que é digno de honra! O ilustre dirigente da nação exaltou as conquistas do povo de Israel como se as mesmas fossem resultado dos seus próprios esforços… Em nenhum momento teve a humildade de dizer como Samuel: “Até aqui nos ajudou o Senhor!” ou como o Rei Josafá: “Crede no Senhor e estareis seguros, crede no seus profetas e prosperareis”.

Ao contrário, o discurso do primeiro ministro, sem conceder crédito ao Deus dos patriarcas, lembra mais a plataforma de governo de Nimrode quando diz: “vamos nos orgulhar de tudo o que conseguimos e vamos olhar adiante para um tempo de segurança, prosperidade e paz.” O quadro pintado no primeiro capítulo de Isaias 2700 anos atrás representa bem o Israel de hoje e permanece sem necessidade de retoques. O apelo do profeta Oseias no capitulo 14 ainda espera resposta daqueles aos quais foi endereçado. “Volta, ó Israel, para o Senhor teu Deus; porque pelos teus pecados estás caído!”

Anúncios

No Muro das Lamentações

Ao pé do muro

Por Luiz Leite

Após oito meses vivendo em Israel, finalmente lá estava eu, com quipá na cabeça, em frente ao lendário muro. O “muro” na verdade é uma imensa e respeitável muralha formada por grandes blocos de rocha. Impõe respeito. Se a muralha (apenas parte do que restou) era assim imponente, o que dizer do templo!

Escrevi meus pedidos de oração em um pedaçinho de papel, conforme a tradição, aproximei-me com reverência do lugar tão sagrado aos judeus e depositei em uma fresta a minha petição. Ali, ao lado de soldados, rabinos e turistas, fiz minha oração silenciosa. Lamentei a cegueira espiritual de Israel, mas logo me dei por consolado, pois foi exatamente por causa da sua cegueira que nós gentios pudemos ser “enxertados” na Videira. Estava escrito.

Cheguei em Jerusalém, a cidade do grande Rei, exatamente no dia em que celebravam o seu aniversário. Os festejos religiosos e civis, as luzes, a alegria brevíssima de um povo que conhece bem a efemeridade dos momentos felizes, me envolveram rápida e completamente.

Eu que passara os últimos oito meses na “roça”, morando e trabalhando num Kibbutz no norte do país, na alta Galiléia, agora estava na cidade, mas não era uma cidade qualquer, estava em Jerusalém, tomada por Davi, o belemita, dos arrogantes Jebuseus, há cerca de três mil anos!

Até 1966 não havia motivo para grandes celebrações posto que a capital judaica permanecia ainda sob o domínio árabe. Os judeus haviam retornado em 1948 para a Palestina após um longo e sofrido exílio, mas não poderiam se sentir completos enquanto Jerusalém estivesse nas mãos dos primos rixosos. Com a lendária guerra dos Seis Dias, movida pelos árabes, Israel, cercado pelas nações inimigas que intentavam varrê-la do mapa e empurrá-la para o Mediterrâneo, numa reação inesperada pelo agressor, não só colocou em fuga os exércitos inimigos como tomou territórios preciosos daqueles, como as Colinas de Golan, a Península do Sinai e a sua velha e querida capital. Foi a partir de então que passaram a escavar. Depois de vinte anos de escavação o muro como hoje o conhecemos surgiu.

Sentado em um Café, enquanto observava o movimento alegre e curtia o burburinho daquele lugar exótico, considerava a frustração dos judeus por ainda não terem acesso ao monte do Templo. Apesar de haverem “recapturado” a cidade, a área do Templo permanecia sob controle dos Palestinos. Decidiram não tocar na mesquita árabe, o Domo da Rocha, levantada exatamente sobre a área onde um dia esteve o templo de Salomão.

Sofrem hoje com a humilhação de terem que se contentar com a restrita área do Muro, chamado das Lamentações, que na verdade não se presta somente à lamúria como o seu alcunha sugere. É um lugar de devoção, de adoração. Ali o Deus de Abrãao, Isaque e Jacó é lembrado e cultuado.

Antes Israel estava incompleto porque a sua capital estava sob domínio árabe, agora Israel tem a sua capital, todavia permanece incompleto… Os árabes dominam o monte Moriá; Construíram na área do templo uma de suas mais famosas mesquitas. Os judeus não podem reconstruir o seu templo, nem cultuar o seu Deus conforme a Lei.

O culto, na forma como prescreve a Torah (A Lei de Moisés), cessou no monte Moriá por volta do ano 70 AD, quando os exércitos de Tito, após anos de combate conseguiram por fim romper as defesas de Jerusalém e destruir a cidade, ateando fogo a tudo, inclusive ao Templo.

Alguns anos antes, quando os discípulos de Jesus, impressionados, comentaram com ele a respeito do tamanho das pedras e a grandeza do templo, Jesus respondeu aos comentários de uma maneira totalmente desencantada, posto que não era de se deixar levar pela aparência das coisas. Surpreedendo seus discípulos, profetizou a queda da cidade e a destruição do próprio templo.Não ficará pedra sobre pedra…”

Como palavra de rei não volta atrás, cumpriu-se o vaticínio à risca. Alguns historiadores o atestam, confirmando o seu cumprimento com uma curiosidade histórica. Visto que havia muito ouro no templo, o incêndio derretera o metal que escorrera por entre as pedras, levando soldados e saqueadores a remover as tais pedras, uma por uma, no afã de colocar a mão sobre o prêmio precioso.

Quanto a si mesmo, desafiou com um enigma os seus futuros algozes, numa espécie de santa provocação dizendo:  “Derrubem esse templo e em três dias o levantarei!” Os seus interlocutores, revoltados redarguiram julgando como ultraje as palavras do Galileu. Acharam que se referia ao seu suntuoso templo que havia levado cerca de 50 anos para ser construído.

Não entenderam nada! Continuam sem entender! Enquanto não abrirem o coração para entender e receber o seu Messias permaneçerão aos pés do Muro, lamentando. Uma nova era estava para ser inaugurada. Um novo paradigma seria introduzido onde o templo seria o próprio coração do homem. “Tempo vem, e já é chegado, em que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade”. Lamentarão ao pé do muro enquanto não entenderem esse mistério.

Yom Kippur

Yom Kippur – Dia do perdão

Por Luiz C Leite

Está chegando o ponto alto no calendário de celebrações judaicas, que geralmente acontece por volta de setembro/outubro. Minhas memórias me conduzem a um tempo que hoje me parece tão precioso quanto louco, que foi a minha decisão de conhecer a Terra Santa, mas de forma diferente daquela que caracteriza o turista religioso.

Eu que tinha ido a Israel para passar três meses, com a finalidade de conhecer in loco os vestígios de uma história que conhecia apenas pelos livros, já estava extendendo a minha estadia para nove meses, e isto numa fazenda encravada numa área disputada a balas, próximo às colinas de Golan e o sul do Líbano. Haviam conseguido me convencer a ficar além do previsto e foram assim renovando o meu visto de permanência. Por último já tentavam me convencer a ficar definitivamente no país, oferecendo todo o respaldo necessário. Quase cedi à sugestão dos meus “javerim” (amigos).

Após sair da sinagoga naquela manhã agradável de sábado, perambulei vagarosamente ao longo do Jordão, aquele riozinho que para nós no Brasil seria um ribeirão, mas que da persperctiva da história assume proporções amazônicas; Enquanto observava a paisagem ao meu redor, ia me dando conta de como tudo já ia se tornando tão familiar. Era como se minha alma antiga já vivesse ali há muitos anos.

Parei à beira do rio em um lugar especial onde fazia minhas leituras e meditações nas horas de folga; Imerso num silêncio bucólico e em completa solidão resolvi, por um momento, apreciar a longa planície que se espraiava verde em direção ao norte. Ao longe levantava-se imponente o Hermon, com suas neves eternas, presença majestosa que marca os domínios da milenar terra dos cedros, o Líbano.

Uma saudade milenar não sei do quê me invadiu o ser, enquanto os meus olhos corriam os campos onde tantas batalhas haviam se travado e Deus apenas sabia quantas ainda iriam se travar. Não muito longe dali, visitara a poucos dias, uma fortaleza cruzada, onde cristãos e muçulmanos mediram armas mais de uma vez pela supremacia da região. Os ecos de um passado remoto ainda podem ser ouvidos por lá! Quantas machucaduras, quantas marcas, quantas cicatrizes deixadas na terra da promessa!

Não entendi quase nada da ministração do Rabino durante o culto na sinagoga naquela manhã, uma vez que meu hebraico estava nos seus primeiros estágios, mas capturei profunda e sentidamente a significação daquele momento. Perdoar é preciso. Não é possível continuar, carregando nas costas o verdugo que nos infligiu aflição indizível e espatifou nossas almas… Tentar prosseguir sem liberar perdão é a mesma coisa que escolher por revisitar a dor que nos foi imposta, e a cada manhã chorá-la e ressentí-la indefinidamente… Imaginava que não devia ser um exercício fácil para os meus amigos judeus, mas de alguma forma eles não poderiam ter chegado até aqui se não tivessem aprendido essa amarga lição.

Curiosamente o Yom Kippur (dia do perdão) no calendário judaico acontece após a passagem do Rosh Ha Shaná (ano novo). Não pode haver “ano novo” sem liberação de perdão! Para que haja renovo, restauração, é necessário jogar o lixo fora, é necessário desfazer-se das emoções doentes, das memórias doloridas… Ou aprendemos a ressignificar a dor e assim assumimos o curso da nossa trajetória emocional, ou então nos tornamos vassalos dela, vivendo um pesadelo de sentimentos que irão nos aguilhoar a alma até que decidamos tomar o amargo mas eficiente remédio de Deus para a cura das almas, o perdão.

Ao entregar o meu jejum naquele dia, aprendi que não pode haver festejos de Rosh Ha Shaná se não passarmos pelo Yom Kippur! Shaná Tová! (Feliz Ano Novo!)