Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente – A PEDAGOGIA DO DESERTO –  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.

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Proposta Sórdida

 

 

 

 

 

 

 

Proposta Sórdida

Por Luiz Leite

Satanás quando quer tentar a alguém recorre sempre a um velho expediente. Sabendo que o homem é carnal, o que faz dele uma criatura altamente suscetível ao apelo dos sentidos, arma suas armadilhas há milênios sobre o mesmo tripé. Ainda que alguns o tenham como sem  criatividade por usar o mesmo argumento desde sempre, é inacreditável como  tem obtido tanto êxito.

Quando investiu contra Jesus no deserto, seguiu o mesmo roteiro da conversa que entabulou com Eva no Éden alguns milênios antes. Primeiro atacou o Nazareno na área em que parecia mais vulnerável. Um homem após 40 dias sem comer deveria estar fraco a ponto de se deixar sugestionar. Transformar pedras em pães para saciar uma necessidade premente não deveria ser um ato reprovável. O que Satanás não sabia é que aquele moço fragilizado pela falta de pão orgânico estava tirando sua força de outro tipo de pão.

Entrincheirado na cidadela intransponível da Palavra, o Senhor Jesus rasgou-lhe uma das feias asas de morcego quando respondeu com um torpedo arrasador… “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor.” Após  um recuo estratégico, retornou com força total numa segunda tentativa; mostrou a Jesus todos os reinos do mundo bem como sua glória, e ofereceu sua melhor proposta para tão somente sair temporariamente da arena com a segunda asa quebrada!

O diabo sempre tem uma proposta para homens ambiciosos;  Excelente observador (dispõe de todo o tempo do mundo para bisbilhotar a vida dos outros), sabe quem tem aspirações incomuns não apenas por ser um excelente psicólogo, mas simplesmente porque as pessoas falam de seus sonhos. Jesus tinha uma ambição secreta mas, diferentemente dos outros, jamais falava dela. Sua mãe, bem intencionada, até que tentou dar um empurrão na “carreira” do filho para ouvir constrangida uma reprimenda inesperada.

Satanás sabia do mistério que envolvia aquele Carpinteiro mas não podia identificar que ambição era aquela. A ambição não é um mal em si mesma. O problema é o coração. Onde ele está. Que tipo de lógica segue. Para explorar o campo das ambições Satanás precisa mostrar alguma coisa ao homem… Além de mostrar a Jesus todos os reinos da terra e glória destes, propõe um pacto inusitado: “tudo isto te darei se prostrado me adorares”.

Por saber quem era Jesus, o inimigo jogou tudo numa só cartada. Para “comprar o passe de Jesus” ele estava disposto a abrir mão de tudo! Incrível como Satanás identificou a Pérola de grande valor e fez o que pôde para comprá-la! É patético como muitos homens agarram-se às quinquilarias de suas posses e status e hesitam em abrir mão de glória efêmera que desfrutam para ter Jesus ao seu lado. Isto certamente acontece porque não têm idéia de quem seja o Jesus que lhes é pregado.

Satanás investiu tudo na tentativa de comprar Jesus mas não faz assim com todos os homens… Sabe bem que a alguns pode seduzir com uma proposta bem menor… Há pessoas que se vendem por uma ninharia. Como um grande embusteiro que é, Satanás oferece aquilo que não é seu… Ele sempre tem um pacote bom aos olhos para propor…  a negociata com o inimigo parece sempre interessante e lucrativa, mas quem fizer acordo com ele vai ter que devolver mais cedo ou mais tarde tudo o que recebeu pois ele oferece aquilo que não é dele. Nada ele tem que possa oferecer a alguém. Tudo foi usurpado. Sabedor disso Jesus recusa veementemente sua proposta sórdida. 

Cuidado com aquele mentiroso! Segundo Jesus além de mentiroso é ladrão. Vem mentindo desde o princípio. Cuidado com suas propostas. São sempre sedutoras. Resista-lhe firme, na Palavra, e ele fugirá de voce! Quando vier com alguma proposta de glória e sucesso, certifique-se de ter sempre uma Palavra demolidora para arrasar com seu argumento. Se lhe mostrar e oferecer os reinos da terra, recuse sua proposta sórdida e lembre-se de orar segundo a intrução de Jesus: “Pai…venha o teu reino!”  Na literatura judaica se faz muita menção ao reino de Deus. É dito na literatura judaica que o homem que não menciona o reino de Deus em suas orações nem ao menos ora. Aquele que busca o reino de Deus certamente não estará aberto a negociações com o pai da mentira!

Teologia Conflitante

Os Cinco Pontos Do Calvinismo

Por Luiz Leite

Os chamados Cinco Pontos do Calvinismo, contrariamente ao que sugere a fórmula, nada tem a ver, em termos, com João Calvino (1509-1564). O documento foi publicado cerca de 50 anos após a morte de Calvino. Não foi elaborado, tampouco, como julgam alguns, com o intuito de sintetizar a fé reformada, mas para providenciar resposta aos discípulos de Jacob Hermann (Arminius) que haviam lançado um documento denominado os Cinco Pontos do Arminianismo e intentavam com isso influenciar a orientação da igreja reformada na Holanda que esposava fortemente a doutrina da predestinação.

Armínio (1560-1600) contestava a predestinação e a vontade soberana de Deus da forma como se ensinava nos púlpitos e seminários de seus dias; cria no livre arbítrio e na responsabilidade humana de escolher entre obedecer ou não ao chamado de Deus e responder positivamente ao apelo de sua própria consciência. Suas idéias chocavam-se frontalmente com os postulados calvinistas, o que custaria mais tarde aos seus discípulos perseguição e exílio. Hoje, não mais classificada como herege, a teologia arminiana encontrou o seu lugar de expressão em muitíssimas igrejas, mas o debate permanece longe de um possível acordo. Segue os Cinco Pontos Arminianos e Calvinistas:

 Ponto 1. Vontade Livre – O arminianismo afirma que o homem é “livre” para escolher. Esse “livre arbítrio” o coloca como responsável pela sua salvação, ou seja, aquele que está na condição de responder ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, é operação conjunta. Não é um ato unilateral da parte de Deus. O homem tem o papel da escolha.

Ponto 1. Depravação Total – O calvinismo por sua vez sustenta que o homem não regenerado encontra-se completamente incapaz de tomar qualquer decisão uma vez que é escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente inapto para exercer sua vontade livremente; O estado de depravação total deixa, portanto, inteiramente dependente da obra de Deus, que deve vivificá-lo de modo que ele possa por fim crer na obra de Jesus na cruz.

Ponto 2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

Ponto 2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que  a eleição  é um ato que resulta da vontade e soberana e isolada de Deus, segundo seus próprios planos; dessa maneira o homem, espiritualmente morto, nada tem a fazer senão submeter-se àquilo que Deus em seu pré-conhecimento já determinou.

Ponto 3. Expiação Universal – O arminianismo afirma que Cristo morreu para salvar a tantos quantos exercerem sua livre vontade e responderem positivamente ao apelo à salvação feito por Deus através de Seu Filho em sua morte expiatória na cruz. Irão para o inferno apenas aqueles que não querem aceitar a oferta de Deus.

Ponto 3. Expiação Limitada – O calvinismo por sua vez sustenta que Jesus se deu em sacrifício para salvar pessoas determinadas, já eleitas pelo Pai desde a eternidade. Sua morte, portanto, culminou com o êxito completo de sua missão: Todos aqueles pelos quais ele se sacrificou, em seu  número exato, serão salvos. Os outros por sua vez por quem ele não  morreu receberão a “justiça” de Deus, sendo lançados no inferno.

Ponto 4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que seja a vontade de Deus que todos os homens sejam salvos, o homem pode resistir ao Espírito Santo,  e por consequencia rejeitar a graça divina. Deus, por sua vez “permite” que o homem obstrua Sua vontade. A graça divina se propõe, não se impõe.

Ponto 4. Graça Irresistível – O calvinismo ensina que a graça de Deus é irresistível, ou seja, uma vez que o espírito humano é regenerado este homem será inevitavelmente conduzido a Deus; aqueles que foram predestinados para a salvação serão alcançados de qualquer modo uma vez que assim que forem alcançados pela graça não poderão fazer qualquer coisa senão se render.

Ponto 5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo argumenta que o homem, da mesma forma que é salvo por um ato de sua própria escolha e vontade, aceitando a Cristo, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver recuar, apostatando-se. Na verdade o próprio conceito da apostasia contempla a idéia de que o que se fez apóstata, participou em algum momento prévio a comunhão dos santos! A possibilidade de perder-se, é denominada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius.

Ponto 5. Perseverança dos Santos – O calvinismo alterca afirmando que a salvação, uma vez que é operada inteiramente por Deus, e uma vez que o homem não precisa fazer nada “para ser salvo” , também não precisa se esforçar para  “permanecer salvo”, porque isto também é Deus. Os eleitos hão de perseverar porque Deus fez a promessa de terminar  a obra que ele mesmo iniciou na vida do crente.

A teologia cristã, como as demais teologias, quer sejam judaicas, muçulmanas, hinduístas ou budistas, conflitam em muitos aspectos. Esses conflitos são inevitáveis. Cristianismo, Judaismo, Islamismo, para citar apenas os três grandes blocos da fé monoteista, partidos em inúmeras denominações, debatem-se em meio a muitas diferenças de interpretação dos seus livros sagrados. Se tão somente respeitarmos aqueles que pensam diferente, sem condená-los às chamas por heresia, já teremos feitos grande progresso. O problema, entretanto, é insolúvel. Sempre haverá aquele que não lê na cartilha da “nossa” ortodoxia. Parodiando frase famosa de Jesus: Os hereges sempre os tereis convosco!

Precisamos de Erasmos?

Precisamos de Erasmos?
Por Luiz Leite

Texto publicado na coluna Pastora da Revista Eclesia

Desidério Erasmo (1467-1536) conhecido como Erasmo de Roterdam, nasceu em Roterdam, na Holanda. Foi provavelmente um dos mais eruditos dentre aqueles que confrontaram as incongruências da religião cristã ocidental. A pena de Erasmo não poupou a Igreja, o clero, as imagens, a idolatria de seu tempo. Sua sátira é extremamente ácida, e provoca tanto o riso nos irreverentes, como a ira naqueles que são alvo da trama lamentável. As observações de Erasmo nos remetem a uma pergunta: Os cristãos devem criticar os abusos e desvios observáveis em seu contexto?

Erasmo viveu durante um período em que a Igreja estava chafurdada em um mar de escândalos, abusos e desmandos. Para um observador capaz como ele não era difícil perceber a real situação por trás de toda aquela liturgia cheia de pompa e circunstância.  O que Erasmo viu, muitos outros viram, mas, por medo ou conveniência preferiram omitir-se. A Igreja de então, desfrutando de um poder político imenso, se impunha através da manipulação. Assim pouquíssimos ousavam fazer públicas suas opiniões. Erasmo, entretanto, vai desafiar o sistema. Talvez, pelo fato de ter sido filho bastardo de um padre, reuniu os ingredientes necessários para desenvolver uma índole rebelde. Carregava um conflito interno suficientemente inflamável e em adição a isto tinha acesso a informação “privilegiada” direta dos bastidores eclesiásticos.

Tornou-se sacerdote católico mas parece que jamais sentiu-se exatamente à vontade no hábito. Não levava jeito para a contemplação passiva dos fatos; Ícone máximo do humanismo, contestaria como ninguém os desacertos da igreja pavimentando o caminho para a reforma protestante. Muito embora jamais tenha se desvinculado da Igreja Romana, como fez Lutero, seu contemporâneo, Erasmo incomodou suficientemente; Na verdade, tentou permanecer neutro na grande controvérsia luterana, mas a igreja o pressionou e não o deixou permanecer em cima do muro. A mensagem que lhe passaram foi: “Enquanto ele se recusar a escrever contra Lutero, nós o consideraremos um luterano.”

Apesar de ter causado enorme transtorno aos “sucessores de Pedro”, parece que sua situação não chegou às raias da ameaça de morte como foi o caso de Lutero.  Sua crítica à igreja de Roma foi curiosamente tolerada. Já em 1502, teve a coragem de publicar o “Manual do Cristão Militante”, onde protesta contra o cristianismo protocolar oferecido pela velha e viciada igreja. O livro faz grande sucesso por toda a Europa e soa como um toque de despertar das consciências com respeito ao cristianismo autêntico. Diz ele: “Consideremos por um momento a questão do batismo. Realmente pensas que a cerimônia em si faz de ti um cristão? Se tua mente preocupa-se com assuntos mundanos, serás um cristão na superfície, mas interiormente és o mais pagão dos pagãos. (…) Não há vícios mais perigosos do que aqueles que carregam a aparência da virtude. (…) A caridade não consiste em muitas visitas à igreja, em prostrações diante de estátuas de santos, no ato de acender velas ou na repetição de um determinado número de preces. Deus não tem necessidade dessas coisas.”
 
Erasmo está denunciando a inconsistência de uma religiosidade morta e sem equivalência com a essência da mensagem evangélica. Inconformado com tamanhos desmandos e sem conseguir se enxergar como parte efetiva daquela instituição que orgulhosamente posava como representante máxima do Cristo na Terra, Erasmo começa a dar sinais em seus escritos de que a leitura que fazia do ensino de Jesus era diametralmente oposta àquela que faziam os seus superiores.

Torna-se temido em toda a Europa pelo dom devastador que tinha de ridicularizar aquilo que era digno de desprezo. As crenças idólatras difundidas pela igreja Romana, com seu culto aos santos, são violentamente atacadas em “Sobre a Ingestão de Peixes”, uma de suas mais provocantes obras. Esse diálogo curioso e improvável entre um açougueiro e um pescador, denuncia em tom jocoso a idolatria e o desvio da fé cristocêntrica. Ao remover o Cristo do centro, a igreja perdeu-se em um mar de superstições e práticas mais devidas ao paganismo do que ao legado dos apóstolos.

Apesar, entretanto, da sua fúria com as letras, Erasmo cria numa atitude gentil para implantar as mudanças na igreja, razão porque acabou afastando-se de Lutero; Esse afastamento se deu, em parte por causa da pressão de papas e reis, mas também em função da repulsa que sentia pela dureza e veemência com que aquele conduzia a sua reforma. Revela o seu caráter pacífico em A Guerra. Diz: “Aos cristãos não fica bem pelejar senão o mais galhardo dos combates – ou seja, contra os inimigos abom

ináveis da Igreja, contra a ânsia de riqueza, contra a cólera, contra a ambição, contra o medo da morte. São estes os nossos filisteus, os nossos nabucodonosores, estes os moabitas e amonitas contra os quais nos devemos incessantemente arrojar…”

A serenidade de Erasmo em contraposição à agressividade de Lutero, entretanto, era apenas relativa. Para muitos era, “uma espécie de João Batista e Judas Iscariotes em um, a glória e a vergonha do sacerdócio. (…) Seus ideais reformadores eram baseados em uma cristandade não dogmática, um cristianismo enfraquecido exatamente porque não tinha Cristo em seu mais profundo nível.“  Seus críticos o comparariam mais tarde a Voltaire, dizendo que até no rosto se parecia com o célebre francês, sendo tão venenoso quanto aquele.Homens como Erasmo nascem para incomodar o status quo. São responsáveis pelas revisões que depuram o texto histórico; são o megafone que sintetiza e amplifica o clamor por reformas. Enquanto alguns se esforçam para dar perpetuidade à velha e bolorenta ordem, esses incovenientes contestadores se levantam para abrir portas e janelas, convidando a luz para

entrar. Nesses dias quando estamos completando 493 anos da Reforma Protestante, perplexos diante de tanta distorção doutrinária,eu me pergunto se não precisamos de Erasmos?

Teologia a La Carte

Teologia a La Carte

Por Luiz Leite

***Artigo publicado na revista Eclésia (Coluna Pastoral) edição Julho/10
Baruch de Espinosa (1632-1677) foi, sem dúvida, um dos maiores racionalistas de que se tem notícia. Refugiado nos recessos da razão, ousou, com frieza inexprimível, confrontar a cosmogonia milenar e intocada do judaísmo bem como sua concepção monoteísta de Deus. Obstinado, não temeu ferir a memória de seus ancestrais nem ultrajar a opinião de seus contemporâneos. Escandalizou o mundo ao desvincular-se violentamente do legado judaico-cristão e esculpir um monumento a uma divindade estranha.

Espinosa até hoje assusta. Sua capacidade de raciocínio era tão potente que acabou se convencendo de que tudo poderia ser compreendido e explicado. Até mesmo Deus. Para ele Deus é absolutamente simples! É lógico que o deus de Espinosa não é o Deus transcendente da fé pregada pelos profetas de seu povo. Seu deus é de artesania própria. Sim, ele o gerou nas oficinas do próprio pensamento e o confinou nas cadeias de uma lógica esmagadora. Não pode escapar de lá.

O termo “deus” figura na obra de Espinosa de uma maneira quase que onipresente. Chegou-se a dizer que era um homem “intoxicado por deus” (Novallis) de tanta referência que faz em seus escritos à grande raiz metafísica necessária para dar sentido ao todo. Espinosa, entretanto, ainda que excomungado pela comunidade judaica de Amsterdam quando da difusão de suas idéias, não era tecnicamente ateu. Cria em um deus, mas um deus diferente daquele ensinado nas sinagogas. Tentaram negociar com ele, oferecendo saídas para o constrangimento. Não aceitou, não se retratou, não voltou atrás. Sustentou suas convicções até o fim e não recuou diante do “tribunal da inquisição judaica” de Amsterdam, que só não o mandou para a fogueira por não ter poderes para tanto. Contentaram-se, por fim, em sepultá-lo em vida como revela a seguir o documento de sua excomunhão:

“Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch deEspinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados… Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento”.

À comunidade judaica foi recomendado:

“Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão”.

Estava amaldiçoado para sempre o apóstata que ousou afirmar que Deus era uma substância ilimitada e que expressava-se através de uma infinidade de formas. Em outras palavras, Deus está na natureza e a natureza em Deus, donde se conclui que Deus é a natureza e a natureza é Deus. Não existe diferenciação possível entre uma coisa e outra. Esta é a síntese do famoso panteísmo espinosano. O que chama atenção no deus espinosano é que o mesmo não sente alegrias, nem tristezas, muito menos presta-se aos jogos próprios das paixões humanas. Impassível, é também incontrolável. Não se pode manipular um deus que não sente! O deus de Espinosa, diferentemente das divindades gregas, de caráter mundano e perverso, simplesmente não oferece margem para qualquer possibilidade de relacionamento pessoal com o ser humano. Ora, passionais como são os humanos, ninguém se interessaria por um deus  insensível. Aos humanos só interesas um deus apaixonado. Tudo nos humanos grita. Essa sensualidade exige resposta, reação, gratificação, e quando não encontra eco naquele sobre quem lança o seu apelo, frustra-se e busca recurso em outra fonte de onde tirar socorro, ainda que apenas na fantasia.

Nestes tempos de teologia confusa e hedonismo acentuado onde a religião mostra-se cada vez mais antropocêntrica, e o deus que apregoa tão antropomorfizado, é de se perguntar se não estamos chegando exatamente ao extremo oposto do pensamento do “herege” de quem tratamos aqui. Em Espinosa Deus não sente nada… na teologia estranha dos nossos dias deus sente demais! A “teologia” espinosana desconhece um deus que negocia com o homem; a teologia utilitária por sua vez ensina que deus está pronto a responder com “chuvas de bênção” aqueles que lançarem suas “sementes” nos campos dos “evangelistas”, sempre ávidos por mais e mais dinheiro… Engodados pela ilusão vendida pelos encantadores midiáticos, milhões de pessoas se dispõem a contribuir; para a alegria dos vendilhões, para cada manipulador compulsivo existem 10 manipulados passivos.

Espinosa incorreu em heresia ao esculpir seu conceito de “Deus sive Natura”; Não utilizou-se, entretanto, de Deus, para promover seu projeto pessoal de poder como fazem tantos nesses dias. O apóstata de Amsterdam talvez tenha causado menos dano do que os sacerdotes desse evangelicalismo sem centro na cruz. Se aquele ousou introduzir um deus diferente daquele que seus contemporâneos conheciam, esses ousam descaracterizar o Eterno, vestindo-o segundo a imagem e semelhança do homem, com todas as antropopatias que cabem. O cultivo das virtudes, a piedade, a resignação ante as provocações que agridem, a negação das demandas do ego desequilibrado, são coisas para os monges do deserto e não para os crentes dessa era. Confundidos em sua conceituação equivocada de Deus, lançam mão dessa espécie de teologia “a la carte” sempre que enfrentam o desafio de enfrentar as exigências de suas almas enfermas.  Assim vão construindo as torres de uma catedral erigida para o culto de si mesmos. O Soli Deo Gloria é coisa dos antigos.

Na contramão da Lógica


Na contramão da lógica
Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia, Mar/2010 (Coluna Pastoral)

Quando acuados, ameaçados, assustados, um incrível fenômeno se processa em nosso corpo; somos invadidos por fortes descargas de adrenalina, famoso neurotransmissor responsável por preparar a criatura para dois cursos de ação especifícos: ataque ou fuga. Sob o efeito da adrenalina, as pupilas dilatam, os coração acelera os batimentos, os músculos se tensionam, antevendo a necessidade da ação… A invasão da chamada molécula da ação torna o homem capaz de feitos fora do comum. Pode expor-se a situações de grande risco e ser consagrado herói, caso tenha um golpe de sorte. Dependendo da situação, poderá matar e também morrer. Pode xingar, agredir, perder o tino… Essa é nossa porção animal regida pelo sistema límbico, o mesmo sistema que gerencia a ação de presas e predadores no reino das feras.

Os homens, ainda que mais sofisticados, são mui comumente movidos pelo instinto. Se ameaçados em qualquer situação, o sistema límbico apresenta logo, antes de qualquer consideração da razão, um programa de ação para controlar a crise. Em se tratando de gestão de crises somos grandes estrategistas. Ser um estrategista não significa, todavia, ter respostas inteligentes para a resolução do conflito. Fato é que sempre temos uma planozinho. Parecem lógicos esses rascunhos mal rabiscados de resposta às polêmicas, entretanto, nem sempre trazem o resultado desejado.

E
m momentos cruciais de sua carreira, quando a vida se achava por um triz, sob ameaça, quando a honra estava sendo aviltada, a reputação enxovalhada, Jesus tomava atitudes de todo estranhas… Transitando na contramão da lógica, Ele reagia, em várias ocasiões, de maneira completamente contrária àquela esperada de homens sob pressão. Não perdeu jamais a clareza nem o equilíbrio, não se deixou desorientar pela sanha da ira que pode conduzir a desatinos de consequências trágicas. Tinha sob controle as comportas da emoção e sabia fechar o torniquete quando a porção animal desarvorada desejava tomar o controle de suas ações.

Era natural que os discípulos se vissem perplexos diante de suas reações e esperassem uma resposta mais vigorosa às provocações gratuitas e maldosas dos seus opositores. Por que Ele não revidava? Por que não dava mostras de seu poder, exercendo um justo juízo sobre os seus perseguidores, simplesmente incinerando-os? Quando, de certa feita, João e Tiago sugeriram que recorresse ao seu poder, autorizando-os a fazer descer fogo do céu e consumir aqueles que o desprezaram, ele respondeu de forma desconcertante ao dizer: “Vós não sabeis de que espírito sois.” Pedro nos informa que, “Quando foi injuriado, não injuriava, e quando padecia não ameaçava. Antes, entregava-se àquele que julga justamente.” (I Pe 2.23)

Em nosso humanismo solidário, chegamos até a justificar os acessos de fúria que acometem a alguns e os levam a medidas extremadas; a própria justiça, em casos, atenua o delito justificando-o como a mais legítima defesa. Geralmente homens ordinários respondem de forma equivocada e desproporcional aos ataques, estímulos e provocações do mundo externo. Isto se dá assim porque existe um descompasso interno que dita suas reações. Somos reféns da lógica das emoções; pagamos quase sempre, com a “mesma moeda”; só não ferimos ou matamos, literalmente, nossos desafetos, porque calculamos as consequências e recuamos diante dos custos. Seríamos, segundo alguns pensadores, assassinos potenciais.

Não adianta nos besuntarmos com os cremes da cosmética mágica da mística espiritualista que a religião vende em seu vasto mercado. Pura fachada. Vende-se por aí, há muitos séculos, métodos e fórmulas que prometem controlar o bicho louco que carregamos escondido debaixo do verniz frágil de uma sociabilidade forçada pelas regras de um jogo que nunca parece suficientemente justo. Esta panacéia de rezas e mantras, de gurus e sadus, sejam eles de que linha for, promete muito mas cumpre pouco. É virtualmente impossível conseguir fazer com que o homem abra mão de sua lógica, quanto mais caminhar contra ela!

Jesus transitou na contramão. Quando diante de ameaças que o colocavam em risco, não lançou mão das prerrogativas que poderiam sustentar seu direito de defesa. Abriu mão da réplica, da tréplica… sofreu o agravo, e isto calado. Sustentou até o fim, com atitudes, a mensagem que pregou; não amarelou na hora da verdade, não destoou, não recorreu a qualquer espécie de subterfúgio que pudesse vir a desabonar seu ensino. Viveu o que pregou. Cabalmente.

Nossas atitudes, em última instância, vão determinar se somos o que pregamos, se introjetamos a mensagem que às vezes queremos empurrar goela abaixo de outros. Temo que meu cristianismo seja mais fajuto do que queira admitir. Ponho-me diante do espelho e me pergunto se poderia negar esta afirmação. Mordo os lábios, suo frio, me contorço diante desta verificação; Encaro os fatos e prossigo. As contrações anunciam um parto difícil. Por vezes faço média. Considero os homens, posições, influências… Ainda me debato, justifico, enceno, manipulo, dissimulo (eufemismo para “minto”)… Esse texto nasce doído, como confissão arrancada à força numa sessão de tortura. Confesso que falta a coragem necessária para caminhar na contramão.

Temos nos ludibriado pelos séculos afora, anunciando-nos como discípulos de um Mestre em cujas pegadas não ousamos caminhar… É lógico que o Diabo falta morrer de rir diante daquilo que classificamos como cristianismo. Triste, todavia, é saber que mesmo depois de refletirmos acerca desse arremedo de cristianismo que temos vivido, muitos permanecerão vivendo exatamente do mesmo modo! O desafio, entretanto, segue inalterado, ou tomamos a cruz, negamos as nossas loucas pretensões e o seguimos, ou não temos parte com Ele.

O discurso da renúncia é talvez hoje um dos mais rejeitados. É ilógico. É um atentado aos anseios mais naturais da criatura humana. Antinatural, versa sobre aquilo que não diz respeito aos interesses de homem algum. A teologia da cruz é absurda aos olhos da lógica. Por não conseguirmos assimilá-la de forma integral, criamos uma espécie de simulacro e parece que temos nos contentado com isto. A julgar por tudo que temos visto, se ousarmos nos perguntar onde é que tudo isso vai dar, eu não  teria tanta certeza em afirmar que seria no céu. Estou mais inclinado a pensar que seja no outro condomínio.

A Uniformidade é Burra

Por Luiz Leite

A uniformidade é burra. O mundo seria muitíssimo monótono se conseguíssemos colocar um cabresto nas pessoas e forçá-las a se comportarem à nossa maneira, conformando-se aos nossos gostos. Pode parecer um clichê apenas, mas é necessário que se repita, a unidade na diversidade permanece sendo um enorme desafio.

Conviver num ambiente de teologias múltiplas, de filosofias múltiplas, sempre foi desafiador. A intolerância, a incapacidade de suportar o diferente, sempre foi o motivo precipitador de muitas tragédias na história da humanidade. Homens e nações inteiras se engalfinharam em conflitos mortais simplesmente por labutarem em campos diferentes de idéias e crenças. As páginas da história estão repletas de testemunhos a esse respeito; campos ficaram encharcados de sangue em razão das disputas alimentadas pelo afã ensandecido de impor sobre o outro os seus próprios termos.

Para não citar os horrores do nazismo, tão abundantemente divulgados, passam despercebidos e muitas vezes caem no esquecimento, casos como a chamada noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), noite em que, por ordem de Catarina de Médici, rainha católica da França, as ruas de Paris ficaram ensopadas com o sangue de protestantes franceses, assassinados em massa. Cerca de 30 mil pessoas perderam suas vidas por causa da implacável intolerância católica aos huguenotes, designação comum aos protestantes Franceses.

É fácil concluir, quando refletimos sobre tais coisas, que o homem é um ser em conflito. Sua relação é, consigo, com o próximo, com o Criador, uma relação, sobretudo, conflituosa. Esse desalinho observado em sua essência é a fonte de onde se originam todas as suas neuroses, esquizofrenias, psicoses e demais patologias determinantes dos comportamentos ora confusos, ora bizarros que conduzem o ser humano em sua marcha pelo tempo.

Não temos o direito de obrigar os outros a se conformarem à nossa maneira de ser; mesmo que não concordemos com o diferente, temos que tolerá-lo, ainda que chegue às raias daquilo que consideramos como ultraje. Podemos sem dúvida pregar a nossa mensagem, mesmo porque esse é um direito conquistado, mas impô-la jamais. Toda e qualquer movimentação nessa direção poderá ser tida como doentia.

É certo, entretanto, que todo grupo étnico, social ou religioso tem as suas próprias regras e a vida em sociedade nesse grupo só se faz possível mediante a observação dessas regras. Assim, a não submissão às regras vão conduzir à ejeção do individuo do mesmo. A sinagoga amaldiçoa e expulsa da comunidade o herege; a Igreja o excomunga, persegue e manda para o calabouço ou para as chamas; a família o deserda; a sociedade o execra, e por aí vai. A regra é inflexível. Exige que sejamos iguais, que leiamos todos na mesma cartilha, que nos deixemos amoldar aos códigos sociais. Na verdade essa regra é a garantia de manutenção do sistema, qualquer que seja ele.

Pergunta Erasmo de Roterdam (c. 1466-1536) em sua obra Elogio à Loucura:

“Que força pode obrigar os homens, naturalmente duros, selvagens e rústicos, a se agruparem em cidades, para viver em sociedade? A adulação.”