Teologizando I

A Tensão entre chamados

Por Luiz c Leite

Pra que você existe? Pra que você foi chamado? Algumas pessoas experimentam considerável tensão entre a profissão e a vocação. Sentem-se como que divididas entre dois mundos. A profissão provê os recursos necessários para a manutenção das necessidades materiais, mas é estressante, rotineira e cansativa…a vocação por sua vez é agradável, nobre e sublime, mas geralmente limitada como fonte de recursos materiais. Assim é que grande maioria, em função das necessidades materiais, é empurrada a desenvolver esta ou aquela atividade profissional que lhes possa prover com os recursos para atender a essas necessidades. A atividade profissional lhes supre as necessidades materiais, mas não pode suprir os anseios mais profundos do ser; a vocação preenche as lacunas existenciais com razoável eficácia, mas não garante o suprimento das necessidades materiais! Assim é que se pode observar através da história essa relação de mútua dependência entre esses dois elementos. O sacerdote alimenta o profissional com sustento espiritual e este supre aquele com o sustento material. Essa é uma dinâmica comum na trajetória da raça humana em todas as culturas e em todos os tempos.

Quando a Escritura, tanto no Antigo como Novo Testamento nos orienta a fazer todas as coisas como se fosse para Deus, a imprimir excelência naquilo que fazemos, sempre conferindo especial valor ao elemento humano e cuidado máximo para com Deus e seus valores, creio que a idéia subjacente é exatamente aquela de atrelar à uma atividade qualquer que seja um senso de missão. A combinação da atividade desenvolvida com a vocação é necessária para atenuar a fadiga de qualquer atividade profissional e conferir a essa atividade um senso de importância que leve o agente a sentir satisfação no que faz.

Uma compreensão cristalina dessa combinação de atividade profissional com o sacerdócio, entretanto, não é facilmente alcançada, pois muitos líderes religiosos ainda imputam um sentimento de culpa nos seus fiéis por não se engajarem mais no “serviço de Deus”…ainda se percebe aqui e ali certa mentalidade monástica e ascética que exige da pessoa um rompimento com o “mundo” se a mesma quiser servir a Deus! Eu mesmo tive um líder religioso que não aprovava que os seus obreiros trabalhassem no campo secular! Os queria ao seu redor, mas não providenciava os meios para os seus liderados terem suas necessidades supridas! É óbvio que essa é uma leitura equivocada da verdadeira espiritualidade.

Não é exigido de mim que eu me isole do “mundo” para melhor servir a Deus! Essa mentalidade monástica teve certa validade num período específico da história, mas jamais poderia ser aplicada como regra. O próprio Cristo em oração pede ao Pai pelos seus discípulos que Este não “os tire do mundo”, mas simplesmente “que os livre do mal”. Você é importante no mundo, e não isolado dele!

Sê livre para seguir sua vocação, seja ela religiosa ou não. Você é necessário na indústria, no campo ou no altar. Sua vida pode ser um tributo a Deus onde quer que você esteja! Toda atividade é sagrada, desde que desenvolvida com o senso de missão. Há lavradores que fazem da sua enxada um sacro ofício, ao passo que há ministros religiosos que fazem do altar ofício sujo!

O dia vem, e não tarda, em que seremos surpreendidos…ELE mesmo foi quem disse (aos principais sacerdotes e ançiãos!!!) “Em verdade em verdade vos que ladrões e prostitutas vos precederão no Reino dos céus…

 

5 comentários sobre “Teologizando I

  1. Marcos disse:

    Essa de “lavradores” fazendo da sua enxada um sacro ofício, enquanto ministros religiosos fazem do altar um ofício sujo foi realmente o maximo. mandou bem.

  2. ELTON GOMES LUCAS disse:

    A leitura deste texto me trouxe mais refrigério. Tenho vivido esta tensão vocação x profissão há algum tempo e este ano tal conflito agravou-se. Até o ano passado eu dividia o pastorado com o trabalho como avaliador de jóias e a condição de pai, além de algumas aulas de teologia (que tinham relação com a vocação. Este ano, entretanto, tenho trabalhado em duas faculdades de administração e meu pastorado tem sido colocado em um plano inferior. Isso deveu-se a existência de alguns compromissos financeiros que me obrigaram a ter que assumir mais empregos remunerados.
    Mas se a tensão diminui após a leitura de seu texto, ela não se encerra como um todo. Sei Que posso servir a Deus em outras profissões, como dizia o agregado José Dias ao Pe Cabral em Dom Casmurro, mas e o meu chamado, e minha vocação e meu ministério e minha consagração ao presbitério?
    Estive quase para deixar o pastorado definitivamente. Deus, todavia, não permitiu. Não posso, porém, abandonar nenhum dos empregos. Pelo menos até a solução dos graves problemas financeiros. O que fazer?

  3. luiz leite disse:

    Fique em paz amado Elton. desenvolva o seu ofício secular com senso de missão. Não tenho dúvida de que há muitas pessoas precisando do seu amor e oração no meio profissional… encontre-as e ministre a elas… quanto ao pastorado no que respeita ao trabalho na igreja, prossiga servindo-a dentro de suas possibilidades…abração

  4. Fernando disse:

    Nos últimos meses tenho refletido muito sobre esse assunto… sei que tenho feito muito pouco (ou quase nada) para Deus. Tenho pensado muito no meu chamado, mas, o fato é que o trabalho secular tem ocupado muito do meu tempo e me deixado vazio, cansado, triste, inseguro e as vezes até abatido… mas, como o Pr. Elton bem disse, nós temos compromissos financeiros inadiáveis. Gostaria de poder estudar mais, aprender mais de Deus, me engajar em algum ministério…mas,tenho medo de não dar conta, pois, o tempo tem sido muito escasso para mim. As vezes dá vontade de abandonar tudo, colocar a Bíblia debaixo do braço e sair por aí pregando para as pessoas e seja o que Deus quiser. Sabe Pastor, trabalhar para o ímpio é pior ainda… sempre tem aquela “sonegação”, “por fora”, “caixa 2″…etc…etc… e acabamos até sendo coniventes de coisas ilícitas.Me responda por favor, O que devo fazer? Que Deus te Abençoe!

  5. luiz leite disse:

    caro fernando, entendo esse drama… é realmente dificil resolver esse dilema… Creio que voce deveria se envolver primeiro com o ministério,
    se dedicar, e deixar o resto para o Senhor… Ele sem duvida nos dará
    uma orientação certa…Quanto ao cansaço físico, precisamos romper com as limitações físicas caso contrário nunca teremos condiçoes de nos engajar no
    serviço do Senhor e realizar aquilo que nos foi confiado. Abração!

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