Carrapatos

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Por Luiz Leite

Dia desses ouvi uma canção do início dos anos 80 que era uma espécie de hino de louvação, pasmem, a um político! Naqueles dias em que ainda causavam terror o fantasma da repressão e da truculência militar que havia tungado a liberdade política da nação, fiz coro com minha geração e cantei a Teotônio Vilela.  Meu Deus, penso hoje atônito, que tempo era aquele em que se compunha canções cheias de paixão aos nossos representantes em Brasília?

Pois Teotônio, uma das personalidades públicas mais respeitadas da história dessa república escandalosa e impudica, ficou conhecido como o Menestrel das Alagoas, sim esta mesma Alagoas de onde vem alguns dos maiores constrangimentos da nação, entre os quais o senador de carreira – depois que eles lançam suas garras no poder, tal qual carrapatos, só saem de lá mortos –  Renan Calheiros. Esse Calheiros, ministro da justiça (arg!) do governo FHC, protagonista de mais de um escândalo, todos bem documentados e expostos exaustivamente pela imprensa nacional, está de volta ao assento de presidente do Senado! Que país é este? Até quando teremos que aturar tanta vergonha? Como um parlamentar com a ficha suja escapa de um processo do Conselho de Ética do senado, retorna, e ainda é eleito presidente dessa mesma casa?  Segundo Veja,

“Embora absolvido pelos pares, Renan não se livrou da Justiça. Em 2010, o STF aceitou pedido da Procuradoria-Geral da República e abriu inquérito para investigar o senador por improbidade administrativa e tráfico de influência. O caso corre sob segredo de Justiça e tem como relator o ministro Ricardo Lewandowski. Em 2011, o Ministério Público Federal em Brasília abriu inquérito para apurar o pagamento da pensão alimentícia da filha de Renan pelo lobista Cláudio Gontijo. Em janeiro do ano seguinte, o MP encaminhou uma denúncia ao STF contra o senador pelos crimes de falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. De acordo com o parecer, Renan apresentou, em 2007, notas fiscais frias relacionadas à venda de bois. O parecer da promotoria fora pedido pelo próprio Supremo. Em fevereiro de 2013, foi alçado por seus pares à presidência do Senado.”

Pois, pouco adiantou a mobilização de milhares de brasileiros indignados colhendo assinaturas para um abaixo assinado contra a eleição desse inimigo da ética. Lá está assentado na cadeira principesca de presidente da mais alta casa (4º cargo mais importante da república); Suas associações com outro carrapato, aquele do bigode, confirmam mais uma vez o quadro de empesteamento do Planalto por uma dinastia carrapatesca que pelo jeito vai nos deixar muito indignados ainda por muitos anos.  Mas, como diz a reportagem de Veja, há um inquérito correndo sob segredo de justiça. Um  linha dura como o Barbosa à testa do STF poderia estragar a festa. Haja inseticida. Sonhemos!

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Senatus Populusque Romanus

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S.P.Q.R

Por Luiz Leite

A sigla emblemática S.P.Q.R (Senatus Populusque Romanus)  é quase onipresente na história do império romano. Expressa a proeminência fundamental do Senado como uma de suas mais importantes  instituições políticas. Remonta os anos iniciais de um pequeno reino na península itálica que mais tarde se transformaria num dos mais  imponentes impérios de que se tem notícia.

Rômulo, primeiro rei do reino que alcançaria o status de imperium teria sido o fundador do senado. Antes mesmo da fundação de Roma (753 BC) já funcionava na terras da Itália  uma espécie de suprema corte, conselho tribal composto por anciãos.  Rômulo adotou a idéia do conselho tribal de ançiãos, oficializando a famosa instituição. O termo “senado” procede do latim “Senex”, significando “homem velho”. Senado significa, portanto, literalmente, “conselho de homens velhos”.

Este Conselho de “homens velhos” era uma instância da mais alta respeitabilidade pois ali supostamente prevalecia a voz da sabedoria e da razão. Os povos podiam entregar o leme da nação ao Senatus. Homens íntegros zelavam pelos rumos do interesse comum obedecendo a um código de honra estrito.

Hoje, o que se vê no Senado brasileiro é absolutamente constrangedor;  Causa profunda indignação saber que se assentam nos lugares de tão grande importância, homens cuja credibilidade está comprovadamente comprometida por mil conchavos. As nódoas em suas fichas falam por si.

A casa que deveria representar o bastião da ética na política tornou-se um covil de salteadores. O Senado brasileiro, tal como hoje se apresenta, guardadas talvez algumas raras exceções, não faz jus ao nome. O “Conselho de homens velhos”, tradução do termo Senado, sugerindo a confiabilidade dos anciãos, poderia ser melhor traduzido, no nosso caso, por “Conselho de homens velhacos”.

Morre de vergonha o cidadão brasileiro que, com alguma consciência política, (milhões não a tem!) tem que engolir como senadores da república em seu país, um elenco que mais se parece com os personagens daquele conto das arábias, “Ali Babá e os quarenta ladrões”! Se as articulações desavergonhadas que ocorrem ali fossem descobertas em outros países, os tais senadores já há muito teriam saído da cena, abrindo mão de seus mandatos, ou até mesmo, como já visto em algumas ocasiões, cometido suicídio!

Brasil, mostra sua cara! Apenas a cara pintada do protesto, entretanto, não resolve. Em algum lugar, no meio da noite, precisamos também de olhos molhados!