Yom Kippur

Yom Kippur – Dia do perdão

Por Luiz C Leite

Está chegando o ponto alto no calendário de celebrações judaicas, que geralmente acontece por volta de setembro/outubro. Minhas memórias me conduzem a um tempo que hoje me parece tão precioso quanto louco, que foi a minha decisão de conhecer a Terra Santa, mas de forma diferente daquela que caracteriza o turista religioso.

Eu que tinha ido a Israel para passar três meses, com a finalidade de conhecer in loco os vestígios de uma história que conhecia apenas pelos livros, já estava extendendo a minha estadia para nove meses, e isto numa fazenda encravada numa área disputada a balas, próximo às colinas de Golan e o sul do Líbano. Haviam conseguido me convencer a ficar além do previsto e foram assim renovando o meu visto de permanência. Por último já tentavam me convencer a ficar definitivamente no país, oferecendo todo o respaldo necessário. Quase cedi à sugestão dos meus “javerim” (amigos).

Após sair da sinagoga naquela manhã agradável de sábado, perambulei vagarosamente ao longo do Jordão, aquele riozinho que para nós no Brasil seria um ribeirão, mas que da persperctiva da história assume proporções amazônicas; Enquanto observava a paisagem ao meu redor, ia me dando conta de como tudo já ia se tornando tão familiar. Era como se minha alma antiga já vivesse ali há muitos anos.

Parei à beira do rio em um lugar especial onde fazia minhas leituras e meditações nas horas de folga; Imerso num silêncio bucólico e em completa solidão resolvi, por um momento, apreciar a longa planície que se espraiava verde em direção ao norte. Ao longe levantava-se imponente o Hermon, com suas neves eternas, presença majestosa que marca os domínios da milenar terra dos cedros, o Líbano.

Uma saudade milenar não sei do quê me invadiu o ser, enquanto os meus olhos corriam os campos onde tantas batalhas haviam se travado e Deus apenas sabia quantas ainda iriam se travar. Não muito longe dali, visitara a poucos dias, uma fortaleza cruzada, onde cristãos e muçulmanos mediram armas mais de uma vez pela supremacia da região. Os ecos de um passado remoto ainda podem ser ouvidos por lá! Quantas machucaduras, quantas marcas, quantas cicatrizes deixadas na terra da promessa!

Não entendi quase nada da ministração do Rabino durante o culto na sinagoga naquela manhã, uma vez que meu hebraico estava nos seus primeiros estágios, mas capturei profunda e sentidamente a significação daquele momento. Perdoar é preciso. Não é possível continuar, carregando nas costas o verdugo que nos infligiu aflição indizível e espatifou nossas almas… Tentar prosseguir sem liberar perdão é a mesma coisa que escolher por revisitar a dor que nos foi imposta, e a cada manhã chorá-la e ressentí-la indefinidamente… Imaginava que não devia ser um exercício fácil para os meus amigos judeus, mas de alguma forma eles não poderiam ter chegado até aqui se não tivessem aprendido essa amarga lição.

Curiosamente o Yom Kippur (dia do perdão) no calendário judaico acontece após a passagem do Rosh Ha Shaná (ano novo). Não pode haver “ano novo” sem liberação de perdão! Para que haja renovo, restauração, é necessário jogar o lixo fora, é necessário desfazer-se das emoções doentes, das memórias doloridas… Ou aprendemos a ressignificar a dor e assim assumimos o curso da nossa trajetória emocional, ou então nos tornamos vassalos dela, vivendo um pesadelo de sentimentos que irão nos aguilhoar a alma até que decidamos tomar o amargo mas eficiente remédio de Deus para a cura das almas, o perdão.

Ao entregar o meu jejum naquele dia, aprendi que não pode haver festejos de Rosh Ha Shaná se não passarmos pelo Yom Kippur! Shaná Tová! (Feliz Ano Novo!)