Embromando I

O Eu Subversivo

Por Luiz C Leite

A primeira vez que me chamaram de subversivo foi quando servia compulsoriamente o Exército Brasileiro. A “nobre infantantaria, arma de respeito”, como cantávamos enquanto marchávamos a cada dia daquele ano infernal, havia colocado suas garras sobre mim e agora tentava da maneira mais desastrada possível fazer de mim um patriota. Pois o efeito foi diametralmente oposto! Conseguiram, isto sim, fazer de mim um rebelde! Assumir que todos aqueles garotos eram uma massa informe que se podia modelar a bel prazer era mesmo um grande engano, ainda que alguns chorassem como crianças naquelas noites intermináveis de confinamento inútil.

Mas fazer o quê? Aquela baboseira toda era produto do seu tempo. Patética e inevitavelmente nos envolvia a todos… Um homem não pode escapar aos ditames da sua geração. Se o fizer será tido como louco, sem dúvida! (Ou não é mesmo assim que tratamos aqueles “desajustados” que não se comportam segundo as regras da sociedade burguesa?) Os dias eram assim. Era o último ano da ditadura militar que vinha governando o país já há duas décadas. O mundo ainda agonizava sob a pressão sempre presente da mais longa de todas as guerras, como alguém já definiu a Guerra Fria. As duas forças ideológicas que digladiavam entre si pelo domínio do planeta e das almas disputavam o controle das mentes dos homens através da propaganda e estes tinham que se situar e aquiescer docemente à ideologia do bloco.

Pois o Comunismo me convenceu muito mais profundamente com sua propaganda eficaz. Muito embora O Manifesto Comunista de Max e Engels tenha sido decisivo na minha tomada de posição ideológica, foi uma outra leitura que me despertou a paixão pela subversão. O meu encontro com Jean Jacques Rousseau se deu um ano antes de travar contato com Marx. Em seu “Discurso sobre a Origem da Desigualdade” Rousseau providenciou-me uma perspectiva nova sobre a vexaminosa situação da opressão imposta pelo sistema capitalista não somente na Terra Brasilis mas em todas as outras terras… Tinha 16 anos então, e depois dessa leitura nunca mais fui o mesmo.

Pouco depois, me veio às mãos, de forma secreta, o famoso Manifesto. Como era literatura proibida, censurada, ninguém sabia onde encontrar. Comercializar tal literatura dava cadeia! Até hoje não tenho idéia de como o catecismo comunista chegou até a mim. Só sei que fui orientado a ler escondido, em lugar reservado… Foi assim que começei me preparar para a primeira comunhão comunista. Logo em seguida “conheci” Che e Fidel e decidido estava, seria um comunista.

Na verdade ser um comunista pra mim, significava mais fazer coro com a turma da contra-cultura do que necessariamente ser um defensor dos ideais políticos comunistas. Isto hoje me traz certo alívio, depois de verificar o fiasco que o comunismo se provou enquanto modelo. Hoje também sou grato por ter começado o meu processo de engajamento nos últimos momentos daquela loucura… Certamente teria, intenso como era, desaparecido como muitos, nos porões da truculência militar, vitimado pela paixão cega da juventude.

Lembro-me bem como no Quartel do 4º BIB (Batalhão de Infantaria Blindada) em Quitaúna, SP, fui chamado pela primeira vez de subversivo por um sargento. Aquilo me assustou por um momento. Eles haviam descoberto acerca das minhas convicções ideológicas! E agora? Um pouco de medo logo se misturou com uma sensação de satisfação por ser destacado, visto, percebido de maneira diferente, mesmo naquela arriscada posição de contestação. Alcançara por fim um status perigoso, mas que me definia, e de certa forma me orgulhava aquilo, coisa própria dos rebeldes.

De certa feita o comandante da Companhia me procurou e me deu uma reprimenda bastante grave. Disse ele de forma enfurecida que se me ouvisse cantando músicas como “No woman no cry”, “Pra não dizer que não falei das flores”, entre outras, eu iria me ver com ele. Isto porque, sempre levava o violão comigo para o quartel e nos horários de folga reunia a soldadesca e me punha a cantar as famosas pérolas! Com certeza hoje sorrio ao constatar que não tinha mesmo a menor noção…

Logo mais vim descobrir de maneira inusitada que não era eu o único e exclusivo representante ilustre do comunismo na caserna. Estava de serviço na guarda quando fui acordado no meio da madrugada para um interrogatório com o oficial do dia. Haviam descoberto que alguns soldados estavam fumando maconha no meio da noite e para descobrir quem era levaram a todos para a sala do Tenente que, colocando os infantes em forma, começou a questionar um por um. Procedimento de rotina, várias perguntas eram feitas e em seguida repetidas para com isso testar a capacidade de clareza e raciocínio, se coerente ou não. Chegada a minha vez, começa o interrogatório,

– Apresente-se!

– Soldado 602 Leite, 2º pelotão, 2ª Cia, senhor!

– O que voce estava fazendo depois que deixou seu posto, Leite?

– Lendo Tenente!

– Lendo às 3 da manhã soldado?

– Sim, senhor!

– O que voce estava lendo Leite?

– Um livro, senhor!

– Que livro, Bizonho?

– “Cem anos de solidão”, tenente! ( O livro me atraiu em primeiro lugar porque ninguém deveria morrer sem ler Gabriel garcia Marques, e segundo, porque o título falava de solidão, aquele fantasma medonho que me deixava insone e com o qual não conseguia me acostumar…)

– Soldado eu li esse livro a pouco tempo; se voce estiver mentindo pra mim voce vai se dar muito mal…

E as perguntas sobre o livro foram se sucedendo. Respondi calmamente a cada pergunta e o tenente então concluiu que de fato estava lendo o livro e me liberou; a “esquadrilha da fumaça” seria descoberta depois. Eu já havia desistido da maconha antes de ser recrutado e não mais fazia parte da turma do baseado. Meu negócio agora era outro. Meu caminho era o livro. Essa era a minha viagem. Depois do interrogatório no meio da madrugada fria, qual não foi minha surpresa, quando o tenente me chamou e pediu para dar um pulo no alojamento dos oficiais na semana seguinte quando estavámos novamente de serviço. Pediu-me pra levar o violão também, pois havia ouvido dizer que eu tocava.

Fiquei apreensivo, é óbvio, me perguntando o que será que ele desejava com aquilo, afinal, os oficiais não se misturam com os praças. Pois bem, chegou finalmente o dia em que estávamos ambos de serviço, eu sentinela e ele oficial do dia. Eu com 18 anos e ele no máximo 24. Depois do expediente, quando todos iam embora, só ficando o corpo da guarda, o quartel curiosamente se tornava um lugar agradável. Apesar de abominar estar escalado para a guarda, sempre apreciava a atmosfera silenciosa e calma do lugar após o corre-corre das atividades diárias do quartel, dos cuturnos, fuzis, ordem unida, berros de superiores… Todo aquele burburinho dava lugar a um clima especial. Pois, logo após a janta, o tenente mandou me chamar e lá fui, curioso, pra o alojamento dos oficiais com o violão na mão.

– E então Leite, o quê que voce toca? perguntou o tenente.

– Gosto de MPB em geral, e o senhor?

– Eu também…Voce sabe alguma coisa de Vandré?

Fiquei desconcertado por um momento. Onde será que ele queria chegar? Pensei, e após uma pausa calculada, respondi, um pouco amedrontado:

Sei sim senhor.

Ao que ele disse,- então toca pra mim “Pra não dizer que não falei das flores”?

Olhei pra ele com desconfiança… É um pretexto pra te prender, pensei. Ele percebeu o meu desconforto e logo procurou me deixar à vontade dizendo:

Leite, não se preocupe não. Eu também gosto de Geraldo Vandré.

Ainda desconfiado, tomei o violão e armei o acorde de sol, feri levemente as cordas da minha arma predileta e arrisquei…

caminhando e cantando e seguindo a canção…

E o tenente acompanhou…

_ Somos todos iguais braços dados ou não…

E a cantoria se prolongou noite a dentro, entrecortada por conversas, ora animadas, ora tensas, entre dois jovens rapazes subversivos. Poderia mencionar o nome do jovem tenente sem quaisquer riscos para ele agora que, passados os anos, os generais já não incomodam o sono de ninguém. Meu colega comunista faleceu naquele mesmo ano sem testemunhar o fim da ditadura militar contra a qual conspirávamos, e nem a derrocada vergonhosa do “sonho” que embalávamos em nossos corações “rebeldes”.

Muitos anos mais tarde eu viria conhecer melhor e mais profundamente o Eu Subversivo e a sua contra-parte, o Eu reflexivo, mas esta é uma história muito mais complexa e demandaria mais alguns milhares de letrinhas… A propósito se voce chegou até aqui voce leu exatamente 1423 palavrinhas. Parabéns e obrigado.

 

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Arrogância Homo sapiens

Por Luiz C Leite

Recebi ano passado, em meados de Abril, um email de Dhruba, um amigo que vive no distante Nepal, me desejando Feliz Ano Novo! Pensei, “O meu amiguinho deve ter hibernado no inverno e acordou (a primavera está começando por lá) meio desorientado com o tempo!”

Reconheci depois minha ignorancia (não sabia que o ano novo Nepalês é comemorado em Abril!) e, com mais humildade considerei como nos é difícil aceitar o diferente. O nosso etnocentrismo chega às vezes às raias do ridículo! O diferente não é estranho, ou esquisito, é apenas diferente!

Um dia desses, em um parque, tive minha atenção atraída para um formigueiro de saúvas que trabalhavam com o afinco que lhes é peculiar. Impressionado com a movimentação daquelas criaturinhas formidáveis, fui tomado por um pensamento que me fez perceber com mais clareza a imensa arrogância “homo sapiens”; se há mais de 10 milhões de formigas para cada ser humano no planeta, de quem é mesmo o planeta, nosso ou delas?

Encostei-me numa árvore sábia e majestosa (não sei porque, mas sempre considerei as árvores como criaturas sábias – curti muito aquela parte do filme “O Senhor dos anéis” quando as árvores centenárias se reunem para deliberar se entrariam ou não no conflito, e ao observá-la, tive a impressão de que ela também me observava silenciosa (te garanto que não havia bebido ou fumado nada!!)

Diante de seu tamanho incrível, sua majestade serena e sua profunda humildade, me senti como um anão e me questionei perplexo: “O que seria do mundo sem elas??” (dá pra imaginar um mundo sem árvores??) Apesar do arboricídio (se não havia esse termo, estamos criando aqui) generalizado, ainda há mais árvores do homens…de quem é o planeta??

Logo em seguida meus olhos, agora não tão altivos, começaram a perceber mundos múltiplos, coexistindo simultaneamente no mesmo espaço…criaturinhas as mais diversas, ocupadas com os seus afazeres, iam e vinham em sua lida, completamente avessas às intrigas do conturbado mundo dos homens!

Os crânios da teoria das supercordas conjecturam sobre a existência de mundos vários em dimensões paralelas; gastamos bilhões de doláres em pesquisas espaciais para aprendermos como “funcionamos” no espaço em gravidade zero, sem ainda termos aprendido como funcionamos aqui mesmo! continuamos depredando o nosso próprio domicílio (dá pra entender o que estamos fazendo com os nossos rios e florestas??) e já bebendo os nossos próprios dejetos…(reciclados, é claro! quem já foi a uma estação de tratamento de água, sabe do que eu estou falando)

Cortamos as árvores, destruímos o nosso próprio abrigo, desprezamos as outras crituras que compartilham conosco o mesmo quintal, e chegamos ao cúmulo de achar esquisito o próprio semelhante… Desprezamos preconceituosamente o negro por sua cor (o negro é lindo!), o nordestino por seu sotaque (o nordestino é sobretudo um forte!)

Um pouco mais de humildade (abaixo a arrogância homo sapiens!) poderia nos salvar de catástrofes inenarráveis; se tão somente respeitássemos a individualidade dos seres, humanos ou não, e zelássemos pelo mundo que não é apenas nosso, mas também das formigas, das árvores, das garças… se tão somente honrássemos o semelhante apreciando a beleza de ser, não “esquisito”, mas simplesmente diferente… se tão somente parássemos de transformar nossos rios em esgotos a céu aberto… se tão somente…

Depois dessa reflexão toda, apesar de ser abril para mim, escrevi um email caloroso para o meu amigo Dhruba, desejando-lhe um FELIZ ANO NOVO!!! O Nepal não é “esquisito”, é apenas diferente, e há beleza nisso! Viva pois o diferente!! E que isto valha pra todas as tribos!!!

12 comentários sobre “Embromando I

  1. … quem sabe faz a hora, não espera acontecer … Não dá pra imaginar! hahahahaha. Nossa, li 1423 ‘palavrinhas’ sem nem perceber… Muitoo bom!

  2. Pois é! Eu andei por aqueles caminhos…não dá mesmo pra imaginar né??

  3. 1423 palavrinhas????????? Imagine! E prazeroso deslizar no meio delas e seguir ate o desfecho da estoria. Quem nunca teve sonhos de que um dia poderia mudar o mundo, ou ao menos, faze-lo melhor???????? Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom!!!!!!!

  4. Poisé, creio que todos fomos assim um dia… obrigado.

  5. Lindo! Muito lindo!

  6. muchas gracias!

  7. Pingback: Cinco Artigos Escolhidos « um dedo de prosa

  8. muitooo bom conhecer o jovem Luiz Leite, seus sonhos, seus ideais!!!,

  9. Conheci seu blog por acaso buscando por esta palavra ”embromando” e relacionando-a com o nordeste (sou nordestina), e gostei mesmo desta postagem verei outras e espero os mesmos resultados.

  10. ola vanessa! que bom que vc gostou… pode passear a vontade pelo blog que vais encontrar algumas leituras interessantes. obrigado.

  11. tem algumas coisinhas auto biograficas por aí izilda…rss

  12. pois é, e eu pensava que já sabia escrever…

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