Fábula Xulingo

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Xulingos – A Fábula

Os xulingos eram pequenos seres, feitos de madeira. Toda essa gente de madeira tinha sido feita por um carpinteiro chamado Eli. A oficina onde ele trabalhava ficava no alto de um morro, de onde se avistava a aldeia dos xulingos.

Cada Xulingo era diferente dos outros. Uns tinham narizes bem grandes, outros tinham olhos enormes. Alguns eram altos, e outros bem baixinhos. uns usavam chapéus, outros usavam casacos. Todos eles, porém, tinham sido feitos pelo mesmo carpinteiro e moravam na mesma aldeia.

E o dia inteiro, todos os dias, os xulingos só faziam uma coisa: colavam adesivos uns nos outros. Cada xulingo tinha uma caixinha com adesivos dourados, em forma de estrela, e uma caixinha com adesivos cinzentos, em forma de bola. Em toda a aldeia, indo e vindo pelas ruas, os xulingos passavam dia após dia colando estrelas e bolas uns nos outros.

Os mais bonitos, feitos de madeira lisa e tinta brilhante, sempre ganhavam estrelas. Mas, se a madeira era áspera ou se a tinta descascava, os xulingos colavam bolas cinzentas. Os xulingos que tinham algum talento também ganhavam estrelas.

Alguns xulingos, porém, não sabiam fazer muita coisa. esses ganhavam bolinhas cinzentas. Marcinelo era um desses. Ele tentava pular bem alto como os outros, mas sempre caía. E, quando caía, os outros xulingos se juntavam à volta dele e lhe davam bolinhas cinzentas.

As vezes, quando caía, sua madeira ficava arranhada, e, assim, os outros colavam mais bolinhas cinzentas nele.
Aí, quando ele tentava explicar por que tinha caído, dizia alguma coisa do jeito errado, e os xulingos colavam mais bolinhas cinzentas nele.

Depois de algum tempo, Marcinelo tinha tantas bolinhas que nem queria sair de casa. tinha medo de fazer alguma bobagem, porque os xulingos iriam colar nele mais uma bolinha.
– Ele merece ficar coberto de bolinhas cinzentas – as pessoas de madeira diziam umas às outras. – Ele não é um bom xulingo.
Depois de algum tempo, Marcinelo começou a acreditar neles. E vivia dizendo:
– Eu não sou um bom xulingo. não presto para nada!

Certo dia, Marcinelo encontrou uma xulinga diferente de todas que ele conhecia. Ela não tinha nem estrelas nem bolinhas. Só madeira.O nome dela era Lúcia.

E não era porque outros xulingos não tentassem colar adesivos em lúcia. É que os adesivos não ficavam. Caíam todos!
É assim que eu quero ser, pensou Marcinelo. não quero ficar com as marcas que outros xulingos me dão. Então, ele perguntou à xulinga Lúcia que não tinha adesivos como é que ela conseguia ficar assim.
– É fácil – respondeu lúcia – todo dia, vou visitar Eli.
– Eli?
– Sim, Eli, o carpinteiro. Fico lá na oficina com ele.
– Por quê?
– Por que você não descobre por si mesmo? Suba o morro. Ele está lá em cima. E, dizendo isso, a xulinga que não tinha adesivos virou e foi embora, saltitando.
– Mas será que ele vai querer me ver? – gritou Marcinelo. Lúcia não ouviu.

Assim Marcinelo foi para casa. Sentou-se junto à janela e observou toda aquela gente de madeira andando de um lado para outro, colando estrelas e bolinhas uns nos outros.

– Isso não é certo. – disse ele baixinho para si mesmo.
E decidiu ir ver Eli.

Marcinelo subiu pelo caminho estreito até o alto do morro e entrou na enorme oficina. Seus olhos de madeira se arregalaram com o tamanho das coisas. Ele engoliu em seco.
– Eu não fico aqui não! – e virou-se para ir embora.
foi então que ouviu alguém dizer seu nome.
– Marcinelo? – a voz era profunda e forte.
Marcinelo parou.
– Marcinelo! que alegria ver você. Chegue mais! Quero ver você bem de perto.
Marcinelo virou bem devagar e olhou para o enorme carpinteiro.
– Você sabe o meu nome? – perguntou o pequeno xulingo.
– É claro que sei. fui eu que fiz você.
Eli se curvou, levantou Marcinelo e o colocou sentado no banco.

– Huummm! – disse pensativo o carpinteiro, olhando para todas aquelas bolinhas cinzentas. – Parece que você recebeu muitos adesivos ruins.
– Eu não queria que isso acontecesse, Eli, eu me esforcei para ganhar estrelas.
– Você não precisa se defender comigo, amiguinho.
Eu não me importo com o que os outros xulingos pensam.
– Não?
– Não, e você também não precisa se importar. Quem são eles para dar estrelas ou bolinhas? São apenas xulingos como você. O que eles pensam, não importa Marcinelo. A única coisa que importa é o que eu penso. E eu penso que você é muito especial e igualzinho aos outros xulingos.
Marcinelo deu uma risada.
– Eu, especial e igual? Por quê? Não sei correr. Não consigo pular. Minha tinta está descascando. Por que eu seria importante para você?
Eli olhou para Marcinelo, colocou suas mãos enormes naqueles pequenos ombros de madeira, e disse bem devagarinho:
– Porque você é meu. Por isso, você é importante para mim.

Nunca ninguém havia olhado assim para Marcinelo – muito menos o seu criador. Ele nem sabia o que dizer.
– Todo dia, tenho esperado a sua visita – explicou Eli. – eu vim porque encontrei alguém que não tinha marcas. – Disse Marcinelo.
– Eu sei. Ela me falou sobre você.
– Por que os adesivos não colam nela?
O criador dos xulingos falou bem mansinho:
– Porque ela decidiu que o que eu penso é mais importante do que o que eles pensam. Os adesivos só colam se você deixar que colem.
– O quê?
– Os adesivos só colam se eles forem importantes para você, se você acreditar neles. Quanto mais você confiar no meu amor, e em você menos vai se importar com os adesivos dos xulingos.
– Acho que não estou entendendo.
Eli sorriu e disse:
– Você vai entender, mas levará tempo. Você tem muitos adesivos. Por enquanto, basta vir me visitar todo dia, e eu lhe direi como você é importante para mim. Como você é especial.
– Eli ergueu Marcinelo do banco e o colocou no chão.
– Lembre-se – disse Eli quando o xulingo saía pela porta, – você é especial porque eu o fiz. E eu não cometo erros.
Marcinelo nem parou, mas lá no fundo de seu coração pensou: acho que ele realmente se importa comigo. Acho que sou mesmo um xulingo bom!

E, quando ele pensou assim, várias bolinhas cinzentas cairão ao chão.

Você é especial, só não sabia que sabia!

(Extraído do livro Voce é especial, de Max Lucado))

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Crônica do Ano que Passou

Crônica do ano que passou

Por Luiz Leite

Escrever uma crônica do ano que passou é como rascunhar uma crônica de todos os anos que passaram e daqueles que ainda virão. Salomão sabia disso. Escrevendo o seu estupendo e provocante Eclesiastes diz: “O que foi é que há de ser e o que se fez isto se tornará a fazer, nada pois há novo debaixo do sol.”

Vivemos dias conturbados, diria tanto o homem comum como os cônsules nos dias agitados em que a 13ª legião de César cruzou o Rubicão e marchou sobre as terras da Itália. Mas a mesma coisa seria dita por cidadãos de eras passadas e séculos porvir. Há muito barulho, muitos rumores no ar. Vivemos dias conturbados – conclui pasmada cada geração. Quem disser o contrário será duramente resistido. Quando o otimista Leibniz disse que vivemos no melhor dos mundos possíveis, atraiu o sarcasmo do cínico Voltaire que, usando o terremoto que destruiu Lisboa em 1755 como argumento, criticou severamente o crente Leibniz.

Crises de todas as ordens sacodem a ordem social a cada ano, séculos a fio. Disputas intestinas na política, desvarios na condução da economia,  colapsos institucionais, desastres ambientais sacodem o mundo e alimentam a mídia a cada dia. O mundo parece estar à beira de um precipício. Em meio à tormenta, uma boataria desencontrada insufla nas massas um sentimento de suspense ainda maior, em virtude da falta de certeza em relação às informações veiculadas. Mais uma vez estamos às voltas com o fim do mundo!

Enquanto isso, no planalto central do Brasil a sucessão ininterrupta de CPIs tece o enredo de uma novela de péssima qualidade. Nada mais sem graça do que um roteiro com final previsível. A troca frequente e frenética de farpas e acusações, sempre e eternamente despachadas como intriga da oposição, parece nunca conduzir a qualquer efeito. Cortinas de fumaça são criadas para encobrir os desmandos e desvios de meliantes sofisticados. Empertigados dentro de seus ternos bem cortados pelas melhores e mais caras grifes, uma afronta à nação, permanecem administrando suas carreiras sem maiores desconfortos.

Os escândalos políticos continuam viscejando como sempre. Em países como EUA ou China muitos dos figurões da vida pública nacional estariam presos ou mortos! Pois muitos protagonistas de maracutaias homéricas permanecem, ainda que afastados de seus cargos por improbidade, influenciando e traficando influência nos palácios de Brasília. Sempre e eternamente repetem o mesmo refrão: Inocente! Na maioria das vezes devem sim, mas batem pé e, ofendendo a opinião pública, dizem para si mesmos entre dentes: “Devo e não pago; nego enquanto puder!”

O próprio governo se encarrega de blindar seus expoentes, mesmo sabendo dos seus desvios. Ainda que, cínicos, afirmem nada saber, sabemos bem que sabiam de tudo! O último popular e celebrado governante que tivemos tornou-se notável pela capacidade que tinha de acobertar os crimes de seus correligionários delinquentes que, alegando perseguição, sempre mostram-se tranquilos ante as acusações, seguros que estão da impunidade. Poderia ser  dado aqui um rosário imenso de nomes e eventos que não resultaram em absolutamente nada.

Desespera deitar o olhar sobre o cenário e concluir que uma crônica do ano que passou servirá para descrever esse ano e todos os anos que virão, bastando apenas mudar as datas.