Na contramão da Lógica


Na contramão da lógica
Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia, Mar/2010 (Coluna Pastoral)

Quando acuados, ameaçados, assustados, um incrível fenômeno se processa em nosso corpo; somos invadidos por fortes descargas de adrenalina, famoso neurotransmissor responsável por preparar a criatura para dois cursos de ação especifícos: ataque ou fuga. Sob o efeito da adrenalina, as pupilas dilatam, os coração acelera os batimentos, os músculos se tensionam, antevendo a necessidade da ação… A invasão da chamada molécula da ação torna o homem capaz de feitos fora do comum. Pode expor-se a situações de grande risco e ser consagrado herói, caso tenha um golpe de sorte. Dependendo da situação, poderá matar e também morrer. Pode xingar, agredir, perder o tino… Essa é nossa porção animal regida pelo sistema límbico, o mesmo sistema que gerencia a ação de presas e predadores no reino das feras.

Os homens, ainda que mais sofisticados, são mui comumente movidos pelo instinto. Se ameaçados em qualquer situação, o sistema límbico apresenta logo, antes de qualquer consideração da razão, um programa de ação para controlar a crise. Em se tratando de gestão de crises somos grandes estrategistas. Ser um estrategista não significa, todavia, ter respostas inteligentes para a resolução do conflito. Fato é que sempre temos uma planozinho. Parecem lógicos esses rascunhos mal rabiscados de resposta às polêmicas, entretanto, nem sempre trazem o resultado desejado.

E
m momentos cruciais de sua carreira, quando a vida se achava por um triz, sob ameaça, quando a honra estava sendo aviltada, a reputação enxovalhada, Jesus tomava atitudes de todo estranhas… Transitando na contramão da lógica, Ele reagia, em várias ocasiões, de maneira completamente contrária àquela esperada de homens sob pressão. Não perdeu jamais a clareza nem o equilíbrio, não se deixou desorientar pela sanha da ira que pode conduzir a desatinos de consequências trágicas. Tinha sob controle as comportas da emoção e sabia fechar o torniquete quando a porção animal desarvorada desejava tomar o controle de suas ações.

Era natural que os discípulos se vissem perplexos diante de suas reações e esperassem uma resposta mais vigorosa às provocações gratuitas e maldosas dos seus opositores. Por que Ele não revidava? Por que não dava mostras de seu poder, exercendo um justo juízo sobre os seus perseguidores, simplesmente incinerando-os? Quando, de certa feita, João e Tiago sugeriram que recorresse ao seu poder, autorizando-os a fazer descer fogo do céu e consumir aqueles que o desprezaram, ele respondeu de forma desconcertante ao dizer: “Vós não sabeis de que espírito sois.” Pedro nos informa que, “Quando foi injuriado, não injuriava, e quando padecia não ameaçava. Antes, entregava-se àquele que julga justamente.” (I Pe 2.23)

Em nosso humanismo solidário, chegamos até a justificar os acessos de fúria que acometem a alguns e os levam a medidas extremadas; a própria justiça, em casos, atenua o delito justificando-o como a mais legítima defesa. Geralmente homens ordinários respondem de forma equivocada e desproporcional aos ataques, estímulos e provocações do mundo externo. Isto se dá assim porque existe um descompasso interno que dita suas reações. Somos reféns da lógica das emoções; pagamos quase sempre, com a “mesma moeda”; só não ferimos ou matamos, literalmente, nossos desafetos, porque calculamos as consequências e recuamos diante dos custos. Seríamos, segundo alguns pensadores, assassinos potenciais.

Não adianta nos besuntarmos com os cremes da cosmética mágica da mística espiritualista que a religião vende em seu vasto mercado. Pura fachada. Vende-se por aí, há muitos séculos, métodos e fórmulas que prometem controlar o bicho louco que carregamos escondido debaixo do verniz frágil de uma sociabilidade forçada pelas regras de um jogo que nunca parece suficientemente justo. Esta panacéia de rezas e mantras, de gurus e sadus, sejam eles de que linha for, promete muito mas cumpre pouco. É virtualmente impossível conseguir fazer com que o homem abra mão de sua lógica, quanto mais caminhar contra ela!

Jesus transitou na contramão. Quando diante de ameaças que o colocavam em risco, não lançou mão das prerrogativas que poderiam sustentar seu direito de defesa. Abriu mão da réplica, da tréplica… sofreu o agravo, e isto calado. Sustentou até o fim, com atitudes, a mensagem que pregou; não amarelou na hora da verdade, não destoou, não recorreu a qualquer espécie de subterfúgio que pudesse vir a desabonar seu ensino. Viveu o que pregou. Cabalmente.

Nossas atitudes, em última instância, vão determinar se somos o que pregamos, se introjetamos a mensagem que às vezes queremos empurrar goela abaixo de outros. Temo que meu cristianismo seja mais fajuto do que queira admitir. Ponho-me diante do espelho e me pergunto se poderia negar esta afirmação. Mordo os lábios, suo frio, me contorço diante desta verificação; Encaro os fatos e prossigo. As contrações anunciam um parto difícil. Por vezes faço média. Considero os homens, posições, influências… Ainda me debato, justifico, enceno, manipulo, dissimulo (eufemismo para “minto”)… Esse texto nasce doído, como confissão arrancada à força numa sessão de tortura. Confesso que falta a coragem necessária para caminhar na contramão.

Temos nos ludibriado pelos séculos afora, anunciando-nos como discípulos de um Mestre em cujas pegadas não ousamos caminhar… É lógico que o Diabo falta morrer de rir diante daquilo que classificamos como cristianismo. Triste, todavia, é saber que mesmo depois de refletirmos acerca desse arremedo de cristianismo que temos vivido, muitos permanecerão vivendo exatamente do mesmo modo! O desafio, entretanto, segue inalterado, ou tomamos a cruz, negamos as nossas loucas pretensões e o seguimos, ou não temos parte com Ele.

O discurso da renúncia é talvez hoje um dos mais rejeitados. É ilógico. É um atentado aos anseios mais naturais da criatura humana. Antinatural, versa sobre aquilo que não diz respeito aos interesses de homem algum. A teologia da cruz é absurda aos olhos da lógica. Por não conseguirmos assimilá-la de forma integral, criamos uma espécie de simulacro e parece que temos nos contentado com isto. A julgar por tudo que temos visto, se ousarmos nos perguntar onde é que tudo isso vai dar, eu não  teria tanta certeza em afirmar que seria no céu. Estou mais inclinado a pensar que seja no outro condomínio.

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Teoria da Conspiração

Teoria da Conspiração

Por Luiz Leite

Com o advento da internet a Teoria da Conspiração ganhou um impulso fenomenal. Que o mundo é controlado pelos poderosos, não se duvida. Sempre foi assim. Na matemática básica do poder, os governantes manipulam os governados. O povo é gado. Talvez seja duro ouvir isto, mas não há lugar para eufemismo aqui.

Ultimamente, se pararmos para ouvir os conspiracionistas, nos veremos perplexos diante de um arsenal tão grande de “informação” que teríamos dificuldade de crer, mesmo diante de tantas “provas” apresentadas.

Os grupos que supostamente controlam o mundo, Illuminati, “Skull and bones”, Clube Bilderberg, entre outros, estariam por trás de fatos que vão desde a chegada do homem à lua (o que nunca aconteceu segundo os conspiracionistas), o assassinato de JFK, o assassinato recente de Michael Jackson, até o ataque “terrorista” que apavorou os EUA em 2001.

Segundo os teóricos da conspiração, o “11/09 “, o aquecimento global bem como a crise econômica recente, para citar os mais quentes, não passam de fraudes engendradas nos encontros a portas fechadas onde se reunem os poderosos, com finalidades específicas de controle. Os poderosos estariam maquinando uma estratégia de despopulação do mundo, para assim conduzir  o planeta a um contingente populacional gerenciável.

Recentemente ouve-se falar nos EUA de aeroportos com aviões preparados para decolagem não se sabe para onde, centenas de campos de concentração sendo construídos, bem como inúmeros cemitérios e milhões de caixões, como que esperando o desfecho de uma grande catástrofe. Haveria um plano sendo desenvolvido para reduzir em até 8O% a população do planeta; a gripe suína, dizem, é um dos instrumentos!!

Quanto disso é verdadeiro? Não se pode precisar. Fato é, entretanto, que pelo menos o aquecimento global não é exatamente o que até a bem pouco parecia ser. A revista Veja publicou recentemente uma matéria revelando que o orgão das Nações Unidas responsável pela monitoração do clima mundial não apenas estava equivocado com respeito a determinadas conclusões, mas que havia fraudado certas informações.

O “11/09”, por sua vez, a julgar por alguns filmes e comentários de experts em explosivos, leva a crer que as torres gêmeas foram mesmo implodidas, trabalho de peritos; Não para por aí… o Pentágono teria sido atingido por um míssil, Obama seria o Anticristo, Bento XVI, o falso profeta, e LuLa, o nosso Lula, seria a Besta… (impossível! sem o dedo mínimo ele não pode fazer a “mão chifrada” dos satanistas) Tanta baboseira!

Mas, e se essa bobice toda tiver um fundo de verdade? Resta-nos um olhar atento, uma postura equilibrada e uma disposição paciente como aquela que deve ser encontrada em quem come traíra, o peixe saboroso, mas cheio de espinha. De todo os teóricos da conspiração não estão errados se levarmos em consideração que, segundo a Bíblia, “o mundo inteiro jaz no maligno.” Cabe, portanto, observar o conselho do velho e sábio apóstolo Paulo: ouvir tudo, reter o que é bom.

A Uniformidade é Burra

Por Luiz Leite

A uniformidade é burra. O mundo seria muitíssimo monótono se conseguíssemos colocar um cabresto nas pessoas e forçá-las a se comportarem à nossa maneira, conformando-se aos nossos gostos. Pode parecer um clichê apenas, mas é necessário que se repita, a unidade na diversidade permanece sendo um enorme desafio.

Conviver num ambiente de teologias múltiplas, de filosofias múltiplas, sempre foi desafiador. A intolerância, a incapacidade de suportar o diferente, sempre foi o motivo precipitador de muitas tragédias na história da humanidade. Homens e nações inteiras se engalfinharam em conflitos mortais simplesmente por labutarem em campos diferentes de idéias e crenças. As páginas da história estão repletas de testemunhos a esse respeito; campos ficaram encharcados de sangue em razão das disputas alimentadas pelo afã ensandecido de impor sobre o outro os seus próprios termos.

Para não citar os horrores do nazismo, tão abundantemente divulgados, passam despercebidos e muitas vezes caem no esquecimento, casos como a chamada noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), noite em que, por ordem de Catarina de Médici, rainha católica da França, as ruas de Paris ficaram ensopadas com o sangue de protestantes franceses, assassinados em massa. Cerca de 30 mil pessoas perderam suas vidas por causa da implacável intolerância católica aos huguenotes, designação comum aos protestantes Franceses.

É fácil concluir, quando refletimos sobre tais coisas, que o homem é um ser em conflito. Sua relação é, consigo, com o próximo, com o Criador, uma relação, sobretudo, conflituosa. Esse desalinho observado em sua essência é a fonte de onde se originam todas as suas neuroses, esquizofrenias, psicoses e demais patologias determinantes dos comportamentos ora confusos, ora bizarros que conduzem o ser humano em sua marcha pelo tempo.

Não temos o direito de obrigar os outros a se conformarem à nossa maneira de ser; mesmo que não concordemos com o diferente, temos que tolerá-lo, ainda que chegue às raias daquilo que consideramos como ultraje. Podemos sem dúvida pregar a nossa mensagem, mesmo porque esse é um direito conquistado, mas impô-la jamais. Toda e qualquer movimentação nessa direção poderá ser tida como doentia.

É certo, entretanto, que todo grupo étnico, social ou religioso tem as suas próprias regras e a vida em sociedade nesse grupo só se faz possível mediante a observação dessas regras. Assim, a não submissão às regras vão conduzir à ejeção do individuo do mesmo. A sinagoga amaldiçoa e expulsa da comunidade o herege; a Igreja o excomunga, persegue e manda para o calabouço ou para as chamas; a família o deserda; a sociedade o execra, e por aí vai. A regra é inflexível. Exige que sejamos iguais, que leiamos todos na mesma cartilha, que nos deixemos amoldar aos códigos sociais. Na verdade essa regra é a garantia de manutenção do sistema, qualquer que seja ele.

Pergunta Erasmo de Roterdam (c. 1466-1536) em sua obra Elogio à Loucura:

“Que força pode obrigar os homens, naturalmente duros, selvagens e rústicos, a se agruparem em cidades, para viver em sociedade? A adulação.”

Ordem no Caos

Ordem no Caos
Por Luiz Leite

Texto publicado na revista Eclésia, edição de Fev/10

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Fiquei um pouco atordoado ao chegar à Índia. Voce possivelmente jamais viu tanta gente, a menos que tenha estado na China. Nova Delhi, é surreal. Inacreditável. Desorienta. A sujeira, a desorganização, a ausência de um padrão lógico que faça sentido para a mente ocidental, nos deixa algo zonzos… É como um formigueiro. A única diferença é que o formigueiro tem certa organização… Depois de algum tempo observando intrigado a incrível confusão, percebi que a polêmica teoria do caos aos poucos se ia confirmando. Existe mesmo alguma ordem no caos? Parece que sim. Não dá para entender, por exemplo, como o trânsito na Índia funciona sem que haja uma trajédia de grande monta diariamente. Todavia, funciona. Existe, portanto, ordem no Caos. O meu silogismo talvez não esteja bem alinhavado, mas é mais ou menos por aí.

Os motoristas dirigem loucamente, businando desesperadamente, numa verdadeira balbúrdia que mais parece a Corrida Maluca dos mestres do cartoon, Hanna e Barbera. Voce  vai se sentir numa aventura inacreditável ao tomar um taxi em Nova Delhi. As emoções da corrida vão trazer o seu coração da sua segura zona de conforto para as raias do desespero… Impossível não se “emocionar”, dar alguns gritos,  risadas nervosas, e também dar glória a Deus depois de pagar a corrida, pelo simples fato de estar descendo do taxi inteiro. Quem conhece a Índia sabe que não estou exagerando.

Numa dessas corridas conheci Vidji, um dos muitos milhões de simpáticos indianos. Ao começarmos a conversa percebi logo de cara que estava diante de uma daquelas pessoas simples e absolutamente agradáveis com quem bater um papo. Depois de algum tempo de papo o assunto acabou caindo na arena das religiões. Perguntei a Vidji quem era o seu Deus para então ouvir a resposta mais inusitada a uma pergunta que já tive na vida. O indiano respondeu: “O meu deus é voce!” Meio atônito perguntei: “Como assim?” Ele respondeu:”Meu deus é quem me sustenta, e quem me sustenta são os clientes…”

Ao perceber como eu fiquei surpreso diante da resposta, e também para não ofender seus outros deuses, apontou logo para as fotos de várias divindades hindus que carregava no painel e disse, procurando apresentar aos seus outros deuses uma reverência nada convincente: “É claro que também adoro ao senhor Ganesh, ao senhor Shiva…” Diante do rosário de deuses que ele ia apresentando perguntei a queima roupa: “Afinal, qual dentre todos esses é o verdadeiro deus? Confesso que não estava preparado para a resposta. Mais uma vez seria surpreendido pela resposta do meu já quase amigo indiano. Ele simplesmente respondeu: “Não sei!” e acrescentou: “Para dizer a verdade, me sinto confuso com respeito a isso…”
Abriu-se a porta para a evangelização. Lá estava ela, escancarada, e melhor, pedindo que eu entrasse e me fizesse em casa. “Vidji – disse com intimidade chamando o meu amigo pelo nome  – a Bíblia diz que…” É, entretanto, muito complicado dizer para alguém que não tem qualquer noção da importância da Bíblia, que a Bíblia diz isto e aquilo… Ele poderia muito bem dizer: “E daí?”  Mas a empatia já criada não permitiria movimentos bruscos. Apresentei Jesus a ele como o único e verdadeiro Deus, tomando o cuidado de não ofender sua crença. O cristianismo, entretanto, é absolutamente exclusivista… se Jesus é o único digno de culto, de adoração, se é o verdadeiro Deus, então quem são os outros?

Partindo da base que ele mesmo me dera, ao dizer que se sentia confuso com respeito ao verdadeiro Deus, perguntei: “Vidji, voce sinceramente gostaria de conhecer o verdadeiro Deus?” Ele respondeu que sim. Desafiei-o a fazer um teste e dei as orientações. Disse-lhe: “Voce vai chegar em casa e fazer suas orações a Jesus, pedindo a ele para te mostrar quem é o verdadeiro Deus.” A acrescentei: “Ore com honestidade e prepare-se! voce vai ter a experiência mais incrível de sua vida!”

Parecendo ter ficado curioso, logo perguntou, como se já contabilizando o peso das decisões que teriam que ser tomadas: “Isto quer dizer que eu vou ter que ir para igreja dos cristãos e me tornar cristão também?” Ao que respondi: “Não, não estou dizendo nada disso. Quem vai dizer o que voce terá que fazer é o Senhor Jesus… Ele vai te mostrar quem é o verdadeiro Deus, e ele mesmo vai te dizer o que voce terá que fazer.”

Em meio ao caos das religiões e ao engano dos deuses falsos, é possível encontrar ordem; Jesus continua dando sentido ao mundo caótico dos homens,ainda que tudo pareça tão confuso e absurdo. É bastante improvável que eu venha me encontrar com Vidji novamente em meio a mais de um bilhão de indianos, mas levei a impressão de que algo acontecera no coração daquele homem. Paguei a conta e desci do carro feliz por estar saindo com minha vida, e mais ainda por ter levado Vida à vida do meu amigo.