Religião sem revelação – Uma usina de loucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Religião sem revelação – Uma usina de loucos

Por Luiz Leite

Caim cabe o título altivo de primeiro apóstata da história da humanidade. Abel, seu irmão, entretanto, parece ter aprendido desde cedo algo que faltava a Caim: a piedade com contentamento. 

Só a revelação pode emprestar à religião o sentido de sacralidade da vida; Sem a revelação a prática religiosa torna-se uma experiência enfadonha, decepcionante, e por isso também  perigosa. Sem a revelação jamais será capaz de providenciar o estofo que o homem precisa para preencher os buracos existenciais de sua alma aflita.

Caim era um homem angustiado. Carregava consigo rancores que lhe amargavam as entranhas e, por mais que praticasse a religião dos seus pais, não conseguia se desvencilhar das garras de um coração sombrio; respirava um ressentimento imenso em relação ao irmão.

Alguns dizem que Caim invejava a graça e prosperidade de Abel. A etimologia da palavra “inveja”, do latim “invidere”, significa basicamente “olhar para” , no sentido de querer “o brilho” do outro; A inveja visa não necessariamente os bens do outro, mas a graça do outro. É sem dúvida uma das enfermidades mais daninhas da alma humana.

Pelo que o texto bíblico indica, Abel atraiu a inveja e o ódio de seu irmão porque “o Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta.” (Gn 4:4-5) por isto, continua o texto, “Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou”.

Note-se que o texto trás implícita a idéia de que o Senhor antes de “aceitar” a oferta, precisa aceitar o ofertante. A oferta em si pouco importa. O coração do ofertante, isto sim é tudo. A prática da religião, no que respeita à observação litúrgica dos seus cerimoniais pouco importa se aquele que traz a sua oferta ao altar não tiver o coração aprovado.

Abel tem a sua oferta aceita porque já antes tivera o coração aprovado. Vivia uma espiritualidade refletida, ao passo que Caim transitava na esfera de uma espécie de religiosidade feita de protocolos apenas. Caim tinham a informação, mas não tinha a revelação. Uma vivência religiosa nesses moldes produz um ritualismo marcado por uma  mecanicidade estéril e sem vida.

O coração árido de Caim certamente não entendia de onde procedia a graça, o contentamento, a prosperidade que seu irmão Abel desfrutava. Aquilo provavelmente o incomodava muitíssimo. Por ser o irmão mais velho, ele e o não o caçula deveria desfrutar de tais bênçãos, conjecturava. Deus estava sendo injusto para com ele!

A autocomiseração e desejo por reparação começaram a fermentar em sua alma. Sua religião com todas as práticas cerimoniais afinal não estavam ajudando-o em nada.  Faltava-lhe algo e ele não entendia. Provavelmente faltou-lhe também humildade para perguntar ao irmão qual era o segredo. Em sua frustração e revolta, resolveu seguir a inclinação de seu coração corrompido. Deus, em seu irmão, incomodava muito. Decidiu resolver o problema de Deus. Matou-o.

Esaú, como Caim, também  foi um homem que desprezou a Deus de uma maneira soberba. A sua auto-suficiência foi tão grande a ponto de conduzi-lo a desprezar a bênção de Deus completamente. Como Caim, tem uma diferença com o irmão mais novo. Só não perpetrou o intento de assassinar a Jacó porque publicou o plano.  Ensinados pelo mesmo professor, Esaú e Jacó tomam rumos opostos; A religião de ambos vai resultar nula para um e cheia de significados para outro.

A revelação novamente faz toda  diferença. Esaú desviou-se para sempre. Jamais voltou atrás em suas obstinação; Ainda que depois de velho tenha se reconciliado com o irmão mais novo, jamais conheceu a sublimidade do quebrantamento. Empestiou com sua peçonha  toda a sua descendência. Mesmo depois de morto continuou a perseguir o irmão Jacó, através de seus desdendentes. Desde Amaleque, passando por Hamã, até Herodes, Esaú, o pai dos Edomitas intentou contra Jacó, o pai dos Israelitas.

A religião sem a revelação é uma experiência de finalidade incerta. Ensinar ao homem as verdades de uma moral elevada sem capacitá-lo a vivê-las de modo prático é um experimento perigoso. Colocado numa situação profundamente incômoda, o homem experimentará de contínuo a frustração e a culpa, por não se ver capaz de obedecer às imposições exigidas.

É grande a lista de filhos de crentes que na bíblia se extraviaram e cometeram loucura. Ainda que ensinados na religião de seus pais, perderam-se nas engrenagens frias do cerimonialismo religioso e, levantando-se contra todos os princípios recebidos cometeram torpezas sem que o legado religioso lhes pudesse deter.

Caim fez escola. Sua religião sem revelação fez dele o primeiro dos loucos. Antes de “enfiarmos goela abaixo” dos nossos filhos as nossas convicções espirituais, deveríamos orar muito para que eles sejam contemplados com o clarão que um dia dissipou nossas trevas. Assim, e só assim, poderemos descansar sobre o fato de que não correrão o risco de pirar como muitos nessa imensa e absurda usina de loucos que é a religião sem revelação!

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Na Calada da Noite

 

Na Calada da Noite

Por Luiz Leite

“Quanto mais esperto o homem se julga mais precisa de proteção divina para defender-se de si mesmo.”(Sêneca)

Geralmente Nicodemos é ignorado pelos pregadores que utilizam o evento envolvendo o seu encontro com Jesus. O foco da maioria dos pregadores recai sobre o ensino de Jesus e pouco se fala sobre o que se pode aprender do personagem curioso que procura Jesus na calada da noite. Há tanta coisa boa a aprender com Nicodemos!

Nicodemos buscou a Jesus no meio da noite porque tinha uma motivação básica que o levou a isso. Correu certo risco ao expor-se daquela maneira, mas moveu-se. Nicodemos tinha uma necessidade de conhecer a verdade por trás dos fatos. Foi honesto o suficiente para reconhecer que suas crenças careciam de solidez. Não bastava apenas o que tinha ouvido sobre Jesus. Era-lhe necessário escavar mais, ir mais fundo. Um conhecimento apenas superficial, baseado em versões populares, tantas vezes contraditórias, não lhe servia. Fez aquilo que todos deviam fazer e não fazem, pois ao invés de mergulharem, preferem permanecer na superfície; ao invés de içarem âncoras preferem a segurança relativa do porto e assim vão vivendo à margem da vida e seus desafios.

Nicodemos sem dúvida não era um homem raso, que se deixava contentar com rascunhos fajutos de conceitos; tampouco se deixava enredar facilmente por preconceitos de qualquer ordem. Sinto uma profunda simpatia e respeito por esse homem. Naquela noite decisiva, aquele que era um príncipe em Israel julgou imperativo sair da sua mansão e investigar por conta própria o ensino e a pessoa de Jesus. De coração aberto partiu, no meio da noite, de encontro ao Salvador dos homens. A diligência de Nicodemos em conhecer a verdade a respeito de Jesus o salvou!

Um número muito grande de pessoas tem uma tendência fortíssima para a mediocridade. Contentamo-nos em saber apenas superficialmente a respeito das coisas. A maioria de nós tem apenas uma noção desconexa a respeito de determinados assuntos. Poucos de nós podem falar com mais propriedade sobre temas relevantes e que dizem respeito a todos. Se perguntarmos às pessoas se já ouviram falar de alimentos transgênicos, a maioria dirá que sim,  mas poucos sabem alguma coisa de fato, e menos ainda saberão explicar o que realmente é isto.
Desse modo, aqueles que se contentam em saber vagamente acerca dos fatos. Essa é uma posição extremamente perigosa. A ignorância deliberada, gerada no conforto enganoso da comodidade resultará prejudicial a qualquer que se entregar aos seus braços e adormecer ao som do seu acalanto. Nicodemos resolveu sair do conforto questionável. Descobriu que o homem refinado que era, com toda a sua formação, religiosa, moral e intelectual, precisava dar lugar a um novo homem. Ele tinha que lançar fora a capa da religião, as máscaras da tradição e toda a hipocrisia que envolvia as convenções sociais e que o haviam engessado dentro de uma mentalidade que, apesar das aparências de piedade, o colocavam na direção errada. Nicodemos descobriu que estava na contramão.
Não tenha vergonha de admitir que tem dúvidas de seus conceitos… Procure Jesus. Se não tiver coragem de associar-se a Ele no clarão do dia, busque-o mesmo que seja na calada da noite… Uma revelação poderosa destruirá conceitos enganosos e revelará o risco imenso que voce pode estar correndo ao trafegar na contramão.

Ouro de Tolo

Ouro de Tolo

Por Luiz Leite

 

A diferença entre o homem espiritual e o homem puramente religioso é gritante. A incoerência religiosa e a espiritualidade com nexo poderiam ser comparadas com o ouro e a pirita. A pirita, conhecida popularmente como ouro de tolo, é um mineral amarelo com um brilho metálico que lembra o ouro por causa do seu aspecto até certo ponto atraente, mas se analisado de perto é comparativamente sem valor. É como a religiosidade vazia daqueles que não zelam pela coerência entre discurso e práxis.

A pirita, nosso representante dialético do homem carnal, é uma substância que não se presta a uma coisa chamada quebrantamento. Não se pode trabalhar a pirita, moldando-a. De igual forma não há jeito para o homem carnal. Ele simplesmente não se deixa tratar, não se deixa instruir, não se deixa moldar. O Livro de Provérbios registra:  “Aquele que, sendo muitas vezes repreendido, endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura.” (Prov. 29:1)

 O ouro por sua vez, é um metal nobre. É metal, não pedra. No seu estado puro é um dos mais maleáveis e flexíveis de todos os metais. Uma das características mais interessantes do ouro é que ele não é afetado pelo ar, calor, umidade, nem pela maioria dos solventes.  Apreciado desde os tempos mais remotos, o ouro sempre teve grande valor, não só por sua beleza e resistência à corrosão, mas também por ser mais fácil de ser trabalhado do que outros metais.

Não poderia haver exemplo mais excelente como representante dialético da espiritualidade com nexo; O ouro, como o homem que se encontrou com Deus, será destacado dentre os outros. O homem cuja vida espiritual é pautada pela coerência, como o ouro, não se deixa afetar pelas vicissitudes da vida. O calor, o frio, a umidade ou até mesmo a ação corrosiva dos solventes das tribulações e pressões da vida não alteram seu estado. Resistente à corrosão, de grande beleza interior e de notável maleabilidade, sem jamais perder a nobreza, o homem cuja vida foi tocada por Deus, diferentemente dos outros, andará de uma maneira toda especial nos anos de sua peregrinação.

A inteligência do Evangelho nos desafia a viver uma espiritualidade com nexo; incita-nos a caminhar por um caminho novo, onde a religiosidade mórbida dos homens não penetra. O caminho da coerência tem o poder de transformar Jacó em Israel, Simão em Pedro, Saulo em Paulo, elementos tão diferentes como a pirita e o ouro. Todos eles foram transformados em homens extraordinários. Deus faz isto. A fórmula mágica que os alquimistas de todas as eras perseguem, de transformar materiais ordinários em ouro, só Ele tem.

Com qual desses dois elementos você mais se identifica? Com a pirita de aparência bonita, mas de caráter intratável, duro, de natureza inflexível? (Este é o nosso representante da espiritualidade sem nexo). Ou com o ouro de grande beleza e de notável maleabilidade, nobre e estável. Você é ouro ou pirita? Se você não sabe ainda quem é, se não descobriu de forma dramática e definitiva a verdade a respeito da sua real condição, então precisa tomar o caminho de volta. É no caminho da volta, quando decidimos voltar atrás, nos humilhar, resolver pendências, pedir perdão; é nesse caminho e só nele que encontramos a resposta para esta questão. Vamos acertar nossas contas?

Extraído do livro A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO de Luiz Leite