Um Eterno Vir a Ser

Um eterno vir a ser

Por Luiz Leite

As experiências se acumulam com o passar dos anos, empilhadas em prateleiras virtuais nos imensos arquivos arranjados nos minúsculos domínios de células neuronais. Dia após dia, milhares de sinapses se encarregam de criar espaço para o armazenamento de novas informações, memórias, prazeres e dores. Ora eufóricos, velejamos nas águas da fantasia,  ora transtornados, naufragamos nos pântanos do medo… Quanto aprendizado temos tirado dos erros, desacertos, desvarios, percalços e glórias? Avançamos no esforço de decifrar o enigma ou simplesmente prosseguimos, sem dar relevância aos fatos?

Debruçar-se sobre os fatos da vida, com suas alegrias e tristezas, sempre nos levará ao outro. Como seres relacionais, a alegria ou tristeza de nossa experiência cotidiana está intimamente ligada às pessoas que fiam a trama da teia que nos tem. As pessoas nos influenciam e afetam de um modo definitivamente marcante. Por essa razão, creio, Sartre disse que “o inferno são os outros.”

Antes de nos ocuparmos tanto com o outro e, com o dedo em riste, apontarmos suas contradições, deveríamos nos dedicar um pouco mais ao trabalho árduo e solitário do autoexame pois, para todos os efeitos, somos eternos estranhos! “Estranho a mim mesmo, devo reconhecer que não há um conhecimento de mim mesmo claro, exaustivo. Ficaremos para sempre um mistério para nós mesmos.”  É certo que essa afirmação espanta, mas só há de espantar aquele que ainda sonha.

Essa estranheza absoluta que envolve o ser numa bruma de admiração e espanto esgota toda e qualquer pretensão de descrição completa da criatura. Somos um eterno “vir a ser”; em outras palavras, não somos, estamos. Em processo, sempre, procissão sem fim… O  imperativo socrático de conhecer-se a si mesmo torna-se assim tarefa impossível, inglória, pois, como disse Pessoa:

“Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela,

E a vida passa entre viver e ser.”

Inglória é a vida” – disse o poeta –  e inglório conhecê-la. Com a perspicácia que todo poeta deve ter, capturou algo da complexidade do ato de existir. É inglório o esforço de conhecer aquilo  que não se esgota. A vida é assim complexa, como o é seu protagonista.

Quanto mais reflito, tanto mais me encanto com a doutrina do Cristo, o fascinante e único Jesus de Nazaré, quando instrui seus discípulos a que tenham misericórdia, perdoem e prossigam. No momento mais dramático de sua curta existência no tempo, esbanjando coerência entre discurso e prática, fez valer seu próprio ensino rogando ao Pai que perdoasse seus algozes. Não só pediu perdão pela selvageria dos seus agressores, como ainda os justificou com a habilidade imbatível do bom advogado que é, dizendo: “Eles não sabem o que fazem.”

Este foi  o atestado mais grave e definitivo da nossa profunda ignorância. O Pe. Antonio Vieira em seu belo sermão do mandato demonstra que Cristo nos nos amou sabendo, ao passo em que fomos amados ignorando! “Quod ego facio, tu nescis“, disse Jesus a Pedro. Como somos ignorantes! A tragicidade desse fato é que insistimos em posar de sábios!

Esforça-te para conhecer-te, mas não se iluda, é esforço inglório! A melhor maneira de lidar com esta realidade é cultivar para sempre um coração de aprendiz.

A Absurda Antesala do Inferno

 

 

 

 

 

 

A Absurda Antesala do Inferno

Por Luiz Leite

Texto publicado na Coluna Pastoral da Revista Eclesia

 “Se um certo Jean-Paul Sartre for lembrado, eu gostaria que as pessoas recordassem o meio e a situação histórica em que vivi, todas as aspirações que eu tentei atingir. É dessa maneira que eu gostaria de ser lembrado.”

Este foi o apelo que o grande existencialista ateu fez cerca de cinco anos antes de sua morte. O pensamento de qualquer pensador está profundamente arraigado na sua própria experiência de vida. As influências sofridas por cada um determinam em muito o seu modo de pensar. É impossível desvencilhar-se da própria bagagem que a vida nos impôs. Daí se dizer que cada homem é produto do seu tempo.

Com a maior parte de sua obra escrita durante a segunda grande guerra, Sartre teve material farto para compor sua ode à desesperança. O seu tempo foi marcado por grandes e dramáticos eventos. Suas idéias chegam a nós como um protesto de revolta diante das catástrofes absurdas a que foi submetida sua geração. Talvez seu conceito sobre Deus possa ser resumido pelo silogismo que segue:

“Se Deus fosse bom, ele desejaria tornar suas criaturas perfeitamente felizes…”

“E se fosse todo-poderoso, ele seria capaz de fazer o que quisesse…”

“Mas as criaturas não são felizes.”                                 

“Portanto, a Deus falta a bondade ou o poder – ou ambas as coisas.”

É mais ou menos assim que se apresentam alguns dos argumentos que refutam a existência de um Deus bondoso. A presença indesejável do mal no mundo sempre foi um problema de difícil compreensão. Segundo o argumento acima exposto, não pode haver nem um deus bondoso nem um diabo perverso, pois a presença do primeiro teria que necessariamente aniquilar a ação do segundo, o que, aparentemente, não acontece.

Vivi em Israel por cerca de um ano e meio e lá encontrei alguns sobreviventes da longa noite de horror que a Alemanha nazista impôs ao mundo de maneira geral, e sobre os judeus de forma perversamente específica; Ainda que o nazismo tenha perseguido e martirizado poloneses, ciganos, homossexuais e prostitutas de modo igualmente odiável, a história publica com mais ênfase a tragédia judaica. Depois do inominável genocídio a que foram submetidos, muitos judeus tiveram uma dificuldade imensa de continuar crendo na existência de uma divindade bondosa a governar o mundo.

O antiqüíssimo problema do mal emergiu como um monstro hediondo das águas escuras dos séculos e desferiu um golpe demolidor sobre a geração de Sartre. Assimilar o conceito de um deus todo-poderoso a governar o destino dos povos tornou-se um desafio insuperável para muitos daqueles que presenciaram as atrocidades de uma era como aquela. Diante de certas vicissitudes alguns perdem a fé; apaga-se o lume da esperança, esmagada pelo evento trágico e sem explicação. Resta nestes casos a perplexidade, a expressão de pasmo perante o que só poderia ser classificado como absurdo!

A geração de Sartre passou por duas catástrofes causadas, na leitura do existencialismo, pela loucura da livre escolha dos homens. Nem deuses nem demônios tomaram parte na empreitada sinistra. Em verdade, concluíram, não há deuses ou demônios. O homem é livre e sua vontade é a responsável por moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de indivíduos e nações em sua marcha pela história.

Observando os extremos a que pode chegar o homem, as ações absurdas que pode levar a cabo, o flagrante desequilíbrio na balança da equidade, Sartre conclui que o problema do mal não é de ordem metafísica; não é produto da emulação de seres fantásticos de outras dimensões. Sua filosofia dispensa qualquer noção de deuses ou demônios e desemboca num humanismo radical, onde o homem, e somente o homem se torna o protagonista do seu pequeno drama.

Deixado sozinho, a mercê da própria sorte, o homem terá que fazer-se. Torna-se responsável por aquilo que é e não deverá atribuir a nada nem a ninguém seus infortúnios. Se alcançar sucesso, o fará graças tão somente aos seus próprios méritos, se porventura naufragar nas ondas do fracasso não terá o direito de lamentar-se, projetando sobre outrem a responsabilidade dos seus desacertos. Terá que fazer suas escolhas, posicionar-se e arcar com os custos, sejam quais forem suas conseqüências.

Descartada a possibilidade da eternidade e de acertos de contas morais na pós-história, como ensina o cristianismo, o existencialismo procura aliviar o dilema humano, selando hermeticamente toda e qualquer fresta por onde possa se intrometer a espiritualidade com sugestões de juízos ou benesses vindouras. Em outras palavras, não há tal coisa como uma continuidade entre tempo e eternidade. Há que aferrar-se ao tempo e fazer-se como bem se entende.

O existencialismo ateu de Sartre faz do mundo uma absurda ante-sala do inferno! No fim acabam tendo mesmo razão: É uma questão de escolha.

Sartre e o Livre Arbítrio

Sartre e Livre Arbítrio

Por Luiz Leite

Trecho do livro “ELES PROFANARAM O SAGRADO” de Luiz Leite (lançamento previsto para julho)

“Esta velha angústia, esta angústia que há séculos trago em mim, transbordou da vasilha… (…) se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!” (Fernando Pessoa)

O determinismo é uma doutrina segundo a qual o homem pouco ou nada pode fazer, uma vez que, praticamente, tudo nele é resultado de forças que estão além de sua capacidade de manipulação. Segundo este ponto de vista o famoso livre arbítrio seria uma completa ilusão.

Está a criatura humana aprisionada numa inescapável camisa de força sociocultural como querem os deterministas? Se assim for resta apenas uma lacrimosa resignação. Se a prisão de segurança máxima do determinismo é inexpugnável, o desespero deixará apenas o suicídio como rota de fuga!  Esse exercício dialético de perguntas e respostas lança numa prisão os que ousam vadiar em seu carrossel; aos cativos dessa gaiola soberba assegura-se o direito fundamental de darem voltas no pátio interno; ali, ao sol da manhã, revolvem, indefinidamente, presos, carregando suas cadeias filosóficas, num movimento cíclico interminável de tese, antítese e síntese.

Se para o determinismo o mundo segue, previsível como um jogo de cartas marcadas, para o existencialismo sartreano o arranjo é completamente outro; na verdade não há arranjo algum! O mundo é um absurdo desprovido de propósitos quaisquer que sejam. Ao removerem a coluna teleológica, pretendem desmantelar o edifício do teísmo que insiste num Deus que dá sentido ao todo. Não há, bradam os ateus sartreanos, sentido em nada. O que importa é o que existe, ou seja, o que se vê, se toca, se controla. A existência, assim, precede a essência.  Este é o pressuposto fundamental do existencialismo ateu de Sartre.

Segundo essa linha de raciocínio, o homem está entregue à própria sorte. Ninguém virá salvá-lo. É livre e ao mesmo tempo escravo dessa liberdade. A questão filosófica em torno dessa suposta liberdade que coloca o homem como capitão do seu próprio destino tem sido motivo de muita controvérsia através da sucessão ininterrupta de escolas que pretendem dar as diretrizes para cada era.

O pensamento de Sartre, como o de qualquer pensador, está profundamente arraigado na sua própria experiência de vida. As influências sofridas por cada um determinam, em muito, o seu modo de pensar. É impossível desvencilhar-se completamente da própria bagagem que a vida nos impôs. Daí se dizer que cada homem é produto do seu tempo. Sartre teve material farto para compor sua ode à desesperança. Tendo presenciado as duas grandes guerras, bebeu a contragosto largos sorvos de amargura e dor, suficientes para enlouquecer e precipitar a alma nos braços do desespero.

Vivi em Israel por cerca de um ano e meio e lá encontrei alguns sobreviventes da longa noite de horror que a Alemanha nazista impôs sobre o mundo de maneira geral, e sobre os judeus de forma perversamente específica; Ainda que o nazismo tenha perseguido e martirizado poloneses, ciganos, homossexuais e prostitutas de modo igualmente odiável, a história publica com mais ênfase a tragédia judaica. Depois do inominável genocídio a que foram submetidos, muitos judeus tiveram uma dificuldade imensa de continuar crendo na existência de uma divindade bondosa a governar o mundo. O antiqüíssimo problema do mal emergiu monstruoso das águas escuras dos séculos e desferiu um golpe desorientador. Os filhos daquela geração por sua vez tiveram e ainda tem uma grande dificuldade de assimilar o conceito de um Deus justo e compassivo.

Diante de certas vicissitudes alguns perdem a fé; apaga-se o lume da esperança, esmagada pelo evento sinistro e sem explicação. Resta nestes casos a perplexidade, a expressão de pasmo perante o que só poderia ser classificado como absurdo! A geração de Sartre passou por duas catástrofes causadas, na leitura do existencialismo, pela loucura da livre escolha dos homens. Nem deuses nem demônios tomaram parte na empreitada sinistra. Em verdade, não há deuses ou demônios. O homem é livre e sua vontade é a responsável por moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de indivíduos e nações em sua marcha pela história.

Em termos de filosofia é quase sempre um gesto deselegante dizer que o outro está errado. Resta o respeito ao pensamento e escolha de cada um. Se porventura a teologia for convidada para entrar na discussão, estará sempre ali, disposta a dar razão da esperança que pode dar sentido e propósito ao mundo. Vamos refletir teologicamente? No princípio…DEUS…