Diário I

 

 

 

 

Belo Horizonte, 15/08/2004

 Estou tomando sol em um parque perto de casa. De um bar ao lado do parque ouço os acordes de um violão e a voz esganiçada de um cantor que repete freneticamente o refrão que diz, “fácil, extremamente fácil…” Não tenho idéia do que diz o resto da canção e na verdade nunca tive o menor interesse em saber.

Ao destacar o meu desinteresse pelo resto da letra, pergunto-me se não é mesmo assim que vamos vivendo. Constato que é exatamente assim. A maioria de nós vai pela vida apenas cantando o refrão dos grandes temas. Simplesmente nos contentamos em cantar refrões, ignorando inteiramente a temática.

O real conteúdo das grandes questões é preguiçosamente deixado de lado…Vive-se na superfície, à margem. É mais fácil, é mais cômodo. Esse comportamento define muito das regras do jogo social. Como resultado, os cantadores de refrão serão fatal e inexoravelmente controlados por aqueles que dominam o conteúdo dos assuntos.

O indivíduo destinado a ser dado estatístico se conforma com o refrão e tolamente vai pela vida, repetindo como papagaio, as superficialidades decoradas, mas nunca propriamente assimiladas, digeridas, compreendidas de fato.

Aprofundar-se nas grandes e relevantes questões pode ser um exercício tanto fascinante quanto assustador; as descobertas podem tanto encantar quanto abalar as estruturas daquele que se entrega ao trabalho de ir além do refrão.

A maioria dos viventes tem uma concepção fútil e ilusória a respeito da vida. Sua cosmovisão é desconexa, incompleta, isto porque, ou não se deram ao trabalho de questionar e investigar, ou não tiveram a oportunidade de fugir da doce e enganosa quadrinha que perfaz o refrão.

Os que ousaram romper com os limites do refrão e se deram ao trabalho duro e solitário da investigação, se tornaram responsáveis pelas revoluções que implodiram estruturas viciadas introduzindo o mundo a uma realidade assustadoramente nova.

Não tenho a pretensão obstinada de um iconoclasta. Talvez me falte a disciplina inquebrantável dos grandes destruidores de paradigmas, mas uma coisa é certa, não sou, não quero ser, e tampouco me agrada a idéia de ser um cantador de refrão!

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Praia Grande, 27/10/2004

Saí com meu pai. Fomos à Praia das Vacas, eu com o equipamento de mergulho e ele com a vara de pescar. Nem eu nem ele realizamos nosso intento. O tempo nublado e frio, as águas turvas, o mar agitado foram os motivos que nos desanimaram… sem motivação para pescar ou mergulhar, ficamos ali conversando com os Guarani que estão assentados na região.

Foi uma ocasião interessante, diferente. Sofri quietinho na medida em que observava os índios com quem conversávamos. Sem dúvida alguma a chegada do invasor branco trouxe danos irreparáveis às culturas indígenas que aqui havia… Hoje, confusos, com os seus costumes alterados, violados, os pobres ficaram no “meio do caminho”. Não são mais como os seus antepassados que tinham uma cultura definida e uma etnia e história de que se orgulhar. São, antes, como fantasmas culturais encurralados entre dois mundos. Já não são índios de fato e jamais serão brancos tampouco…

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Amsterdam, verão de 1994

 É tarde da noite e estou só na sala, escrevendo para registrar as impressões, emoções, sensações e outras coisinhas ocorridas nos últimos dias…

Pela janela entreaberta entra um friozinho que me faz encolher na poltrona onde estou sentado. Essa é uma das inconveniências  da última semana.  Não que o frio seja insuportável, é simplesmente inconveniente! Isto porque estamos em pleno verão e eu gostaria de estar sentado lá fora, sem camisa, olhando pra lua… fantasias tupiniquins, é óbvio! O holandês típico não tem esse tipo de delírios! É saudade de Pindorama…


4 comentários sobre “Diário I

  1. Sr.

    muito obrigado por existir.Muito obrigado pela tua vocação tão aberta e ecuménica.
    Oro por ti.Tu serás este arauto do Senhor,que vai levando estrelinhas de esperanças a muitas pessoas.

    Que deus te bendiga,hoje,amanhã e sempre.
    Pode ser que jamais receberei umas palavras vindas de ti.
    Estás tão ocupado em fazer o bem que é melhor assim.

    Um abraço fraterno de uma pessoa que deseja encontrar este Cristo que o mundo quer fazer desaparecer. paulus( sou pouco digno DE LEVAR O NOME DO PAULUS CONVERTIDO…)

  2. Caro Paulus, não estou tão ocupado que não possa te responder… Obrigado por suas palavras generosa. Que o Eterno te abençoe também em todos os aspectos! Grande e fraterno abraço.

  3. Estou decidido a partir de hoje, não ser somente um cantador de refrões…
    Obrigado Pr. Luiz por suas sábias palavras…

  4. Otima decisao André!!!

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