Genealogia com Graça

Genealogia com Graça

Por Luiz Leite

O Novo Testamento começa de maneira maçante. A princípio, o arranjo das palavras soa monótono; Que graça há em ler todos aqueles nomes estranhos de uma genealogia judaica? Pois é exatamente assim que Mateus inicia o seu evangelho. O leitor casual passará os olhos pela seção de nomes e prosseguirá em busca de algo mais interessante; Aquele, entretanto, que demora-se um pouco mais sobre o texto sem graça, estará prestes a ser surpreendido por uma grande descoberta! Encontrará a primeira genealogia com graça. Graça no seu modo mais condensado! Eis aí uma genealogia com graça.

Mateus desconcerta. Transgride a norma. Rompe com a tradição e escandaliza  seus contemporâneos conservadores. Desconcerta com a inserção de mulheres no registro genealógico do Messias. Tradicionalmente as genealogias registravam os nomes dos elementos do sexo masculino apenas. As mulheres não contavam. Em muitos aspectos é exatamente isto que faz a mensagem do Evangelho: Desmantela paradigmas caducos e apresentar uma nova leitura das coisas, utilizando as lentes cristalinas da graça.

Encontrar por ascendentes de Jesus Cristo mulheres de conduta não apenas questionável como também condenável pelos parâmetros da Lei é realmente embaraçoso. Mulheres como Tamar que, fingindo-se prostituta, armou uma cilada memorável para apanhar seu sogro, que no contexto também se faz um prostituto; O que dizer de Raabe, por quem ninguém dava nada, em virtude do ofício nada sacro que exercia?

O registro genealógico de Jesus todavia não nos apresenta apenas a mulheres gentias e de caráter duvidoso; os homens que compõem a lista não são lá nenhum baluarte de verdade e retidão. Na família de Jesus há ex-trapaçeiros, ex-adúlteros, ex-assassinos, ex-corruptos, e sabe Deus quantos outros transgressores cujos delitos constam nos livros da lei como passíveis de severas punições e até mesmo pena capital.

Tais pessoas, em nosso julgamento, jamais poderiam entrar na linhagem messiânica! O que essa gente toda tá fazendo aí? Como entraram na família de Jesus? Do mesmo jeito que eu e voce entramos na família de Deus, pelos portais da graça! Encontramos, portanto, na genealogia de Jesus o tema central que caracteriza o Novo Testamento em sua forma mais concentrada. A teologia da graça está presente na genealogia do Salvador. As portas da graça foram abertas para aqueles que estavam irremediavelmente perdidos. Deus está anunciando logo de entrada que a salvação é pela graça, por meio da fé, não vem de nós, é dom Dele, nem das obras, para que ninguém se glorie! (Ef 2)

Lei x Graça


A Lei e a Graça

Por Luiz Leite

O Evangelho segundo João registra no capítulo de número oito um dos momentos mais cruciais na história da redenção. João relata ali o encontro tenso e constrangedor entre Jesus, os mestres da Lei e os fariseus, e uma mulher surpreendida em flagrante adultério.

Os mestres da Lei e os fariseus estavam sempre buscando um meio de pegar Jesus no contra pé, eles que gostavam de uma controvérsia religiosa. Na verdade, andavam enciumados e morrendo de inveja da forma como as multidões acorriam para os lugares onde Jesus estava pregando e não mais davam atenção ao seu discurso insípido e enfadonho.

Na verdade, esse encontro entre os personagens citados, é apenas uma metáfora, representando um quadro muito mais amplo e profundo. O que temos aí não é apenas o encontro de Jesus com alguns religiosos de plantão, tentando condenar uma mulher que, sabe-se lá por quais razões, entregou-se a uma vida de volúpia e devassidão.

Esse encontro, ainda que tenha acontecido de fato é no fundo uma alegoria. O que temos aí é o confronto titânico entre a Lei e a Graça! Os fariseus e escribas de um lado representando a Lei, Jesus, do outro, representando a Graça, e a mulher pecadora no meio, representando quem?? a mulher adúltera representa a mim e a voce, a humanidade corrompida.

A Lei acusa, expõe, condena… a Graça perdoa, liberta, restaura… Os escribas querem apedrejá-la, fazendo cumprir a Lei. Jesus, entretanto, trazendo a Graça, gentilmente convida os algozes ao derredor a um exame de consciência, com uma pergunta que já se tornou proverbial: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja este o primeiro a atirar-lhe pedra”?

Quem poderia? É óbvio que nenhum deles poderia fazê-lo. Naquele dia a hipocrisia viu-se diante de uma muralha intransponível. Com uma simples frase o Mestre dos mestres desarmou a multidão e com a elegância que lhe era peculiar dissolveu a pendenga e pôs fim à polêmica. Do mais moço ao mais velho, certamente envergonhados, todos se retiraram, deixando-o só com a mulher.

A Graça triunfou sobre a Lei e o pecador saiu livre!

Às vezes somos implacáveis com aqueles que erram, que falham conosco. No nosso direito, pois afinal nos julgamos muito corretos, desembainhamos a espada da Lei e sem misericórdia executamos o pecador. Num outro episódio a Escritura conta que Pedro, quando da prisão de Jesus, sacou da espada e feriu um dos soldados que viera prender o seu Mestre, decepando-lhe a orelha… Jesus, o príncipe da paz, diante da violência do seu mais impulsivo discípulo, disse: “Pedro, guarda a espada, porque quem com espada fere, com espada será ferido”. Poderíamos, usando um jogo de palavras, dizer que, “quem com a lei afere com a lei será aferido“… Será que somos assim tão justos?

E a mulher? o que aconteceu com a mulher? Pois bem, a mulher adúltera a quem Jesus livrou do apedrejamento naquele dia teria sido uma certa Maria de Magdala. Dessa Maria Jesus expeliu sete demônios. Pois foi essa Maria, e não João, ou Pedro, ou qualquer dos apóstolos, que teve o privilégio de ver pela primeira vez o Cristo ressurreto. Por que? Porque por onde começou a queda é que deveria ter início a redenção!