Senatus Populusque Romanus

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S.P.Q.R

Por Luiz Leite

A sigla emblemática S.P.Q.R (Senatus Populusque Romanus)  é quase onipresente na história do império romano. Expressa a proeminência fundamental do Senado como uma de suas mais importantes  instituições políticas. Remonta os anos iniciais de um pequeno reino na península itálica que mais tarde se transformaria num dos mais  imponentes impérios de que se tem notícia.

Rômulo, primeiro rei do reino que alcançaria o status de imperium teria sido o fundador do senado. Antes mesmo da fundação de Roma (753 BC) já funcionava na terras da Itália  uma espécie de suprema corte, conselho tribal composto por anciãos.  Rômulo adotou a idéia do conselho tribal de ançiãos, oficializando a famosa instituição. O termo “senado” procede do latim “Senex”, significando “homem velho”. Senado significa, portanto, literalmente, “conselho de homens velhos”.

Este Conselho de “homens velhos” era uma instância da mais alta respeitabilidade pois ali supostamente prevalecia a voz da sabedoria e da razão. Os povos podiam entregar o leme da nação ao Senatus. Homens íntegros zelavam pelos rumos do interesse comum obedecendo a um código de honra estrito.

Hoje, o que se vê no Senado brasileiro é absolutamente constrangedor;  Causa profunda indignação saber que se assentam nos lugares de tão grande importância, homens cuja credibilidade está comprovadamente comprometida por mil conchavos. As nódoas em suas fichas falam por si.

A casa que deveria representar o bastião da ética na política tornou-se um covil de salteadores. O Senado brasileiro, tal como hoje se apresenta, guardadas talvez algumas raras exceções, não faz jus ao nome. O “Conselho de homens velhos”, tradução do termo Senado, sugerindo a confiabilidade dos anciãos, poderia ser melhor traduzido, no nosso caso, por “Conselho de homens velhacos”.

Morre de vergonha o cidadão brasileiro que, com alguma consciência política, (milhões não a tem!) tem que engolir como senadores da república em seu país, um elenco que mais se parece com os personagens daquele conto das arábias, “Ali Babá e os quarenta ladrões”! Se as articulações desavergonhadas que ocorrem ali fossem descobertas em outros países, os tais senadores já há muito teriam saído da cena, abrindo mão de seus mandatos, ou até mesmo, como já visto em algumas ocasiões, cometido suicídio!

Brasil, mostra sua cara! Apenas a cara pintada do protesto, entretanto, não resolve. Em algum lugar, no meio da noite, precisamos também de olhos molhados!

 




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A Maldição dos Botocudos

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A Maldição dos Botocudos

Por Luiz Leite

Onde estão os Botocudos?  Desapareceram? A princípio parece que sim. Para quem não sabe,  foram um dos grupos nativos mais aguerridos contra os quais nossos tataravós tiveram que medir forças.  O alcunha dado pelos portugueses, Botocudos, referia-se aos “botoques”, peças de madeira que colocavam nas orelhas e lábios, modo peculiar de enfeitar-se destes temíveis guerreiros.

Hoje, extintos eles (praticamente), cá estamos nós, tranquilamente assentados em suas terras, tocando nossa vidinha pacata e inocente. Dos mais de cem grupos indígenas que habitavam o estado de Minas Gerais, apenas uns poucos remanescentes de oito desses grupos sobrevivem. O invasor,  com sua supremacia incomparável acabaria vencendo, tanto pelo expediente do arcabuz e da espada, quanto pela esperta malandragem de homens como Teófilo Otoni que com sua reconhecida trucagem diplomática, passou a perna nos donos dessas paragens, amealhando extensões imensas de terras indígenas para si e sua parentela.

A vitória dos grileiros europeus todavia não viria de maneira fácil. Os terríveis Botocudos defenderam suas terras e cultura como puderam, enquanto puderam, de todas as formas. Guerrearam ferozmente contra aqueles que para eles representavam uma ameaça real de extinção, até que D. João VI, ordenou uma investida tal contra os já famosos e temidos guerreiros, que determinou o seu fim, como informa a carta enviada às autoridades militares encarregadas da limpeza étnica na região.

“(…) deveis considerar como principiada contra estes índios antropófagos uma guerra ofensiva que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas e que não terá fim, senão quando tiverdes a felicidade de vos senhorear de suas habitações e de os capacitar da superioridade das minhas reais armas de maneira tal que movidos do justo terror das mesmas, peçam a paz e sujeitando-se ao doce jugo das Leis e prometendo viver em sociedade, possam vir a ser vassalos úteis, como já o são as imensas variedades de índios que nestes meus vastos Estados do Brasil se acham aldeados e gozam da felicidade que é conseqüência necessária do estado social (…) Que sejam considerados como prisioneiros de guerra todos os índios Botocudos que se tomarem com as armas na mão em qualquer ataque; e que sejam entregues para o serviço do respectivo Comandante por dez anos, e todo o mais tempo em que durar sua ferocidade, podendo ele empregá-los em seu serviço particular durante esse tempo e conservá-los com a devida segurança, mesmo em ferros, enquanto não derem provas do abandono de sua atrocidade e antropofagia. (…) e me dará conta pela Secretaria de Estado de Guerra e Negócios Estrangeiros, de tudo o que tiver acontecido e for concernente a este objeto, para que se consiga a redução e civilização dos índios Botocudos, se possível for, e a das outras raças de índios que muito vos recomendo”;

Exterminamos os Botocudos e muitos outros grupos. Prevalecemos. É a marcha implacável da história. Parece, entretanto, que os Botocudos estão retornando. Nossos jovens, como que “possuídos”, estão adotando os conceitos Botocudos de beleza, deformando lábios, orelhas e narizes, com “botoques” modernos. Aquilo que para os nativos era pura estética dentro do seu contexto cultural, para os nossos jovens guerreiros urbanos, soa mais como uma bizarra manifestação de auto-imagem avariada. Parece-me, quando os vejo pelas ruas das capitais desse imenso Pindorama, que estamos sendo visitados pela maldição dos Botocudos, que lançada sobre os antepassados, atinge agora, tardiamente, nossos curumins. Deus nos livre!

Eu Ri…

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Eu Ri…

Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia, edição de Agosto/09

A minha reação foi tão automática quanto espontânea… Uma risada gostosa levou meus músculos faciais todos a uma sessão exaustiva de aérobica… nenhum sequer foi poupado. No final estávamos, eu e eles, esgotados, desfrutando de uma sensação prazerosa de bem estar, coisa que só uma deliciosa gargalhada poderia proporcionar. É interessante, mas até uma risada pra ser gostosa de fato, tem que ser original… se forçada, não vale! Pior, nos faz sentir ridículos!

A risada é um enigma ainda pouco compreendido. Uma coisa é certa, creio, proporciona benefícios terapêuticos ainda por descobrir. Para mim funciona como, quando ao abrir das janelas de uma casa abafada, recebemos uma lufada de vento fresco, refrigerando todo o ambiente. É mais ou menos por aí. Neuróticos de toda linha podem se deliciar com a metáfora; aos psicopatas, entretanto, fica vedado o significado da mesma, pois, não conseguem lidar com tais coisas.

Mas a razão de tão agradável gargalhada foi a matéria de capa da Revista Época, edição de março/09. Uma capa simples, mas criativa, no melhor estilo lúdico, traz a frase: A fé que faz bem à saúde – Novos estudos revelam que nosso cérebro nasceu programado para acreditar em Deus – e isso nos ajuda a viver mais e melhor.” Ao ler a frase pensei comigo: “Pronto! agora ninguém mais nos segura… acabamos de inventar a roda!” Faltei rolar no chão…

A matéria, assinada por Letícia Sorg, diz:
“Cientistas de diferentes áreas se debruçaram sobre a questão nos últimos anos e chegaram a conclusões surpreendentes. Não só a fé parece estar programada em nosso cérebro, como teria benefícios para a saúde.”

Como o propósito da matéria não era construir um tratado sobre fé e religião, é óbvio que acaba descambando para a direção pretendida, que é investigar o fenômeno religioso pelas lentes dos achados mais recentes das neurociências. Os neurocientistas estão redescobrindo o continente da fé com milhares de anos de atraso.

A matéria revela “novidades” que, para os que mantêm um relacionamento com Deus não passam de rudimentos já bastante conhecidos por qualquer pessoa que esteja dando os seus primeiros passos na eletrizante estrada da fé.
As conclusões dos estudos revelam que a fé em Deus reduz a ansiedade, ajuda a lidar melhor com os erros, dá equilíbrio diante dos problemas e etc. Um professor da Universidade de Toronto revela ao mundo uma preciosa pérola. Diz o psicólogo:
“Suspeitamos que a crença religiosa protege contra a ansiedade porque dá um sentido para as pessoas. Ajuda-as a saber como agir e, com isso, reduz a incerteza e o estresse.”

“Suspeitamos…” kkkkkkkkk;  Perdoem-me a gargalhada, mas essa foi hilária. Não parou por aí. Continuei rindo na medida em que lia o texto. As risadas, entretanto, em nenhum momento beiraram o deboche; Simplesmente me alegrava com a constatação, pela ciência, de que a espiritualidade consistente é mesmo fonte inesgotável de benefícios. “A influência da crença em Deus na redução do estresse já é quase um consenso entre os médicos”, diz a matéria, amparando-se na avaliação do Dr. Marcelo Saad, doutor em reabilitação. Diz mais o Dr Saad: “As doenças relacionadas ao estresse, especialmente as cardiovasculares, como a hipertensão, o infarto do miocárdio e o derrame, parecem ser as que mais se beneficiam dos efeitos de uma espiritualidade bem desenvolvida.”

Agora, para terminar, as pesquisas apontam para a necessidade de congregar!! Segundo as conclusões a que chegaram, a fé, para que seja eficaz, deve ser engajada. A ciência confirmando a verdade bíblica? Pois é o que parece. Neste ponto os estudos afirmam que “o apoio social é algo extremamente valioso para a saúde física, inclusive para a sobrevivência e a longevidade”. Um sociólogo e professor da Universidade do Texas, Robert Hummer, que acompanha um grupo de pessoas desde 1992 para tentar esclarecer a relação entre a religião e a saúde, entre outras coisas, diz, segundo a pesquisa, que quem nunca praticou uma religião tem um risco duas vezes maior de morrer nos próximos oito anos do que alguém que a pratica uma vez por semana.

Em sua criteriosa busca pela verdade os cientistas honestos (há os picaretas que forçam os dados e mascaram fatos para os propósitos unicamente mercantilistas de segmentos altamente prostituídos como o da indústria farmacêutica) prosseguirão incansáveis, esmiuçando a matéria até descobrir a face de Deus, ambição já ventilada pelo celebrado físico Stephen Hawking. A pergunta é se encontrarão um rosto que ri de alegria, como um pai que festeja ao ser encontrado por uma criança brincando de esconde-esconde, ou um riso de ironia como resposta a arrogância do coração do homem.
“Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a minha mão, e não houve quem desse atenção; antes desprezastes todo o meu conselho, e não fizestes caso da minha repreensão; também eu me rirei no dia da vossa calamidade; zombarei, quando sobrevier o vosso terror…” (prov 1.24-26)

Lembrei da frase de Jastrow que admite uma possibilidade que seria um pesadelo para os ateus. Esse pesadelo seria o desconcerto dos cientistas quando por fim se virem forçados a concordar com o fato de que os vestígios deixados no cenário vão conduzir diretamente ao Criador que por séculos insistiram em negar. Disse o astrônomo:

“Para o cientista que viveu pela fé no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou a montanha da ignorância; está prestes a conquistar o pico mais alto; e, quando chega á última pedra, é cumprimentado por um bando de teólogos que estavam sentados ali há séculos”.

Aguardemos a pós-história onde teremos todas as perguntas respondidas e todos os conflitos solucionados! Apesar de agnóstico, e pelo que parece, agnosticismo moderado, o que no fundo não passa de uma espécie de ateismo inseguro, Jastrow desconfia que os homens e mulheres de fé tem de fato um segredo que as lentes da ciencias ainda não conseguiram captar. Graças aos estudos recentes da neurociência as primeiras camadas do grande “mistério” estão começando vir à luz. Tomara que tenham tempo para reavaliar suas convicções!

Nó na Língua

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Nó na Língua

Por Luiz Leite


Spectaculum facti summus Deo, angelis et hominibus.” (Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há de julgar!)

Pe. Antonio Vieira


Voe mihi, quia tacui.” (Ai de mim, que não disse o que convinha!)

Dê um nó na sua língua. Só o desate quando tiver completo controle sobre ela! Não permita que ela se movimente por aí, livre e sem censura. Faça como Davi que disse: ” Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua; guardarei a minha boca com uma mordaça, enquanto o ímpio estiver diante de mim.” (Sl 39.1)

A Bíblia alerta para o cuidado com as palavras e o uso que se faz delas… Muito já tem sido ensinado e escrito acerca do tema. Simplesmente não damos o valor devido. Negligenciamos. Pecamos contra os outros, pecamos contra Deus, e por fim prejudicamos nossa própria alma.

As palavras modelam nosso destino, configurando ou desconfigurando-o.  Pelo menos 90% das batalhas são causadas por elas, mas as machucaduras sofridas nestes conflitos tambem são curadas por elas. Como setas de fogo, quando atingem o alvo, produzem dor lancinante. Desequilibram, enlouquecem…

Afortunadamente, palavras não são veículos de destruição apenas. São também condutoras de medicina, bálsamo potente, com poderes miraculosos de cicatrizar as mais crônicas das mazelas. Devem ser utilizadas com sobriedade. Vêm de Ana, mãe de Samuel um dos conselhos mais sóbrios a respeito do cuidado que se deve ter para com o seu uso. Diz a mãe do profeta: “Não faleis mais palavras tão altivas, nem saia da vossa boca a arrogância; porque o Senhor é o Deus da sabedoria, e por ele são pesadas as ações.” (I Sm 2.3)

Guarde bem os seus lábios e mova-se com prudência. Escolha com paciência os caminhos da língua, trabalhe melhor o seu fraseado, seja um artesão na construção mágica das letrinhas, pois estas, tais quais tijolos, vão construir o mundo ao seu redor. Se sua morada será um lugar aprazível ou uma masmorra lúgubre, dependerá em muito desta fantástica matéria prima que é a palavra falada!

O velho e sábio Salomão disse que as palavras devem ser escolhidas e sintetizou o conceito numa de suas mais deliciosas pérolas:  “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” O Apóstolo Paulo, fazendo coro com o rei de Israel, adverte:“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas sim, unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem.”

Se refletíssemos um pouco mais prolongadamente sobre este conselho certamente nos portaríamos com mais cuidado  e teríamos menos problemas para resolver no campo delicado dos relacionamentos. O jogo da vida é muito sutil e cheio de armadilhas. As palavras podem tanto nos ajudar, se escolhidas cuidadosamente, como podem nos atrapalhar, se proferidas atabalhoadamente. “Falar sem refletir é estultície e vergonha.”