A arte de surfar

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A arte de surfar

Extraído do livro:

Estratégia, Cálculo e Equilíbrio – Tudo o que você precisa saber para alcançar o topo – sem se matar!

 

Assentado confortavelmente na areia, recostado em uma pedra, com a frustração momentânea experimentada ao chegar já dissipada, estava para ser compensado por uma satisfação não prevista. Aos poucos fui fixando os meus olhos em um grupo de surfistas que, ao longe, desafiavam grandes ondas. O dia estava impróprio para o mergulho, mas perfeito para o surf. Enquanto observava os jovens fazendo suas manobras graciosas, pensava em como as circunstâncias, às vezes impróprias para alguns, são exatamente aquilo que outros buscam.

Acomodei-me relaxadamente e, enquanto enchia os olhos com a paisagem idílica, agradecia por ter sido premiado com uma boa dose de tolerância para lidar com as contrariedades e identificar aprendizado nas dificuldades. Um problema, afinal, nem sempre é um problema. Saber extrair algo de enriquecedor de fracassos e frustrações é uma dádiva. Quantas destas situações não são apenas convites preciosos para um seminário de aprofundamento das raízes?

Em toda e qualquer situação, ao invés da lamúria gerada pelo desapontamento, a pergunta deve ser: O que posso aprender aqui? Esta era a pergunta que me vinha à mente, enquanto assistia ao incrível balé de corpos, pranchas e ondas. Nessas alturas, já esquecido do mergulho, me concentrava, cada vez mais, nos corpanzis bronzeados ao longe. Qual é o segredo do surf? O que se pode aprender com essa atividade que para muitos não passa de coisa de adolescentes? As reflexões que viriam a seguir apontariam para uma realidade que poucos consideram.

Ainda que para alguns pareça brincadeira de menino, o surf exige trabalho, concentração, atenção… Surfar pode ser desgastante se o surfista não tiver o preparo adequado. Ficar de pé sobre uma onda, em uma prancha, quando todas as forças conspiram para derrubar quem se atreve a enfrentar as águas, é um enorme desafio. Um surfista aprendiz toma muito “caldo”, muito “capote”, antes de aprender a dominar a arte do equilíbrio. “Caldo”, ou “capote”, na linguagem do surf, significa ser “atropelado” por uma onda, por despreparo, descuido, falta de atenção. Equilibrar-se em meio à insegurança e vencer a fúria incontida das ondas é a grande façanha!

Como no surf, a vida pode nos aplicar caldos inenarráveis se não tivermos equilíbrio! A habilidade de permanecer de pé em meio à voracidade dos turbilhões da vida determina e separa vencedores de perdedores. Dependendo da grandeza da onda, um “capote” pode até matar! Se faltar o equilíbrio na condução dos eventos, veremos interrompido o sonho, frustrado o plano. Em nossa experiência, de modo geral, muitos estudos e experimentos são necessários para que nos mantenhamos de pé sobre as “ondas” das circunstâncias. Algumas provas podem não exigir tanto, mas outras demandarão muita habilidade, caso pretendamos sair vivos do outro lado.

Um princípio básico que todo surfista aprende cedo é não subestimar o mar. Alguns até fazem suas preces antes de entrarem nas águas. Esta demonstração de respeito produz cautela. É uma regra que se aplica a todos os ambientes e vivências. Não se deve subestimar a vida, as pessoas, os momentos. O engajamento com os fatos e seus atores deve ser conduzido com consciência, com reverência, mas sem medo. As águas desse imenso mar podem se apresentar mui calmas em alguns momentos, bravias em outros. Em todos os casos, o respeito é sempre a melhor opção.

Um dia de mar agitado, coloca o pescador de sobreaviso e afasta o mergulhador das águas. Curiosamente, este é o dia que mais atrai o praticante do surf! Alguns preferem o sossego de uma vida monástica, a previsibilidade de um lago, enquanto outros se alegram com a adrenalina produzida pela inquietude do mar. É uma questão de perfil. Não importa para onde você se volta, ou a direção para a qual o seu perfil o conduza, a ideia é fazer sempre com excelência aquilo que propõe fazer. Em todas as áreas da vida há uma onda metafórica a pegar. Prepare-se.

 

Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente – A PEDAGOGIA DO DESERTO –  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.