Telhado de Vidro

Telhado de Vidro

Por Luiz Leite

Durante os dias, semanas e meses em que o escândalo político chamado “Mensalão” roubou a cena e monopolizou as mídias, o Senador da República Demóstenes Torres representou um dos principais papéis de bom moço, figurando como verdadeiro paladino da Ética, bastião da moral, guardião da justiça. Sentíamo-nos seguros ao ouvir seu discurso. Passava-nos a impressão de que nem tudo estava perdido, de que restava em Brasília alguma probidade. A prevaricação se instalara acintosamente pelos palácios do planato afora, o diagnóstico era câncer sim, maligno, mas para nosso alívio não era caso de metástase. Tínhamos Demóstenes. Cobrando intervenção cirúrgica e punição exemplar para todos os envolvidos nas tramóias sórdidas da politicagem execrável que se fazia no Planalto Central do Brasil, o senador não deu trégua aos meliantes de colarinho branco.

Passados alguns poucos anos, para nossa mais profunda decepção, encontramos atolado em lamaçal de catinga não menos fedentina que aquele em que se emporcalharam José Dirceu, Marcos Valério e demais asseclas, o herói que, com discurso enérgico bradou em defesa da democracia e do Estado de direito. Alinhado a um mestre da traficagem, Demóstenes vendeu-se pois, afinal, como sustenta o adágio, todo homem tem seu preço. Exposto, verificou-se que o senador tinha também telhado de vidro. A lama está nos sapatos de fino cromo alemão; O terno fino de grife caríssima também encontra-se manchado… Ainda que afirme com serenidade questionável que provará sua inocência, já se ouve dos seus próprios pares que sua defesa é insustentável.

A prova mais contundente e constrangedora foi apresentada em rede nacional. Ouvir um parlamentar da mais alta categoria dirigir-se a um contraventor como o senhor Carlinhos Cachoeira, como “professor”, é realmente preocupante. Precisei ver o vídeo mais uma vez para checar se de fato tinha ouvido aquilo que julgava inacreditável. Se um senador da república dirige-se a um contraventor como “professor”, então temos as respostas para todas as perguntas; Explica-se como se processa a corrupção neste país. Há uma escola! Vê-se quem são os seus mestres! Se o Sen. Demóstenes, que com sua cara de bom moço convencia a opinião pública, aprende com o “professor” Carlinhos Cachoeira, com quem aprendem os parlamentares barra pesada, quadrilheiros comprovados?

Em meio à esse absurdo e revoltante rosário de casos intermináveis de corrupção, onde senadores receberem favores de bicheiros, deputados abusam de suas prerrogativas e conferem a si mesmos salários além da conta, uma afronta ao contribuinte, surge o Deputado Tiririca lamentando que o partido não tenha aprovado seu nome para candidatura à prefeitura da cidade de São Paulo… Pode parecer engraçado. Alguém pode dizer que é mesmo coisa de palhaço mas, parece que Tiririca tem planos para ir mais longe.  Em mais de um ano de mandato não faltou a uma sessão sequer!!! Como é? Pois é. Atento à cada moção, o palhaço tem se mostrado mais sério do que se esperava. Tomara que tenha se matriculado na escola da boa política e eleja como mentores homens e mulheres de boa fé que lhe ensinem a “graça da garça”. Qual é a graça da garça? A graça da garça é “a arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.”

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Eleição ou Seleção?

 

 

 

 

 

 

Eleição ou Seleção?

Por Luiz Leite

É para mim inevitável, ao observar o cenário político, não lembrar do texto polêmico do famoso livro que transtornou o século XX. Leitura proibida no Brasil, o Protocolo dos Sábios de Sião, surgiu na Rússia durante o governo do Czar Nicolau II, e revela a trama supostamente desenvolvida pelos judeus para controlar as economias do mundo através de uma fabulosa conspiração. A comunidade judaica vem, desde há muito, negando a autoria do tal documento. Alegam que o tal protocolo foi forjado pelo polícia secreta do Czar para lançar a opinião pública contra os movimentos de esquerda que vinham crescendo de forma ameaçadora e que tinham em suas fileiras muitos judeus em posição importante. Negam o livro e seu conteúdo, como negam a Jesus como Messias.

A negação veemente da paternidade dessa obra é para os judeus das mais importantes frentes de luta por sua sobrevivência. A leitura do Protocolo comprovadamente funciona de maneira terrivelmentre eficaz como arma de propaganda antisemita. A Alemanha Nazista de Hitler usou-o largamente em seus esforços para persuadir seus fanatizados seguidores da “ameaça judaica” e da necessidade de exterminá-los como a ratos. O III Reich disponibilizou o texto e colocou nas mãos do povo alemão, intoxicando a milhões com o veneno racista.

Ainda que os judeus neguem que o Protocolo dos Sábios de Sião tenha tenha qualquer fundamento, ou que exista uma conspiração judaica para controlar as nações, os antisemitas de todo o mundo sustentam categoricamente, apresentando provas as vezes intrigantes, as vezes questionáveis, que a obra é autêntica e que existe sim uma conspirata sionista operando nos bastidores do poder mundial. A controvérsia acerca da autencidade do livro certamente não terá fim.

Fato é que alguns trechos do ultra polêmico Protocolo nos remetem a pensar conspiracionalmente. É bem sabido que na coreografia do poder os passos são cuidadosamente ensaiados com todos os movimentos prédeterminados, com pouquíssima probabilidade de deslizes. O desfecho do espetáculo só é conhecido pelo diretor da trama e seus atores e colaboradores mais próximos. O grande público não decide nada. Acompanha o desenrolar dos eventos completamente alheio ao seu fim. Arriscam palpites, “torcem” e até se precipitam em discussões acaloradas, mas nada sabem.

Nesses dias, com o “show” das eleições em andamento, o texto do documento incendiário provoca: “Os administradores, escolhidos por nós no povo, em razão de suas aptidões servis, não serão indivíduos preparados para a administração do país. Assim, facilmente se tornarão peões de nosso jogo, nas mãos de nossos sábios e geniais conselheiros, de nossos especialistas, educados desde a infância para administrar os negócios do mundo inteiro. “

A liberdade política”, diz o documento controverso, “é uma idéia apenas”; não se traduz para a realidade. Desse modo, o homem comum vive o sonho dessa tal liberdade quando, no exercício de uma cidadania questionável, se dirige às urnas para fazer valer seu direito (forçado) de voto. Não existiria,então, eleição. Existe seleção. Essa seleção é natural, algo semelhante a proposição Darwiniana. Os mais fortes sobrevivem pelo espólio dos mais fracos. As cartas marcadas roubam, às escondidas, como é próprio deste delito odiável, as chances dos ingênuos e idealistas puritanos. O loteamento do poder é feito longe do olhos da plebe ignara que nem suspeita que está sendo escandalosamente vilipendiada.

No caso do Brasil alguns eventos da história recente ainda intrigam. Só para citar alguns casos, o “suicídio” de Getúlio Vargas, a  “renúncia” de Jânio Quadros, a queda de João Goulart, a morte de Juscelino Kubstichek, a estranha morte de Tancredo Neves, o enigmático “desaparecimento” de Ulisses Guimarães, a fantástica construção de Collor…  As cartas, tudo leva a crer, são mesmo marcadas. Não é preciso ser nenhum teórico da conspiração para chegar à essas conclusões. Qualquer bom historiador sabe bem que a história oficial é maquiada. Vergonhosamente.

Da missa – provoca o dito popular – não sabemos um terço. O circo apresenta os bufões no picadeiro e as massas riem-se, sem ao menos perceber que é dela mesma que se faz troça. No Brasil o fato está diante dos nossos olhos no horário político de cada pleito. O deboche se faz escancarado quando partidos políticos fazem uso de candidatos cacarecos (humoristas fracassados, cantores em fim de carreira, jogadores de futebol aposentados, símbolos sexuais decadentes…) para tentar garantir, na falta de pessoas capazes, uma cadeira a mais nas câmaras estaduais e federais. É apenas óbvio que tais candidatos, se eleitos, como já se provou, não passarão de figuras caricaturescas, sem qualquer significância no processo político, a vadearem pelos corredores do poder.

Ver o palhaço Tiririca, por exemplo, tornar-se o deputado federal mais votado do estado de SãoPaulo é um acinte; milhões devem rir de seu humor pastelão, mas por trás da chocarrice de apenas um palhaço, uma nação inteira está sendo ridicularizada. É lógico que não sabe disso o cidadão comum, que em sua ignorância nutrida por um ração especial de desinformação, vem sendo há anos embalado pelo recurso antigo mas sempre eficaz do pão e do circo. Ainda que em todas eleições me irrite o gracejo atrevido e escrachado de candidatos vazios de conteúdo, com seus discursos fajutos, cópias desgastadas e enfadonhas de fórmulas ultrapassadas, o que realmente me deixa indignado é o discurso sério, o tom grave dos personagens mais sisudos da comédia representada nesse grande picadeiro.

Temos políticos de carreira, políticos por vocação, por profissão, “franco atiradores” , oportunistas e idealistas de todas as cores. Dentre esses é possível encontrar, incrível que pareça, os bem intencionados. Ainda que os aproveitadores usem o poder religioso de mobilização para garantir votos em todos os pleitos, há daqueles que são representantes legítimos de determinados segmentos religiosos. Esses tem respaldo das lideranças eclesiais, sem necessidade de fazer conchavos impublicáveis para costurar alianças espúrias e assegurar o apoio de que precisam. Mesmo assim podemos ver líderes religiosos escorregando tristemente ao encarnarem o papel de cabos eleitorais nesse terreno escorregadio.

Se voce não é daqueles que aceita o estereótipo da memória curta que se atribui aos brasileiros, há de lembrar-se de como as lideranças da igreja brasileira se alinharam a Collor de Mello em 1989, exortando os fiéis a não votarem no comunista, o “sapo barbudo”, que naqueles dias iniciava a jornada em direção à Brasília. Pois as lideranças que ajudaram a empossar o embuste chamado Collor, viram-se embaraçadas diante do fiasco a que haviam avalizado. Afinal, Deus revelou que o apoiassem ou não? A princípio disseram que sim, depois restou o constrangimento a esses  “profetas” que saem por aí falando que Deus disse, quando Deus não falou coisa alguma.

Dia desses li em algum lugar que a Valnice Milhomens afirmou que “O Pai (lhe) havia dito que é possível que Marina Silva seja eleita esse ano”. Sinceramente não entendi. Se é o Pai que unge e destrona reis, então não pode haver tal coisa como “possibilidade” para a eleição daquele a quem ele escolher estabelecer no comando da nação! Afinal Deus falou ou não? Se falou, então tá falado! Essa dubiedade soa mal, dá lugar à desconfiança… Cuidado profetas!  Que Valnice queira ajudar Marina tudo bem. Posso ser cabo eleitoral de quem eu quiser, agora se vou a público fazendo uma asseveração de caráter subliminar, utilizando o sempre impressionável recurso do nome do Senhor, então acabo entrando na mesma frequência em que operam todos os outros flibusteiros.

Veja se não é esse o caso de Lula, o presidente deslumbrado? Referiu-se a Dilma outro dia em um dos seus discursos como senhora Presidenta! Surpreende ao emendar que já a chamava de Presidenta porque tinha convicção de que ela seria eleita; A pedra de toque para embasar o rasgo profético do falastrão foi uma frase de efeito com poderes hipnóticos sobre os incautos operários que lhe aplaudiam freneticamente. Apropriando-se cinicamente das palavras do apóstolo Paulo, diz em tom triunfal: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

Enfim, se o “Protocolo dos sábios de Sião” é uma fraude antisemita ou não, se existe uma conspiração manipulando as peças nesse grande tabuleiro, não é fácil comprovar. O certo é que, no final das contas, quando cerrarem as cortinas e o show terminar, os senhores do poder se rirão do povo mais uma vez e darão curso aos seus negócios sem que se saiba quem realmente opera as cordas que movem as marionetes, ou quem são os ventríloquos que colocam as palavras nas bocas dos fantoches.