A Tormenta Intrapsíquica

 

 

 

 

 

 

 

 

A tormenta intrapsíquica

Por Luiz Leite

Nos tempos da boa música Chico Buarque escreveu uma canção antológica que dizia: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…” Esse sentimento de vazio e desvalor é experiência comum a todos. Vez por outra nos pegamos assim. O verbo “sentir” seria facilmente definido se tão somente pudéssemos dizer que a experiência se resume ao conjunto de informações e impressões capturadas pelos sentidos naturais. Entretanto, para além dos elementos que nos invadem pelas vias sensoriais, e que sem dúvida modelam parte dos sentimentos, existem outros condimentos que de fato ditam rumo e ritmo da forma como sentimos.

Forças intrapsíquicas modificam constantemente nossas emoções deixando nosso mundo interior como se atingido por uma tormenta; Um vento tempestuoso sopra forte e de uma hora para outra tudo se alvoroça dentro em nós, deixando-nos internamente destroçados, como se tivéssemos nos colocado desavisadamente na rota de um furacão. Vemo-nos amedrontados, inseguros, ansiosos… Ainda que contenhamos as emoções maquiando sua manifestação orgânica, choramos e sangramos por dentro. Parte desse transtorno faz-se desnecessário. Ainda que algumas dessas situações nos pareçam terríveis no momento, poucas duram mais que um par de dias. Isto para fazer valer a sabedoria popular que afirma: “Nada como um dia após do outro.”

Nem tudo, entretanto, é assimétrico no campo do sentir. Tem dias que a gente se sente bem. Geralmente nos dias que nos sentimos bem, também nos sentimos bonitos. Como parece, tudo depende de como se sente. Se me sinto bonito, inevitavelmente isto é assim porque estou me sentindo bem. É a corda e a caçamba. Caramba! Como esse ditado é velho! A propósito, há dias também em que nos sentimos velhos, ranzinzas…  outros ainda, miseráveis e desprezíveis… ora inflacionamos, ora deflacionamos nosso valor intrínseco,. Eita! Quanto sentir! É preciso aprender a negociar com tantas emoções.

Algumas pessoas têm uma habilidade natural no manejo das emoções, outras são lastimavelmente ineptas em tal arte. Agimos em muitos casos como analfabetos funcionais. Até conseguimos ler o texto emocional mas não conseguimos interpretá-lo de maneira correta. Daí o conflito intra e interpessoal. Não precisamos ficar a mercê do torvelinho emocional. Felizmente há meios para se lidar com o sentir. Tais meios, entretanto, estão reservados a um punhado apenas daqueles que apresentam disposição para ler, estudar e conhecer esse terreno por demais escorregadio, onde poucos conseguem transitar sem muitos acidentes. Enquanto não se adquire habilidades especiais para lidar com esse assunto o melhor a fazer seria dar ouvidos ao sábio conselho de São Tiago que diz: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (Tg 1.19)

E por se multiplicar a iniquidade…

E por se multiplicar a iniquidade

Por Luiz Leite

Jesus afirmou que no fim dos tempos a iniquidade se multiplicaria tanto a ponto de causar um efeito inusitado, ocasionando o esfriamento do amor. A relação que ele faz entre uma coisa e outra é direta. Infere que os termos são auto-excludentes; A presença de um não admite a existência do outro. Ou o amor extingue a iniquidade, ou essa esfria aquele.

A iniquidade, do grego anomia, situa-se no extremo oposto do amor. É obvio que Jesus não se refere ao amor Eros que tem sua cotação em alta constante na bolsa de valores da devassidão. O amor do qual fala no texto grego é aquela versão mais alta e depurada de um conceito que tem sido constantemente deturpado e mal compreendido.

O substantivo “iniquidade” é um termo revestido de roupagem sombria e desestabilizante. O iníquo é aquele que intenta contra as regras estabelecidas e não se submete à Lei, quer de homens, quer de Deus. A lei dos homens pode ser burlada sem qualquer problema. A Lei com “L” maiúsculo, entretanto, precisa ser destruída.

“A verdade é que o mistério da iniquidade já está em ação, restando apenas que seja afastado aquele que agora o detém. ” (II Tess 2.7) O que o apóstolo está dizendo é que o processo já teve início há muito. O cenário está sendo preparado para o advento do “homem da iniquidade” (II Tess 2.3).

Assustou-se a nação inteira com a decisão do STF, o “guardião da constituição federal”. A sutileza da antinomia instalou-se por lá de modo completo através dos seus dez apóstolos presentes na sessão da quinta feira, dia 05/05/2011 que votaram por unanimidade a favor do reconhecimento da união estável de indivíduos homossexuais. Devem desfrutar dos mesmos direitos da união de um casal heterossexual, ou seja, recebem status de família, ainda que tecnicamente esbarrem no conceito constitucional que caracteriza o que vem a ser uma família.

O Supremo Tribunal Federal, que é um orgão do poder judiciário, não está fazendo lei, pois tal coisa não lhe compete. Entretanto, ao tomar tal decisão praticamente pressiona o legislativo a que se apresse e resolva logo a questão a favor da iniquidade aprovando a lei que respalda a abominação homoafetiva. Os defensores dos valores da família ficam assim, teoricamente, desamparados.  Se a Suprema Corte do país já se posicionou favorável à essa semvergonhice, a quem se poderia recorrer? Não seria de todo surpreendente vê-los numa das paradas do orgulho gay envergando as cores da classe, uma vez que alistam-se com este ato às fileiras do GLS.

O Eterno pronunciou-se acerca dos tais:

“… Por isso Deus os abandonou as paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural (…) E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém; Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.” (Rm 1)

 O Deus da Bíblia não é homofóbico. Condena, entretanto, a sodomia, veementente. “Com homem não te deitarás como se fosse mulher. É abominação.” (Lv 18.22) Do mesmo modo, o Senhor ama o ladrão mas abomina o roubo… Os juízes do Supremo Tribunal consentem com a anomia quando deviam repudiá-la como defensores da lei e dos valores que entre outras coisas orientam e dão sustentação à família. Serão julgados por isso. Chegará o dia em que estarão no banco dos réus!

 

A Absurda Antesala do Inferno

 

 

 

 

 

 

A Absurda Antesala do Inferno

Por Luiz Leite

Texto publicado na Coluna Pastoral da Revista Eclesia

 “Se um certo Jean-Paul Sartre for lembrado, eu gostaria que as pessoas recordassem o meio e a situação histórica em que vivi, todas as aspirações que eu tentei atingir. É dessa maneira que eu gostaria de ser lembrado.”

Este foi o apelo que o grande existencialista ateu fez cerca de cinco anos antes de sua morte. O pensamento de qualquer pensador está profundamente arraigado na sua própria experiência de vida. As influências sofridas por cada um determinam em muito o seu modo de pensar. É impossível desvencilhar-se da própria bagagem que a vida nos impôs. Daí se dizer que cada homem é produto do seu tempo.

Com a maior parte de sua obra escrita durante a segunda grande guerra, Sartre teve material farto para compor sua ode à desesperança. O seu tempo foi marcado por grandes e dramáticos eventos. Suas idéias chegam a nós como um protesto de revolta diante das catástrofes absurdas a que foi submetida sua geração. Talvez seu conceito sobre Deus possa ser resumido pelo silogismo que segue:

“Se Deus fosse bom, ele desejaria tornar suas criaturas perfeitamente felizes…”

“E se fosse todo-poderoso, ele seria capaz de fazer o que quisesse…”

“Mas as criaturas não são felizes.”                                 

“Portanto, a Deus falta a bondade ou o poder – ou ambas as coisas.”

É mais ou menos assim que se apresentam alguns dos argumentos que refutam a existência de um Deus bondoso. A presença indesejável do mal no mundo sempre foi um problema de difícil compreensão. Segundo o argumento acima exposto, não pode haver nem um deus bondoso nem um diabo perverso, pois a presença do primeiro teria que necessariamente aniquilar a ação do segundo, o que, aparentemente, não acontece.

Vivi em Israel por cerca de um ano e meio e lá encontrei alguns sobreviventes da longa noite de horror que a Alemanha nazista impôs ao mundo de maneira geral, e sobre os judeus de forma perversamente específica; Ainda que o nazismo tenha perseguido e martirizado poloneses, ciganos, homossexuais e prostitutas de modo igualmente odiável, a história publica com mais ênfase a tragédia judaica. Depois do inominável genocídio a que foram submetidos, muitos judeus tiveram uma dificuldade imensa de continuar crendo na existência de uma divindade bondosa a governar o mundo.

O antiqüíssimo problema do mal emergiu como um monstro hediondo das águas escuras dos séculos e desferiu um golpe demolidor sobre a geração de Sartre. Assimilar o conceito de um deus todo-poderoso a governar o destino dos povos tornou-se um desafio insuperável para muitos daqueles que presenciaram as atrocidades de uma era como aquela. Diante de certas vicissitudes alguns perdem a fé; apaga-se o lume da esperança, esmagada pelo evento trágico e sem explicação. Resta nestes casos a perplexidade, a expressão de pasmo perante o que só poderia ser classificado como absurdo!

A geração de Sartre passou por duas catástrofes causadas, na leitura do existencialismo, pela loucura da livre escolha dos homens. Nem deuses nem demônios tomaram parte na empreitada sinistra. Em verdade, concluíram, não há deuses ou demônios. O homem é livre e sua vontade é a responsável por moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de indivíduos e nações em sua marcha pela história.

Observando os extremos a que pode chegar o homem, as ações absurdas que pode levar a cabo, o flagrante desequilíbrio na balança da equidade, Sartre conclui que o problema do mal não é de ordem metafísica; não é produto da emulação de seres fantásticos de outras dimensões. Sua filosofia dispensa qualquer noção de deuses ou demônios e desemboca num humanismo radical, onde o homem, e somente o homem se torna o protagonista do seu pequeno drama.

Deixado sozinho, a mercê da própria sorte, o homem terá que fazer-se. Torna-se responsável por aquilo que é e não deverá atribuir a nada nem a ninguém seus infortúnios. Se alcançar sucesso, o fará graças tão somente aos seus próprios méritos, se porventura naufragar nas ondas do fracasso não terá o direito de lamentar-se, projetando sobre outrem a responsabilidade dos seus desacertos. Terá que fazer suas escolhas, posicionar-se e arcar com os custos, sejam quais forem suas conseqüências.

Descartada a possibilidade da eternidade e de acertos de contas morais na pós-história, como ensina o cristianismo, o existencialismo procura aliviar o dilema humano, selando hermeticamente toda e qualquer fresta por onde possa se intrometer a espiritualidade com sugestões de juízos ou benesses vindouras. Em outras palavras, não há tal coisa como uma continuidade entre tempo e eternidade. Há que aferrar-se ao tempo e fazer-se como bem se entende.

O existencialismo ateu de Sartre faz do mundo uma absurda ante-sala do inferno! No fim acabam tendo mesmo razão: É uma questão de escolha.