Na Calada da Noite

 

Na Calada da Noite

Por Luiz Leite

“Quanto mais esperto o homem se julga mais precisa de proteção divina para defender-se de si mesmo.”(Sêneca)

Geralmente Nicodemos é ignorado pelos pregadores que utilizam o evento envolvendo o seu encontro com Jesus. O foco da maioria dos pregadores recai sobre o ensino de Jesus e pouco se fala sobre o que se pode aprender do personagem curioso que procura Jesus na calada da noite. Há tanta coisa boa a aprender com Nicodemos!

Nicodemos buscou a Jesus no meio da noite porque tinha uma motivação básica que o levou a isso. Correu certo risco ao expor-se daquela maneira, mas moveu-se. Nicodemos tinha uma necessidade de conhecer a verdade por trás dos fatos. Foi honesto o suficiente para reconhecer que suas crenças careciam de solidez. Não bastava apenas o que tinha ouvido sobre Jesus. Era-lhe necessário escavar mais, ir mais fundo. Um conhecimento apenas superficial, baseado em versões populares, tantas vezes contraditórias, não lhe servia. Fez aquilo que todos deviam fazer e não fazem, pois ao invés de mergulharem, preferem permanecer na superfície; ao invés de içarem âncoras preferem a segurança relativa do porto e assim vão vivendo à margem da vida e seus desafios.

Nicodemos sem dúvida não era um homem raso, que se deixava contentar com rascunhos fajutos de conceitos; tampouco se deixava enredar facilmente por preconceitos de qualquer ordem. Sinto uma profunda simpatia e respeito por esse homem. Naquela noite decisiva, aquele que era um príncipe em Israel julgou imperativo sair da sua mansão e investigar por conta própria o ensino e a pessoa de Jesus. De coração aberto partiu, no meio da noite, de encontro ao Salvador dos homens. A diligência de Nicodemos em conhecer a verdade a respeito de Jesus o salvou!

Um número muito grande de pessoas tem uma tendência fortíssima para a mediocridade. Contentamo-nos em saber apenas superficialmente a respeito das coisas. A maioria de nós tem apenas uma noção desconexa a respeito de determinados assuntos. Poucos de nós podem falar com mais propriedade sobre temas relevantes e que dizem respeito a todos. Se perguntarmos às pessoas se já ouviram falar de alimentos transgênicos, a maioria dirá que sim,  mas poucos sabem alguma coisa de fato, e menos ainda saberão explicar o que realmente é isto.
Desse modo, aqueles que se contentam em saber vagamente acerca dos fatos. Essa é uma posição extremamente perigosa. A ignorância deliberada, gerada no conforto enganoso da comodidade resultará prejudicial a qualquer que se entregar aos seus braços e adormecer ao som do seu acalanto. Nicodemos resolveu sair do conforto questionável. Descobriu que o homem refinado que era, com toda a sua formação, religiosa, moral e intelectual, precisava dar lugar a um novo homem. Ele tinha que lançar fora a capa da religião, as máscaras da tradição e toda a hipocrisia que envolvia as convenções sociais e que o haviam engessado dentro de uma mentalidade que, apesar das aparências de piedade, o colocavam na direção errada. Nicodemos descobriu que estava na contramão.
Não tenha vergonha de admitir que tem dúvidas de seus conceitos… Procure Jesus. Se não tiver coragem de associar-se a Ele no clarão do dia, busque-o mesmo que seja na calada da noite… Uma revelação poderosa destruirá conceitos enganosos e revelará o risco imenso que voce pode estar correndo ao trafegar na contramão.

A Reforma precisa de Reforma

 

 

 

 

 

A Reforma precisa de Reforma

Por Luiz Leite

No último dia 31 de outubro a Reforma Protestante comemorou 493 anos. Aqui nos EUA onde me encontro no momento comemora-se na  mesma data o Dia das Bruxas. Parece que a nação tida como o maior pais evangélico do mundo está confusa com respeito ao legado recebido dos seus fundadores. O Halloween, celebrado por milhões, é quem parece dar o tom do cotidiano durante todo o mes de outubro. A América já não é mais a mesma. Isto testemunha os próprios americanos. As balizas sólidas do legado cristão evangélico parecem estar ruindo.

Dos postulados da Reforma já não se fala tanto… Milhares de milhares de denominações com múltiplas confissões teológicas disputam espaço e interesse no coração dos cidadãos americanos e imigrantes oriundos de todos os cantos do mundo… Centenas de programas de televisão oferecem um “cardápio” variado de opções, como se oferecesse versões diferenciadas de um mesmo produto. Evangelho light, diet, concentrado, com sabores de todo tipo, ao gosto do cliente. O lema de Voetius “Ecclesia semper reformanda est” que estabelece o compromisso de uma igreja que deve estar se reformando continuamente parece ter caído no esquecimento. A igreja segue se contextualizando sim, mas de um modo que a coloca na contra mão do apelo de Paulo à igreja de Roma. Ao invés de repudiar os trejeitos do mundo, a igreja vai cada dia mais se conformando com o presente século, tomando sua forma.

Ao me passarem a palavra numa igreja onde estava ministrando nessa data, tive vontade de fazer menção da memória que tal dia representa para nós, das 95 teses de Lutero fixadas na porta da capela de Wittemberg em 1517, dos pilares da Reforma, mas logo desisti pois não tinha direção para aquela mudança de curso.  Tive uma impressão triste a respeito da igreja na America, igreja essa que um dia produziu vultos como Jonathan Edwards, Charles Finney e D. L. Moody, e que hoje é mais conhecida por encantadores midiáticos, super stars da religião.

Já não é a primeira vez que venho pregar aqui e sinto esse desconforto. Triste é saber que exportam esse modelo de “evangelho” para o mundo e que o Brasil é um dos seus mais ávidos consumidores. Precisamos de uma nova reforma. Precisamos de novos Savonarolas, Erasmos, Luteros, Calvinos e Zwinglios. A reforma precisa de reforma! Urgente! Aqui, aí, por todo lado!

Precisamos de Erasmos?

Precisamos de Erasmos?
Por Luiz Leite

Texto publicado na coluna Pastora da Revista Eclesia

Desidério Erasmo (1467-1536) conhecido como Erasmo de Roterdam, nasceu em Roterdam, na Holanda. Foi provavelmente um dos mais eruditos dentre aqueles que confrontaram as incongruências da religião cristã ocidental. A pena de Erasmo não poupou a Igreja, o clero, as imagens, a idolatria de seu tempo. Sua sátira é extremamente ácida, e provoca tanto o riso nos irreverentes, como a ira naqueles que são alvo da trama lamentável. As observações de Erasmo nos remetem a uma pergunta: Os cristãos devem criticar os abusos e desvios observáveis em seu contexto?

Erasmo viveu durante um período em que a Igreja estava chafurdada em um mar de escândalos, abusos e desmandos. Para um observador capaz como ele não era difícil perceber a real situação por trás de toda aquela liturgia cheia de pompa e circunstância.  O que Erasmo viu, muitos outros viram, mas, por medo ou conveniência preferiram omitir-se. A Igreja de então, desfrutando de um poder político imenso, se impunha através da manipulação. Assim pouquíssimos ousavam fazer públicas suas opiniões. Erasmo, entretanto, vai desafiar o sistema. Talvez, pelo fato de ter sido filho bastardo de um padre, reuniu os ingredientes necessários para desenvolver uma índole rebelde. Carregava um conflito interno suficientemente inflamável e em adição a isto tinha acesso a informação “privilegiada” direta dos bastidores eclesiásticos.

Tornou-se sacerdote católico mas parece que jamais sentiu-se exatamente à vontade no hábito. Não levava jeito para a contemplação passiva dos fatos; Ícone máximo do humanismo, contestaria como ninguém os desacertos da igreja pavimentando o caminho para a reforma protestante. Muito embora jamais tenha se desvinculado da Igreja Romana, como fez Lutero, seu contemporâneo, Erasmo incomodou suficientemente; Na verdade, tentou permanecer neutro na grande controvérsia luterana, mas a igreja o pressionou e não o deixou permanecer em cima do muro. A mensagem que lhe passaram foi: “Enquanto ele se recusar a escrever contra Lutero, nós o consideraremos um luterano.”

Apesar de ter causado enorme transtorno aos “sucessores de Pedro”, parece que sua situação não chegou às raias da ameaça de morte como foi o caso de Lutero.  Sua crítica à igreja de Roma foi curiosamente tolerada. Já em 1502, teve a coragem de publicar o “Manual do Cristão Militante”, onde protesta contra o cristianismo protocolar oferecido pela velha e viciada igreja. O livro faz grande sucesso por toda a Europa e soa como um toque de despertar das consciências com respeito ao cristianismo autêntico. Diz ele: “Consideremos por um momento a questão do batismo. Realmente pensas que a cerimônia em si faz de ti um cristão? Se tua mente preocupa-se com assuntos mundanos, serás um cristão na superfície, mas interiormente és o mais pagão dos pagãos. (…) Não há vícios mais perigosos do que aqueles que carregam a aparência da virtude. (…) A caridade não consiste em muitas visitas à igreja, em prostrações diante de estátuas de santos, no ato de acender velas ou na repetição de um determinado número de preces. Deus não tem necessidade dessas coisas.”
 
Erasmo está denunciando a inconsistência de uma religiosidade morta e sem equivalência com a essência da mensagem evangélica. Inconformado com tamanhos desmandos e sem conseguir se enxergar como parte efetiva daquela instituição que orgulhosamente posava como representante máxima do Cristo na Terra, Erasmo começa a dar sinais em seus escritos de que a leitura que fazia do ensino de Jesus era diametralmente oposta àquela que faziam os seus superiores.

Torna-se temido em toda a Europa pelo dom devastador que tinha de ridicularizar aquilo que era digno de desprezo. As crenças idólatras difundidas pela igreja Romana, com seu culto aos santos, são violentamente atacadas em “Sobre a Ingestão de Peixes”, uma de suas mais provocantes obras. Esse diálogo curioso e improvável entre um açougueiro e um pescador, denuncia em tom jocoso a idolatria e o desvio da fé cristocêntrica. Ao remover o Cristo do centro, a igreja perdeu-se em um mar de superstições e práticas mais devidas ao paganismo do que ao legado dos apóstolos.

Apesar, entretanto, da sua fúria com as letras, Erasmo cria numa atitude gentil para implantar as mudanças na igreja, razão porque acabou afastando-se de Lutero; Esse afastamento se deu, em parte por causa da pressão de papas e reis, mas também em função da repulsa que sentia pela dureza e veemência com que aquele conduzia a sua reforma. Revela o seu caráter pacífico em A Guerra. Diz: “Aos cristãos não fica bem pelejar senão o mais galhardo dos combates – ou seja, contra os inimigos abom

ináveis da Igreja, contra a ânsia de riqueza, contra a cólera, contra a ambição, contra o medo da morte. São estes os nossos filisteus, os nossos nabucodonosores, estes os moabitas e amonitas contra os quais nos devemos incessantemente arrojar…”

A serenidade de Erasmo em contraposição à agressividade de Lutero, entretanto, era apenas relativa. Para muitos era, “uma espécie de João Batista e Judas Iscariotes em um, a glória e a vergonha do sacerdócio. (…) Seus ideais reformadores eram baseados em uma cristandade não dogmática, um cristianismo enfraquecido exatamente porque não tinha Cristo em seu mais profundo nível.“  Seus críticos o comparariam mais tarde a Voltaire, dizendo que até no rosto se parecia com o célebre francês, sendo tão venenoso quanto aquele.Homens como Erasmo nascem para incomodar o status quo. São responsáveis pelas revisões que depuram o texto histórico; são o megafone que sintetiza e amplifica o clamor por reformas. Enquanto alguns se esforçam para dar perpetuidade à velha e bolorenta ordem, esses incovenientes contestadores se levantam para abrir portas e janelas, convidando a luz para

entrar. Nesses dias quando estamos completando 493 anos da Reforma Protestante, perplexos diante de tanta distorção doutrinária,eu me pergunto se não precisamos de Erasmos?

Culto ao Horror

Culto ao Horror

Por Luiz Leite

A temperatura caiu bastante aqui em Massachusetts nos últimos dias. O outono com seu hálito fresco prenuncia o frio que vem por aí. A beleza efêmera desta estação do ano – um dos encantos do hemisfério norte – vai definhando depressa. As árvores, até a pouco revestidas de uma roupagem deslumbrante, aos poucos vão sendo desnudadas pelo vento que sopra alvoroçando suas belas e coloridas cabeleiras.

As folhas secas que acumulam-se em montes na beira das estradas vão revelando um cenário completamente avesso ao que há pouco se via. Na medida em que o mês de outubro se escoa uma grande sensação começa a se fazer sentir por toda a Ámerica. As casas comecam a ser decoradas para a celebração do halloween, um dos festejos populares mais queridos. A programação na TV é saturada com filmes de terror e os já fascinados por esse tipo de estória entopem-se de horror e encharcam-se de sangue virtual.

Nao é completamente errado se afirmar que boa parte dos americanos tenha fascinação por esse gênero. Qualquer observador externo poderia concluir que o que se tem aqui é um verdadeiro culto ao horror. O que assusta é que o público jovem é o que mais consome os produtos desta indústria. O culto ao horror não é, todavia, meramente, uma brincadeira como algumas das manifestações folclóricas que se observa em todas as culturas. Estatísticas (inclusive dados do FBI) revelam que o número de pessoas desaparecidas aumentam significativamente entre os 15 dias que antecedem o 31 de Outubro e os outros 15 posteriores ao dia da bruxas.

Suspeita-se que esses “desaparecimentos” tenham relação direta com a data. Estudiosos do assunto afirmam tacitamente que os satanistas sacrificam vidas humanas em seus rituais, coisa que para muitos não passa de ficção. Tais coisas acontecem na vida real? O que é ficção e o que é realidade? Por quê a indústria americana do cinema explora tanto o gênero do terror? Qual a razão da fixação pelo bizarro? Essa paixão lúgubre por temas afins poderia explicar parte da psicopatia americana e sua incrível usina de “serial killers”?

É simplesmente a arte imitando a vida? Os filmes são produzidos baseando-se em eventos macabros ocorridos nas noites escuras apontadas para os rituais de culto ao espíritos malignos? Ou será que a vida imita a arte, ou seja, pessoas já devoradas pela gangrena psiquica e espiritual da vioência e frustração, tendo cedido suas mentes e almas como depósitos de lixo à esse gênero de literatura ou cinema, acabam sendo influnciadas e perpetram os atos que vão retroalimentar a mídia e inspirar diretores a produzire mais e mais obras dessa “arte” asquerosa? Fica a pergunta.