Crônica do Ano que Passou

Crônica do ano que passou

Por Luiz Leite

Escrever uma crônica do ano que passou é como rascunhar uma crônica de todos os anos que passaram e daqueles que ainda virão. Salomão sabia disso. Escrevendo o seu estupendo e provocante Eclesiastes diz: “O que foi é que há de ser e o que se fez isto se tornará a fazer, nada pois há novo debaixo do sol.”

Vivemos dias conturbados, diria tanto o homem comum como os cônsules nos dias agitados em que a 13ª legião de César cruzou o Rubicão e marchou sobre as terras da Itália. Mas a mesma coisa seria dita por cidadãos de eras passadas e séculos porvir. Há muito barulho, muitos rumores no ar. Vivemos dias conturbados – conclui pasmada cada geração. Quem disser o contrário será duramente resistido. Quando o otimista Leibniz disse que vivemos no melhor dos mundos possíveis, atraiu o sarcasmo do cínico Voltaire que, usando o terremoto que destruiu Lisboa em 1755 como argumento, criticou severamente o crente Leibniz.

Crises de todas as ordens sacodem a ordem social a cada ano, séculos a fio. Disputas intestinas na política, desvarios na condução da economia,  colapsos institucionais, desastres ambientais sacodem o mundo e alimentam a mídia a cada dia. O mundo parece estar à beira de um precipício. Em meio à tormenta, uma boataria desencontrada insufla nas massas um sentimento de suspense ainda maior, em virtude da falta de certeza em relação às informações veiculadas. Mais uma vez estamos às voltas com o fim do mundo!

Enquanto isso, no planalto central do Brasil a sucessão ininterrupta de CPIs tece o enredo de uma novela de péssima qualidade. Nada mais sem graça do que um roteiro com final previsível. A troca frequente e frenética de farpas e acusações, sempre e eternamente despachadas como intriga da oposição, parece nunca conduzir a qualquer efeito. Cortinas de fumaça são criadas para encobrir os desmandos e desvios de meliantes sofisticados. Empertigados dentro de seus ternos bem cortados pelas melhores e mais caras grifes, uma afronta à nação, permanecem administrando suas carreiras sem maiores desconfortos.

Os escândalos políticos continuam viscejando como sempre. Em países como EUA ou China muitos dos figurões da vida pública nacional estariam presos ou mortos! Pois muitos protagonistas de maracutaias homéricas permanecem, ainda que afastados de seus cargos por improbidade, influenciando e traficando influência nos palácios de Brasília. Sempre e eternamente repetem o mesmo refrão: Inocente! Na maioria das vezes devem sim, mas batem pé e, ofendendo a opinião pública, dizem para si mesmos entre dentes: “Devo e não pago; nego enquanto puder!”

O próprio governo se encarrega de blindar seus expoentes, mesmo sabendo dos seus desvios. Ainda que, cínicos, afirmem nada saber, sabemos bem que sabiam de tudo! O último popular e celebrado governante que tivemos tornou-se notável pela capacidade que tinha de acobertar os crimes de seus correligionários delinquentes que, alegando perseguição, sempre mostram-se tranquilos ante as acusações, seguros que estão da impunidade. Poderia ser  dado aqui um rosário imenso de nomes e eventos que não resultaram em absolutamente nada.

Desespera deitar o olhar sobre o cenário e concluir que uma crônica do ano que passou servirá para descrever esse ano e todos os anos que virão, bastando apenas mudar as datas.

Religião e Ética

moneychurch

Religião e Ética

Por Luiz Leite

Texto publicado pela revista Eclésia, edição de Outubro 2009


Religião e ética deveriam caminhar juntas como “unha e carne”, inseparáveis, pois o discurso desta utiliza-se dos postulados daquela, numa espécie de apelo à consciência dos homens a que se comportem de maneira ideal. O termo “ética,” em sua base etimológica, partindo do grego ethos, significa costume, hábito, ou ainda, uso, regra. Não foram, todavia, os gregos que inventaram a ética. Todas as civilizações têm um código ético que compila as regras de conduta pelas quais seus membros devem se orientar.

Muito embora a ética tenha suas origens mais remotas na própria religião, há uma forma de relativismo que afirma que a ética não é um ramo da teologia, e que não existe necessariamente tal coisa como conduta ideal que se aplique a todos. Para esta escola, “dois pesos e duas medidas” é uma idéia perfeitamente aceitável. Quando tratamos do relativismo na ética, pensamos, em termos práticos, nos liberais, e mais, nos libertinos. Repreensíveis? Talvez nem tanto quanto o rigorismo ético religioso que, com suas normas estreitas, tantas vezes descamba para uma práxis que destoa escandalosamente do próprio discurso despachado com veemência dos seus púlpitos.

Reza o ditado popular que “o hábito faz o monge.” Os paramentos revestem o homem de uma misteriosa aura de poder, e este exerce sobre os outros certa respeitabilidade que tende a colocar-se acima de qualquer suspeita. As vestes e títulos proporcionam oportunidades sedutoras ao homem de religião. Ao vadiar por este terreno perigoso, muitos têm sucumbido nas lamas fétidas de charcos terríveis, tendo suas almas aprisionadas em cadeias inescapáveis.

A religião sempre envolveu negócios. São negócios do “outro mundo”. Desde tempos imemoriais sacerdotes mancomunados com reis dividiram entre si o espólio das almas. A instituição religiosa, seja igreja, mesquita ou sinagoga, sempre flertou com o Estado. Poder religioso e político operam de forma simbiótica através da história das sociedades. Esta é um lição básica em qualquer curso de sociologia. O sacrobusiness pode até ser aqui apenas como neologismo, o conceito, entretanto, é mais velho do que a Serra da Mantiqueira.

Foi veiculado de forma ostensiva há alguns dias a estratégia utilizada por uma grande organização religiosa para movimentar as cifras bilionárias advindas das contribuições dos seus fiéis. As transações evidenciam, segundo investigação do Ministério Público, as maquinações de uma organização criminosa, e não de uma instituição religiosa, isto porque uma organização que sustenta um discurso com as matizes pesadas da retidão deveria, supostamente, ter suas contas tão transparentes quanto sugere o sermão.

Vivemos um tempo de crise em todas as instâncias. Um taxista amigo meu dia desses me falava da máfia que controla o seu segmento em Belo Horizonte. Tudo devidamente amparado pelos homens de títulos e togas, naturalmente. Sem a canetada dos tais, aprendi com meu amigo taxista, a coreografia complexa da corrupção não seria o espetáculo que é! Muito se tem falado da crise mundial que precipitou o mundo inteiro num pesadelo de medo e incertezas, como se tal coisa fosse uma novidade histórica. Pois o mundo não está em crise. Sempre esteve. A crise não é de agora. Iniciou-se no Éden, há muito, muito tempo atrás. Foi lá que os vermes começaram a decompor a ética que hoje, mais que nunca, carcomida e combalida, cambaleia, com passos trôpegos, escondendo sob a indumentária vistosa as carnes roídas pelos gusanos.

Que ninguém se iluda com o discurso sempre eleitoreiro daqueles que estão no poder e que anunciam que já estamos saindo da crise, expressando o desejo óbvio de administrar a situação em proveito próprio e permanecer ali, de preferência para sempre. Estamos chafurdados numa crise que tem precedentes imemoriais. Não foi precipitada pela ganância desmesurada e o apetite adoecido do sistema financeiro americano ou europeu. Vem, desde há muito, se alastrando como lepra por todos os quadrantes da vida social. Há cerca de três milênios atrás ouviu-se um grito lancinante ante a corrupção generalizada que ia apodrecendo as bases da sociedade judaica. O salmista angustiado exclamou: “Socorro, SENHOR! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens.” (Sl 12.1)

Já não há esperança; já não dispomos de recursos para debelar a sanha da malignidade que se instalou e se espalhou pelo coração humano como metástase. Não, não sou um existencialista pessimista movido pelo desencanto. Tenho, contudo, que discordar de Leibniz que, não sei exatamente em que mundo vivia, afirmou que vivemos no “melhor dos mundos.” Talvez romântico demais, talvez tomado por uma paixão arrebatadora, disse a frase tão frequentemente contestada na história do pensamento. Não podia estar no melhor do seu juízo.

Mentiras, mentiras, mentiras nos palácios de Brasília, nos púlpitos das catedrais, nos auditórios dos hipnotizadores profissionais que entretêm e narcotizam as massas ignaras, que providenciam “pão e circo” para tornar a vida da plebe mais sentida e menos refletida. Resta o pasmo do salmista acima mencionado que, diante da crise nos seus dias pergunta alarmado: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? (Sl 11.3) Parece que os justos pouco ou nada poderão fazer, mas as rédeas da história estão nas mãos Daquele que se assenta no trono cujas bases são justiça e verdade. Ainda que pareça que tudo esteja perdido, a verdade ainda está de pé. Lembro-me das palavras de G. K. Chesterton: “Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue em pé.”

O Senhor da história não está indiferente ao quadro de acinte e insulto à ética. O poeta sagrado parece ter chegado à mesma conclusão ao escrever: O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens. O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. (Sl 11.4-6)

Cabeças vão rolar!