A Caverna De Platão

Caro leitor, segue a continuação do livro inédito aqui publicado em trechos. A Pedagogia do Deserto vai nos levar a descobertas surpreendentes. Boa leitura!

 

A PEDAGOGIA DO DESERTO

Capítulo I (c)

 

A VIDA NO MUNDO

 

O surpreendente filósofo grego Platão (428/348 a.C.) há muito já desconfiava da capacidade da razão para explicar o altamente complexo sistema de coisas ao nosso redor. Suspeitando das verdades superficiais, aquilo que se vê, chegou à conclusão que a percepção dos sentidos é enganosa. O método empírico, que se orienta basicamente pelas informações colhidas pela experiência através dos sentidos, não nos conta a estória toda. Na verdade nos ludibria, deixando-nos vendidos a uma doce, porém, tola ilusão.

Além do véu – a metáfora da caverna

Para explicar e fundamentar suas idéias quanto à ilusão em que vivem aqueles que se norteiam pelos sentidos, criou a metáfora da caverna. Nessa parábola conta-nos acerca de um grupo de homens que viviam aprisionados dentro de uma caverna. Acorrentados, tudo o que podiam ver era a face de uma rocha desnuda sobre a qual as chamas de uma fogueira projetava suas imagens. Assim transcorre a conversa de onde procede a famosa parabola, conforme registrado em seu livro A República:

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco – Muito mais verdadeiras.

Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco – Com toda a certeza.

Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco – Concordo.

Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco – Por certo que sim.

Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco – Sem nenhuma dúvida. (Platão. A República. Livro VII)

 

Por muitos anos estudaram aquelas sombras, escreveram tratados sobre as imagens, desenvolveram filosofias, teologias e todo um corpo de “conhecimentos” daquela que era a sua realidade. Um dia, entretanto, um deles sendo liberto dos grilhões que o prendiam e levado para fora, deparou-se, pasmo, com uma realidade ate entao impensada. Ao chegar à porta da caverna deparou-se com a luz resplandecente do sol.  Com a visão ofuscada nada podia ver de forma clara, cegado pelo clarão, até que, passado algum tempo pôde por fim começar a apreciar aquele cenário incrivelmente belo. Ficou encantado. Mal podia acreditar no que via!

Podemos tecer conjecturas acerca do seu retorno à caverna para compartilhar com os amigos sua grandiosa descoberta da verdade. Imaginemos se, ao chegar ao interior da caverna começasse a falar com grande entusiasmo aos amigos acerca do que havia encontrado. Diz para os amigos que eles estavam enganados com respeito às coisas e que tudo aquilo que tinham aprendido não correspondia à verdade, não passando de sombras de uma realidade outra. Os amigos certamente ficariam indignados, se recusando a abrir mão do conhecimento acumulado em anos de “estudos” e mais, ameaçariam até mesmo matá-lo por tamanhas heresias. Como ele ousava questionar de forma tão irreverente uma tradição milenar e dizer que todos estavam errados?

Com essa metáfora Platão deseja ilustrar aquela que seria a base da sua teoria. A “realidade”, e por extensão todo o conhecimento que obtemos através dos sentidos, não passa de sombras projetadas sobre a face da rocha em nossa caverna. A verdade última acerca dos fatos não se encontra aqui, mas em outra esfera. Precisamos sair da caverna.

 A mística platônica

O que é a verdade? perguntou Pilatos a Jesus quando este lhe disse que havia vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Como se chega à verdade? É possível conhecê-la? Várias teorias tem sido desenvolvidas para responder a tais perguntas. Dentre as teorias da verdade, a teoria mística é possivelmente a mais antiga. Desde há muito o homem tem se visto limitado em sua capacidade de apreensão da verdade a partir das próprias observações e elucubrações da razão. Por causa dessa desalentadora restrição sempre acaba voltando para a crença religiosa.

Diferentemente de seu ilustre discípulo Aristóteles, que cria ser possível provar a existência de Deus a partir da razão, e que atribuía grandíssima importância à empeiria (experiência através do uso dos sentidos), Platão era um místico (do grego mustikós – referente aos mistérios). O místico é aquele que sustenta crença em coisas sobrenaturais sem a necessidade de uma base racional. Cria que existe uma realidade espiritual que não pode ser captada pelos sentidos, nem apreendida pela razão.

Sua gnosiologia (teoria de como obtemos o conhecimento e como podemos averiguar a veracidade deste) consistia de uma “escada” onde os degraus mais elementares são aqueles da percepção sensorial e da razão. Em seu esquema, os sentidos nos provêem de um conhecimento rudimentar; a razão, por sua vez nos proporciona acesso a um nível mais seguro da verdade, mas ainda assim não consegue abarcar todas as coisas. Ainda que absolutamente útil, a razão, cria Platão, limita-se a processar o conhecimento de uma esfera inferior. Ajuda, mas não responde a tudo.

Num terceiro degrau, a intuição nos daria condições de compreender coisas que nem os sentidos nem a razão poderiam explicar, e, num quarto degrau estaria o misticismo, como recurso mais elevado. A mística nos tomaria pela mão, e através da revelação, uma espécie de conhecimento trazido por uma entidade espiritual, deuses ou espíritos; sem qualquer relação com o tipo de conhecimento natural a que estamos acostumados, a mística nos daria acesso à uma realidade imaterial inacessível por outros meios.

Para Platão, era imensa e tola a pretensão humana de decifrar a vida a partir dos parcos recursos de que os sentidos e a razão dispõem. Por valorizar a intuição e a mística Platão acabou tornando-se atraente para os pensadores cristãos. Estes, ao encontrarem em sua filosofia tantos pontos de contato com sua doutrina, acabaram por absorvê-lo em sua teologia. Seria cristianizado…

Ps.: Se voce está gostando do texto, recomende aos amigos enquanto estamos apenas no começo da viagem. Até mais!

A Pedagogia do Deserto

 

Caro leitor, o texto que segue é continuação do primeiro capítulo do livro que está sendo postado em trechos aqui neste site. A viagem  que começa aqui vai nos levar a descobertas riquíssimas.- Boa viagem! Boa leitura!

 

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (b)

                        

A VIDA NO MUNDO

 

“Três paixões simples, mas devastadoramente poderosas, governam minha vida: um ardente desejo de amor, a busca do saber e uma insuportável piedade diante do sofrimento dos homens.                               

(Bertrand Russell – autobiografia)

 

Vida, substantivo abstrato

Se o mundo enquanto matéria é substantivo concreto, a vida por sua vez é substantivo abstrato. Descreve-se o mundo e seu arranjo de modo objetivo. Quer algo mais elegante e preciso do que uma molécula de água? A vida, entretanto, não se submete a uma descrição simples. Ou podemos por acaso explicar o mistério da vida, mesmo que seja na escala microscópica de uma ameba? Revestida de mistérios, a vida confunde nossos sentidos, deixando nossas faculdades intelectivas sem recursos para avançar, sem respostas óbvias.

Onde, exatamente, se esconde o princípio motor que anima os seres vivos? Dissecamos o sapo e compreendemos como ele se move ao estudar sua estrutura; desvendamos sua anatomia e a maravilhosa e complexa rede muscular que o capacita a dar pulos, mas foge-nos completamente à compreensão, o quê ou quem faz o sapo pular! Aristóteles quis saber sobre o princípio motor que coloca o mundo em movimento. Teorizou. Chegou a dar número aos motores que movem a magnífica engrenagem. Esses motores, imaginou, seriam deus, ou deuses. A obsessão de Aristóteles em desvendar o mundo não foi suficiente para facilitar o acesso ao mistério da vida.

Podemos saber do mundo e somos livres para esmiuçá-lo, mas a vida, ainda que se manifeste de forma grandiloquente por todos os lados, nos deixa perplexos. Simplesmente não se comporta segundo a elegância dos números, da lógica, antes, arisca, escapa-nos ao controle, fugidia, misteriosa, sempre. Podemos pegar, apalpar e definir objetivamente o substantivo concreto. Sabemos bem o que é um livro, uma cadeira; podemos descrevê-los com segurança e afirmar categoricamente o que são. Embaraçamo-nos, todavia, diante dos substantivos abstratos. Esta classe de substantivos nos deixa suficientemente inseguros em nosso esforço de explicar algo que não podemos tocar, manipular, quantificar.

 

De tartarugas à lebres

As verdades apreendidas pela inteligência consciente são rasas. A certeza dos números, das formulações da ciência, das argumentações lógicas, dos silogismos, perfazem apenas o beabá do grande mistério. A grande teoria da relatividade de Einstein, ainda hoje assombrosa, nos ajudou a formar as primeiras sílabas em nosso processo de alfabetização. Já conseguimos balbuciar, orgulhosos, os sons mais elementares das palavrinhas dissílabas do compõem o soberbo livro do universo. Arranhamos com essa e outras “grandes” conquistas da ciência, a superfície do grande mistério que concerne ao mundo. É tão assustador quanto estimulante saber que aquilo que logramos conhecer até hoje é tão minúsculo e o que ainda está por descobrir é tão largo e profundo!

Até a revolução industrial a humanidade caminhou a passo de tartaruga; as mudanças aconteciam de forma lenta. Após a referida revolução, um crescimento tecnológico estupendo vem se avolumando de maneira surpreendente. De tartaruga para lebre, sofremos um impulso incrível. Simplesmente não mais conseguimos acompanhar a velocidade com que as coisas estão mudando. Beiramos àquilo que alguns gostam de chamar de crescimento exponencial, mas, mais surpresas nos aguardam, dizem os cientistas, vem aí o famoso salto quântico, que vai nos levar ainda mais além em termos tecnológicos.

O mundo vai sendo sistematicamente esmiuçado, mas o código que dá acesso ao conhecimento dos mistérios da vida permanece, todavia, inviolado. A inteligência racional consegue compreender o mundo em muitos aspectos, reordenar a matéria e manipulá-la, todavia, o que se percebe por meio dessa inteligência é apenas fenômeno, rascunhos pálidos de uma realidade que parece estar além daquilo que nossos sentidos limitados possam captar…

Até o próximo trecho!

Ps.: Se voce leu e deseja continuar a leitura deste livro aqui publicado em pequenos trechos por favor deixe um comentário simples tipo: gostei… será suficiente para o meu experimento.

 

 

Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente – A PEDAGOGIA DO DESERTO –  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.

Provocação

Por Luiz Leite

A interpretação errada de uma situação comumente reconhecida como “provocação” pode trazer muito desconforto e nenhum benefício. É curioso como cedemos fácil e rápido  a essas provocações e como, na maioria das vezes, reagimos de modo equivocado. A provocação em si não é grande coisa. O problema reside na forma como respondemos a ela. Se não fôssemos tão emocionais lidaríamos melhor com tais situações. 

Sermos emocionais não é um problema pois a emoção é um elemento fundamental na composição da nossa humanidade; o problema é sermos “tão” emocionais… Como esse adverbiozinho faz diferença!  Ser humano significa, entre outras coisas, ter a capacidade de emocionar-se, mas quando a dose da emoção ultrapassa os níveis considerados normais, o equilíbrio estará comprometido.

Sem equilíbrio, essa sintonia fina necessária para mediar as relações sempre complexas do mundo intra e interpessoal,  o sono vira insônia. O caos intaura-se. A resposta a qualquer provocação deve ser conduzida de modo inteligente. Como sal, a emoção deve ser usada sob medida e com o cuidado de um chef, de outro modo põe-se a perder a iguaria.

Ser emocional é tão natural em mim como produzir insulina. Entretanto,  o excesso ou a falta, em ambos os casos, vai resultar em algum dano. Responder com emoção às provocações “faz parte”; empregar muita emoção, todavia, certamente causará distúrbios. Controlar esse fluxo de emoções é tarefa difícil pra maioria das pessoas.

Os Estóicos valorizavam muito a moderação, o equilíbrio, e conduziam a emoção na corda curta, mas de um modo extremado, a ponto de o termo estóico tornar-se sinônimo de insensível. Cultivavam a apathea,  valorizavam a indiferença a tudo… Pois como se percebe através da doutrina dessa escola filosófica do terceiro século antes de Cristo, o homem antigo já havia descoberto que quem não controla suas emoções concede às circunstâncias o direito de determinar como ele ou ela vai se comportar.

Nisto acertou em cheio o velho Zenão de Cítio (334-262 a.C.), pai da escola filosófica referida. Concordando com ele, pelo menos neste ponto sou estóico.