Quem tem medo do pós-moderno?

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Quem tem medo do pós-moderno?

Por Luiz Leite

(Artigo publicado na Revista Eclésia – Ed. Nov/2008)

(Artigo publicado na Revista Linha Aberta Ed. Jan/2009 (Premiada como a melhor publicação em portugues nos EUA)


O pós-modernismo tem gerado certo desconforto e até mesmo reações exageradas por parte de alguns líderes religiosos. Desnecessário. Outros movimentos na história do pensamento ocidental causaram o mesmo frisson. Da forma como vieram se foram.

Quando os ventos da Renascença começaram a soprar através da Europa por volta do século XV prometendo alvoroço, os crentes entraram em pânico. O medo dos religiosos de então era justificável. Havia uma clara movimentação de forças se articulando e conspirando para remover Deus do seu trono.

Cansada do controle implacável exercido pela igreja romana, bem como do modelo teocrático caduco que tivera hegemonia através de toda a idade média, a sociedade ocidental trabalhava de forma frenética para romper com aquele paradigma asfixiante. Era chegada a hora e a vez do homem assumir o papel de protagonista da sua própria saga.

Pois exatamente em meio ao furor dos ventos procelosos da Renascença é que surge um cataclisma chamado Lutero. A fé cristã, ao invés de ser abalroada pela locomotiva do Renascimento, sofre uma profunda convulsão causada pelo abalo da Reforma Protestante e reinventa-se de uma maneira que até hoje não assimilamos inteiramente.

Ao invés de perder-se na caducidade de estruturas envelhecidas, e findar seus dias enterrada sob as ruínas de basílicas imponentes mas já sem significância, a fé cristã bateu asas e reorganizou-se da forma mais pujante que se tem notícia.

Anos mais tarde novamente a cristandade viu-se ameaçada com o surgimento do pensamento iluminista que, muito mais agressivo que a Renascença que operava de forma velada, trombeteia de maneira irreverente o seu mote “ecrazes l’infame” (esmagai o infame) com referência aos sacerdotes religiosos. Agora era chegado o fim do mundo! Nunca antes na história tinha se ouvido tamanho ultraje, pensavam apavorados os religiosos.

Os pensadores de então por sua vez estavam convencidos de que a humanidade iria emergir de séculos de obscurantismo e ignorância para uma era iluminada pela razão, pela ciência e pelo respeito à humanidade. A eclosão do Iluminismo viria alavancar o surgimento de uma era de esclarecimento intelectual que poria fim à visão teocentrista providenciada pelo cristianismo.

Curiosamente o iluminismo conheceu o seu “fim” no mesmo século que suas idéias ganharam força. Da mesma forma como seduziram e ganharam a admiração de milhões de simpatizantes, também perderam a adesão de milhões e com isso a força inicial. Por volta do final do século XVIII, o século das luzes começou a perder o brilho. Em 1789, a violência e a barbaridade dos métodos aplicados na revolução francesa, que incorporava inúmeras idéias iluministas, puseram à prova a validade daqueles postulados e apavoraram de morte os seus românticos defensores. Afinal o homem iluminista não estava se provando nada melhor do que os bárbaros que não tinham tido acesso à iluminação proporcionada pela tão celebrada revolução do pensamento humano. O homem estava se mostrando um péssimo condutor do seu próprio destino! Não seria bom chamar Deus de volta?

Pois mais uma vez um fato inusitado aconteceria. O século seguinte, o século XIX, veio a se tornar o século por excelência da explosão evangelística no mundo. Conhecido como o século de ouro das missões protestantes, a igreja expandiu-se formidavelmente por todos os continentes. O século que parecia estar marcado para conhecer a frieza e o encolhimento da igreja, contaminado pelo racionalismo iluminista, ao contrário do que se esperava assistiu pasmo a uma demonstração grandiosa de vigor missionário.

Agora, mais uma vez, a cristandade se vê as voltas com um novo momento onde seus postulados são postos em cheque. Eu particularmente observo as pressões do pós-moderno sobre as nossas estruturas de pensar e fazer teológico e eclesiológico de maneira positiva e até mesmo espero o seu desfecho com certa ansiedade. Se a Renascença com seus trejeitos pagãos da Grécia clássica nos conduziu à Reforma, se o Iluminismo com suas ameaças de extinção da fé nos levou a um reavivamento missionário sem precedentes, o que nos proporcionará o pós-modernismo? Aguardemos. Certamente o Senhor da história e da Igreja tem uma carta na manga que nos deixará boquiabertos. Como diria um corinho pentecostal antigo, “Ninguém detém, é obra santa…” Que venha pois o tal pós-modernismo!


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Quando a gente ama é claro que a gente cuida…

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Quando a gente ama é claro que a gente cuida…

Por Luiz Leite


Quem ama cuida. É claro. Tudo aquilo que temos e não cuidamos está fadado a perder-se, a deteriorar-se. Por falta de cuidado perde-se o emprego, a família, a saúde, a vida… por falta de manutenção caem as pontes, enferrujam-se as armas, travam-se as engrenagens… Jardins e pomares que antes eram nosso deleite são logo tomados pelas ervas daninhas que brotam como praga, e sem convite invadem os aposentos mais íntimos da nossa existência.

É preciso cuidado. Cuidado com o amigo, com o conjuge, com a profissão, com a fé… Sem a devida atenção todas essas dádivas podem nos ser subtraídas sem que percebamos; E pior, só serão devidamente sentidas exatamente quando nos faltarem.

O cuidado demanda trabalho, tempo, esforço. O poeta acertou ao dizer que “quando a gente ama é claro que a gente cuida…”

A Bíblia confere ao homem a responsabilidade de gerência do planeta. Esse, entretanto, tem se provado um tremendo porcalhão, síndico inepto e irresponsável. O texto diz: “Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o cultivar e guardar.” (Gn 2.15) Ao invés de cuidar do seu jardim, o homem tem destruído, por descaso e negligência, a sua própria morada.

Tudo aquilo que temos e não cuidamos está fadado a perder-se. Ver a Terra agonizando diante dos nossos olhos nesses dias de sobressalto é a mais triste e contundente confirmação dessa verdade.


O Canto da Lavadeira

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O Canto da Lavadeira

Por Luiz Leite

O meu nascimento, essa feliz ocorrência que trouxe motivo de alegria para o mundo, se deu na internacional megalópole de Santo Antonio de Barcelona (nos cafundós da Bahia), que ainda não tive a honra de conhecer e que, para o meu constrangimento, nem mesmo figura no mapa do Brasil… Pois a família mudou-se da ilustre Catalunha baiana para um temido lugarejo chamado “Jaquetô” quando eu contava apenas uns poucos meses.

Jaquetô seria a forma popular de dizer: “Já aquietou-se”. O nome aludia à violência da poeirenta cidadezinha que mais parecia ter saído de um daqueles deliciosos western de Sergio Leone. Segundo se contava, em Jaquetô matava-se sempre alguém de manhã e amarrava-se outro para matar à tarde… Pois eu sobrevivi a essa sanguinolência.

O lugarejo ainda hoje exerce profundo encanto sobre mim. É de lá que guardo as memórias de um tempo mágico e repleto de imagens da infância ideal, ainda que vivida na mais profunda simplicidade. Farta de aventuras e de tudo aquilo que o imaginário infantil possa desejar, havia rios, selvas, bruxos, cavalos, gado, caçadas, fantasmas e tudo o mais…

Em Jaquetô não havia rádio, TV, cinema, nem livros em casa, mas havia D. Carmelita, um acervo inesgotável de casos, estórias fantásticas que dispensavam as outras mídias, que na verdade nem conhecíamos. Quem precisa de televisão ou rádio quando se pode sentar à roda da fogueira, comer “batata doce assada” e ouvir, completamente arrebatado, as estórias de D. Carmelita?

Quando a vida melhorou um pouco, papai, Seu Vicente, comprou um rádio que nos deixou fascinados. Só ele, entretanto, podia mexer naquele estranho e curioso “caixote”. A noite, quando chegava do trabalho, podíamos ouvir com ele, completamente impressionados pelos efeitos especiais, a famosa rádio novela “Jerônimo, o herói do sertão”. Era o único entretenimento virtual que conhecíamos. Todo o resto era real, muito real…

Ouvir a D. Carmelita cantando por toda a infância despertou meu gosto pela música e passei a apreciar as notas ainda antes de conhecê-las. Com um timbre agradabilíssimo e voz afinada como de alguém que recebeu educação musical, D. Carmelita enchia a casa da melhor música que existia. Aprendi a gostar de todos os gêneros porque D. Carmelita é o ecletismo em pessoa. Marcha, Maxixe, Bolero, Samba, Bossa, Baião… Com ela é que aprendi a amar a vida e expressar isso através da música.

O primeiro registro da mensagem do Evangelho ficou gravado em minha memória através da música. Sem ter tido qualquer contato com o Evangelho até a idade de 20 anos, eu carregava uma sementinha que havia sido plantada em meu coração pela voz de alguma lavadeira que de costume lavava roupas no rio onde eu também de costume ia me refrescar nas tardes incrivelmente quentes daquele lugar que para muitos era perigoso mas que para mim mais parecia um lugar de delícias.

A maravilhosamente bela canção que a lavadeira cantava com sentimento tão intenso e que apelava para algo dentro em mim que eu não sabia explicar dizia:
“Da minha pátria estou bem longe, cansado estou estou; Eu tenho de Jesus saudade, quando será que eu vou…”
A minha memória musical gravou para sempre aqueles belos versos e nunca mais me esqueci. De vez em quando sentia aquela estranha saudade de que falava a letra da música. Cantava de forma pungente, mesmo sem saber a que exatamente se referiam aquelas estrofes…

A lavadeira estava em missão… Possivelmente nem mesmo sabia. Simplesmente adorava ao Criador fazendo do seu ofício humilde um sacro ofício. Deus trabalha de forma curiosa. Eu fui atingido pela adoração dela e meu destino foi dramaticamente alterado…

Somente muitos anos mais tarde ao me converter a Jesus é que fui ouvir novamente aquela bela canção e relacionar o sentimento antigo com a minha nova identidade. Eu era cidadão daquela mesma pátria de que a canção falava mas não sabia… Sei agora. Hoje ainda, com D. Carmelita e Seu Vicente, também convertidos ao Evangelho, de hinário na mão em nossos cultos domésticos sempre que vou visitá-los, cantamos a Linda Pátria e inevitavelmente retorno ao Jaquetô que ainda vive em minhas memórias, não como um lugar de morte, mas como um dos lugares mais encantadores da terra.

Essa Metamorfose Ambulante…

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Essa Metamorfose Ambulante…

Pr Luiz Leite

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Assim falou Raul Seixas, ou melhor, assim cantava o roqueiro baiano com sua voz esganiçada e peculiar irreverência. Pois eu também cantarolei a metamorfose, toquei nos bares, nas rodinhas de amigos… Os tempos eram outros.

Quando o Raul pregava a Metamorfose Ambulante lá pros idos dos anos 70, muitos religiosos torciam o nariz em desaprovação às insinuações daquele magricela que incitava a juventude à rebeldia com suas letras “perigosas.”

Como o Raul era um cara que lia, não duvidaria que ele tivesse se inspirado num dos lemas da Igreja Reformada (Ecclesia Reformata Et Semper Reformanda Est) para compor sua famosa melopéia. É óbvio que sua cantilena não preconiza aquilo que encerra o lema da Reforma, mas bem poderia ser que tenha tirado do nosso lema a idéia central para a mesma.

A Igreja não pode ser essa metamorfose ambulante, como sugere o poeta em sua irresponsabilidade despojada, mas tampouco deveria ser uma entidade sufocante, sisuda e tacanha até… Ecclesia Reformata Et Semper Reformanda Est. “Igreja reformada, sempre se reformando.” Ainda que a frase sugira um constante renovação como forma de se evitar o marasmo asfixiante das estruturas eclesiais rígidas, as verdades centrais e postulados fundamentais da Reforma permanecem inegociáveis:

Sola Gratia – A salvação vem por meio da graça mediante a fé. É favor de Deus.

Sola Fide – A justificação (ser declarado justo por Deus) só é possível através da fé em Jesus e sua obra.

Sola Scriptura – A Bíblia é a única fonte da doutrina cristã. É a única regra de fé e prática.

Solus Christus – Cristo é o único mediador entre Deus e os homens. Não pode haver outro(a)!

Soli Deo Gloria – Só Deus é digno de glória e mais ninguém!

Com o passar dos séculos todas as coisas podem mudar. Não precisamos nos aferrar a modelos caducos, a formas inadequadas para os tempos que exigem mudanças… Modelos podem ser substituídos. Métodos podem ser descartados. Não precisamos brigar pela forma pois ela não é eterna; Lutemos apenas pela essência e, se necessário, morramos para mantê-la…

No dia 31 de Outubro a Reforma completou 491 anos.

Soli Deo Gloria!