O Destino em Palavras


O Destino em Palavras

Por Luiz Leite

“Estás enredado pelos teus lábios, estás preso pelas palavras da tua boca.” As palavras do sábio Salomão, registradas no livro bíblico de provérbios, apesar de terem sido escritas há mais de 1000 anos, resumem uma verdade que os milênios não podem modificar. Uma pessoa pode se complicar, e muito, de acordo com aquilo que fala. Temos visto no Brasil dos últimos dias pessoas importantes sendo julgadas e sentenciadas à prisão por seus ilícitos. O método infalível e mais ostensivamente utilizado pela polícia federal tem sido o famoso “grampo”, ou escuta telefônica. Os réus têm tido suas vidas complicadas, deixando os esforços da defesa praticamente insustentáveis. Estão enredados pelos seus lábios, presos pelas palavras de suas bocas.

A verdade referida é uma régua que mede a todos de modo equânime. Ninguém pode escapar ao seu rigor. Pode-se tentar escamotear, como fazem nossos agentes públicos que, ad nauseam, a cada oportunidade, desavergonhadamente, negam ciência dos crimes à eles atribuídos. Podem se vitimizar, alegar lisura, invocar os acertos para acobertar os erros, só não podem escapar daquilo que suas próprias boca falaram. As palavras prendem. A justiça talvez fosse mais branda se houvesse da parte de certos réus a honestidade e a coragem de um mea culpa. Esta confissão franca, entretanto, demanda um exame de consciência que nem todos estão dispostos a enfrentar pois sabem que no tribunal de suas próprias consciências seriam condenados.

As vidas de centenas de políticos estão muito complicadas porque tiveram suas falas gravadas e sem saber produziram provas robustas contra eles mesmos. Estão enredados pelos lábios, presos pelas palavras de suas próprias bocas. O caso dos grampos telefônicos é um alerta para todos nós. Sempre há alguém nos observando, ou até mesmo nos bisbilhotando, buscando em nós um deslize para nos enviar para o limbo. Quando mais tarde estivermos no terreno do conflito podem recorrer ao que falamos e usar nossas próprias palavras como munição. Guardar nossa boca diante dos outros revela estratégia, mas não necessariamente virtude ou sabedoria. Mesmo que não haja alguém nos observando, gravando nossa fala, ainda assim precisamos nos guardar e entender que nossas palavras produzirão seus frutos. Elas nunca voltam vazias. Funcionam como sementes e produzem segundo sua espécie. Para bem ou para mal as palavras criam a nossa realidade, governam nosso mundo físico, psicológico, mental, emocional, espiritual…

Há pessoas que usam sua boca de modo desastrado, falando o que querem, sem reflexão. Poucos desconfiam que o destino está sendo tecido pelas palavras de suas bocas. O mesmo Salomão diz em Provérbios 18.7 que “a boca do tolo é a sua própria destruição, e os seus lábios um laço para a sua alma”. Dezenas de horas de gravação de conversas de certos atores políticos revelam os personagens em seus bastidores. O teor das conversas e a qualidade dos argumentos, demonstram o modo como funcionam. Suas próprias bocas se incumbem de remover-lhes as máscaras. Estão presos pelas palavras de suas bocas!

Vamos, entretanto, deixar por um pouco o poder de destruição das palavras e vamos voltar nossos olhos para aquilo que podem produzir de bom. Nossas palavras podem produzir aquilo que quisermos. Somos seres de linguagem. Fomos estruturados linguisticamente. Fomos desenhados para funcionar de modo linguístico. É no continente da linguagem que se encontram nossos maiores problemas bem como nossas maiores delícias. As palavras evocam os mais variados sentimentos e provocam as mais diversas emoções. Estão sempre carregadas por uma espécie de energia ainda não compreendida, que acende ou apaga a luz, motivando ou desmotivando, alegrando ou entristecendo, criando ou destruindo…. Já que a palavra tem todo esse poder, precisamos leva-la a serio! Se, conforme o texto de Salomão, as palavras da minha boca podem me prender, o oposto também será verdadeiro. Do mesmo modo que prendem, também libertam… Podem destruir, mas também podem construir… Podem adoecer, mas também podem curar…

Há aqueles que sabem do impacto que suas palavras podem produzir e usam suas línguas com sabedoria. Em Provérbios 10.11 o sábio diz que “a boca do justo é fonte de vida”. Estes sabem que tudo está relacionado a palavras. Sabem que elas regulam a temperatura do nosso mundo e providenciam o estofo para a criação da realidade que nos envolve. Sabem que cada um se farta do fruto de sua própria boca. O sábio em seu livro maravilhoso chega ao ponto de dizer que a vida e a morte estão no poder da língua! (Prov 18.21) e diz que quem bem a utiliza comerá o seu fruto! Uau!! Por essas, e por muitas outras razões que não cabem aqui neste breve texto, use bem a sua boca, escolha as melhores palavras, use-as com graça e sabedoria, construa os melhores e mais elegantes argumentos… Pode esperar uma temporada de frutos doces. A vida, sem dúvida, vai lhe sorrir! 

 

 

 

 

 

 

Nó na Língua

nó lingua

Nó na Língua

Por Luiz Leite


Spectaculum facti summus Deo, angelis et hominibus.” (Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há de julgar!)

Pe. Antonio Vieira


Voe mihi, quia tacui.” (Ai de mim, que não disse o que convinha!)

Dê um nó na sua língua. Só o desate quando tiver completo controle sobre ela! Não permita que ela se movimente por aí, livre e sem censura. Faça como Davi que disse: ” Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua; guardarei a minha boca com uma mordaça, enquanto o ímpio estiver diante de mim.” (Sl 39.1)

A Bíblia alerta para o cuidado com as palavras e o uso que se faz delas… Muito já tem sido ensinado e escrito acerca do tema. Simplesmente não damos o valor devido. Negligenciamos. Pecamos contra os outros, pecamos contra Deus, e por fim prejudicamos nossa própria alma.

As palavras modelam nosso destino, configurando ou desconfigurando-o.  Pelo menos 90% das batalhas são causadas por elas, mas as machucaduras sofridas nestes conflitos tambem são curadas por elas. Como setas de fogo, quando atingem o alvo, produzem dor lancinante. Desequilibram, enlouquecem…

Afortunadamente, palavras não são veículos de destruição apenas. São também condutoras de medicina, bálsamo potente, com poderes miraculosos de cicatrizar as mais crônicas das mazelas. Devem ser utilizadas com sobriedade. Vêm de Ana, mãe de Samuel um dos conselhos mais sóbrios a respeito do cuidado que se deve ter para com o seu uso. Diz a mãe do profeta: “Não faleis mais palavras tão altivas, nem saia da vossa boca a arrogância; porque o Senhor é o Deus da sabedoria, e por ele são pesadas as ações.” (I Sm 2.3)

Guarde bem os seus lábios e mova-se com prudência. Escolha com paciência os caminhos da língua, trabalhe melhor o seu fraseado, seja um artesão na construção mágica das letrinhas, pois estas, tais quais tijolos, vão construir o mundo ao seu redor. Se sua morada será um lugar aprazível ou uma masmorra lúgubre, dependerá em muito desta fantástica matéria prima que é a palavra falada!

O velho e sábio Salomão disse que as palavras devem ser escolhidas e sintetizou o conceito numa de suas mais deliciosas pérolas:  “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” O Apóstolo Paulo, fazendo coro com o rei de Israel, adverte:“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas sim, unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem.”

Se refletíssemos um pouco mais prolongadamente sobre este conselho certamente nos portaríamos com mais cuidado  e teríamos menos problemas para resolver no campo delicado dos relacionamentos. O jogo da vida é muito sutil e cheio de armadilhas. As palavras podem tanto nos ajudar, se escolhidas cuidadosamente, como podem nos atrapalhar, se proferidas atabalhoadamente. “Falar sem refletir é estultície e vergonha.”