Schopenhauer é um chato!

Schopenhauer é um chato!

Por Luiz Leite

Schopenhauer é um chato! Um chato de galochas! Esta é a minha opinião a respeito desse pessimista inveterado que não vê graça em nada… Os machistas encontram no pensamento dele acerca da mulher um dos mais finos banquetes. Em uma de suas frases célebres, para horror das feministas, diz: “A mulher é um ser de cabelos longos e idéias curtas”.

O desencanto de Schopenhauer, para quem viver é sofrer, possivelmente decorre de uma experiência traumática de infância. Sua referência de figura materna foi possivelmente das piores que se pode ter. Criticava duramente o casamento, razão porque nunca se casou. Viveu e morreu sozinho.

Como diz Will Durant em sua História da Filosofia, referindo-se a Schopenhauer, é realmente difícil para alguém que não conheceu a presença de um pai nem o amor de uma mãe ser uma pessoa feliz e otimista. Essa foi a realidade experimentada pelo mais pessimista dos filósofos. A vida, de certa forma, tirou-lhe a mais bendita das venturas, qual seja, ser nutrido pela presença de um pai ou uma mãe de caráter sólido e de valores temperados. O pai morreu quando ainda era garoto, e a mãe o abortou de seu convívio. Passou cerca de quarenta anos sem falar com a mesma.

Ler Schopenhauer, entretanto, nem sempre é uma chatice. A sua visão crítica e desapaixonada do mundo revela o meu romantismo, às vezes tolo, às vezes ingênuo, e me força a revisitar conceitos, atuando como um contra-peso que acaba me conduzindo, mesmo a contra-gosto, a uma visão mais equilibrada da vida e de suas intrincadas engrenagens.

Geralmente julgamos como chatos aqueles que nos contrariam. Abominamos aqueles que tem a coragem de dizer aquilo que não queremos ouvir. Pois, incrível que pareça, esses tais tem um papel muito mais relevante na formação das nossas idéias, do que os lisonjeadores que não tem a coragem de nos contestar e nos fazer sentir desconfortáveis em nossas posições tantas vezes questionáveis.

Schopenhauer é um chato, é verdade, mas me ajuda muito mais do que um Paulo Coelho ou quaisquer outros que não se intrometem no meu mundo de idéias e nem ousam confrontar meus postulados. Se não houver quem nos provoque, colocando nossas idéias em cheque, pode ser que passemos nossas vidas inteiras defendendo premissas mal alinhavadas e sem consistência real. É caso, portanto, de se agradecer por esse e por outros chatos, que em sua chatice, são muito mais interessantes que muita gente insossa por aí!

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