Cristianismo e Clichês

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Cristianismo e Clichês

Por Luiz Leite

Texto publicado na coluna LEITURA do Portal Guiame

Todo comunicador que se preza deveria se esforçar para escapar ao uso daquelas construções desgastadas pela repetição excessiva às quais denominamos “lugar-comum”. Ainda que se tenha toda a diligência, não é incomum “baixarmos a guarda” e vermos nosso texto visitado por um dos famosos e indesejados jargões.

Nem mesmo o badalado Manual de Redação e Estilo (Estado de São Paulo), de Eduardo Martins, recomendado por gigantes da literatura como Raquel de Queiroz e Ligia Fagundes Teles, consegue se desvencilhar dos indesejáveis penetras. Dando instruções para a elaboração de textos simples e elegantes, Eduardo Martins, alerta acerca do problema e da necessidade de evitar tais recursos dizendo: “O lugar-comum é a frase (…). Deve ser evitado a todo custo...”. Ora, este é um dos mais famosos clichês que deveria ser evitado a todo custo.

O uso dos chavões é indesejado porque é recurso ineficaz quando se trata de transmitir verdade que necessita ser enfaticamente gravada na mente consciente do leitor. Este artifício dilui conceitos e rouba-lhes o vigor, tornando uma idéia excelente em assunto banal, desinteressante. É difícil, entretanto, não cair em tal arapuca.

Este tipo de atalho conceitual aponta para um caminho mais fácil na comunicação do pensamento, mas de forma alguma apresenta a melhor alternativa no trabalho às vezes complexo de transmitir idéias. O comunicador, com exceção daqueles que atuam na área do nonsense, deve fugir desse engodo, em respeito àqueles a quem se dirige, afinal, ninguém merece, né?

Cristianismo e clichê são duas coisas que não combinam. Quando o clichê se infiltra no Cristianismo acaba por descaracterizá-lo; Quando, por outro lado, o Cristianismo penetra em uma vida marcada pelo clichê, a revoluciona! Não deveria haver coexistência pacífica entre os dois. Fato é, entretanto, que tornou-se bastante comum encontrar aqui e ali essa simbiose estranha e de extremo mal gosto.

Infelizmente, muitos que se dizem cristãos fazem de suas vidas um grande e desgastado clichê. Pois a proposta de Jesus, se bem compreendida, resgata o homem do lugar comum, para torná-lo um paradoxo, assim como o foi o seu próprio autor. A fé cristã é paradoxal, radical, e não admite lugar-comum. Tudo nela é extraordinário, surpreendente, desconcertante, ainda que por vezes se apresente revestida de uma simplicidade que confunde a sábios e entendidos. Cada página é de tirar o fôlego, de arrebatar a alma, de tirar o chão de sob os pés…

Encher o cristianismo de clichês é um desrespeito ao sangue e memória de Jesus e dos mártires que após ele se empenharam na defesa da fé. Os jargões da religião são os mantras, rezas, regras, imposições, rituais sem significância e equivalência com a vida; são as receitas mecânicas e as  fórmulas mágicas que apelam para o imaginário supersticioso e induzem a uma ilusão tola e a uma concepção equivocada da vida.  Por diluir a mais bela e potente mensagem nas águas fétidas da mesmice, da estagnação, da religiosidade morta, é que a fé cristã tem sido muitas vezes atacada.

O apóstolo Pedro recomenda os irmãos em sua primeira carta dizendo: “(…) estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (I Pe 3.15) Bom seria se ele tivesse acrescentado: “E por favor, evitem os clichês!”

Fome de Deus?

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Fome de Deus?

Por Luiz Leite

Fome de Deus? O que vem a ser isso? É uma espécie de fome diferente de tudo. Assim como a fome física gera uma sensação de vazio no estômago, a espiritual produz uma sensação de vazio na alma. Esse vazio existencial reclama por algo que as pessoas nem sempre sabem o que é. Sabem apenas que está lhes faltando algo.

Foi com referência a essa modalidade de fome que Jesus se apresentou como Pão. Ninguém jamais falou como ele. Seu discurso foi desconcertante no dia que disse aos seus ouvintes: “Eu sou o pão da vida”. Jesus conhecia a miséria espiritual na qual os homens se encontravam. Sabia que padeciam de uma fome imensa que perdurava por eras e resolveu endereçar a questão da maneira mais frontal possível. Vocês tem fome, e eu não apenas tenho o pão, eu sou o próprio pão de que vocês necessitam!

Convida os homens a comerem da sua “carne”, o pão do céu que dá vida aos homens! Não é necessário dizer que seus ouvintes ficaram não só atordoados com aquelas palavras, mas também escandalizados. Nenhum líder em Israel ou em qualquer outra parte do mundo jamais dissera tamanhas loucuras! Pois aquelas palavras não poderiam soar como outra coisa senão loucura.  O apóstolo João registra no capítulo seis de seu Evangelho como os judeus ficaram escandalizados com aquele discurso:

Então os judeus começaram a discutir exaltadamente entre si: “Como pode este homem nos oferecer a sua carne para comermos?” (Jo 6.52)

Para complicar ainda um pouco mais, após apresentar o seu corpo como pão para matar a fome do mundo, Jesus introduz também o seu sangue como bebida, dizendo que o seu sangue é verdadeira bebida (v.55). Sem precedentes era aquele discurso. Estava diante deles uma proposta que em tudo parecia proceder dos lábios de um lunático e não de um sábio. Naquele dia estabeleceu-se um grande muro entre os seguidores e os opositores de Jesus. Seus discípulos ficaram atordoados pelas palavras do mestre e comentaram entre si:

Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?” (v. 60). “…e muitos o abandonaram, e já não caminhavam com Ele” (Jo 6.66) .

Após aquele discurso impossível, desenharam-se as linhas que divisariam os homens em seu relacionamento com o Judeu “marginal”. Comer a carne do Cristo e beber seu sangue implicava um rompimento radical das amarras da tradição. Os seus seguidores seriam por muitos anos contados como marginais, como foi seu Mestre, até que o aparato estatal encontrasse um meio de tragar a nova fé e mobilizar o seu incrível poder de subverter a ordem.

trecho do livro “A Inteligência do Evangelho” pela Editora Naós

A Inteligência do Evangelho

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A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO

Por Luiz Leite


Este livro nasceu de um profundo desconforto que já há muito me acompanhava. Sempre desconfiei que estávamos perdendo alguma coisa na leitura que fazemos do Evangelho. A desconfiança se traduziu por uma certeza aterradora. Não apenas estávamos fazendo uma leitura equivocada, pior, estávamos distorcendo a grande mensagem… Segue um trecho de abertura do primeiro capítulo.

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Tanto desatino já foi cometido em nome de Deus que não é de admirar que um número cada vez maior de pessoas ao redor do globo mantenha sob suspeita o artigo da religião. Estaria Deus envolvido com tanto morticínio? Foi Ele quem avalizou as cruzadas? Endossou a inquisição? Chancelou a conquista das Américas e subsequente extermínio dos nativos americanos? De que lado ele esteve nos longos e intermináveis conflitos religiosos no Oriente Médio e Europa? Seria o Criador um senhor sanguinário e co-participante das disputas intestinas pelo poder político sob a batuta dos sacerdotes, ou tais ocorridos não passariam de manifestação sintomática das almas doentes dos homens?

Qualquer pessoa com um conhecimento razoável da história sabe bem que as cruzadas jamais foram avalizadas por Deus, como se ele houvesse conclamado os cristãos a uma guerra santa contra os muçulmanos para recapturar Jerusalém e a Terra dita santa. A primeira cruzada, lançada pelo papa Inocêncio II em 1095, foi movida por um espírito que de santo nada tinha! A finalidade não era nem um pouco piedosa.

Segundo Armstrong:

“Queria (o papa) que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder da Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastrófico do ponto de vista prático, estratégico e moral”. (3)

É sabido também que a inquisição espanhola jamais foi um ato de inspiração divina! Criada em 1483, a instituição da inquisição visava fins políticos e ideológicos e, ainda que analisada no seu contexto sócio-político encontrem-se explicações, o fato é que suas práticas e expedientes tinham mais a ver com os homens e seus demônios do que com Deus no seu trato com estes.

Os homens conseguem classificar as guerras em justas e injustas, sujas e limpas. Não importando qual seja a natureza da guerra, nem qual a nobreza do ofício, preces são elevadas aos céus, por proteção e favor. Nas competições, antes de entrar na arena, seja do futebol, do vôlei, do rodeio, do pugilismo, os oponentes invocam seus santos padroeiros, beijam suas medalhas, rezam o “pai-nosso”…

Cena pitoresca do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, nos revela o mais inaudito ato de devoção quando uma gangue de malfeitores reza com grande fervor antes de partir para mais uma de suas perigosas empresas. De mãos dadas, com os instrumentos da morte presos às cinturas, ou pendurados nos ombros, as vozes se unem num fervor próprio dos fiéis quando a prece sobe calorosa aos céus, “Pai nosso (…) venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade… e livra-nos do mal, amém…”

Quantos papas, padres e sacerdotes, católicos ou não, benzeram as armas e “abençoaram” reis e seus exércitos antes que estes partissem para os campos de batalha? “Nunc et in hora mortis nostrae. Amem.” Tão logo recitadas as últimas palavras do rosário, liberam-se os demônios para cumprirem o seu sombrio mister. O temível cavalo vermelho dos quatro flagelos do apocalipse partiu, muitas vezes, para a ceifa macabra da guerra, sob a bênção da religião!

“O maravilhoso dessa empresa infernal é que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o próximo”. (4)

Tito Lívio, historiador romano, nos conta em sua História Romana (XXIX, 27, 1-4) a prece de Cipião, o Africano, feita em sua nau capitânia, antes de partir da Sicília para atacar Cartago em 204 a.C.:

“Ó deuses e deusas que habitais os mares e as terras, eu vos suplico e vos rogo que tudo quanto tenha sido feito sob o meu comando (…) seja para o meu benefício e para o benefício do povo e da plebe de Roma (…) que vós os ampareis e os auxilieis; que permitais que estejam em segurança e que alcancem vitória sobre o inimigo; que os tragais de volta comigo em triunfo para os nossos lares, carregados de espólios e despojos; que nos concedais o poder de exercer vingança sobre nossos inimigos e adversários…” (5)

É certo que, assim como o grande general romano Cipião invocou o favor dos seus deuses e deusas antes de partir para a empresa funesta onde milhares seriam dizimados, as autoridades Cartaginesas também recorreram aos seus deuses com o fim de obter favor e assim destruírem o máximo possível de soldados romanos.

Estariam os deuses a serviço dos homens em tais empreitadas? É certo que não! Talvez seja mais certo que tais deuses não passem de demônios; demônios da ambição, da violência, da vingança… Tentando compreender a dinâmica do sentimento de vingança, esse combustível por excelência de todos os conflitos, em matéria sobre o tema, Thomaz Favaro sintetiza essa suspeição das religiões dizendo:

“Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião”. (6)

Tratando de um tema tão cortante como a vingança, esse sentimento destrutivo presente nas complexas elaborações da emoção humana, ao invés de recomendar a religião como mediatriz, Favaro alfineta:

“Como instituição a religião é má conselheira nesses casos”.(7)

De que religião estaria falando Favaro? A religião não deveria, supostamente, ser um agente responsável pela sublimação de tais sentimentos, abrandando o furor, a sanha assassina dos homens? As guerras religiosas através dos séculos apresentam um testemunho completamente inverso. O fanatismo religioso tem devorado as carnes de milhões numa espécie de tributo macabro a Hades, o senhor dos infernos na mitologia grega.

Escrevendo a respeito do assunto Voltaire disse:

“Quando uma vez o fanatismo tendo gangrenado um cérebro, a doença é quase incurável; (…) A religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.”(8)

Muito embora o termo fanatismo se aplique a qualquer espécie de paixão desmesurada, é nos domínios da religião que fez carreira e granjeou maior fama. A adesão cega e irrefletida à qualquer coisa, seja doutrina filosófica, política ou religiosa, conduzirá a extremos horripilantes. A história o atesta.

Por tão grandes incongruências o mundo pós-moderno, despreza a religião instituída e relativiza os valores absolutos que ela ensina. Já não há, conclui-se, nenhuma garantia que possa servir de lastro àquilo que pregam os líderes da religião. Qualquer observador honesto concluirá que tal desconfiança não é sem razão.

Por causa de tanto descalabro, o cristianismo autêntico foi sendo maculado e distorcido ao ponto de as sociedades mais esclarecidas não só passarem a desconfiar da validade dos postulados da religião, como também a atacá-los de uma maneira cada vez mais aberta, tão logo a Igreja Romana perdeu o monopólio que exercia sobre as almas através de toda a Idade Média. A partir de então ninguém seria poupado. Tanto a instituição desvirtuada quanto a espiritualidade verdadeira seriam pesadamente atacadas.

(…)

O livro prossegue numa reflexão estonteante mas absolutamente fecunda para, por fim, demonstrar a graça e beleza da proposta mais inteligente já feita à raça humana! Vale a pensa conferir.

O Czar, a Rússia e a Bíblia

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O Czar, a Rússia e a Bíblia

Por Luiz Leite

É curioso como todos conhecem a história da invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão em 1808; Fala-se de como o famoso “inverno” russo derrotou os franceses e os obrigou a baterem em retirada. O que as pessoas não sabem e os historiadores não contam é o que está por trás dos fatos.

Os relatos históricos não nos falam de como Alexandre I, angustiado em face a ameaça de invasão por um exército imbatível, se viu levado a buscar conselho e consolo em um amigo, príncipe, que havia se convertido ao Evangelho. O príncipe Galitzin, amigo de juventude do imperador, teve uma conversão que impressionou o Czar.

A guerra devastou a Rússia e as tropas da França chegaram aos portões da velha Moscou. Apesar da superioridade bélica francesa, o curso da guerra haveria de sofrer uma mudança dramática alguns anos mais tarde; Os agressores franceses foram sendo batidos em todas as frentes. Napoleão invadira a Rússia, como havia ameaçado, mas sofreria uma derrota estrondosa. Sua queda na Rússia deu provas de que a máquina de guerra francesa não era invencível como se imaginava.

Para Alexandre I, que conhecia o poder de fogo dos franceses e tinha visto como numa investida ousada, em pouco tempo, as tropas de Napoleão tinham empurrado suas defesas para o interior do país, aquilo só poderia ser a mão de Deus. Tornou-se, depois disso, fiel ao Evangelho e levava sempre consigo a Bíblia, a qual lia diariamente. Evangelizado por Galitzin voltou-se para Deus em seu desespero. Escreveu:

“Eu devorava a Bíblia, e suas palavras deram consolo ao meu coração. Na sua imensa graça, o nosso Senhor abriu meus olhos de modo que eu entendi o que li. Esta edificação, esta luz interior e muitas outras bênçãos tenho de agradecer à leitura das Sagradas Escrituras.”

O impensável anos antes aconteceria em 11 de setembro de 1805, quando os russos marcharam sobre uma França. De derrotados a vencedores, os russos se levantaram numa das maiores reviravoltas na história de todas as guerras.

Um dos gestos mais impressionantes dessa guerra, algo nunca antes visto pelos soldados russos, estava para acontecer após a invasão da França. O imperador, depois de passar em revista seus 150 mil homens, ajoelhou-se perante a tropa e deu graças a Deus pela vitória, tributando ao Senhor toda glória pela conquista.

A Rússia estava sendo visitada pela mais preciosa oportunidade. A sociedade bíblica russa, fundada em 1812 por iniciativa inglesa, teve apoio maciço do imperador. O príncipe Galitzin, amigo crente de Alexandre I, foi apontado como presidente da sociedade, mas a Igreja Ortodoxa Russa sentindo-se ameaçada moveu tal campanha contra a entidade protestante que o imperador não pode resistir e assim acabaram impedindo a distribuição das Escrituras no país.

Cerca de cem anos após fecharem as portas ao Evangelho, abriram os portões da nação para o Comunismo. Com os comunistas no poder a Bíblia foi banida e a fé cristã foi reprimida de maneira sistemática e o violenta, trazendo grande destruição ao povo russo. O desastre do Comunismo foi permissão de Deus. Deus é justo. Sempre. Se escavarmos as bases dos grandes desastres sempre encontraremos os vestígios da bondade divina e as marcas inconfundíveis da rebeldia humana.