Crônicas I

Nos porões da alma

Por Luiz C Leite

O sábado estava nublado, estranho, sombrio, como um daqueles estados de alma que se abatem sobre todos de quando em vez, gerando um silêncio , um ensimesmamento auto comiserativo, onde proliferam toda sorte de pensamentosinhos e emoçõesinhas rasteiras, daninhas, pessimistas, de todo desesperançadas.

O pobre travava uma batalha interior de proporções titânicas para não se deixar vencer por aquele clima de prostração que tentava lançar sobre ele seu manto lúgubre e envolvê-lo com seus tentáculos frios. Não é à toa, pensou ele, que muitos se entreguem aos cuidados do álcool e seus congêneres entorpecedores, os quais sufocam e suprimem a alma, bloqueando a articulação da razão produzindo aquela falsa sensação de alívio.

Há algum tempo vinha tentando aprender a lidar com situações como aquela mas nem sempre era fácil desvencilhar-se de si mesmo e das confusões internas que, como vulcões em erupção emitiam toda sorte de lava emocional, causando um imenso caos de poeira e escombros procedentes de estruturas que ruíam e rachavam e colapsavam no seu interior.

Era hora do almoço e, desde o lugar onde estava, podia ver, a alguns metros de distância, as manchetes e capas das revistas expostas na banca de jornal que ficava na calçada ao lado. Gostava de almoçar ali naquele pequeno restaurante, e, sempre que se assentava à mesinha que dava para a rua, costumava correr os olhos pelas capas das revistas enquanto comia; Esse hábito antigo, sempre censurado por sua mãe, nunca o abandonara. Almoçar sozinho sem alguma coisa para ler lhe era um suplício.

Naquele sábado entretanto, enquanto comia e passava os olhos pelas capas das revistas, foi tomado por um turbilhão de pensamentos não comuns e que não lhe aconteciam já há algum tempo. Tanta vaidade, tanta futilidade, tanta informação que deforma, desinforma…Sentiu vontade de sumir!

As pessoas têm vontade de desaparecer vez por outra. Isso acontece com todos e estava num daqueles dias. Não estava revoltado, não queria protestar contra nada, não queria confrontar ninguém, simplesmente estava cansado, entediado com a vida dos humanos, com os seus esqueminhas mesquinhos, com tanta tolice sem sentido. O certo é que não se encontrava agitado, exaltado, simplesmente como já disse, talvez apenas cansado. Momentos assim, pensou, talvez ajudassem a entender porque um poeta quer ir para “Pasárgada”, outro para “Maracangalha” e outro ainda diz querer ir “danado pra katende.”

O que desencadeou aquele desconforto todo foi a manchete de uma revista daquelas desenhadas especialmente para estimular ainda mais o apetite voraz daqueles que tem muita vontade de ficar ricos, ganhar dinheiro… A manchete lia “A lenda Rockfeller”, certamente referindo àquele que se tornou um dos maiores ícones do capitalismo mundial.

Ler aquela manchete desencadeou nele um mundo de questionamentos que o levaram a querer isolar-se num cantão qualquer, e viver sabe-se lá como ou do quê. Sabe aquela vontade de abandonar tudo e cair na estrada, escafeder-se, ir para um lugar distante e aí se quedar sem ter que atender as demandas fúteis de um mundo cada vez mais fútil…!”

Na verdade essas crises nos acometem quando, num lampejo de lucidez colocamos nossos valores e motivações à prova e descobrimos que carecem de lastro, de peso, de algo enfim que justifique que se continue vivendo no mesmo esquema, travando combates homéricos para realizar desejos e sonhos que fatalmente vão se provar nulos no final das contas. E não é de se apavorar que depois de uma vida de tanto correr, descubra-se que se correu tanto pra nada?

Muitos terminam sua carreira em grande frustração. Já ouvira isso de grandes nomes no mundo das artes, política e poder. Ah como desejou naquela hora ter a coragem de deixar tudo pra trás, “romper com o sistema” e partir. Lembrou-se dos anos confusos de uma adolescência distante quando o idealismo romântico e inconseqüente justificavam com argumentos rápidos sentimentos como este. Os tempos entretanto eram outros. Reconhecia no entanto que para se chegar a esse ponto um homem precisa de muitíssima determinação, coragem e também uma boa dose de loucura como aquela que moveu o cavalheiro tresloucado de Cervantes.

Curiosamente, a manchete da revista ao invés de instilar nele um maior interesse e apego à carreira e planos de uma vida materialmente bem sucedida, a sugestão, o rosto e o nome do ícone do mundo financeiro ocasionou-lhe um verdadeiro entojo. Quis correr na direção oposta ao que sugeria as capas das muitas revistas que apresentavam gente bonita, de plástica impecável e nadando no dinheiro.

Lembrou-se do personagem de Dostoiévsk em “Crime e Castigo”, Rashcolnikov; de como o jovem que já vinha mal intencionado tornara-se ainda mais afetado por suas más idéias ao ouvir numa taberna a conversa entre dois rapazes que comentavam a respeito da velhota a quem ele vinha sendo atormentado a assassinar.

O efeito da propaganda se deu ao contrário com ele. Se com o personagem de Dostoievski a sugestão vinda da conversa ouvida na taberna serviu para alavancar os seus planos sombrios, com ele o apelo vindo das revistas e manchetes operou o oposto. Sentiu um profundo vazio na alma, uma vontade estranha de chorar.

Pôs-se a pensar em si mesmo e sucumbiu diante dos questionamentos que se fez. Será que ele não estaria sendo levado pelo mesmo turbilhão que envolvia a tantos? será que ele não estava no fundo escravizado pelo mesmo esquema, pelo mesmo sistema que ele tanto combatia? Era óbvio que sim. Não havia como negar. Diante da sincera, ainda que rápida reflexão que fizera, pôde descobrir sem muito esforço que sua vida estava carecendo de conteúdos. “Ai como dói”! – pensou ele – seriamente chocado com o vislumbre da descoberta que lhe atingiu como um raio. Era como se tudo parasse, era como se pudesse tocar o silêncio que se fez dentro dele, tamanha a densidade, a gravidade do momento.

Ali, sozinho naquele sábado cinzento, a comida esfriou aos poucos no prato sobre a mesa, enquanto ele olhava absorto para as pessoas que passavam. Lembrou-se de Salomão, o sábio rei de Israel, e suspirou depois de balbuciar, “é verdade, tudo é vaidade, e correr atrás do vento. A conclusão alcançada depois de assentadas as emoções e alinhados os pensamentos, foi a de que investir no reino de Deus, era a única coisa que poderia fazer qualquer sentido duradouro nesta vida. Lembrou-se que investir no reino, ajuntar tesouros no céu, só pode ser possível através do serviço ao homem, seu semelhante.

Na medida que a Palavra de Deus foi sendo trazida à sua memória pelo Espírito de Deus, os tentáculos frios daquela opressão foram sendo removidos um após outro. A sua mente voltou a operar em linha com a mente de Cristo e ele pode então respirar aliviado por saber que em momentos como aquele ele poderia contar sempre com o parácleto, com o consolador, com aquele que o auxiliaria em toda e qualquer situação.

Ufa! Que batalha! Estava exausto! Uma vez recompostas as forças, colocou-se a pensar na tendência que muitas vezes temos de tratar como irrelevantes esses momentos na vida daqueles que nos acercam. Classificamos como coisa de somenos a situação que para nós pode sim não ter tanto peso, mas nos falta sensibilidade para entender que para a pessoa que se encontra em tal momento a situação pode ser um fardo insustentável. Que enorme e insensata falta de tato! Pediu a Deus sensibilidade e compreensão para servir de consolador para com aqueles que diariamente se perdem nos porões sombrios da alma. Levantou-se, pagou a conta e saiu…Agradeceu a Deus por providenciar a chave para que pudesse sair daquela masmorra existencial. Uma pequena nesga de azul se abriu por entre as nuvens escuras daquela tarde cinzenta, como que prenunciando que enquanto houvesse comunhão com o seu Deus, o céu jamais se fecharia sobre a sua cabeça.

Extraído de “Crônicas Diversas” de Luiz C Leite – Direitos Reservados

 

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