O Poderoso Magneto

O Poderoso Magneto

Por Luiz Leite

Nunca houve nem jamais haverá alguém que como Jesus exercesse tamanho fascínio sobre os homens. Milhares já disseram isto de uma maneira ou de outra; muitíssimos já discorreram em inumeráveis volumes sobre o “magnetismo” do carpinteiro de Nazaré, e como Ele influenciou e continua influenciando as vidas de milhões de pessoas, não só neste século, mas ao longo dos últimos dois mil anos.

Tantos tem sido os livros escritos por fascinados admiradores que não é de “admirar” que leitores aos milhares se transformem também em admiradores de Jesus. Que se tem escrito muito a respeito de Jesus, portanto, já é fato sabido, mas o “que” se tem escrito a respeito de Jesus é o que intriga. Como no universo da pintura Jesus já foi retratado com as mais diversas faces, assim também no mundo da literatura. Milhares de obras tem sido produzidas oferecendo explicações sobre a pessoa e doutrina do Cristo. Quem é o Jesus que tem sido apresentado nesses muitíssimos livros, e que tipo de doutrina tem sido ensinada por esses milhares de insones escritores que se lançam à delicada tarefa de explicar Jesus? Que tipo de impressão esses escritos têm deixado naqueles que os lêem?

Os escritores detêm, em regra, uma das mais poderosas ferramentas já produzidas pelo homem, qual seja, a habilidade literária; É sempre um perigo provocar o homem que manipula as letras… O escrevinhador que um dia utilizou-se de pedaços pontiagudos de madeira para escrever suas curiosas letrinhas cuneiformes em tabuinhas de argila na antiga Babilônia, depois de ossos molhados em tinta vegetal em papiros no antigo Egito, evoluiu para as penas de ganso, penas de metal, até inventar a moderníssima caneta esferográfica. Agora, numa versão ultra avançada o homem das letras está de posse de um teclado e um processador de textos de última geração. Sem dúvida o homem do teclado está mais perigoso do que nunca.

Os livros tem norteado e nutrido a alma humana desde que o homem, emergindo da escuridão intelectual, concebeu, não com pouco esforço, a escrita. Através de livros escritos em tabletes de argila ou pedra, pergaminhos ou papiros, os escritores vêm iluminando o entendimento de milhões,  proporcionando entretenimento ou um lugar para o qual fugir, mesmo que apenas na fantasia. Dessa maneira, tanto ontem, como hoje, o escrito constitui um dos elementos que mais exercem influência na determinação da maneira de como concebemos o mundo que nos cerca.

Como formador de opinião, o escritor, teoricamente, deveria ter compromisso com a mensagem que propõe veicular. Emerge aqui mais uma vez o confronto do mensageiro com a mensagem. A realidade no entanto, é que a arte se transformou num comércio que movimenta cifras exorbitantes, atraindo assim muitíssimos mercenários que não são de maneira alguma comprometidos com a arte que produzem; é até comum entre os artistas dos mais diversos campos, a busca por um tema popular com o qual trabalhar, pois usualmente tudo o que é popular torna-se passível de ser explorado comercialmente.

No que diz respeito a Jesus muitos tem sido os “mercenários” que lançam-se ao empreendimento de pintá-lo, esculpi-lo, cantá-lo, sem maior envolvimento com a pessoa do Cristo e os ideais que Ele inspira. Jesus é eternamente atual e o que seja em termos da arte, relacionado a Ele, exerce um apelo imediato sobre as pessoas. É óbvio que esse é um fator que define a escolha de um tema quando o assunto é vendas!

Particularmente no caso do escritor como formador de opinião, que tipo de impressão poderíamos esperar ver formada na mente dos leitores, quando o autor que lêem não tem qualquer compromisso com a pessoa de Jesus. Como já vimos, o mensageiro que não encarna a mensagem causa uma impressão pífia, superficial, em seus interlocutores, os quais transmitirão por sua vez, uma versão menos profunda ainda, e assim por diante.

As escrituras sagradas  causam profundo impacto sobre aqueles que as lêem porque os homens que compuseram  os seus 66 livros, eram homens totalmente comprometidos com aquilo que escreveram. Muitos viveram e morreram pela mensagem que pregaram e fizeram imprimir nos rolos sagrados. Estes homens se transformaram nos maiores formadores de opinião de que se tem notícia. Milhares de anos se passaram e os nomes desse escritores continuam sendo lembrados e mencionados com reverência. Eles encarnaram a mensagem que pregaram ao ponto de chegarem a ser confundidos com ela!

Nos dias atuais dispomos, tratando em específico da fé cristã, de um número grandioso de livros que supõem, propõem e impõem esta ou aquela compreensão das escrituras. Essa imensa difusão de obras no entanto tem ocasionado, por falta de comprometimento sério dos seus autores, muita distorção e desvio da verdade revelada; daí tanta opinião desequilibrada, incorreta, distorcida; daí tanta  manipulação de opinião para o benefício de interesses variados.

As chamadas seitas “cristãs” dispõem de livros supondo, propondo e impondo as mais obscuras doutrinas a respeito de Jesus e sua palavra. Não há nada que se possa fazer para impedir essa profusão de livros, músicas, filmes e mais acerca do Cristo. Como um poderoso magneto, Ele continuará atraindo os homens a sí. Ele mesmo disse: “E eu, quando for levantado da terra (Crucificado), atrairei a todos a mim mesmo.” (Jo 12.32) Seu nome continuará sendo citado, sua imagem (imaginária) sendo pintada e palavras, muitas palavras, atribuídas a Ele até que venha o dia em que, segundo o seu Evangelho, pessoalmente pedirá conta aos homens. É aguardar para ver. Aqueles que, fazendo pilhéria, quiserem pagar para ver, que paguem…

Teologia a La Carte

Teologia a La Carte

Por Luiz Leite

***Artigo publicado na revista Eclésia (Coluna Pastoral) edição Julho/10
Baruch de Espinosa (1632-1677) foi, sem dúvida, um dos maiores racionalistas de que se tem notícia. Refugiado nos recessos da razão, ousou, com frieza inexprimível, confrontar a cosmogonia milenar e intocada do judaísmo bem como sua concepção monoteísta de Deus. Obstinado, não temeu ferir a memória de seus ancestrais nem ultrajar a opinião de seus contemporâneos. Escandalizou o mundo ao desvincular-se violentamente do legado judaico-cristão e esculpir um monumento a uma divindade estranha.

Espinosa até hoje assusta. Sua capacidade de raciocínio era tão potente que acabou se convencendo de que tudo poderia ser compreendido e explicado. Até mesmo Deus. Para ele Deus é absolutamente simples! É lógico que o deus de Espinosa não é o Deus transcendente da fé pregada pelos profetas de seu povo. Seu deus é de artesania própria. Sim, ele o gerou nas oficinas do próprio pensamento e o confinou nas cadeias de uma lógica esmagadora. Não pode escapar de lá.

O termo “deus” figura na obra de Espinosa de uma maneira quase que onipresente. Chegou-se a dizer que era um homem “intoxicado por deus” (Novallis) de tanta referência que faz em seus escritos à grande raiz metafísica necessária para dar sentido ao todo. Espinosa, entretanto, ainda que excomungado pela comunidade judaica de Amsterdam quando da difusão de suas idéias, não era tecnicamente ateu. Cria em um deus, mas um deus diferente daquele ensinado nas sinagogas. Tentaram negociar com ele, oferecendo saídas para o constrangimento. Não aceitou, não se retratou, não voltou atrás. Sustentou suas convicções até o fim e não recuou diante do “tribunal da inquisição judaica” de Amsterdam, que só não o mandou para a fogueira por não ter poderes para tanto. Contentaram-se, por fim, em sepultá-lo em vida como revela a seguir o documento de sua excomunhão:

“Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch deEspinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados… Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento”.

À comunidade judaica foi recomendado:

“Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão”.

Estava amaldiçoado para sempre o apóstata que ousou afirmar que Deus era uma substância ilimitada e que expressava-se através de uma infinidade de formas. Em outras palavras, Deus está na natureza e a natureza em Deus, donde se conclui que Deus é a natureza e a natureza é Deus. Não existe diferenciação possível entre uma coisa e outra. Esta é a síntese do famoso panteísmo espinosano. O que chama atenção no deus espinosano é que o mesmo não sente alegrias, nem tristezas, muito menos presta-se aos jogos próprios das paixões humanas. Impassível, é também incontrolável. Não se pode manipular um deus que não sente! O deus de Espinosa, diferentemente das divindades gregas, de caráter mundano e perverso, simplesmente não oferece margem para qualquer possibilidade de relacionamento pessoal com o ser humano. Ora, passionais como são os humanos, ninguém se interessaria por um deus  insensível. Aos humanos só interesas um deus apaixonado. Tudo nos humanos grita. Essa sensualidade exige resposta, reação, gratificação, e quando não encontra eco naquele sobre quem lança o seu apelo, frustra-se e busca recurso em outra fonte de onde tirar socorro, ainda que apenas na fantasia.

Nestes tempos de teologia confusa e hedonismo acentuado onde a religião mostra-se cada vez mais antropocêntrica, e o deus que apregoa tão antropomorfizado, é de se perguntar se não estamos chegando exatamente ao extremo oposto do pensamento do “herege” de quem tratamos aqui. Em Espinosa Deus não sente nada… na teologia estranha dos nossos dias deus sente demais! A “teologia” espinosana desconhece um deus que negocia com o homem; a teologia utilitária por sua vez ensina que deus está pronto a responder com “chuvas de bênção” aqueles que lançarem suas “sementes” nos campos dos “evangelistas”, sempre ávidos por mais e mais dinheiro… Engodados pela ilusão vendida pelos encantadores midiáticos, milhões de pessoas se dispõem a contribuir; para a alegria dos vendilhões, para cada manipulador compulsivo existem 10 manipulados passivos.

Espinosa incorreu em heresia ao esculpir seu conceito de “Deus sive Natura”; Não utilizou-se, entretanto, de Deus, para promover seu projeto pessoal de poder como fazem tantos nesses dias. O apóstata de Amsterdam talvez tenha causado menos dano do que os sacerdotes desse evangelicalismo sem centro na cruz. Se aquele ousou introduzir um deus diferente daquele que seus contemporâneos conheciam, esses ousam descaracterizar o Eterno, vestindo-o segundo a imagem e semelhança do homem, com todas as antropopatias que cabem. O cultivo das virtudes, a piedade, a resignação ante as provocações que agridem, a negação das demandas do ego desequilibrado, são coisas para os monges do deserto e não para os crentes dessa era. Confundidos em sua conceituação equivocada de Deus, lançam mão dessa espécie de teologia “a la carte” sempre que enfrentam o desafio de enfrentar as exigências de suas almas enfermas.  Assim vão construindo as torres de uma catedral erigida para o culto de si mesmos. O Soli Deo Gloria é coisa dos antigos.

Solidão Improvável – diários

 

Solidão Improvável – diários

Por Luiz Leite

A solidão completa não é algo fácil de se alcançar. Geralmente só a consigo de forma parcial. Recolhido neste ermo faço-me acompanhar por um mundo de outros seres que compartilham comigo o mesmo espaço. Venho para este lugar para estar só mas sempre me vejo cercado de muita “gente”. Não chegam a ser um estorvo; são bichinhos de todas as espécies, formiguinhas, borboletas, libélulas, garças, bem-te-vis, patos selvagens, aranhas… Não consigo me colocar à parte; sou parte inseparável deste todo, disso tudo… Sem palavras verbalizadas, em silêncio, ainda assim ouço vozes… não compreendo o código dessa comunicação frenética mas sei que estão “conversando”; do que falam?

Platão dizia que a filosofia começa com a admiração, Aristóteles, por sua vez, sustentava com que é com o espanto. Não vejo razão para bifurcar essa estrada. Tanto me admiro como me espanto diante do quadro que envolve a minha solidão improvável neste canto de jardim onde regularmente me refugio, num exercício de fuga e confronto de mim e para comigo. A cena bucólica transmite uma beleza pacífica, harmônica, mas a amostragem desse Éden não resiste por muito tempo aos olhos da observação do homem embasbacado que torno-me nesses momentos de contemplação. Enquanto removia com movimentos gentis ou um sopro pequenas formigas que , curiosas, subiam por minhas pernas e braços, observei com espanto uma cena predatória das mais chocantes.

Uma aranha grande explorava uma parte da minha perna; ao invés de enxotá-la fiquei por um pouco observando maravilhado o movimento grácil das suas muitas perninhas; logo em seguida notei que outra aranha menor, desavisadamente se dirigia rumo à grande. A grande a percebeu e lentamente foi ao seu encontro. Eu observava curioso para ver o que se passaria em seguida. Certamente, pensei, vamos ter uma saudação amistosa como aquelas que acontecem entre as formigas… Engano. Não imaginava que estava diante de uma caçada. A aranha grande aproximou-se da pequena e… devorou-a diante dos meus olhos assustados. Um entomologista teria esperado pelo desfecho desse encontro trágico sem qualquer surpresa, mas o leigo… ao leigo resta o choque, a perplexidade, subprodutos da ignorância.

Essa tragicidade, porém, é relativa. O elemento trágico só poderia existir na leitura daquele que foi devorado; como não podia entrevistar a presa, uma vez que a mesma já não podia fornecer qualquer impressão sobre o evento, restava apenas ouvir a opinião da predadora. Esta certamente daria uma versão absolutamente animada do acontecido; desceria aos detalhes, e em minúcias descreveria o prazer extraído da sensação de sucesso alcançado em sua caçada. Eu que sou filho de um caçador, lembro-me bem das histórias e estórias ouvidas ao redor da fogueira em uma infância distante, quando meu pai e seus amigos relatavam com imensa satisfação suas caçadas bem sucedidas.

A natureza é bela, mas pode ser tanto pacífica quanto violenta, tanto inspiradora como chocante… Lições preciosas tomadas aqui neste seminário fantástico de um homem só revelam que há algo de muito errado neste mundo… A cena que acabara de assistir levou-me a questionamentos que não estavam na pauta do meu banho de sol à beira do lago. Aquilo que deveria ser um exercício de meditação suave, transformou-se num turbilhão feroz de pensamentos. Pude, enfim, aprender algo. Enquanto apenas contemplava a natureza ao meu redor, experimentava uma sensação de unidade com o Criador. Concluí que a observação contemplativa da natureza conduz à teologia; já a olhar investigativo leva à filosofia. Quando a observação investigativa parte para uma abordagem descritiva faz-se a ciência. Destas três tenho uma quedinha especial pela filosofia, pois de todas é a única que ri de si mesma. Os próprios filósofos definem do seguinte modo o seu nobre labor: “Filosofia é a ciência sem a qual ou com a qual o mundo seria tal e qual.”  Não é mesmo engraçado?!