A Capital do Mundo?

A capital do mundo?

Por Luiz Leite

Depois de quase um mês aqui em Nova York finalmente um dia de sol e temperatura agradável me proporcionaram a oportunidade de sair para caminhar pela cidade que, segundo alguns, é a capital do mundo. É lógico que a designação é exageradamemte bairrista. Atingem o cúmulo do exagero mesmo é quando dizem que a cidade é centro do universo! Etnocêntricos como são, alguns americanos crêem de fato que são o que há de melhor no planeta, ou quiçá, na galáxia!

Essa empáfia americana tem gerado muito desconforto e antipatia entre os outros povos da terra. Não é para menos. Quando um governante americano em visita ao Brasil, deseja “saúde ao povo da Bolívia”, ou refere-se à capital do gigante Pindorama como “Buenos Aires”, ânimos se exaltam e Tupiniquins ofendidos concluem que os vizinhos do norte não são apenas esnobes, são também burros!

Aí começa um grande erro de juízo de valor. Ninguém pode ser considerado filho de um “asno” (insulto ao nobre jumento, que segundo Luiz Gonzaga, citando Padre Vieira, ilustre pregador do sec. XVI, é nosso irmão), por não saber geografia! A pergunta que não quer calar é: “Como um país de burros consegue dominar o mundo?” Se são burros os que dominam, o que dizer dos dominados? Perambulando por Wall Street, olhando a fachada da bolsa de NY, não foi possível evitar o pensamento de que, daqui desse pequeno quarteirão da ilha de Manhattan, se estabelecem os rumos do movimento gráfico de todos os mercados do mundo!

Seriam burros os americanos? I don’t think so. Creio que burros mesmo são os xenófobos, não importando onde estejam radicados. Burrice extrema é desprezar um povo, qualquer que seja, e desconsiderar a cultura que o distingue. Não existe tal coisa como cultura melhor ou pior, existem simplesmente povos diferentes. Estereótipos, bem como toda sorte de preconceitos, sempre expressam um equívoco perigoso e uma pobreza fundamental em termos culturais e intelectuais.

Facilmente verificável é o fato de que NY e os EUA como um todo, é um verdadeiro caldeirão cultural. A passeio ou a serviço, encontram-se nesse entroncamento todos os povos da terra. Qualquer observador que aprecia línguas, em qualquer esquina da cidade, seja em um restaurante, cafe, ônibus ou metrô, fica com a impressão que o mundo veio parar aqui. Enfim, NY tem seus encantos, como tem Katmandu, Deli, Maputo… Quanto aos críticos dos EUA (exceto aqueles que tem bases ideológicas mais consistentes para sua crítica) talvez seja o caso que a implicação dos tais não passe de um mero caso de inveja.

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O Lado Insuspeito da Tragédia

O lado insuspeito da tragédia
Por Luiz Leite

Os grandes desastres, naturais ou provocados, obedecem um roteiro semelhante, a princípio chocam, depois despertam. É impossível não experimentar o sentimento assimétrico e desconcertante da perplexidade diante de cenas catastróficas. Fica-se por um tempo “fora do ar”, sob o impacto do evento. O despertar vem em seguida. Exposta a nossa vulnerabilidade, sentimo-nos frágeis e até miseráveis quando invadem o recesso de nossas casas e revolvem nossa ordem doméstica, violando nossa privacidade.

Catástrofes como esta ocorrida aqui nos EUA por ocasião da passagem do furacão Sandy revelam muito; Trazendo confusão e também aprendizado, abrem uma pausa forçada para um mundo de reflexões acerca da condição humana. Púlpitos de milhares de igrejas ao redor do planeta, bem como tribunas parlamentares, folhetins jornalísticos eletrônicos e mídia impressa, foruns escolares e uma série de outros meios como este blogue, voltaram sua atenção para a tempestade e sua fúria.

Em todos os comentários há de se encontrar referência a um sentimento de impotência comum a todos; alguns, convencidos de uma suposta intimidade com o Divino e seus designios não hesitam em afirmar que tal catástrofe foi mais um “wake up call” da parte de Deus; Outros, zangados contra os céus, questionam por que Deus permite desgraças como essas. Será que Deus se utiliza de eventos desta natureza para nos forçar a refletir? Alguns dizem que de outro modo não o ouviríamos… Muito embora não aceite a visão de um Deus assim tão mal humorado, suspeito que nossa arrogância não seria quebrada de outra maneira.

O fato é que o lado insuspeito da tragédia se revela de modo eloquente em todos os eventos dessa monta. De repente tornamo-mos mais sensíveis, solidários, bondosos, pacientes… O que observei em Staten island, NY, nesses dias de caos, foi uma coisa linda de se ver. Como a flor de lótus no meio do lodo, podia-se perceber uma atmosfera de rara beleza em meio ao caos. Como se num passe de mágica, estávamos todos envolvidos por uma nuvem de nobreza, tomados de generosidade e compaixão… Eu particularmente trabalhei duríssimo aquele dia!

Compreendi que a tragédia nivela os homens, resgata a sensibilidade, fomenta a unidade e depura o espírito. Em momentos como esses esquecemos nossas diferenças. Quando o temporal se abate sobre nós e abala nossas vidas, ficamos à mercê de forças que estão inteiramente além do nosso poder de manipulação. A nação mais poderosa da terra dobrou-se à força dos ventos. Não há lugar para discurso ufanista de superioridade em momentos assim. Não há classes sociais, raça, sexo, nacionalidade, grau de instrução… A tragédia paradoxalmente revela o melhor de nós, resgata a nossa humanidade. Surpreendidos pelo imponderavel, foge-nos o orgulho de ter, o deslumbramento de “ser”, desvanecem a ostentação, a empáfia, a pose… Ficamos quebrantados, profundamente sensibilizados com a dor e a perda do outro, e melhor, surge uma imensa vontade de fazer algo! Eis o lado insuspeito da tragédia!