O Brasil que decola

O Brasil que decola

Por Luiz Leite

Muitas vezes me vi constrangido ao ver como a mídia internacional reportava o Brasil para o resto do mundo. Em várias ocasiões me encontrei absolutamente constrangido tentando responder à perguntas embaraçosas acerca dos nossos muitos problemas sociais… Ter o Brasil identificado com Ronaldô e Kaká, crianças de rua, samba e mulheres voluptuosas me causa um tédio quase mortal.

Dia desses, sacolejando num trem no interior da Índia, julgando-me o único cara pálida entre os morenos indianos, fui surpreendido por um espanhol da Catalunha que me abordou falando português, certamente por ter me bisbilhotado enquanto absorto escrevia em meu diário as impressões do último dia. Não condenei o espanhol. Jornalismo e curiosidade é mesmo uma combinação necessária. Certamente mencionará algo de nossa conversa em um de seus artigos. Aqui faço o mesmo.

O espanhol, jornalista de profissão, estava, como eu, a caminho do Paquistão;  ele correspondente do jornal para o qual trabalha, eu pastor em viagem missionária. Depois de algum tempo de conversa animada sobre política e economia, o assunto  da religião tomou importante lugar na pauta. Ateu, questionou com argumentos ora razoáveis, ora pífios, os postulados da fé cristã; Viu-se em alguns momentos desarmado em sua intelectualidade, acabou cedendo aqui e ali e aos poucos, por falta de conhecimento teológico, viu-se obrigado a calar e ouvir as razões da fé.

Passadas algumas horas tirou de entre as coisas um exemplar da THE ECONOMIST, conceituada publicação semanal britânica e, com mais conhecimento de causa, uma vez que é comentarista de economia e política, começou a falar da matéria imensa (de 14 páginas) acerca do Brasil, publicada pela revista. Ainda que esboçando certa desconfiança com respeito aos números impressionantes da economia brasileira, reconheceu que estamos nos levantando de forma surpreendente.

Pela primeira vez nestas conversas de estrada e aeroporto fora do Brasil, ouvi comentários cuidadosos e uma expressão de respeito diante do país que há muito apresentava vocação para grandeza, mas que que pateticamente até a pouco continuava tão minúsculo como os biquinis das garotas em suas milhares de Ipanemas espalhadas generosamente por sua costa infindável.

O Brasil mudou. E muito. Ainda que a oposição torça o nariz e desconverse, ainda que acuse os indicadores sociais como forjados, manobra populista e eleitoreira, ainda que desmereça o governo atual dando ao governo anterior os créditos pelas conquistas que temos colhido, o fato é que o Brasil de hoje é um país melhor, mais sólido, mais firme…

Ver o Brasil na capa da THE ECONOMIST e ler a imensa matéria louvando as conquistas de um país que há pouco tempo atrás estava chafurdado numa dívida externa enorme, olhado com desprezo por muitos como uma imensa república de bananas é realmente motivo para se orgulhar, mas que ninguém se engane, temos ainda muitas questões sérias a serem tratadas.

A capa da THE ECONOMIST chamou a atenção pela criatividade. O lúdico inteligente faz rir, mas ao mesmo tempo envia uma mensagem bastante grave. Os países cristãos que experimentaram a prosperidade acabaram ejetando o Cristo vivo do cenário e, deslumbrados pelas riquezas, elegeram a Mamon por deus. Espero e oro que em nosso caso, apenas a ignorância da idolatria seja ejetada.

Lahore, Paquistão, novembro de 2009

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Emil Brunner e Marcha pra Jesus

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Marcha para Jesus e Emil Brunner

Por Luiz Leite

Texto publicado pela Revista Eclésia (coluna Pastoral), edição de Dezembro 2009

Muitos acham que a parada gay é uma manifestação acintosa. Os evangélicos, particularmente, consideraram uma provocação o fato de que a tal parada tenha acontecido exatamente no mesmo dia em que se realizou a Marcha para Jesus.

Fernando de Barros e Silva, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, escrevendo sobre o evento que anualmente mobiliza milhões de religiosos na capital paulista disse que, “há um ar de família entre a marcha dos evangélicos e a marcha política”, fazendo clara referência ao senador e bispo Marcelo Crivela, bem como a um deputado do baixo clero, e também pastor, presentes no evento em demonstração de apoio ao casal Hernandes, líderes de uma grande igreja e recentemente envolvidos em vários episódios constrangedores.

Muito embora a parada gay tenha tido apoio e participação de políticos de peso como o governador do estado Sergio Cabral e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes, não se fez nenhuma crítica mais séria à presença dos figurões da política carioca salvo uma piadinha aqui e ali. Uma parcela paranóica poderia interpretar o artigo como perseguição aos evangélicos. Prefiro crer que não seja.

O articulista da Folha apontando para o conluio de pastores e políticos e pastores políticos, conclui seu artigo com uma precisa e dorida estocada: “Diante da coalizão entre Jesus e Judas, querer legalidade hoje no país parece até coisa do Diabo.” Eu que já estava com dificuldade para dormir, num vôo da Air France para Paris, fazendo o mesmo trajeto do vôo que caiu no Atlântico dias atrás, perdi o sono de vez.

É lógico que a construção de Fernando de Barros e Silva, da maneira colocada, tem a intenção óbvia de provocar. Entende-se, todavia, que não é apenas uma provocação gratuita. A referência a Jesus e Judas, trata do relacionamento entre a igreja e a política. Uma modalidade de relação espúria, não oficial, escondida; ainda que se suspeite que naquele mato tenha coelho, as partes envolvidas não confirmam nem negam. Sem compromisso de “papel passado”, o relacionamento prossegue enquanto houver interesse para as partes. Mundano como qualquer outro contrato de “gaveta”.

Não sei se ficam claras para voce as dimensões da tragédia, mas quando o autor do texto desiste das aspirações por legalidade, causa uma impressão não apenas de desencanto, mas também de desespero; Não se pode desejar legalidade num país onde aqueles que deveriam ser os guardiões do estado de direito conduzem as coisas de maneira torta. Em sua análise perde-se a esperança de legalidade, de decência, quando pastores fazem do púlpito seu palanque e dos fieis seu eleitorado, e pior, utilizam-se das massas e de sua fé ingênua para realizar suas manobras.

Há alguns anos eu propus aos meus amigos uma campanha cujo lema era: “Salve o seu pastor. Não vote nele!” Talvez seja esta a hora de ativá-la. Ninguém deveria fornecer munição para que a igreja fosse assim atacada, muito menos os sacerdotes! Não seremos poupados nem mesmo andando no direito, quanto mais errando para alem de suas fronteiras.

Emil Brunner, um dos grandes teólogos do século XX ao lado de Karl Barth, disse em sua Teologia da Crise: “A humanidade tem sempre diante de si uma dupla tarefa: Esquadrinhar o conteúdo e esquadrinhar as expressões de sua fé.”

A marcha para Jesus é, seguramente, uma forma de expressão da fé de milhões de cristãos evangélicos. Como disse Brunner, esta expressão de fé precisa ser esquadrinhada. Antes, entretanto, de esquadrinharmos a expressão da fé, deveríamos esquadrinhar seu conteúdo, pois é o conteúdo que transforma, modela e dá as medidas da expressão pública da fé.

O problema é que ninguém quer esquadrinhar nada. Este trabalhoso e enfadonho exercício de reflexão é por demais pesado; Deixem-no para os pensadores, resmungam os praticantes da religião irrefletida. As massas querem apenas uma fé sentida. Ficam, por causa dessa superficialidade, a mercê daqueles que, especialistas em identificar e manipular anseios conduzem-nas em uma experiência religiosa questionável e pior, absurdamente rasa.

Pois se não refletirmos e esquadrinharmos o conteúdo e expressões da nossa fé, ficaremos encalhados nos bancos de areia de uma religiosidade desinformada e que inevitavelmente poderá vir a ficar deformada também. É preciso sim, como disse Emil Brunner, esquadrinhar nossa fé, ainda que este exercício possa trazer respostas que não desejamos ouvir.

Antes de Brunner, o apostolo Paulo nos chama a esse exercício de reflexão quando escreve aos Coríntios, uma igreja tristemente marcada por muitos escândalos e desvios de percepção doutrinária. Diz o apostolo: “Se julgássemos a nós mesmos, não seriamos julgados” (I Co 11.31). A orientação do apóstolo Pedro, por sua vez, chama a atenção para uma vida cristã refletida quando insta que “pela prática do bem” façamos “emudecer a ignorância dos insensatos”.

Os insensatos dizem em seu coração que não há Deus. Se aqueles que sustentam o testemunho de Deus continuarem municiando os incréus com uma postura carregada de poses suspeitas, veremos frustrado o esforço daqueles que labutam de sol a sol nessa seara imensa. Esse exercício de exame da fé em seu conteúdo e expressão poderá sem dúvida nos poupar de muito vexame, nos ajudando a evitar não só o mal, como até mesmo sua própria aparência.

Religião e Ética

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Religião e Ética

Por Luiz Leite

Texto publicado pela revista Eclésia, edição de Outubro 2009


Religião e ética deveriam caminhar juntas como “unha e carne”, inseparáveis, pois o discurso desta utiliza-se dos postulados daquela, numa espécie de apelo à consciência dos homens a que se comportem de maneira ideal. O termo “ética,” em sua base etimológica, partindo do grego ethos, significa costume, hábito, ou ainda, uso, regra. Não foram, todavia, os gregos que inventaram a ética. Todas as civilizações têm um código ético que compila as regras de conduta pelas quais seus membros devem se orientar.

Muito embora a ética tenha suas origens mais remotas na própria religião, há uma forma de relativismo que afirma que a ética não é um ramo da teologia, e que não existe necessariamente tal coisa como conduta ideal que se aplique a todos. Para esta escola, “dois pesos e duas medidas” é uma idéia perfeitamente aceitável. Quando tratamos do relativismo na ética, pensamos, em termos práticos, nos liberais, e mais, nos libertinos. Repreensíveis? Talvez nem tanto quanto o rigorismo ético religioso que, com suas normas estreitas, tantas vezes descamba para uma práxis que destoa escandalosamente do próprio discurso despachado com veemência dos seus púlpitos.

Reza o ditado popular que “o hábito faz o monge.” Os paramentos revestem o homem de uma misteriosa aura de poder, e este exerce sobre os outros certa respeitabilidade que tende a colocar-se acima de qualquer suspeita. As vestes e títulos proporcionam oportunidades sedutoras ao homem de religião. Ao vadiar por este terreno perigoso, muitos têm sucumbido nas lamas fétidas de charcos terríveis, tendo suas almas aprisionadas em cadeias inescapáveis.

A religião sempre envolveu negócios. São negócios do “outro mundo”. Desde tempos imemoriais sacerdotes mancomunados com reis dividiram entre si o espólio das almas. A instituição religiosa, seja igreja, mesquita ou sinagoga, sempre flertou com o Estado. Poder religioso e político operam de forma simbiótica através da história das sociedades. Esta é um lição básica em qualquer curso de sociologia. O sacrobusiness pode até ser aqui apenas como neologismo, o conceito, entretanto, é mais velho do que a Serra da Mantiqueira.

Foi veiculado de forma ostensiva há alguns dias a estratégia utilizada por uma grande organização religiosa para movimentar as cifras bilionárias advindas das contribuições dos seus fiéis. As transações evidenciam, segundo investigação do Ministério Público, as maquinações de uma organização criminosa, e não de uma instituição religiosa, isto porque uma organização que sustenta um discurso com as matizes pesadas da retidão deveria, supostamente, ter suas contas tão transparentes quanto sugere o sermão.

Vivemos um tempo de crise em todas as instâncias. Um taxista amigo meu dia desses me falava da máfia que controla o seu segmento em Belo Horizonte. Tudo devidamente amparado pelos homens de títulos e togas, naturalmente. Sem a canetada dos tais, aprendi com meu amigo taxista, a coreografia complexa da corrupção não seria o espetáculo que é! Muito se tem falado da crise mundial que precipitou o mundo inteiro num pesadelo de medo e incertezas, como se tal coisa fosse uma novidade histórica. Pois o mundo não está em crise. Sempre esteve. A crise não é de agora. Iniciou-se no Éden, há muito, muito tempo atrás. Foi lá que os vermes começaram a decompor a ética que hoje, mais que nunca, carcomida e combalida, cambaleia, com passos trôpegos, escondendo sob a indumentária vistosa as carnes roídas pelos gusanos.

Que ninguém se iluda com o discurso sempre eleitoreiro daqueles que estão no poder e que anunciam que já estamos saindo da crise, expressando o desejo óbvio de administrar a situação em proveito próprio e permanecer ali, de preferência para sempre. Estamos chafurdados numa crise que tem precedentes imemoriais. Não foi precipitada pela ganância desmesurada e o apetite adoecido do sistema financeiro americano ou europeu. Vem, desde há muito, se alastrando como lepra por todos os quadrantes da vida social. Há cerca de três milênios atrás ouviu-se um grito lancinante ante a corrupção generalizada que ia apodrecendo as bases da sociedade judaica. O salmista angustiado exclamou: “Socorro, SENHOR! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens.” (Sl 12.1)

Já não há esperança; já não dispomos de recursos para debelar a sanha da malignidade que se instalou e se espalhou pelo coração humano como metástase. Não, não sou um existencialista pessimista movido pelo desencanto. Tenho, contudo, que discordar de Leibniz que, não sei exatamente em que mundo vivia, afirmou que vivemos no “melhor dos mundos.” Talvez romântico demais, talvez tomado por uma paixão arrebatadora, disse a frase tão frequentemente contestada na história do pensamento. Não podia estar no melhor do seu juízo.

Mentiras, mentiras, mentiras nos palácios de Brasília, nos púlpitos das catedrais, nos auditórios dos hipnotizadores profissionais que entretêm e narcotizam as massas ignaras, que providenciam “pão e circo” para tornar a vida da plebe mais sentida e menos refletida. Resta o pasmo do salmista acima mencionado que, diante da crise nos seus dias pergunta alarmado: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? (Sl 11.3) Parece que os justos pouco ou nada poderão fazer, mas as rédeas da história estão nas mãos Daquele que se assenta no trono cujas bases são justiça e verdade. Ainda que pareça que tudo esteja perdido, a verdade ainda está de pé. Lembro-me das palavras de G. K. Chesterton: “Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue em pé.”

O Senhor da história não está indiferente ao quadro de acinte e insulto à ética. O poeta sagrado parece ter chegado à mesma conclusão ao escrever: O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens. O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. (Sl 11.4-6)

Cabeças vão rolar!